30 de outubro de 2008

29 de outubro de 2008

28 de outubro de 2008

27 de outubro de 2008

26 de outubro de 2008

25 de outubro de 2008

Proposta de Bernardino Machado para entregar as Dominicas à SMS

Bernardino Machado


Em 1834, uma medida do governo liberal, proposta por Joaquim António de Aguiar, que assim adquiriu o cognome de Mata Frades, decretou a extinção das ordens religiosas em Portugal. Enquanto que os frades tiveram que abandonar de imediato os conventos, as freiras foram autorizadas a permanecer nos seus recolhimentos até à morte da última delas, não sendo autorizadas novas ordenações. Deste modo, os Conventos passaram para a posse do Estado, que lhes deu diferentes destinos. O Convento de Santa Rosa do Lima (cuja última religiosa viria a falecer em Março de 1888), foi objecto de uma proposta de lei, apresentada por Bernardino Machado (à altura, deputado pelo Partido Regenerador, eleito por Lamego), que visava entregá-lo à Sociedade Martins Sarmento, que então ensaiava os primeiros passos. Aqui se transcreve o extracto do “Diário da Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa”, sessão de 27 de Março de 1883, com a intervenção e a proposta de Bernardino Machado:

Projecto de lei

Senhores. - Entre as instituições de iniciativa particular que mais caracteristicamente revelam um novo e intenso movimento nacional tendente a melhorar a instrução pública, deve ser mencionada a sociedade Martins Sarmento, promotora da instrução popular no concelho de Guimarães.
Fundada por alguns cidadãos de Guimarães, esta auspiciosa instituição, apesar dos recursos apoucados em terra do província, e não obstante o pouco tempo decorrido desde a sua fundação, demonstrou logo por um modo eloquente a alta importância dos seus fins, já criando um instituto onde, alem da instrução primaria elementar e complementar, se professam as disciplinas do curso geral dos liceus; já fundando cursos nocturnos de francês e desenho para artistas; já criando em poucos meses, à custa de importantes donativos, uma valiosa biblioteca, que conta hoje perto de 5.000 volumes de grande merecimento; já, enfim, distribuindo prémios aos alunos mais distintos das escolas de todo o concelho.
Isto mereceu do governo de Sua Majestade uma portaria, na qual foi reconhecido e louvado o relevante serviço prestado à causa da instrução pública.
Esta instituição merece, portanto, toda a protecção oficial.
A sociedade luta ainda com dificuldades de organização, avultando, entre outras, a de falta de uma casa própria.
Há na cidade um antigo convento das religiosas de Santa Rosa de Lima, que deve ser suprimido em época não muito afastada, atenta a avançada idade das religiosas que ainda o habitam.
Acha-se o edifício em condições favoráveis para nele se estabelecerem escolas, bibliotecas e algumas oficinas, quando possa fundar-se uma instituição de ensino profissional.
Por estas razões, tenho a honra de apresentar o seguinte projecto de lei.
Artigo 1.º É concedido à sociedade Martins Sarmento, promotora da instrução popular no concelho de Guimarães, o edifício, sua pequena cerca e mais pertenças, do convento das religiosas de Santa Rosa de Lima, da cidade de Guimarães, para estabelecer nele a sua biblioteca popular e publica, e as suas escolas já fundadas, ou que de futuro venha a fundar.
§ único. A sociedade somente tomará posse do edifício, cerca e pertenças, depois do falecimento da última religiosa professa que nele habita.
Art. 2.° Esta concessão ficará sem efeito, revertendo para a fazenda nacional o edifício, cerca e mais pertenças, quando deixem de ter a aplicação para que são concedidas.
Art. 3.° Fica revogada a legislação em contrário. = Bernardino Machado.
Enviado à comissão de fazenda, ouvida a de administração pública.
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24 de outubro de 2008

23 de outubro de 2008

22 de outubro de 2008

Do Nascimento de Afonso Henriques (3)

Corria o duodécimo século da Redenção do Mundo, quando deu princípio à Monarquia Portuguesa o grande coração, e incomparável valor d’el-Rei D. Afonso Henriques, que nasceu na Vila de Guimarães a 25 de Julho do ano 1109. Em vida da Rainha sua mãe não teve mais título, que o de Infante; por sua morte usou do de Príncipe. Entrou a governar a 24 de Junho do ano de 1128 e no de 1139 foi aclamado Rei a 25 de Julho (dia em que a Igreja celebra a festa do Apóstolo Santiago, insigne Patrão de Espanha) na famosa vitoriado Campo de Ourique, em que triunfou do formidável poder Mauritano, e em que ficarão vencidos cinco Reis, a que acompanhavam muitos Príncipes poderosos, fabricando naquele memorável dia o Ceptro Português, e segurando a sua perpetuidade na prodigiosa visão de Cristo Senhor Nosso, como o mesmo Rei testemunhou no juramento, que deu na presença da sua Corte, treze anos depois de passada a dita visão.

