30 de junho de 2013

Efeméride do dia: A Rainha de Portugal

Lápide de consagração da Imaculada Conceição, afixada no antigo edifício dos Paços do Concelho.
30 de Junho de 1654
Carta de El-rei D. João IV ordenando à Câmara mande pôr nas portas e lugares mais públicos da vila inscrições lapidares declarando a Santíssima Virgem Imaculada por padroeira do reino. Ainda existem : uma colocada desde esta data num cunhal da frente da Câmara; outra, que era da Porta da Vila, está guardada na igreja de S. Miguel do Castelo, e outra, que foi da porta e torre de S. Bento, existe no quintal da Casa dos Laranjais.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 315)

Ainda em no tempo da Guerra da Restauração, nas Cortes Gerais de 1646, D. João IV consagrou o reino de Portugal à imaculada Conceição de Maria. Junto de uma imagem daaSenhora da Conceição, depositou a sua coroa de rei, proclamando-a como a verdadeira rainha de Portugal.
D. João IV, mandaria colocar nas portas das cidades e das vilas de Portugal e suas colónias uma lápide com uma inscrição comemorativa, fazendo seguir uma carta onde mandava executar essa sua disposição. Foi enviada de Alcântara, com data de 30 de Junho de 1654. A que chegou a Guimarães, vinha dirigida ao juiz, aos vereadores e e aos procuradores da Câmara da vila, e dizia:
Eu El-Rei vos envio muito saudar, para que seja mais notório a obrigação, que eu, e todos os meus vassalos têm de defender, que a Virgem Senhora nossa foi concebida sem pecado original, houve por Bem Resolver que em todas as partes, e entradas das Cidades, Vilas e Lugares de meus Reinos, se ponha em uma pedra lavrada a inscrição, de que será a cópia com esta carta, encomendo-vfos que a façais pôr nas portas e lugares dessa Vila, e me aviseis de como o tendes executado.
Assim se fez. No dia 9 de Dezembro, de Guimarães seguiu carta para o rei, em que a Câmara comunicava que havia cumprido  determinação régia de 30 de Junho, colocando, nas portas e e noutros lugares da vila, pedras lavradas com inscrição de consagração do reino e de Guimarães à Imaculada Conceição, tomando-a por padroeira. A inscrição é a seguinte:

ÆRNIT. SACR. IMMA-
CVLATISSIMÆ CONCEPTI-
ONI MARIÆ IOAN. IV. POR-
TVGALL. REX. VNA CVM
GNERAL. COMITIIS SE ET
REGNA SVA SVB ANNVO
CENSV TRIBVTARIA PVBL-
ICE VOVIT. ATQVE DEIPAR-
AM IN IMPERII TVTELARE-
M ELECTAM A LABE LORI-
GINALI PRÆSERVATᾹ PERP-
ETVO DEFENSVRV. IVRAME-
NTO FIRMAVIT. VIVERET VT
PIETAS LVSITAN. HOC VIVO L-
APIDE MEMORIALE PERENNE
EXARARI IVSSIT. ANN. CHRIST-
I MDC. XL. VI. IMPERII SVI. VI.

ANNO 1654
Ou seja:

Para perpétua memória, D. João IV, rei de Portugal, juntamente com as Certes Gerais, se consagrou, a si e aos seus reinos, publicamente, à Imaculadíssima Conceição de Maria, com o tributo anual de um censo. E com juramento firmou que defenderia sempre que a Mãe de Deus, eleita Padroeira do Império, fora preservada da culpa original. Para que a piedade dos portugueses perenemente constasse, mandou gravar em pedra esta memória no ano de Cristo de 1646, sexto do seu reinado. ANO 1654.

No final do século XIX, em Guimarães conheciam-se três exemplares desta lápide, uma na Praça da Oliveira, no cunhal que fica do lado direito da frontaria dos antigos Paços do Concelho, outra guardada na Capela de S. Miguel do Castelo e a terceira na Casa dos Laranjais. Ao escrever sobre este assunto, Albano Belino deu conta do seu espanto, por em Braga não haver memória de inscrições idênticas ás que encontrara em Guimarães:
É notável que não se encontre em Braga, a Roma portuguesa, uma única destas inscrições. É realmente notável!
Albano Belino, Archeologia christã, Empreza da historia de Portugal, Lisboa, 1900, p. 48

Com a proclamação da Imaculada Conceição como rainha de Portugal, começou em Portugal uma tradição única nas cortes europeias. O rei deixou de usar a coroa, tendo a cerimónia da coroação sido substituída pela da Aclamação, em que a coroa era colocada, não na cabeça, mas numa almofada colocada ao seu lado do rei.

Retrato de D. João VI, com a coroa pousada a seu lado.
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29 de junho de 2013

Efeméride do dia: Primeira eleição de João Franco

João Franco castelo Branco (1855-1929)

29 de Junho de 1884
Eleições constituintes no país, sendo eleito pelo círculo de Guimarães o imposto deputado regenerador João Franco Ferreira Pinto Castelo Branco por 3261 votos, e mais teria se os periódicos locais da mesma cor política não reclamassem ao povo que elegesse um vimaranense (havia descontentamento geral porque os últimos deputados, também impostos, foram nulidades que nem a Guimarães vieram), indicando-lhe o dr. Alberto Sampaio, o grande e incansável trabalhador que conseguira a realização da brilhante 1.ª Exposição Industrial, o qual teve 190 votos, Tomás Bastos, progressista, 1334, Sena Freitas 98, Alves Mateus 66, José Guilherme 658, Mariano de Carvalho 4, Alves da Veiga, republicano 2, Miguel Augusto Pacheco 2, Costa Simões 1, D. José de Saldanha 230, Alberto de Campos Henriques 1, listas inutilizadas 10. Só o Alberto Sampaio era vimaranense, os outros eram de cascos de rolha que andavam a pescar nas águas turvas. Foi a 1.ª vez que Guimarães elegeu o João Franco.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 312 v.)

No dia 24 de Maio de 1884 foram dissolvidas as Cortes, marcando-se eleições de deputados para o dia 29 de Junho. Logo em Guimarães se começaram a levantar vozes contra a imposição de candidatos estranhos à terra, como vinha acontecendo, fazendo com que os vimaranenses não se sentissem representados pelo deputado que elegiam. O jornal O Comércio de Guimarães foi o principal porta-voz destas preocupações. No mesmo dia em que anunciava a data das eleições, fazia um apelo para que os vimaranenses escolhessem um deputado que os “representasse condignamente no Parlamento, argumentando:
Não precisais de ir com uma lanterna na mão procurara terras estranhas um homem para vos representar; intramuros, tendes cavalheiros ilustradíssimos, que honram pelos seus conhecimentos a independência e o berço da monarquia portuguesa.

Nas edições seguintes, repetia-se este apelo.Na edição do dia 22 de Junho, lemos:
Eleger um deputado estranho à localidade, e antipatriótico e indigno dum povo que acaba de evidenciar a sua vitalidade e o seu progredir nesse magnífico e imponente certame, que vai assinalar na história do país a renascença da indústria vimaranense.
Somos tão patriotas, tão sinceros, que não perdoaríamos a nós próprio, o silêncio, se acaso não fosse eleito um cavalheiro vimaranense.
Acima da política, das conveniênciias, de tudo, está a nossa terra, a nossa dignidade!
Eleger um deputado estranho à localidade, é desconceituar os cavalheiros,que nos podem representar em cortes e é lançar um labéu sobre o povo de Guimarães. (…)
Não nos importa que o nosso deputado seja grego ou troiano, regenerador, constituinte, progressista ou republicano; o que nos importa é que seja um filho desta terra, apto para defender os interesses da localidade que representa.
É mister que a cidade de Guimarães remova de si a tutela que lhe tem imposto em algumas candidaturas deputados estranhos.
O concelho de Guimarães tem muitos indivíduos, muitos cavalheiros dignos da nobre missão e do augusto mandato deste povo.
Não os apontamos, porque todos os conhecem.
À urna, pois, vimaranenses, por um filho de Guimarães!

