15 de julho de 2014

Memórias da resistência e da liberdade


Acaba de ser lançado o livro Guimarães Daqui houve resistência, coordenado por César Machado, desenhado por Alexandra Xavier e ilustrado por Nuno Vieira. A edição é do Cineclube de Guimarães, com apoio da Câmara Municipal de Guimarães. O lançamento aconteceu no dia 11 de Julho, no Salão Nobre da ACIG. Como objecto, este livro é do melhor que tem sido feito por aí. Quanto ao conteúdo, composto por um conjunto de 25 longos depoimentos recolhidos e tratados pelo organizador, é surpreendente.

Quando César Machado me falou deste projecto pela primeira vez, há exactamente um ano, foi no final da apresentação o livro de Jerónimo Silva com memórias pessoais e alheias da antiga Escola do Godinho ou das dominicas, estava longe de antecipar o seu resultado final.
Na altura, tinha-se falado acerca da importância das memórias dos indivíduos enquanto componentes da memória colectiva e da falta de tradição memorialista em Guimarães, provavelmente a terra portuguesa onde se publicam mais livros de história local. Trata-se de uma reflexão que, há muito, venho fazendo com os meus botões e com os meus remorsos, que ressurgem sempre que desaparece do meio de nós alguém de quem seria fundamental recolher e preservar o testemunho da sua passagem pelo breve tempo de uma vida.
A memória histórica é produzida a partir de fontes de diferentes naturezas, que filtra, acumula, transmite e é analítica, crítica, precisa e racional. É constante, embora em permanente processo de acrescentamento e de reinterpretação. A memória colectiva, mesmo quando dirigida para acontecimentos remotos, é efémera e inconstante. Apaga, refaz e reescreve segundo o seu próprio arbítrio, em função do momento presente, da imaginação e do regresso doe reminiscências recalcadas. É mutável, em função do tempo e das circunstâncias. Ao contrário da memória histórica, não é rigorosa, é caprichosa. Ora desvenda, ora oculta. Vive em permanente processo de reciclagem.
As memórias não são retratos exactos da realidade vivida. São reconstruções singulares e pessoais formatadas pelos contextos, pelas mundividências, pelos preconceitos, pelas paixões de quem as rememora. Os mesmos factos passados, contados de memória por diferentes pessoas que os viveram ou testemunharam, não são necessariamente relatados da mesma maneira. Contadas pelos seus protagonistas, as memórias de qualquer confrontação, independentemente da sua natureza (uma escaramuça, uma batalha, uma guerra, um golpe de Estado ou uma revolução), são diferentes consoante o lado da barricada em que estiveram aqueles que as contam.
Em suma: um livro de memórias não é um livro de história, porque a história não se escreve exclusivamente a partir de um agregado de memórias individuais. Socorre-se de muitas outras fontes, de diferentes naturezas.
Guimarães Daqui houve resistência é um livro de memórias, onde estão inscritas  as memórias dos dias de hoje de um tempo que já já distante. Será também, um valioso documento histórico, fundamental para a compreensão da resistência ao fascismo e da construção da democracia em Portugal, que nos diz tanto sobre as experiências vividas pelos narradores como sobre o modo como vêem hoje aquilo que viveram há quatro, cinco ou mais décadas.
O que fica dito serve de prevenção para quem, a páginas tantas deste livro, como o autor destas linhas, acabará por dizer, em relação a este ou àquele facto: isto não foi assim. O que está neste livro são as memórias pessoais e intransmissíveis de quem as relata. Estas são as suas histórias. Fossem outros os narradores, outras seriam as histórias.

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Guimarães Daqui houve resistência passará, seguramente, a ser uma obra de referência para o estudo da história da resistência à ditadura e da construção da democracia em Portugal. Reúne vinte e cinco testemunhos de pessoas que, cada um a seu modo, lutaram pela liberdade e pela democracia, e que, cada uma à sua maneira, estão ligadas a Guimarães. No entanto, estes testemunhos não se encerram dentro dos velhos muros desta velha cidade. Aqui temos Guimarães, a região, o país, a Europa.
O seu conteúdo está resumido na nuvem de palavras que vai aí abaixo que reúne as 150 palavras com entoação política com mais ocorrências ao longo do o texto, inscritas em dimensões proporcionais ao número de vezes que foram escritas:
Esmiuçar este gráfico pode ser um exercício muito interessante. Pelo que lá está, mas também pelo que lá falta. Estão lá expressões óbvias, como Guimarães, 25 e Abril. Além de Guimarães, Coimbra, Porto, Braga, Lisboa, Fafe, Famalicão e Paris. Entre as personalidades, Santos Simões aparece claramente destacado (118 ocorrências), seguido por Zeca Afonso (107), Humberto Delgado (44), Álvaro Cunhal (41), Eduardo Ribeiro (38), Adriano Correia de Oliveira (32). Mário Soares (29 referências), já não aparece na nuvem. Das organizações políticas, o PCP é o que tem mais referências (227), seguido à distância pelo MRPP, (138), pela LUAR (69) e pela OCMLP (31). No entanto, o fascismo não está lá, o que é revelador do modo como o tempo tem um efeito amaciador sobre  as palavras.