D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Lisboa, 1734, Tomo I, Cap. II, pág. 32.
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21 de outubro de 2008

Do Nascimento de Afonso Henriques (2)

Vindo o ano de MXCIIII, estando a Rainha Dona Teresa em Guimarães pariu um filho, que se chamou Dom Afonso, como o Imperador seu avô: e por sobrenome Henriques por o Conde Dom Henrique seu pai. Uns diziam que nasceu na Síria, e foi baptizado no rio Jordão, pressupondo que o Conde Dom Henrique passou com sua mulher a Rainha Dona Teresa à guerra de ultramar. O que é tão fabuloso, como adiante se dirá. Outros que são mais para crer, dizem que nasceu em Guimarães aleijado das pernas, que da nascença trouxe encolheitas, e que Dom Egas Moniz o pedira ao Conde para o criar em sua casa, e que o Conde lho dera e o levou e o criou, e que por milagre de nossa Senhora, a que o encomendaram, sarou.

Crónica do Conde D. Henrique, in Crónicas dos Reis de Portugal, reformadas pelo Licenciado Duarte Nunes de Leão, [1677], ed. Lello & Irmão, Porto, 1975, pág. 23

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20 de outubro de 2008

Sobre a Sociedade Patriótica Vimaranense

No rescaldo da Guerra Civil, surgiu em Guimarães a célebre Sociedade Patriótica Vimaranense, cuja história traça, sumariamente, este texto de 1884 do Abade de Tagilde:

Esta sociedade, que fora fundada pelos esforços do então juiz de direito desta comarca, António Clemente de Sousa Gião, chegou a contar 117 sócios, que se propuseram promover os interesses locais.
Inaugurada com o maior entusiasmo, que pároco prometia salutares resultados para os melhoramentos deste Concelho, não correspondeu à expectativa dos habitantes da Guimarães, que em grande número concorria às sessões, que eram públicas e celebradas no tribunal judicial, então em S. Francisco.
Consumidas bastantes sessões na discussão dos Estatutos, cujo relator foi o falecido deputado José Fortunato Ferreira do Castro, sessões que por vezes correram animadas, misturadas de incidentes curiosos, foram estes confeccionados e depois aprovados por portaria do Ministério do Reino de 1 Março de 1836.
Nomeadas comissões de agricultura, de instrução, etc., não nos consta que resultados dignos de menção se possam apontar.
Entre as sessões mais importantes indicaremos a primeira, 25 de Outubro do 1835, em que entre os maiores aplausos o ao som de inúmeros foguetes se colocou na sala das sessões o retrato da Rainha a Senhora D. Maria II e se nomeou a direcção de que foi presidente o já citado juiz, vice-presidentes José Fortunato Ferreira de Castro e Jerónimo Martins da Custa, secretários José de Sousa Bandeira e José Joaquim Fernandes; a de 31 de Janeiro de 1836, em que um dos sócios propôs a demolição do nosso venerando Castelo, devendo a pedra ser empregada em ladrilhar as ruas, e isto pelo único motivo de ele haver servido de prisão política no tempo de D. Miguel. (Ainda bem que tal proposta não teve seguidores.)
A ultima sessão celebrada na casa das audiências teve lugar no dia 3 de Julho de 1836, passando depois a celebrarem-se em casa do então presidente, o 2.° barão de Vila Pouca.
Na sessão de 20 de Dezembro de 1839 presidida por este ilustre titular e reunida no seu palácio, estando presentes muitos dos sócios, a Sociedade Patriótica Vimaranense, que de facto já estava extinta, foi unanimemente dissolvida, resolvendo-se que o seu capital, 93$290 réis, fosse entregue à Câmara para obras municipais, bem como o livro das actas e outros objectos pertencentes à Sociedade e que estavam confiados ao contínuo.
Esta resolução não foi do agrado de alguns dos sócios, que não estavam presentes, o que sabemos pelos protestos lavrados no livro das respectivas actas, que existe no arquivo municipal.
Assim terminou uma Sociedade, bem digna de que melhores auras a bafejassem.
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19 de outubro de 2008

