3 de outubro de 2008

O Castelo de Guimarães, num texto de Alberto Sampaio

O Castelo de Guimarães no início do século XX


O Castelo de Guimarães

Consta das Inquirições (pág. 736 e 737) que Afonso Henriques deu aos moradores intus castelli, frase que empregam sempre, certos privilégios, confirmados por Sancho I. E aí o rei, além de açougues, de um forno e terreno não edificado, tinha a sua própria habitação; - “et aliud casale quod tenet Petrus Gomecii qui moratur in Castello Vimarañ non dat ullam derecturam. Interrogatus quare, dixit quod propter quod habet varrere ipsas domos castelli Domini Regis et curare illas et revolvere in quolibet anno” (Inq., pág. 723, 1.ª col.). A estas domos chama com propriedade o conde D. Henrique nosso Paço Real na doação, feita por ele e pela rainha D. Teresa a Amberto Tibaldi, de certo campo “quem habemus in Villa de Vimaranis et jacet juxta Palatium nostrum Regale, et ex alia parte sicut dividiteum clausis Ecclesiae Sanctae Mariae, deinde sicut intestat cum atrio ejusdem Ecclesiae” (Souza, Provas, tom. I pág. 3; cf. Herc., Hist. de Port., III, pág. 214, 2.ª ed ). As Inquirições distinguem o lugar Sancti Michaelis Castelli Vimarañ da Ville Vimarañ (pág. 736 e 727) No primeiro ficava o palácio e pegado com ele o campo já na Villa Vimarañ, o qual vinha desde cima entestar com o adro da igreja de Santa Maria. O palácio estava porventura no mesmo sítio, onde por doação do pai, o primeiro duque de Bragança levantou a vivenda monumental (hoje quartel militar), visto que as doações régias recaíam sempre em imóveis do plena propriedade da coroa. Perto pois da fortaleza iniciada no século X e abrigada por ela, existiu uma povoação antes da monarquia portuguesa, onde pousariam os reis de Leon, quando vinham à província, e de ordinário os condes que a administravam. Estabelecendo aí a sua residência o conde D. Henrique o D. Teresa, não admira que por tal motivo o povo lhe chamasse logo villa em virtude das prerrogativas da sede do governo e por isso velha em relação ao povoado em baixo, sem elas, junto do mosteiro.

QUANTO AO CASTELO EXISTENTE, COM CERTEZA NÃO PODE SER NA TOTALIDADE O PRIMITIVO NEM TALVEZ O DO TEMPO DE AFONSO III. A torre de menagem tem, é facto, a porta em arco e as ameias são de duas peças, posto que do tipo das outras: mas depois da ogiva que se vê nos torreões da muralha envolvente, o que apareceu em França do século XII por diante, construiu-se com as duas formas e com padieira direita (cf. de Caumont). A mesma porta referida está nivelada com a muralha, de modo a receber ingresso dela pela ponte levadiça. Em geral o edifício deixa-nos a impressão de um plano uniforme, parecendo ser o sistema de construção idêntico em todo. As muralhas que circundaram os dois povoados urbanos, foram edificados por D. Diniz e por D. Fernando; por D. João I as torres das portas, infelizmente hoje demolidas, das quais apenas subsiste um pequeno resto da de S. Paio. EM QUALQUER DESTES REINADOS, TALVEZ NO PRIMEIRO, O CASTELO FOI REEDIFICADO NA FORMA ACTUAL SE NÃO NO TODO PELO, MENOS NA MAIOR PARTE.

Alberto Sampaio.

1903.

[Texto publicado no jornal Independente, de Guimarães, em 5 de Agosto de 1911]

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