Por aqueles dias, Guimarães andava nas páginas de todos os jornais nacionais. A Exposição Industrial concelhia, pela sua dimensão e pelo seu carácter pioneiro causou grande impacto, e havia uma figura que se destacava: Alberto da Cunha Sampaio, o homem que recebera da Sociedade Martins Sarmento a missão de organizar o certame. Na sua edição de 28 de Junho, a revista Ilustração Universal dedicava-lhe a primeira página, onde publicava o seu retrato e um texto onde se destacavam as suas qualidades:
Alberto Sampaio foi o pontifex magnus daquelas litanias do trabalho, e por isso a Ilustração Universal lhe dá o lugar de honra neste número, comemorando assim os serviços por ele prestados à indústria nacional nesta festa, que tanto honra o concelho de Guimarães, como os seus primorosos artistas.
No final de Junho de 1884, o nome de Alberto Sampaio começava a ser avançado como o do filho de Guimarães que os vimaranenses queriam ver como deputado.
No entanto, no dia das eleições, acabaria por prevalecer o velho sistema da imposição partidária, bem oleado pela acção dos caciques locais. O candidato do Partido Regenerador, qualquer que ele fosse, era aquele que, de longe, estava melhor posicionado para ser eleito. E os regeneradores, que em Guimarães eram comandados por Francisco Agra, impuseram um candidato que era desconhecido em Guimarães e que desconhecia a cidade, os seus problemas e os seus anseios. Tinha 29 anos, era natural de Alcaide, no Fundão e chamava-se João Franco Castelo Branco. 
No dia das eleições, que noutras terras foi marcado por violência e mais de uma dezena de mortes, em Guimarães houve sossego. A votação não trouxe qualquer surpresa. Dos 5867 votos válidos contados, João Franco obteve mais de metade (3261). Foram contados 190 boletins de voto em Alberto Sampaio. A frieza dos números parece dar razão aos que falam na ingratidão humana. O filho da terra, Alberto Sampaio, apenas obteve 3% dos votos dos seus concidadãos, que votaram esmagadoramente em candidatos de fora.
No Comércio de Guimarães do dia 2 de Julho, escrevia-se:
À última hora tocou-se a rebate nos campanários políticos, e o povinho obedeceu em rebanho.
Muitos eleitores não foram à urna; outros votaram pelo imposto regenerador, outros pelo candidato progressista, e outros prestaram na urna a última homenagem a um nosso conterrâneo, cavalheiro modestíssimo, que empregou todos os esforços para que o seu nome não entrasse em lista alguma, obtendo, apesar disso, uma votação honrosíssima, eloquente e mui significativa.
Em algumas assembleias, alguns eleitores riscavam francamente o candidato  imposto  e inscreviam o nome de Alberto Sampaio.
Era assim que os eleitores respondiam à imposição dum deputado estranho que foi eleito sem apresentação alguma.

Sobre essas eleições e os seus resultados, já muito se tem dito. Citaremos, por exemplo, o historiador Manuel Alves de Oliveira, num texto que publicou em 1984, no Boletim dos Trabalhos Históricos, alusivo à passagem do primeiro centenário da célebre exposição:
Em 29 de Junho, catorze dias depois do acto inaugural da Exposição, a que dera o melhor do seu esforço e da sua boa vontade, realizaram-se eleições constituintes, tendo sido Alberto Sampaio proposto, por um grupo dos seus amigos, deputado pelo círculo de Guimarães. Porém, e contra toda a expectativa, o que vem comprovar o carácter volúvel e impressionável das multidões sempre abertas às falsas promessas dos políticos, Alberto Sampaio só conseguiu obter 190 votos, sendo então eleito o deputado apresentado pelo Partido Regenerador, João Franco Ferreira Pinto Castelo Branco, por 3 261 votos.
No entanto, a história desta eleição é um pouco diferente da que tem sido contada. Na verdade, Alberto Sampaio nunca foi candidato a deputado e o seu nome foi introduzido nas urnas de voto por um número significativo de vimaranenses num gesto de homenagem e, ao mesmo tempo, de protesto contra a imposição, pelos principais partidos, de nomes estranhos a Guimarães.
A ideia da candidatura a deputado de Alberto Sampaio surgira numa manifestação que os operários de Guimarães tinham organizado no dia 24 de Junho, em homenagem aos organizadores da Exposição Industrial. Sampaio agradeceu a lembrança mas rejeitou terminantemente a possibilidade de se candidatar a deputado. Na véspera das eleições, juntamente com o seu irmão José, procurou os que pretendiam votar no seu nome (que nem sequer constava das listas candidatas), dissuadindo-os. Mesmo assim, 190 eleitores escreveram o nome de Alberto Sampaio no boletim que introduziram na urna.

Entretanto, ao fim de dois anos, já Guimarães percebia que o imposto João Franco era melhor do que a encomenda…
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28 de junho de 2013

Efeméride do dia: Os santos cónegos

Claustro da antiga Colegiada da Oliveira
28 de Junho de 1632
O Cabido, constando-lhe que o tesoureiro-mor Baltasar Dias de Afonseca trazia armas, o que era contra as leis da Colegiada, delibera multá-lo em 8 dias de risco, bem como em outros 8 por fazer demanda ao Cabido sem primeiro pedir licença, e em mais 60 dias “por constar que falou contra as pessoas do Cabido chamando-lhe cabrões, judeus e soltar outras palavras infames, visto ser afronta grave e o dito tesoureiro acostumado a fazê-las”.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 310)
Situações como a que levou a que o tesoureiro-mor da Colegiada da Oliveira fosse recriminado e castigado pelos seus pares do Cabido são, ao contrário do que provavelmente seria de esperar de homens religiosos e austeros, recorrentes. Cónegos que mantinha relações amorosas com mulheres solteiras, viúvas, casadas ou mesmo religiosas são recorrentes. Cónegos beberrões, que se vestem de maneira considerada imprópria, que jogam a dinheiro, que desrespeitam os interditos quaresmais, que são desbocados, que têm mulheres e filhos aparecem-nos a todo o momento nas visitações que o Prior fazia à Colegiada e nas devassas que então eram instauradas.
Aqui fica um exemplo:
Era a Colegiada de Guimarães, segundo o retrato que nos é traçado pelos seus membros na devassa promovida por D. João Lobo de Faro, D. Prior, em 1642/1643, uma comunidade onde dezanove dos seus quarenta membros, todos eles com voto de castidade, são acusados de terem relações com mulheres, dois deles com freiras e um com duas mulheres ao mesmo tempo. Catorze são indicados como tendo filhos ou mulheres prenhes. Dois deles são mesmo acusados de terem levado a que as mulheres com quem andaram amancebadas a abortarem por força de pancada.
Vejamos alguns casos, começando pelo Chantre que, segundo o meio-prebendado Cosme Fernandes “menos há de seis meses tinha uma mulher em sua casa por nome Jerónima Ferreira de quem tinha filhos o que era público nesta terra; e tratando ele testemunha com o dito Chantre lhe desse ordem devida, e a lançasse fora, ele pediu a ele testemunha lhe buscasse casa comprada, e um homem com quem a casasse que ele daria ordem para isso, o que não teve efeito, e sabe ele testemunha que ela alugou umas casas para ir morar a elas, e perguntando ele testemunha a uma pessoa da casa do dito Chantre se vivia já nas casas alugadas a dita Jerónima Ferreira, lhe disseram que não, mas que vivia com uma vizinha junto das ditas casas, mas ele testemunha não sabe aonde ela de presente está.”
Já Francisco Correia não tinha uma, mas duas concubinas. Uma delas, que se chamava Susana, a Negra, e de quem tinha filhos lhe terá dito publicamente, da sua janela: “judeu, cabrão, hei-de-te fazer prender pelo Santo Ofício por que me disseste que arrenegasse de Deus”. Chamadas testemunhas, uma delas, Gonçalo Rodrigues Corneta, vizinho da Susana na Rua de Santa Luzia, disse que não tinha ouvido tais palavras, apenas que a ouvira algumas vezes chamar cão ao cónego.
Caso ainda mais complicado parecia ser o de Baltasar Soares, coreiro, de quem era público e notório dizer-se que, como contou Tomás Bocarro, “tinha uma mulher com quem andava amancebado, e que andando algumas vezes prenhe lhe dava muitas pancadas das quais dizem a fizera mover [abortar]”.
Mas o rol dos pecadilhos dos cónegos era mais vasto, a crer nas denúncias feitas pelos próprios, mutuamente. Assim, três deles são referenciados como sendo jogadores inveterados de jogos de fortuna e azar. Aliás, segundo o depoimento de Baltasar Soares, haveria mesmo o costume de se fazerem merendas e jogos na sacristia da Colegiada, especialmente no Verão. Alguns, são acusados de andarem descompostos, mudando os trajos, especialmente de noite, em que andavam de curto, por vezes com armas e embuçados, armando arruaças.
Outros comportavam-se com indecência no coro, falando de uma ala para a outra e fazendo acenos, nomeadamente a moças; e falavam muitas torpezas que não são para escrever, como as que terão sido proferidas, no dizer de Gaspar da Fonseca, pelo cónego Gonçalo de Freitas, contra o D. Prior, de quem disse que era um asno, e burro, e tolo, e outras mais palavras. Ou então, nos votos do Cabido, recorriam a suborno para a eleição de juízes, como transparece do depoimento de Francisco Correia.