Do Nascimento de Afonso Henriques (1)

Do ponto de vista do conhecimento histórico, do nascimento de D. Afonso Henriques sabe-se muito pouco. Em contrapartida, há uma forte tradição, em parte construída em referências históricas, em parte sustentada pela força de mitos, que nos descreve a vinda ao Mundo daquele que seria o rei fundador de Portugal e dos milagres que teriam envolvido o seu nascimento. Em 1692, o Padre Torcato Peixoto de Azevedo contava assim o nascimento de Afonso Henriques na vila de Araduca (Vila Velha de Guimarães):


Em que se da conta do nascimento d'el-rei D. Afonso Henriques.

Nasceu el-rei D. Afonso Henriques na vila velha do Araduca em 1094, e na paróquia de S. Miguel foi baptizado pelo arcebispo de Braga S. Geraldo, na pia que depois se trasladou para a Real Colegiada, aonde se venera. Trouxe este príncipe em seu nascimento as pernas pegadas por detrás uma na outra, aleijão que deu tanto sentimento a seus pães, que o não queriam dar a criara D. Egas Moniz, a quem o tinham prometido antes do parto, pela grande deformidade com que Deus lho quis mostrar, mas movidos de seus rogos, e instâncias lho entregaram, a quem o bom vassalo criou com tanto resguardo, como se fora em saúde perfeita. Mas a Virgem Nossa Senhora apiedando-se de quem sabia que na vida lhe havia fazer grandes serviços, e depois do sua morte lhos haviam continuar seus sucessores, de tal maneira que não se contentando em fazer venerar seu santo nome na Espanha, o levaram à veneração das terras orientais. Inflamado no amor que já então tinha para com os reis de Portugal, ouvindo as orações dos lastimosos pais do menino, apareceu a D. Egas Moniz em sonhos, e lhe disse, fosse a um lugar junto da cidade de Lamego chamado Carqueres, e que mandando cavar achariam ali uma igreja, que se havia em outro tempo começado em seu nome, e uma sua imagem, que concertando tudo, e fazendo aí vigília pusesse o menino sobre o altar, e que logo sararia.

Dizem os cronistas que a Gloriosa Virgem encomendara a D. Egas Moniz, que daí em diante criasse o menino com o mesmo resguardo com que até ali o fazia: porque seu amado filho tinha determinado por ele, e seus descendentes, destruir muitos inimigos de seu nome, e como não faltava poder em quem isto prometia para o efectuar, se cumpriu sua palavra: porque em todos os reis descendentes d'el-rei D. Afonso Henriques se experimentou entranhável desejo de destruir os inimigos de Jesus Cristo: e contra eles fizeram muitas guerras por mar, e terra. Tudo o que em sonhos foi mandado fazer D. Egas Moniz, ele o cumpriu como se podia esperar, e o príncipe menino ficou de todo são.

Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, [1692], Porto, 1845, págs. 182-183.

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18 de outubro de 2008

17 de outubro de 2008

16 de outubro de 2008

15 de outubro de 2008

14 de outubro de 2008

12 de outubro de 2008

As feiras de Guimarães, no último quartel do séc. XIX

A feira semanal de Guimarães, em 1908, no Largo de S. Francisco.

Nos seu Apontamentos, publicados pela primeira vez em 1881, o Padre Caldas descreve as feiras de Guimarães, num texto que ganha nova actualidade agora que está na ordem do dia a mudança de local da feira semanal. Aqui fica.


Guimarães, como centro comercial de notáveis povoações, tinha feiras importantes e concorridíssimas, que pouco a pouco se foram definhando, já pela facilidade das comunicações, já pela propagação de todos os ramos de comércio nessas povoações circunvizinhas e aldeias rurais. Todavia ainda hoje há aqui feiras bastantemente animadas, sendo destas a mais notável a

Feira Semanal, aos sábados, muito concorrida e considerada como das primeiras do país – se não a primeira; é abundantíssima em todos os géneros, principalmente em gado bovino e suíno, cereais, madeiras, linhos, etc.

