12 de outubro de 2008

As feiras de Guimarães, no último quartel do séc. XIX

A feira semanal de Guimarães, em 1908, no Largo de S. Francisco.

Nos seu Apontamentos, publicados pela primeira vez em 1881, o Padre Caldas descreve as feiras de Guimarães, num texto que ganha nova actualidade agora que está na ordem do dia a mudança de local da feira semanal. Aqui fica.


Guimarães, como centro comercial de notáveis povoações, tinha feiras importantes e concorridíssimas, que pouco a pouco se foram definhando, já pela facilidade das comunicações, já pela propagação de todos os ramos de comércio nessas povoações circunvizinhas e aldeias rurais. Todavia ainda hoje há aqui feiras bastantemente animadas, sendo destas a mais notável a

Feira Semanal, aos sábados, muito concorrida e considerada como das primeiras do país – se não a primeira; é abundantíssima em todos os géneros, principalmente em gado bovino e suíno, cereais, madeiras, linhos, etc.

Parece que em 1723 era esta feira quinzenal, porque existe na câmara uma provisão passada em Lisboa no 1º de Dezembro desse ano, mandando: que os gados se apartem para o Campo da Feira por ocasião da feira de materiais e fazendas, que aqui tinha lugar aos sábados de quinze em quinze dias; e isto para evitar as desordens, confusão e roubos, a que dava lugar tanta aglomeração de povo num mesmo sítio.

Hoje ocupa esta feira os largos mais espaçosos e centrais da cidade, tendo lugar no Campo de D. Afonso Henriques a feira do gado, que em 1681 era no largo fronteiro e lado norte da igreja de S. Sebastião, mandando a câmara em sessão de 6 de Setembro desse ano, que o gado se estenda da porta da alfândega para o lado de S. Dâmaso para não arruinar o rocio do Toural, que era o melhor da vila, e a 10 de Maio de 1834 resolveu igualmente a câmara mudar a feira do pão do largo fronteiro a S. Sebastião para o largo de S. Francisco, onde actualmente se conserva.

Feira Anual de S. Gualter. É de gado cavalar e tem lugar no Campo da Feira e ruas adjacentes, no primeiro domingo de Agosto e dia seguinte. Decaiu muito da sua antiga importância na transacção e concorrência do gado; mas em compensação é hoje mais concorrida por negociantes ambulantes, que ali levantam muitas barracas vendendo nelas fazendas brancas e quinquilharias, e exibindo cosmoramas e outros variados divertimentos. Neste género prolonga-se a feira por dias indeterminados, sendo às noites muito concorrida pelos habitantes da cidade. Antigamente principiava esta feira a 10 de Agosto e terminava a 17; e em virtude dum requerimento dos vereadores oficiais, homens bons e povo da vila foi mudada para o dia 15 por diante, por carta de D. Manuel, dada em Lisboa a 29 de Junho de 1511 e confirmada por el-rei D. João em Almeirim a 9 de Março de 1526.

Feira Anual da Rosa. É de gado bovino e tem lugar no Campo de D. Afonso Henriques no primeiro domingo de Maio. Antigamente traziam os lavradores neste dia o seu gado enfeitado com flores e iam à porta lateral sul da igreja do extinto convento de S. Domingos aspergi-lo com água benta, que os frades lhes ministravam numa grande bacia de cobre, colocada fora da sobredita porta. Esta feira é hoje ainda bastante concorrida.

Feira Anual de Santa Luzia. É a 13 de Dezembro, dia consagrado à santa que lhe dá o nome. É concorrida pelos habitantes das aldeias circunvizinhas, que nesse dia vêm aqui fornecer-se de géneros alimentícios para a próxima festa do Natal. Não é feira oficial, mas de costume.

In Padre António José Ferreira Caldas, Guimarães - Apontamentos para a sua História [1881], 2.ª ed., SMS/CMG, Guimarães, 1996, págs. 91-92.

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