24 de junho de 2013

Tu fazes parte


Dos vimaranenses se diz que são diferentes. Não que sejam perfeitos já que, do inventário das virtudes e dos defeitos humanos, nada falta em Guimarães. São diferentes porque são gregários, porque ainda mantêm firme o cimento comunitário que por toda a parte se vai desagregando. Os de Guimarães ainda respondem a uma só voz ao chamamento da sua cidade. São generosos, voluntariosos e obstinados quando se envolvem em projectos colectivos. São ainda, como a geração de 1886, gente de antes quebrar que torcer.
Persistem duas ideias contraditórias acerca do modo como os vimaranenses recebem quem chega de fora. Por um lado, diz-se que têm um comportamento tribal e fechado, sendo refractários a estranhos; por outro, diz-se que Guimarães é má mãe e boa madrasta, tratando melhor os de fora do que aqueles que beberam o leite materno dentro dos seus muros. Ambas as ideias estão longe da verdade, como o demonstrou o último grande empreendimento colectivo em que a cidade esteve envolvida.
O processo da preparação da Capital Europeia da Cultura dava um romance, mas ainda não é o tempo de o escrever. Lembremos apenas que, instalada a equipa que foi encarregada de a organizar, não foi preciso muito para se perceber que os novos hóspedes do palacete de Vila Flor estavam de costas voltadas para cidade. Não tinham percebido nada, nem davam sinais de fazerem qualquer esforço para perceber. Eram pródigos em palavras bonitas, como envolvimento e legado para o futuro, mas faziam tudo às avessas.
E foi assim que, como em tantos outros momentos da sua história, os vimaranenses dividiram o Mundo em nós e eles. Eles eram os que olhavam a cidade do alto, do Monte do Cavalinho.
Aqueles foram dias difíceis e, para muitos de nós, especialmente dolorosos, num momento em que todos deveríamos estar a participar na construção de um acontecimento que tinha tudo para ser um marco único em toda uma geração.
Foi por essa altura que te fui conhecendo melhor. A maior parte de nós estava enganada. Entre eles havia quem já sofresse as mesmas dores que nós sofríamos. E sei bem que, para ti, aqueles foram tempos especialmente difíceis, porque te sentias a navegar num barco que ameaçava ir ao fundo e que era preciso manter à superfície.
Foi preciso chegar ao Verão de 2011 para que, finalmente, se corrigisse a rota. Faltava menos de meio ano para subir a cortina e havia que começar de novo. Era preciso golpe de asa para evitar o desastre anunciado.
Sem tempo para lamber as feridas, era urgente voltar a ganhar os vimaranenses. Afinal, dos trabalhos de Hércules que tinham pela frente, este acabou por ser o mais simples. Tu fazes parte. Envolvimento deixou de ser uma palavra vazia. Eu faço parte. Os cidadãos responderam ao chamamento. Nós fazemos parte. A cidade cabisbaixa erguia-se de novo, carregada de orgulho de si.
E 2012, em vez do naufrágio anunciado, foi tempo de celebração colectiva de Guimarães, cidade de cultura, da Europa e do Mundo.
A medalha que hoje Guimarães te entrega constitui um acto de justiça elementar que, antes de o sabermos, todos adivinhávamos. Porque, quando havia tudo para que desse errado, tu, com a tua inteligência, persistência e capacidade para fazer pontes entre margens adversas, foste o homem certo para assumir os destinos da nau arrombada que andava à deriva no meio da mais tormentosa das tempestades.
Vimaranenses não são apenas os que nasceram em Guimarães. Vimaranenses são, como tantas vezes ouvi a Santos Simões, os que aprendem a amar Guimarães.
Ser vimaranense é fazer parte de um colectivo de homens e mulheres que partilham um modo de ser singular.
Tu fazes parte, João.
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