Parece que em 1723 era esta feira quinzenal, porque existe na câmara uma provisão passada em Lisboa no 1º de Dezembro desse ano, mandando: que os gados se apartem para o Campo da Feira por ocasião da feira de materiais e fazendas, que aqui tinha lugar aos sábados de quinze em quinze dias; e isto para evitar as desordens, confusão e roubos, a que dava lugar tanta aglomeração de povo num mesmo sítio.

Hoje ocupa esta feira os largos mais espaçosos e centrais da cidade, tendo lugar no Campo de D. Afonso Henriques a feira do gado, que em 1681 era no largo fronteiro e lado norte da igreja de S. Sebastião, mandando a câmara em sessão de 6 de Setembro desse ano, que o gado se estenda da porta da alfândega para o lado de S. Dâmaso para não arruinar o rocio do Toural, que era o melhor da vila, e a 10 de Maio de 1834 resolveu igualmente a câmara mudar a feira do pão do largo fronteiro a S. Sebastião para o largo de S. Francisco, onde actualmente se conserva.

Feira Anual de S. Gualter. É de gado cavalar e tem lugar no Campo da Feira e ruas adjacentes, no primeiro domingo de Agosto e dia seguinte. Decaiu muito da sua antiga importância na transacção e concorrência do gado; mas em compensação é hoje mais concorrida por negociantes ambulantes, que ali levantam muitas barracas vendendo nelas fazendas brancas e quinquilharias, e exibindo cosmoramas e outros variados divertimentos. Neste género prolonga-se a feira por dias indeterminados, sendo às noites muito concorrida pelos habitantes da cidade. Antigamente principiava esta feira a 10 de Agosto e terminava a 17; e em virtude dum requerimento dos vereadores oficiais, homens bons e povo da vila foi mudada para o dia 15 por diante, por carta de D. Manuel, dada em Lisboa a 29 de Junho de 1511 e confirmada por el-rei D. João em Almeirim a 9 de Março de 1526.

Feira Anual da Rosa. É de gado bovino e tem lugar no Campo de D. Afonso Henriques no primeiro domingo de Maio. Antigamente traziam os lavradores neste dia o seu gado enfeitado com flores e iam à porta lateral sul da igreja do extinto convento de S. Domingos aspergi-lo com água benta, que os frades lhes ministravam numa grande bacia de cobre, colocada fora da sobredita porta. Esta feira é hoje ainda bastante concorrida.

Feira Anual de Santa Luzia. É a 13 de Dezembro, dia consagrado à santa que lhe dá o nome. É concorrida pelos habitantes das aldeias circunvizinhas, que nesse dia vêm aqui fornecer-se de géneros alimentícios para a próxima festa do Natal. Não é feira oficial, mas de costume.

In Padre António José Ferreira Caldas, Guimarães - Apontamentos para a sua História [1881], 2.ª ed., SMS/CMG, Guimarães, 1996, págs. 91-92.

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11 de outubro de 2008

9 de outubro de 2008

5 de outubro de 2008

A Proclamação da República em Guimarães

A antiga Câmara Municipal de Guimarães

A República foi proclamada em Guimarães no dia 8 de Outubro de 1910, com o hasteamento da bandeira na Câmara Municipal. A imprensa que então se publicava em Guimarães, com manifestas simpatias monárquicas, acolheu a notícia da instauração do novo regime sem grande entusiasmo. O Comércio de Guimarães, por exemplo, no primeiro número que publicou já na vigência da República, optou por preencher a maior parte da sua primeira página com um texto sobre “os cuidados no lagar e o envazilhamento do vinho”, reservando algum espaço para inserir uma nota em que, sob o título “O Novo Regímen”, anunciava a sua intenção de continuar a “pugnar, como sempre o tem feito, pelos interesses morais e materiais de Guimarães”, conservando “a sua atitude de defensor dos interesses da Pátria e da Igreja”. A (breve) notícia sobre a implantação da República em Guimarães aparece quase escondida na página 3, entre uma nota curiosa que fala de “uma mesa feita com restos humanos” e uma outra sobre um “seguro contra assassinos”. Aqui fica:


Proclamação da República

Como em quase todas as terras do país, em Guimarães também houve manifestações de regozijo pelos adeptos do novo regime.

Os republicanos têm sido correctos e bastante moderados nas suas manifestações, não havendo, no meio de tanto movimento, uma única nota discordante.

A não ser vivos comentários e manifestações, nada de anormal se tem passado em Guimarães.