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Os 25 testemunhos de Guimarães Daqui houve resistência atravessam o século XX desde a década de 1930. São histórias contadas na primeira pessoa onde se fala da resistência, das perseguições, da prisão, da tortura e do quotidiano dos dias de chumbo da ditadura fascista, da guerra e da emigração forçada. Mas também da alegria daquele amanhecer claro em Abril e da construção da democracia. São histórias de vida de um tempo em que Portugal era um paradoxo acantonado no extremo ocidental da Europa.

Eduardo Ribeiro (1926), uma das principais referências dos democratas de Braga, companheiro de todos os dias e de todas as lutas J. Santos Simões.

Padre Avelino Cardoso (1932), pároco de Ronfe, mentor do Movimento Operário Católico.

João Ribeiro (1934), sindicalista e militante político, principal figura da lista operária que ganhou as eleições do Sindicato Têxtil do Distrito de Braga, um dos grandes marcos da resistência em Guimarães.

Manuel Teixeira Júnior (1938), ourives, resistente clandestino, que conheceu as prisões políticas e a emigração.

Lurdes Mesquita, a Lurdinhas de Urgezes (1939), católica progressista e sindicalista.

Luís Caldas (1939), livreiro, responsável pela antiga Livraria Raul Brandão, ligada à oposição democrática.

José Casimiro Ribeiro (1940),desertor, emigrante clandestino em França, onde viveu o Maio de 68, militante da LUAR que estava preso em Caxias no dia 25 de Abril de 1974.

Rui Guimarães (1943), militar, Capitão de Abril.

António Mota Prego (1944), advogado, passou por Coimbra e pela Guerra Colonial na Guiné, responsável pela instalação do PS em Guimarães.

Alberto Martins (1945), advogado e actualmente deputado, presidiu à Associação Académica de Coimbra durante a crise de 1969.

António Vieira Mendes Henriques (1946), emigrante clandestino.

Nuno Padrão (1947), militar em Abril.

Tino Flores (1947), cantor, refractário, emigrante clandestino, militante político .

Fernando Ribeiro, o Ribeiro da Batoca (1947), dos Trofas (família de oposicionistas de Fafe), foi funcionário político do PCP durante o Verão Quente, ligado à experiência autogestionária da Fogo Posto.

Jaime Silva (1947), pintor, professor na Escola João de Meira em 1974, responsável por murais pintados por crianças.

José Machado (1948), desertor, emigrante clandestino, militante político, amigo de Emídio Guerreiro, ligado ao movimento associativa dos emigrantes.

Firmino Mendes (1949), militar até 24 de Abril de 1974, testemunha do 16 de Março.

Manuela Juncal (1949), militante política, no 25 vivia na clandestina em Brito.

Jorge Nascimento (1950), militar em Abril.

Jaime Marques (1952), um dos responsáveis pela viragem de 1973 no Sindicato Têxtil, militar em Abril.

Agostinho Araújo (1952), militar em Abril, tendo integrado a coluna do Capitão Salgueiro Maia.

Luís Mário (1952), militar em Abril.

Amadeu Santos (1953), militante político, iniciou o serviço militar no dia 24 de Abril de 1974.

António Cruz Mendes (1953), estudante em Coimbra em 1974, militante político.

Isabel Santos Simões (1961), filha de de Joaquim António Santos Simões e de Maria Açucena Neves Simões.

Estas vidas davam muitos filmes.

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Ao publicar este livro, o Cineclube de Guimarães dá (mais) um importante contributo o resgate da nossa memória colectiva e um exemplo da capacidade de iniciativa, da produtividade e da criatividade dos obreiros das associações vimaranenses. Esta edição é uma obra feita com grande profissionalismo e competência por amadores, aqueles que fazem por amor e que são gratificados com a singela alegria da obra feita.

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