Eram uns santos, estes cónegos…
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27 de junho de 2013

Efeméride do dia: Uma obra com enguiço (os Paços do Concelho de Marques da Silva)

Projecto de Paços Municipais de Marques da Silva, cuja construção esteve inicialmente prevista para  a Praça de S. Tiago
 27 de Junho de 1938
Segunda-feira.- Principiou a demolir-se o novo edifício, em construção, que era destinado para Paço do Concelho. Foi apenas duas paredes interiores.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 307)

O projecto mais emblemática da Primeira República em Guimarães foi o da construção dos novos Paços do Concelho, cujos serviços há muito que não cabiam no edifício acanhado da Praça da Oliveira. No dia 2 de Janeiro de 1914, Mariano Felgueiras apresentou em reunião de Câmara várias propostas de melhoramentos urbanos, entre os quais se incluía a da construção de novas instalações municipais, porque ninguém desconhecia que “todas as repartições públicas deste concelho estão mal, ou antes, pessimamente instaladas e que a casa que serve de sede para a Câmara Municipal é absolutamente imprópria, sob todos os pontos de vista sem excepção de um único”. No verão do ano seguinte foi criada uma comissão que deveria escolher o terreno onde seria implantado o novo edifício dos Paços do Concelho. A decisão acabaria de incidir sobre a Praça de S. Tiago,implicando também demolições nas ruas do Gravador e do Espírito Santo. A polémica à volta desta escolha foi grande, mas não impediu que fossem estabelecidas as bases para o concurso para a concepção do projecto de edifício, que foram submetidas ao parecer da Sociedade dos Arquitectos Portugueses e do Conselho de Arte e Arqueologia Nacional.
Aberto o concurso, foram apresentadas onze propostas, das quais uma se destacou desde  logo, por, como se escreveu em O Comércio de Guimarães, “apanhar bocados dos nossos principais monumentos”, fazendo “lembrar a história desta terra, não esquecendo absolutamente nada”. Trata-se do projecto Ourique, apresentado pelo Arquitecto José Marques da Silva. Seria, sem surpresa, o vencedor. Estava-se então em finais de Novembro de 1916.

Estado das obras (paradas) da construção dos Paços do Concelho, no ano de 1950.
Mas a construção tardou em arrancar. Entretanto, havia sido abandonada a ideia de implantar o edifício de Marques da Silva na Praça de S. Tiago, pelas dificuldades que iria levantar, nomeadamente resultantes da necessidade de realojamento das famílias que ocupavam as casas cuja demolição estava prevista, mas também porque já então havia uma nova percepção quanto à necessidade de não descaracterizar o perfil urbano da zona histórica de Guimarães.
Luís de Pina apresentou um projecto de urbanização da zona que ficava a sul do Paço dos duques, que permitiu rasgar a actual praça de Mumadona e as ruas que para lá convergem. A ideia era instalar o edifício dos Paços Municipais na nova Praça.
Iniciam-se as obras. Em 1926, aquando do golpe militar que instaurou a Ditadura, a construção do novo edifício, a construção do edifício já estava ao nível do primeiro andar. Mas a obra estava parada, tornando-se em local escolhido para as brincadeiras dos rapazes ou para acampamento de ciganos.
As tentativas para conseguir o financiamento do Estado para retomar a obra iam sendo sucessivamente frustradas. Começam a alvitra-se alternativas. Que a Câmara se deveria instalar no paço dos Duques, para onde já estava prevista a instalação do museu Alberto Sampaio, do Arquivo Municipal e de uma Biblioteca. Que deveria ocupar o edifício abandonado do Teatro D. Afonso Henriques.
Depois de 1940, ainda se avançavam com novas possibilidades de localização dos Paços do Concelho concebidos por Marques da Silva. Nesta fotomontagem, está colocado no lado Norte do Toural.
Com o decorrer do tempo, começa a avançar-se com aquela que, para alguns, seria a única solução possível para se acabar com a visão daquelas ruínas de um edifício que parecia enguiçado: a demolição. Foi por isso que quando, a 27 de Junho de 1938, começaram a ser demolidas paredes interiores do edifício desenhado por Marques da Silva, se assumiu que se estava perante o seu derrube definitivo.

Não foi bem assim. A demolição final ainda tardaria meia dúzia de anos.
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26 de junho de 2013

Efeméride do dia: O Crime de Agra

Francisco 'Agra' Ribeiro Martins da Costa (1834-1901)

26 de Junho 1901
Morreu na sua quinta de Agra, em S. Torcato, vítima de um tiro de espingarda que traiçoeiramente lhe atirou de trás de uma parede, "José Segade", o nosso considerado vimaranense Francisco Ribeiro Martins Costa, vulgo "Francisco Agra", chefe local do partido "franquista". O seu funeral teve lugar no dia ... ( em branco, no original) na igreja Colegiada e o cadáver foi conduzido ao cemitério, fazendo o acompanhamento, em 56 trens, todas as pessoas de distinção desta cidade e bastantes de diversas terras que vieram prestar homenagem ao cadáver. No cemitério discursou o nosso mui distinto e querido deputado João Franco P. F. Castelo Branco.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 302)