Algumas casas religiosas têm sido policiadas, o que a nosso ver seria desnecessário, pois cremos que todos estão no firme propósito de respeitar e fazer respeitar a lei,

No dia 8 foi solenemente proclamada a República nesta cidade,

Havia grande movimento e animação.

Foi içada a bandeira na Câmara Municipal, no meio de vivas à República, ao Exército, à Pátria, ao povo português, etc., etc.

O largo fronteiro àquele edifício achava-se repleto de povo, bem como estacionavam ali duas bandas de música e a banda regimental que fez a devida continência à bandeira.

Em seguida, também foi içada a bandeira no quartel de infantaria 20 repetindo-se as manifestações de regozijo.

Alguns dias e noites percorreu as ruas uma marcha “aux flambeaux”, vendo-se à sua frente alguns conhecidos republicanos que entusiasmados soltavam vivas e empunhavam bandeiras republicanas.

Em todo o percurso houve boa ordem, debandando tudo sem incidentes.

Alguns edifícios particulares hastearam bandeiras e iluminaram as suas fachadas.

[Comércio de Guimarães, n.º 2495, de 11 de Outubro de 1910]

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3 de outubro de 2008

O Castelo de Guimarães, num texto de Alberto Sampaio

O Castelo de Guimarães no início do século XX


O Castelo de Guimarães

Consta das Inquirições (pág. 736 e 737) que Afonso Henriques deu aos moradores intus castelli, frase que empregam sempre, certos privilégios, confirmados por Sancho I. E aí o rei, além de açougues, de um forno e terreno não edificado, tinha a sua própria habitação; - “et aliud casale quod tenet Petrus Gomecii qui moratur in Castello Vimarañ non dat ullam derecturam. Interrogatus quare, dixit quod propter quod habet varrere ipsas domos castelli Domini Regis et curare illas et revolvere in quolibet anno” (Inq., pág. 723, 1.ª col.). A estas domos chama com propriedade o conde D. Henrique nosso Paço Real na doação, feita por ele e pela rainha D. Teresa a Amberto Tibaldi, de certo campo “quem habemus in Villa de Vimaranis et jacet juxta Palatium nostrum Regale, et ex alia parte sicut dividiteum clausis Ecclesiae Sanctae Mariae, deinde sicut intestat cum atrio ejusdem Ecclesiae” (Souza, Provas, tom. I pág. 3; cf. Herc., Hist. de Port., III, pág. 214, 2.ª ed ). As Inquirições distinguem o lugar Sancti Michaelis Castelli Vimarañ da Ville Vimarañ (pág. 736 e 727) No primeiro ficava o palácio e pegado com ele o campo já na Villa Vimarañ, o qual vinha desde cima entestar com o adro da igreja de Santa Maria. O palácio estava porventura no mesmo sítio, onde por doação do pai, o primeiro duque de Bragança levantou a vivenda monumental (hoje quartel militar), visto que as doações régias recaíam sempre em imóveis do plena propriedade da coroa. Perto pois da fortaleza iniciada no século X e abrigada por ela, existiu uma povoação antes da monarquia portuguesa, onde pousariam os reis de Leon, quando vinham à província, e de ordinário os condes que a administravam. Estabelecendo aí a sua residência o conde D. Henrique o D. Teresa, não admira que por tal motivo o povo lhe chamasse logo villa em virtude das prerrogativas da sede do governo e por isso velha em relação ao povoado em baixo, sem elas, junto do mosteiro.

QUANTO AO CASTELO EXISTENTE, COM CERTEZA NÃO PODE SER NA TOTALIDADE O PRIMITIVO NEM TALVEZ O DO TEMPO DE AFONSO III. A torre de menagem tem, é facto, a porta em arco e as ameias são de duas peças, posto que do tipo das outras: mas depois da ogiva que se vê nos torreões da muralha envolvente, o que apareceu em França do século XII por diante, construiu-se com as duas formas e com padieira direita (cf. de Caumont). A mesma porta referida está nivelada com a muralha, de modo a receber ingresso dela pela ponte levadiça. Em geral o edifício deixa-nos a impressão de um plano uniforme, parecendo ser o sistema de construção idêntico em todo. As muralhas que circundaram os dois povoados urbanos, foram edificados por D. Diniz e por D. Fernando; por D. João I as torres das portas, infelizmente hoje demolidas, das quais apenas subsiste um pequeno resto da de S. Paio. EM QUALQUER DESTES REINADOS, TALVEZ NO PRIMEIRO, O CASTELO FOI REEDIFICADO NA FORMA ACTUAL SE NÃO NO TODO PELO, MENOS NA MAIOR PARTE.