Francisco Ribeiro Martins da Costa, conhecido como Francisco Agra, nasceu em 1834 e foi um dos maiores proprietários vimaranenses do seu tempo. Foi, durante mais de duas décadas, o chefe do Partido Regenerador em Guimarães. Apesar da proeminência da sua posição política, ao longo da vida apenas aceitou exercer um cargo público quando, entre 1872 e 1873, foi administrador do concelho substituto. Estudou Matemática e Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo abandonado o curso no final do 1.º ano, depois de ter adoecido com tifo. Dedicava-se à administração das suas propriedades. Às quartas-feiras, dirigia-se para a sua quinta de Agra, em S. Torcato, de onde regressava na noite de sexta-feira.
Assim aconteceu na quarta-feira dia 26 de Junho de 1901. Na manhã daquele dia, depois de visitar uma propriedade em S. Roque, Francisco Martins Costa dirigiu-se para a sua quinta em Agra, onde deu ordens para que lhe fosse servido o almoço às 14 horas, saindo em seguida. Contra o que era costume, à hora em que era esperado, ainda não tinha regressado. Com o passar do tempo, a inquietação foi crescendo entre seus criados que o aguardavam. Quando decidem ir procurá-lo, encontram-no tombado no chão, sem sinais de vida. O corpo foi carregado para casa, chamando-se um médico de S. Torcato, que confirmaria o óbito, apontando-lhe como causa uma congestão pulmonar. Entretanto, a notícia chegara a Guimarães e os amigos do defunto não tardaram começaram a chegar à Quinta de Agra.
Foi quando dois dos amigos mais próximos de Francisco Agra, Eduardo Almeida e o Cónego Vasconcelos, meteram mãos à tarefa de preparar o cadáver para que pudesse ser velado, que se descobriu que o diagnóstico do médico de S. Torcato estava errado: uma ferida circular profunda, à altura do ombro, demonstrava que a morte resultara de um atentado a tiro. As diligências que se fizeram logo a seguir confirmaram estar-se em presença de um homicídio.
O cadáver de Francisco Agra foi transportado para a casa mortuária da Misericórdia de Guimarães, onde seria autopsiado.
Entretanto, faziam-se os preparativos para o funeral, que aconteceria no dia 1 de Julho, contando com a participação de figuras políticas de relevo nacional, entre as quais se destacava o conselheiro João Franco, que proferiu um dos elogios fúnebres proferidos no cemitério. Na mesma altura, o cónego José Maria Gomes diria que:
Entretanto, enquanto a especulação ia crescendo na cidade, as autoridades continuavam em campo, procurandodesvendar o móbil doc rime e os respectivos responsáveis. Na sua edição de 7 de Julho, o jornal O Progresso, publicava uma pequena nota com o título Prisão do assassino?, onde se lia, sob toda a reserva:
Consta-nos, à última hora,que se acha preso um tal Júlio de Lemos, proprietário, da freguesia de S. Torcato, que há poucas meses saiu da Penitenciária e sobre quem recaem algumas suspeitas em virtude de uma carta que aqui se recebeu vinda do Porto.
Dias depois, O Comércio de Guimarães informava que, até àquela data (12 de Julho), as autoridades prosseguiam os seus esforços, sem que alguma coisa tenha entrevisto de terminante e positivo, classificando como romance o que ia sendo reportado por alguns jornais diários.
No entanto, as suspeitas avançadas pelo jornal O Progresso pareciam confirmar-se. Na sua edição do dia 14, anunciava-se a prisão de Júlio de Campos, saído há poucos meses da Penitenciária. Era natural de S. Torcato, e sobre ele recaíam graves suspeitas de ser o autor do assassinato de que foi victima o sr. Francisco Agra. Júlio de Campos estava detido na Cadeia Civil de Guimarães, incomunicável e guardado à vista. A polícia secreta – adiantava a mesma notícia - pouco ou nada deixa transpirar das diligências a que tem procedido, constando que em casa do detido haviam sido encontradas oprovas que o incriminariam como o autor material do crime. Aquando da edição seguinte do mesmo jornal, as dúvidas que subsistiam pareciam desvanecidas:
Parece não haver dúvida, conquanto não haja a precisa prova testemunhal, de que o assassino do snr. Francisco Agra foi o tal Júlio de Campos. As provas colhidas pela polícia secreta são esmagadoras e Júlio de Campos não as pode embargar.
No dia 26, O Comércio de Guimarães dá conta de uma carta precatória enviada pelo tribunal de Guimarães para o Porto, acompanhando a arma e as roupas do presumido assassino Júlio de Campos, para serem examinadas na morgue da Escola Média daquela cidade. No dia 9 de Agosto, o mesmo jornal já apresentava Júlio de Campos como assassino de Francisco Agra. Por essa altura, já o havia produzido o despacho de pronúncia contra
Júlio de Abreu Lemos, também conhecido por Júlio de Campos, solteiro, proprietário e capitalista, da freguesia de São Torcato, desta comarca, agora preso nas cadeias desta mesma comarca, e morador antes de preso no lugar de Campos, da referida freguesia, como autor do crime de homicídio, seguido do roubo de um relógio e corrente de oiro, no valor de cento e vinte mil réis, praticado em uma quarta-feira, vinte e seis de Junho passado, no lugar de Pousada, da Quinta de Agra, da sobredita freguesia, na pessoa de Francisco Ribeiro Martins da Costa, desta cidade, e praticado com premeditação, que resulta dos factos de ter o assassino esperado por mais de uma vez a sua vítima, armado de espingarda, e de o matar afinal, estando emboscado e oculto em um lugar da referida quinta de Agra, aonde era certo que a sua vítima devia passar.
No dia 12 de Dezembro, o réu (que, entretanto, por razões de segurança, havia sido levado para a cadeia da Relação do Porto) chegava de comboio a Guimarães, tendo atravessado a cidade de chapéu desabado e embrulhado num cobertor de lã. O julgamento iniciou-se no dia seguinte. Houve burburinho na cidade de Guimarães quando se soube o nome do advogado de defesa de Júlio de Campos, um conceituadíssimo professor catedrático da Universidade de Coimbra e conhecido republicano: Afonso Costa. Murmurava-se que havia sido pago por um grupo de simpatizantes da causa republicana, com Bernardino Jordão à cabeça. Parecia confirmar-se a tese de que se estava perante um crime de natureza política. Os advogados de acusação foram Avelino César Calisto, também catedrático da Universidade de Coimbra, e Gaspar de Abreu Lima, de Guimarães.
O início do julgamento foi rodeado de grande aparato. Muito antes da hora prevista para o início da primeira sessão, uma multidão concentrava-se à porta do tribunal, na ânsia de ocupar os melhores lugares na sala de audiências, esbarrando numa força do Regimento de Infantaria 20, que impedia o acesso ao edifício. O juiz acomodou na sala os repórteres e correspondentes de jornais de Lisboa (Correio da Noite, Vanguarda, Diário de Notícias, Mala da Europa e Século) do Porto (Comércio do Porto, O Norte, Jornal de Notícias, que também enviou um “colaborador artístico”, O Primeiro de Janeiro, A Província, A Voz Pública e Diário da Tarde) e de Guimarães (O Progresso, Independente e O Comércio de Guimarães).
Até ao dia 17 de Dezembro, seriam ouvidas sessenta testemunhas. Para a imprensa próxima dos regeneradores, o veredicto só podia ser um. Escrevia-se no Independente, de 15 de Dezembro:
São tantas, tão concludentes,tão palpáveis e tão esmagadoras as indestrutíveis provaos que o processo oferece, hoje do conhecimento de toda a gente, depois da leitura do processo, que o júri, apesar da defesa do réu estar confiada a um advogado distintíssimo, que se tem havido de um modo brilhante, não pode deixar de proferir um veredicto condenatório para não praticar uma monstruosa injustiça, que seria uma vergonha para a cidade de Guimarães.
E o advogado de acusação diria, dirigindo-se aos jurados, em réplica às alegações finais de Afonso Costa:
Não vos deixeis magnetizar pela palavra ardente de S. Exa.; resisti-lhe para que se não convença que também aqui, nesta terra tão laboriosa e ilustrada, veio encontrar um bando de inocentes que o acreditam cegamente; resisti-lhe. porque ao lado da acusação está a prova produzida, está a lei, e está uma cidade, uma comarca inteira a pedir inexorável a condenação do réu.
Porém, no dia 19 de Dezembro, o júri seria unânime no voto de absolvição do réu. Segundo João Lopes de Faria, a absolvição foi bem recebida no geral, excepto por alguns regeneradores caturras e pela família do assassinado. O Delegado de Justiça, Leal Sampaio anunciou que iria interpor recurso da sentença. O réu saiu em liberdade, depois de prestar uma fiança de 5 contos (correram rumores de que o fiador seria Afonso Costa, que por sua vez seria caucionado por Bernardino Jordão). Às quatro da tarde do dia 20 de Dezembro de 1901, Júlio de Campos seguia numa carruagem para sua casa, acompanhado pos Afonso Costa e pelo seu assistente.
Logo em seguida, o jornal Independente acusava o júri de inconsciência perigosa, por se ter decidido pela absolvição sem se importar com a opinião unânime dos espíritos esclarecidos e independentes, formados á luz e por força da lógica irresistível das provas da acusação.
Mas muita água ainda correria por debaixo das pontes até que o crime da Agra fosse deslindado.
Em meados de Fevereiro de 1902, o Supremo Tribunal de Justiça. Depois de rever o processo, anularia a decisão do júri de absolver Júlio de Campos e ordenaria a repetição do julgamento.
A repetição iniciou-se no dia 16 de Fevereiro de 1903. O mesmo réu, a mesma acusação, os mesmos advogados. Na sala de audiências, os sentimentos dividiam-se, como se percebe pelo que então escreveu o jornal O Progresso:
Se nos olhos de uns transparecia a ansiedade duma vingança para o indigitado assassino, na maior parte dos rostos dos assistentes via-se a compaixão por esse desgraçado Júlio de Campos.

Na madrugada do dia 21 de Março, repetiu-se a sentença do julgamento anterior: o réu voltou a ser absolvido por unanimidade.
Nos jornais, continuavam a lançar-se suspeitas sobre Júlio de Campos e os seus protectores. Escrevia-se no Comércio de Guimarães por aqueles dias:
Desconhecido, apareceu rodeado de valiosos amigos; pobre, gastou dinheiro e ficou remediado; acusado, foi reconhecido inocente e unanimemente absolvido.
E no Independente ia-se mais longe. Afirmando não se conformar com o veredicto, acrescentava que as declarações dos agentes do Ministério Público de que não havia nenhuma pista que pudesse conduzir ao esclarecimento da autoria do homicídio de Francisco Agra, resultaram na absoluta e segura impunidade do infame autor de tão bárbara ocorrência.
Apesar de duas vezes absolvido, Júlio de Campos continuava a ser, aos olhos de alguns, o culpado.
Não passaria um ano até que se descobrisse que, afinal, o autor do crime tinha estado nos dois julgamentos. Mas não era Júlio de Campos.
 ~*~

Muito se murmurou acerca dos motivos que terão levado um advogado com o renome de Afonso Costa ter vindo a Guimarães para defender um pobre diabo. Cogitou-se que teria sido chamado e pago por republicanos locais, com Bernardino Jordão à cabeça. Não terá sido bem assim. Afonso Costa defendeu Júlio de Campos assim como defendeu, pro bono, diversos outros acusados de crimes de natureza política. Defendia, por convicção política, aqueles que, sendo julgados à luz da lei anti-anarquista de 13 de Fevereiro de 1896, teriam diminuídos os seus direitos de defesa e estariam sujeitos a penas especialmente pesadas, nomeadamente o degredo para regiões inóspitas do Império português.
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25 de junho de 2013

Efeméride do dia: O desaparecimento da Capela de S. Tiago

Capela de S. Tiago (desenho de Carlos Van Zeller, 1835).

25 de Junho de 1886
De tarde procedeu-se à medição e vistoria para a demolição, por utilidade pública, da capela de S. Tiago da Praça.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 298)

Segundo a tradição, a Capela de S. Tiago teria sido, originalmente, um templo pagão dedicado a Ceres, cristianizado pelo santo que daria o nome à praça. Da construção primitiva, quase nada se sabe, a não ser que teria uma torre com dimensões bastantes para a fazerem notada. Em 1593, o Arcebispo D. Frei Agostinho de Jesus, em visitação à paróquia da Senhora da Oliveira, ordenou ao seu administrador, o cónego Mestre-Escola, que mandasse reconstruir a torre da Igreja de S. Tiago, por ter caído, estando o arco da porta a ameaçar ruína. A capela com alpendre que perdurou até ao último quartel do século XIX foi construída por aquela altura. A capela pertencia ao Cabido da Colegiada, sendo administrada pelo Mestre-Escola.
O Eng.º Almeida Ribeiro propôs, no seu projecto de melhoramentos da cidade de Guimarães (1863-1867) o aformoseamento da Praça de S. Tiago. As razões invocadas eram de ordem estética e de higiene pública. O processo tardaria em arrancar.
Em Julho de 1882, a Câmara, por proposta do seu Vice-Presidente José de Castro Sampaio, decidiu expropriar a Capela de S. Tiago, com o propósito de a demolir.
Ainda passariam mais de quatro anos até que, a solicitação da Câmara, o Ministério do Reino fez publicar, no dia 6 de Maio de 1886, uma declaração de utilidade pública urgente a expropriação da capela de S. Tiago “devendo ser convertida em inscrições da junta do crédito público averbadas ao cabido da insigne colegiada do Nossa Senhora da Oliveira da cidade de Guimarães, a quantia em que for liquidada a indemnização respectiva à dita capela”.
A demolição da capela consumar-se-ia em Janeiro de 1887.
Em 1885, quando se andavam a abrir rotas para instalar canos de água na travessa de S. Tiago, foram descobertas ossadas humanas. Ao saber da notícia, o Padre Abílio Passos,  fez publicar uma carta sobre o assunto, no O Comércio de Guimarães (6 de Julho de 1885), na qual, apesar de ver com simpatia a intenção de “(…) proceder a melhoramentos no largo de S. Tiago, porque nisso havia reconhecida vantagem mais crescida ainda da boa higiene, pois todos conhecemos as más condições do local e suas pertenças bem como vemos as ruínas, que ameaçam algumas das construções da travessa do mesmo nome, que são acanhadas e velhas, desmanteladas e sujas”, protestava veementemente contra a demolição de uma “verdadeira página de pedra para a nossa história momentosa, heróica e respeitável”.

Hoje é possível observar-se, no chão da praça, o desenho da planta da antiga Capela de S. Tiago, colocado no local onde antigamente se erguia aquele templo.