Alberto Sampaio.

1903.

[Texto publicado no jornal Independente, de Guimarães, em 5 de Agosto de 1911]

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1 de outubro de 2008

A "Cortejo Cívico" do 8.º Centenário de Afonso Henriques

Carro Histórico, comemorativo da Fundação de Portugal, concebido por Abel Cardoso (in Armindo Cachada, Cem anos da Marcha Gualteriana nas Festas da Cidade).

Em 1911, num tempo em que se colocava o nascimento de D. Afonso Henriques no ano de 1111, Guimarães celebrou o 8.º centenário do rei fundador com um cortejo cívico que integrou o programa das Gualterianas. O cortejo alegórico percorreu as ruas da cidade, em direcção ao Castelo, levando um acompanhamento musical composto por uma charanga, uma festada minhota e seis bandas de música, entre as quais se contava a do Regimento de Infantaria 20. Eis o programa do cortejo, tal como foi publicado no jornal Independente de 22 de Julho de 1911:

A Festa da Cidade

Comemoração solene

do VIII centenário do nascimento de D. Afonso Henriques

É este o dia principal das Gualterianas, consagradas neste ano ao ilustre Vimaranense que foi o Fundador da nossa nacionalidade.

Guimarães veste as suas melhores galas.

A Praça do Toural, para onde foi transferida a bela estátua da Rei Conquistador; a Praça de D. Afonso Henriques, transformada num amplo e formoso jardim público, as ruas de S. Dâmaso, Campo da Feira, Senhora da Guia e rua da Rainha, ostentarão vistosas decorações, executadas por Emiliano Abreu, segundo desenhos dos nossos distintíssimos artistas e ilustres professores Abel Cardoso e José de Pina.

O Toural será uma página dos Lusíadas, com as estâncias em que Camões cantou os feitos heróicos do Primeiro Português e com escudos onde se comemoram as conquistas e as vitórias de D. Afonso Henriques.


Pelas 11 horas do dia sairá da rua de Paio Galvão

O Cortejo Cívico

que deve constituir um dos mais belos números dote programa e que será organizado pela ordem seguinte :

I – Dois arautos, ladeando o porta-estandarte – cavaleiro vestido à época, conduzindo o estandarte branco de Afonso Henriques.

II – Um grupo do cavaleiros, vestindo como os guerreiros do século XII.

III – Carro Histórico, obra monumental de Abel Cardoso.

IV – Charanga de Cavalaria.

V – Corporação dos Bombeiros Voluntários de Guimarães e de Vizela, com algum material adornado.

VI – Banda de música.

VII – Escolas primárias oficiais.

VIII – Carro das escolas.

IX – Banda de música.

X – Grupo da Agricultura, no qual se incorporam os bois premiados na feira gualteriana, grupos de operários de lavoura, carro de alfaias agrícolas, grupo de ceifeiras, espadelada, festada minhota e carro da Casa Herold.

XI – Operários das fabricas de fiação e tecidos, de camisolas, de pentes, etc., e grupo de raparigas minhotas, cantando.

XII – Carro da Indústria, magnífico projecto de José de Pina.

XIII – Banda de música.

XIV – Associações de classe com as suas bandeiras.

XV – Banda de música.

XVI – Associações de recreio, dos Empregados de Comércio, Club de Caçadores e Grupo do Propaganda “Por Guimarães”.

XVII – Banda de música.

XVIII – Academia, professorado, Imprensa periódica, Sociedade Martins Sarmento, autoridades civis e militares, Associação Comercial, Câmara Municipal, representantes do Governo e, fechando o préstito, o regimento de infantaria 20 com a respectiva banda de música.

O Itinerário

do cortejo será o seguinte:

Rua de Paio Galvão, Toural (poente), Praça de D. Afonso Henriques (contornando), Toural (nascente), rua de Santo António até ao Castelo de Guimarães.

No sopé da estátua e no Castelo de Guimarães serão inauguradas inscrições com os seguintes dizeres:

Guimarães a D. Afonso Henriques

no VIII centenário do seu nascimento

VI-VIII-MCMXI

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