Aqui fica, na íntegra, o texto do Padre Abílio de Passos, acima citado:



PRAÇA DE S. TIAGO E AS OSSADAS ALI APAREClDAS
Snr. redactor do Comércio de Guimarães e meu bom amigo.
Amante da terra que me foi berço e e me é pátria, tive muito prazer quando soube que a Ilma. câmara mandara proceder a melhoramentos no largo de S. Tiago, porque nisso havia reconhecida vantagem para Guimarães, por mais um aformoseamento e pela vantagem mais crescida ainda da boa higiene, pois todos conhecemos as más condições do local e suas pertenças bem como vemos as ruínas, que ameaçam algumas das construções da travessa do mesmo nome, que são acanhadas e velhas, desmanteladas e sujas.
Tendo, porém,ouvido dizer que havia intenção de expropriar a capela que ali existe, toda a satisfação foi mudada em verdadeira tristeza, pois desta sorte é demolido um monumento que, afora mesmo os serviços que presta ao culto. tem uma subida importância para a gloriosa história deste torrão, já de si tão notável por outros do género semelhante.
No local, ou em parte, onde assenta esta, agora, capela existiu um templo que foi da Gentilidade... Obra Mosaica, majestosa e antiquíssima dedicada a Ceres, ou, segundo umas émedalhas de que falam alguns escritores, consagrado a Minerva.
O certo é que este templo gentílico foi transformado em Igreja cristã, quando o Apóstolo S. Tiago converteu os habitantes da vila de Araduca,onde expôs ao culto uma imagem de Santa Maria que depois passou para o mosteiro do Mumadona, e onde baptizou o depois Arcebispo de Braga, S. Torcato. O que tudo se colige do que diz Fr. Bernardo de Braga citado pela - Ant. Guimarães.—
Caído em ruínas pelo destruidor camartelo do tempo foi em 1607 reedificado r reduzido segundo se de traduz de dois versículos latinos, que se lêem no alto da porta principal da agora capela, ignorando-se a sua origem primitiva. A — Nova história da militar Ordem de Malta em Portugal — insere um documento do doação feita a 2 do Janeiro do 1159 pelo Conde Dom Henrique e sua esposa D. Teresa “a um tal Alberto Tibao e a seus irmãos e aos mais franceses todos” que tinham acompanhado o conde D. Henrique e ao qual tinham prestado serviços relevantes e que viviam na vila de Guimarães "o campo que temos (diz a doação) na vila de Guimarães entre o nosso palácio real, os claustros da Igreja de Santa Maria e o átrio da mesma e vai direito à rua dos franceses, terminando na mesma”, sendo-lhe concedida a construção duma capela, de que os franceses apresentavam o Prior, sem dependência do Arcebispo de Braga, na qual assistissem aos ofícios divinos e depois de mortos se sepultassem os seus corpos — in qua audiatis divina, et in morte vestra corpora vestra tumulentur.
Esta é a igreja de S. Tiago, explica depois em nota a obra cita, de que existem bastantes prazos, casas e casais com foros sabidos, que recebem os Cónegos Mestre-Escolas da Insigne e real Colegiada e na qual são colados abades simplices, sendo a dita capela pertença exclusiva de particular administração do mesmo Prebendado,
Eis aí bem manifestada, segundo o meu modo de entender, a origem das ossadas que em grande quantidade aparecem na travessa de S. Tiago e que devem ser veneradas e respeitadas como daqueles que ao conde D. Henrique fizeram muito bom serviço segundo as palavras do próprio fundador da nossa Monarquia.
Estes os títulos porque deve conservar-se aquele monumento que já era antigo no começo da nossa existência nacional e que ainda conserva mais ou menos materais da primitiva construção.
Simpática memoria para nós, por estar aliada com os colaboradores da nossa independência, como obreiros da nossa autonomia, com os defensores da nossa pátria dos assaltos dos infiéis e do jugo castelhano.
Verdadeira página de pedra para a nossa história momentosa, heróica e respeitável.
Que a sua conservação e aformoseamento do seu largo ande ao par da conservação do Palácio dos nossos reis, castelo respectivo e da veneranda Igreja do S. Miguel do Castelo e nisso tem Guimarães e os seus representantes dado provas da sua ilustração não desmentida, do seu zelo e estima pela pátria que lhes é mãe e do respeito que devemos aos monumentos de valor histórico, que em todas as nações civilizadas são guardados com o maior escrúpulo e defendidos da destruição do tempo com o maior cuidado.
Não podendo por hoje dispor de mais trabalho para este assunto, que me parece palpitante e digno das atenções dos vimaranenses, rogo a V. não descure dele no seu acreditado periódico por me parecer digno dos cuidados da imprensa ilustrada, zelosa e respeitadora de tudo que comemora lampejos da nossa glória, irradiações do nosso valor, merecimentos de nossos antepassados.
Sou de V. capelão obrig.mo
Julho 2-85.
P.e Abílio de Passos.
O Comércio de Guimarães, 7 de Julho de 1885
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24 de junho de 2013

O 24 de Junho de 1928


 

Em 1928, celebrou-se em Guimarães o oitavo centenário da Batalha de S. Mamede. No entanto, o dia assinalado não foi o 24 de Junho. A batalha foi celebrada como se tivesse acontecido no dia 23 de Junho de 1128 (recorte de jornal que vai acima). Os festejos propriamente ditos tiveram lugar nos dias 7 e 8 de Julho (imagens abaixo, publicadas na edição de 1 de Agosto de 1928 da revista Ilustração).




Um aspecto do cortejo comemorativo.
O General Craveiro Lopes, comandante da militar da região, colocando as insígnias da Ordem da Torre e Espada na bandeira dos Bombeiros Voluntários
Aspecto da missa comemorativa da Batalha de S. Mamede
Altar da missa campal, junto ao Castelo.

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Efeméride do dia: A Primeira tarde Portuguesa

Cartaz do 24 de Junho de 2013, de Vasco Carneiro Bastos


24 de Junho de 1128
D. Afonso Henriques alcança vitória de S. Mamede, em Guimarães e entra a governar.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 295) 


De Guimarães o campo se tingia
Com o sangue próprio da intestina guerra,
Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
A seu filho negava o amor e a terra.
                                       Luís de Camões, Os Lusíadas, III-31

O reconhecimento da importância de 24 de Junho de 1128 para a afirmação da nacionalidade portuguesa é relativamente recente. É certo Alexandre Herculano, em meados do século XIX, elevou a Batalha de S. Mamede à condição de acto fundador da nacionalidade:
Se na batalha do campo de S. Mamede, em que Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das mãos de sua mãe, ou antes das do conde de Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituiríamos provavelmente hoje uma província de Espanha. Mas no progresso da civilização humana tínhamos uma missão que cumprir. Era necessário que no último ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de actividade e vigor, para cuja acção fosse insuficiente o âmbito da terra pátria, um povo de homens de imaginação ardente, apaixonados do incógnito, do misterioso, amando balouçar-se no dorso das vagas ou correr por cima delas envoltos no temporal, e cujos destinos eram conquistar para o cristianismo e para a civilização três partes do mundo, devendo ter em recompensa unicamente a glória. E a glória dele é tanto maior quanto, encerrado na estreiteza de breves limites, sumido no meio dos grandes impérios da Terra, o seu nome retumbou por todo o globo.
Alexandre Herculano, O Bobo, Cap. I
No entanto, ainda no primeiro quartel do século XX prevalecia prevalecia a tradição que dava a  primazia a Ourique, como o momento em que Portugal nasceu. E esta ideia prevalecia também em Guimarães.Também aqui era em função da Batalha de Ourique que se estabelecia a cronologia do antes e do depois da fundação da nacionalidade, atribuindo-se a S. Mamede um papel manifestamente menor. Também aqui Afonso Henriques era designado como o “vulto grandioso de Ourique”, “glorioso vencedor de Ourique” e “heróico batalhador do campo de Ourique”. Só raramente aparecia como o “herói de S. Mamede”.
Seria preciso chegar ao oitavo centenário da Batalha para que Guimarães se começasse a reivindicar o reconhecimento do dia 24 de Junho de 1128 como momento fundador da nacionalidade portuguesa. Por aqueles dias, escreveu Alfredo Pimenta:
A batalha de S. Mamede é o primeiro acto decisivo, claro, que não admite dúvidas, da série gloriosa de feitos do fundador do Reino de Portugal. É o nosso grito de independência, é a nossa primeira afirmação de personalidade e de vontade. Vitorioso da hoste estrangeira, Afonso Henriques ergue voo, nas suas legítimas aspirações, e sonha o talhar de fronteiras que é o seu longo reinado.
Por essa altura, já Acácio Lino havia pintado o dia da Batalha de S. Mamede, numa das salas do Parlamento português, num fresco que baptizou como A primeira tarde portuguesa.

Acácio Lino, Batalha de S. Mamede - Primeira Tarde Portuguesa, pintura a fresco (Assembleia da República), 1922
Para se perceber como Guimarães demorou a despertar para a importância da Batalha que em 1128 se travou no seu território, basta notar que, nas suas “Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães”, escritas no final do século XVII, o Padre Torcato Peixoto de Azevedo nem sequer se lhe refere e que o Padre António Caldas no seu Guimarães – Apontamentos para a sua História continuava a dar primazia a Ourique, como se pode perceber pelo texto seguinte:

PRIMEIROS LINEAMENTOS DA LIBERDADE PORTUGUESA
Foi aqui nestes campos feracíssimos, nas quebradas destes montes levantados, onde o primeiro dardejara seus raios o astro adorável da nossa liberdade pátria.
O conde D. Henrique, neto famoso de Hugo Capeto, escolhendo Guimarães para sua residência, principia daqui, no declinar do século XI, a exercer uma tal ou qual soberania, que foi sem dúvida a gloriosa estreia do pequeno reino português; devendo por isso considerar-se  esta nobilíssima terra o firme alicerce, sobre o qual se erguera uma nação, que hasteara os seus estandartes em mundos ignotos, até os mais dilatados confins da terra.
Posto que esta província, no governo do conde, não fosse completamente independente dos suseranos de Leão e Castela, todavia, como diz a HISTÓRIA DE PORTUGAL de Fernando Dinis, o governo proceloso do conde borgonhês foi o crepúsculo matinal da nacionalidade portuguesa; desde então essa luz nascente não deixou de arraiar o horizonte político das Espanhas, até que se tornara sol deslumbrante, diante do qual tivera de curvar-se o próprio rei de Leão. Por morte do conde D. Henrique, e na menoridade de seu filho D.  Afonso Henriques, herda a condessa viúva D. Tareja o governo dos seus estados; mas desvairada pelas intimidades que a ligam ao conde de Trava, quer entregar nas mãos do odiado estrangeiro os destinos dos seus vassalos. É então, 1128, que a fidalguia portuguesa, não podendo suportar já a ideia de um jogo estranho, rodeando o jovem infante Afonso Henriques na cidade de Braga, aí o anima e impele a marchar sobre Guimarães para assumir as rédeas do governo, que sua mãe loucamente alheava.
“Cavalgavam ao lado do infante os principais fidalgos portugueses, Soeiro Mendes, o arcebispo de Braga, Ermígio Moniz, Sancho Nunes, Garcia Soares; ao lado de D. Tareja poucos barões portugueses se tinham conservado; e uma grande parte da hoste fidalga, que se agrupava em torno do conde de Trava, saindo de Guimarães ao encontro de D. Afonso, compunha-se de fidalgos galegos. Os dois exércitos toparam um com o outro nos campos de S. Mamede, e a vitória enfunou as pregas dos balsões de Afonso Henriques.”
Eis o primeiro sangue derramado pela independência de Portugal; e assim o grandioso prólogo da nossa história comemorando a segunda época assinalada e feliz do nosso Guimarães. «Se na batalha do campo de S. Mamede, em que Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das mãos de sua mãe, ou antes das do conde de Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituiríamos provavelmente hoje uma província de Espanha. Mas no progresso da civilização humana tínhamos uma missão que cumprir. Era necessário que no último ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de actividade e vigor, para cuja acção fosse insuficiente o âmbito da terra pátria, um povo de homens de imaginação ardente, apaixonados do incógnito, do misterioso, amando balouçar-se no dorso das vagas ou correr por cima delas envoltos no temporal, e cujos destinos eram conquistar para o cristianismo e para a  civilização três partes do mundo, devendo ter em recompensa unicamente a glória. E a glória dele é tanto maior quanto, encerrado na  estreiteza de breves limites, sumido no meio dos grandes impérios da terra, o seu nome retumbou por todo o globo”.
Finalmente, no sempre memorável dia 25 de Julho de 1139, o anjo da vitória entrega em Ourique a D. Afonso a coroa de rei e confere  a Guimarães o sempre glorioso título de “berço da monarquia”.

António José Ferreira Caldas, Guimarães – Apontamentos para a sua História, 2.ª Edição, Guimarães, CMG/SMS, 1996, parte I, pp. 211/212
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Tu fazes parte


Dos vimaranenses se diz que são diferentes. Não que sejam perfeitos já que, do inventário das virtudes e dos defeitos humanos, nada falta em Guimarães. São diferentes porque são gregários, porque ainda mantêm firme o cimento comunitário que por toda a parte se vai desagregando. Os de Guimarães ainda respondem a uma só voz ao chamamento da sua cidade. São generosos, voluntariosos e obstinados quando se envolvem em projectos colectivos. São ainda, como a geração de 1886, gente de antes quebrar que torcer.
Persistem duas ideias contraditórias acerca do modo como os vimaranenses recebem quem chega de fora. Por um lado, diz-se que têm um comportamento tribal e fechado, sendo refractários a estranhos; por outro, diz-se que Guimarães é má mãe e boa madrasta, tratando melhor os de fora do que aqueles que beberam o leite materno dentro dos seus muros. Ambas as ideias estão longe da verdade, como o demonstrou o último grande empreendimento colectivo em que a cidade esteve envolvida.
O processo da preparação da Capital Europeia da Cultura dava um romance, mas ainda não é o tempo de o escrever. Lembremos apenas que, instalada a equipa que foi encarregada de a organizar, não foi preciso muito para se perceber que os novos hóspedes do palacete de Vila Flor estavam de costas voltadas para cidade. Não tinham percebido nada, nem davam sinais de fazerem qualquer esforço para perceber. Eram pródigos em palavras bonitas, como envolvimento e legado para o futuro, mas faziam tudo às avessas.
E foi assim que, como em tantos outros momentos da sua história, os vimaranenses dividiram o Mundo em nós e eles. Eles eram os que olhavam a cidade do alto, do Monte do Cavalinho.
Aqueles foram dias difíceis e, para muitos de nós, especialmente dolorosos, num momento em que todos deveríamos estar a participar na construção de um acontecimento que tinha tudo para ser um marco único em toda uma geração.
Foi por essa altura que te fui conhecendo melhor. A maior parte de nós estava enganada. Entre eles havia quem já sofresse as mesmas dores que nós sofríamos. E sei bem que, para ti, aqueles foram tempos especialmente difíceis, porque te sentias a navegar num barco que ameaçava ir ao fundo e que era preciso manter à superfície.
Foi preciso chegar ao Verão de 2011 para que, finalmente, se corrigisse a rota. Faltava menos de meio ano para subir a cortina e havia que começar de novo. Era preciso golpe de asa para evitar o desastre anunciado.
Sem tempo para lamber as feridas, era urgente voltar a ganhar os vimaranenses. Afinal, dos trabalhos de Hércules que tinham pela frente, este acabou por ser o mais simples. Tu fazes parte. Envolvimento deixou de ser uma palavra vazia. Eu faço parte. Os cidadãos responderam ao chamamento. Nós fazemos parte. A cidade cabisbaixa erguia-se de novo, carregada de orgulho de si.
E 2012, em vez do naufrágio anunciado, foi tempo de celebração colectiva de Guimarães, cidade de cultura, da Europa e do Mundo.
A medalha que hoje Guimarães te entrega constitui um acto de justiça elementar que, antes de o sabermos, todos adivinhávamos. Porque, quando havia tudo para que desse errado, tu, com a tua inteligência, persistência e capacidade para fazer pontes entre margens adversas, foste o homem certo para assumir os destinos da nau arrombada que andava à deriva no meio da mais tormentosa das tempestades.
Vimaranenses não são apenas os que nasceram em Guimarães. Vimaranenses são, como tantas vezes ouvi a Santos Simões, os que aprendem a amar Guimarães.
Ser vimaranense é fazer parte de um colectivo de homens e mulheres que partilham um modo de ser singular.
Tu fazes parte, João.
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23 de junho de 2013

Os cometas


Aqui fica, na íntegra, o texto sobre os cometas publicado no jornal Imparcial de 11 de Julho de 1881, já citado a propósito da efeméride do dia 23 de Junho.

Ainda o Cometa
Ontem, como anteontem, era grande o ajuntamento do povo nas elevações mais desafogadas da cidade a ver o cometa, o qual se tem elevado sensivelmente para noroeste. Ontem, o cometa apresentava-se muito menos brilhante do que nos dias anteriores. Daremos hoje algumas informações a respeito destes viajantes aéreos, que ainda hoje são um enigma para a ciência.
Muita gente há, que, sem partilhar dos preconceitos do vulgo a respeito da maléfica influência dos cometas, admite todavia a possibilidade de apanharmos num belo dia, uma trombada de algum de esses viageiros errantes, de modo que a terra se pulverize no espaço, ou de ser lambidos e reduzidos a torresmos pelo seu penacho de fogo. Tudo isso é absurdo.
Enquanto à trombada. Os cometas não são corpos sólidos. Não são astros compactos. A prova irrefutável é que, através do núcleo dos cometas, e que constituem a sua parte mais densa, se observam estrelas da 7.ª e 8.ª grandeza. Para que este facto possa dar-se a tão enormes distâncias, é necessário, não só que o núcleo do cometa não seja sólido, mas até que seja de uma composição tenuíssima. E se isto sucede com o núcleo, a densidade é ainda muito menor na cauda. O cálculo neste ponto está perfeitamente assentado. É tão ténue, tão pouco densa, a composição dos cometas, que, ainda topando com a terra, não fariam sobre ela mais impressão do que um tenuíssimo assopro. Há até todas as presunções — tantas quantas a ciência pode estabelecer — que a cauda de um dos últimos cometas envolveu a terra por algum tempo. Mão se percebeu. Uns nevoeiros desusados, que apareceram em alguns pontos nessa ocasião, podem ter tido outra origem.
O que é fora de dúvida, é que não há perigo algum no encontro de um cometa com a terra — a não ser que ele seja composto de gases venenosos, o que é hipótese sem nenhuma plausibilidade.
Enquanto ao incêndio. Também não há receio de que possamos ser chamuscados por um cometa, que se encontre connosco. Os cometas não têm luz própria. É o mesmo que sucede à Lua, a qual todavia nos aparece como um corpo luminoso. Não tendo luz própria, menos tem fogo incandescente, que nos reduza a torresmos. Portanto, podemos dormir descansados.
Qual é, porém, a verdadeira natureza dos cometas? que funções desempenham no sistema planetário? a que leis obedecem? Sobre estes pontos a ciência sabe apenas o bastante para saber... que não sabe coisa nenhuma. Segundo a opinião autorizadíssima de Camillo Flammarion, nem sequer se pode afirmar, com segurança, qual é a natureza da curva que um determinado cometa descreve. Os cometas são verdadeiros judeus errantes, uns Basorras vadios, que fogem a todas as leis.
O famoso Tycho Brahé, astrónomo dinamarquês do século XVII, considerou os cometas como verdadeiros corpos celestes, que giram ao redor do sol, descrevendo elipses extremamente alongados. Kepler, Newton e Laplace seguiram a opinião de Tycho Brahé. Kepler dizia que havia mais cometas no céu, que peixes no oceano. Hevélius, outro astrónomo do seculo XVII, sustentou que as órbitas cometárias eram parabólicas e não elípticas, e ainda isso se não sabe hoje!
A mais curiosa de todas as teorias é a que sustentou, há poucos anos Ch. Nagy no seu livro Cons. sur les cométes ou Élem. d'une cométologie. Segundo este autor os cometas são apenas — “simples fenómenos luminosos, ilusões ópticas, imagens do sol produzidas por corpos celestes diáfanos e pelas atmosferas planetárias”. Estas, como aqueles corpos celestes, viriam a ser verdadeiras lentes, semeadas no espaço.
Não cabe nos estreitos limites de uma notícia indicar os fundamentos da teoria de Ch. Nagy. A demonstração é indirecta, e pode reduzir-se a dois pontos capitais: — 1.º que é impossível que uma matéria qualquer, constituída em corpo celeste, possa passar por transformações incessantes e bruscas como as dos cometas e apresentar os fenómenos, que eles oferecem; 2.º que, a não serem os cometas, não se encontram no espaço as imagens do Sol que, segundo os princípios da óptica, necessariamente hão-de ser formados pelas atmosferas planetárias, cuja existência está posta fora de qualquer dúvida pela análise espectral. Convém notar, que efectivamente os cometas estão sujeitos a variações bruscas na sua forma, variações efectuadas de um dia para o outro, o que não se compadece bem com a ideia de um corpo sujeito a leis regulare.
O que é certo... é que nada se sabe de certo.
A palavra cometa vem do grego e quer dizer etimologicamente estrela crinita. Os cometas constam de três parles distintas : a saber, núcleo, cauda, e nebulosidade ou crina. O núcleo é a cabeça, a parle principal e mais intensa; a crina é uma espécie de auréola, que cerca o núcleo; e a cauda é o rastilho luminoso, «que se prolonga e esbate no espaço. Têm sido observados alguns cometas sem cauda — Basorras depois da procissão de Corpus Christi. Dois ou três têm sido vistos sem núcleo aparente, mas nunca sem crina. Dois ou três têm aparecido com duas caudas, sendo a mais curta dirigida para o Sol — como diz a Basorra e Basorrinho juntos. Algumas vezes aparecem as caldas divididas em duas, ou três ou mais porções, até sete, sendo estai divisão feita por linhas escuras. Esta divisão doas caudas, e o aparecimento de caudas em duplicado, dão argumento em favor da teoria de C. Nagy.
Os núcleos mudam de forma, de grandeza e de brilho. Varia o aspecto das caudas e das crinas em cada instante, transformam-se umas nas outras, e à custa de uma destas desenvolve-se a outra. Há fundadas indicações de um cometa se ter dividido em dois cometas completos — o que seria um argumento formidável em favor da teoria do Ch. Nagy. Os núcleos algumas vezes têm a forma de focos de incêndio, e as caudas parecem agitadas pelo vento, formando ondulações visíveis até a olho nu.
Eis o que podemos dizer aos nossos leitores a respeito dos cometas... do céu. Cá pela Terra também andam cometas de várias espécies. O cometa regenerador é de mais destruidores efeitos. Esse sim, que não é ilusão de óptica. Por onde passa, fica tudo lambido.
Imparcial, Guimarães, 1 de Julho de 1881


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