22 de dezembro de 2006

Os Milagres da Oliveira

O final da Idade Média é marcado pela frequência de cataclismos que atemorizavam as gentes: a trilogia sinistra da fome, da peste e da Guerra. Impotentes perante os males que lhes invadiam o quotidiano, os homens voltavam-se para Deus, na esperança de encontrarem no sobrenatural a protecção para as suas aflições. A testemunhar este sentido da espiritualidade medieval, onde o maravilhoso e o fantástico marcavam uma presença muito forte, surgem novos santuários, aprofunda-se o culto das relíquias com poderes protectores e curativos contra as mais diversas maleitas, aparece um novo tipo de literatura em que se narram os milagres e prodígios associados aos santos e aos santuários.

Em Guimarães, a religiosidade popular cresceu à sombra de uma das marcas simbólicas da identidade local: a oliveira, que marca presença na história, nas tradições, no imaginário e nas crenças dos vimaranenses. A oliveira está presente nas armas da cidade e dela tomaram o nome a Colegiada e a Praça Maior. A árvore de que aqui se fala foi trazida, talvez no início do século XIV, do mosteiro de S. Torcato, onde dava azeite com que se alumiava o santo. Foi plantada junto à Colegiada, onde acabou por secar. Ficaria associada a uma série impressionante de milagres ocorridos no curto espaço de meio ano. O primeiro seria o do seu reverdecimento.

Os prodígios de que falámos aqui estão descritos no Livro dos Milagre de Nossa Senhora da Oliveira da Real Colegiada de Guimarães, pela pena do tabelião Afonso Peres, que o redigiu numa prosa despojada e sem pretensões estilísticas, ao estilo dos registos notariais, mas que, por datar de antes de antes do ano da Peste Negra (1348) tem o valor, se outro não tivesse, de ser a mais antiga obra do seu género escrita em português. O original deste documento perdeu-se, tendo chegado ao nosso conhecimento através de um apógrafo (cópia) transcrito em 1351 pelo tabelião Antoninho Lourenço, a pedido do cónego Esteve Anes. A versão mais antiga do Livro dos Milagres encontra-se na Torre do Tombo, para onde foi conduzida em 1863, juntamente com uma outra cópia incompleta do mesmo. Conhecem-se dois outros apógrafos, um de 1620, que está no Arquivo de Guimarães, e outro de 1645, que agora pertence ao Arquivo da Universidade de Coimbra. Acaba de ser publicado um valioso estudo sobre o Livro de Milagres de Nossa Senhora de Oliveira, da autoria da investigadora Célia Cristina Fernandes, que inclui uma edição crítica e comparada das quatro versões conhecidas deste precioso documento.

O Livro dos Milagres foi produzido no contexto do processo de afirmação da Colegiada de Guimarães enquanto centro de culto mariano. É uma obra que se enquadra num género muito popular ao longo da Idade Média e da Idade Moderna, marcado por intenções moralizadoras e instrutivas, mas também com claros propósitos propagandísticos, já que visava atrair peregrinos para os santuários onde os milagres ocorriam. Ao longo do século XIV, a Colegiada de Guimarães, enquanto espaço de culto a Nossa Senhora, foi ganhando dimensão e conquistando devotos, dos quais o mais destacado será, seguramente, o rei D. João I.

No Livro dos Milagres são descritos 45 prodígios operados por Nossa Senhora: o milagre da ressurreição da oliveira e 44 curas milagrosas. Todos os milagres acontecem próximo da Oliveira (com uma única excepção, uma mulher de Coimbra, que estava “inchada de morte” e se salvou). Os miraculados são originários de um espaço muito alargado, que vai desde Viana do Castelo até Tomar. Curiosamente, só há duas pessoas de Guimarães (uma de Gondar, outra de Nespereira) que receberam a graça da cura por obra da Senhora da Oliveira.

O milagre operava-se através da restituição ao enfermo de algo que havia perdido ou lhe tinha sido retirado: a visão, a audição, a fala, o movimento ou o juízo. Mais de metade das curas milagrosas referem-se a cegos que passam a ver (23 casos). Em segundo lugar, foram agraciados endemoninhados, ou seja, pessoas com padecimentos que hoje associámos a distúrbios de foro psiquiátrico ou neurológico (11 casos). Quatro paralíticos (entolheitos) recuperaram o movimento, quatro), quatro mudos começaram a falar, uma surda voltou a ouvir e a tal mulher inchada sobreviveu a uma morte que parecia certa.

Todos estes milagres consagram uma relação de reciprocidade: o padecente recebe a graça, pagando-a, quase sempre, com uma procissão (a única excepção é a da miraculada de Coimbra, que ofereceu uma candeia à Senhora).

No seu estudo deste documento, Célia Fernandes procedeu à distribuição dos milagres pelos dias da semana, concluindo que o dia com maior número de milagres é o sábado (16), seguido do domingo (12) e da segunda-feira (9). As graças da Senhora concentram-se nestes três dias. Nos restantes quatro dias ocorrem, ao todo, menos milagres do que em qualquer um daqueles três (7). A quarta-feira não seria favorável a ocorrências milagrosas, não se registando qualquer caso nesse dia da semana.

Os prodígios descritos no Livro ocorrem num tempo bastante curto: entre 8 de Outubro de 1342 e 27 de Março de 1343. Muitas vezes se tem estranhado que, depois daquele período de grande actividade miraculosa da Senhora da Oliveira, praticamente não se conhecerem mais casos de milagres (no apógrafo de Coimbra, de 1645, foi acrescentado posteriormente um milagre que ocorreu em 1652 com a nau Nossa Senhora da Oliveira, que saiu incólume de um incêndio que devastou o galeão S. Paulo, quando ambos os barcos seguiam viagem para o Brasil). Martins Sarmento, em 1871, numa polémica que manteve com o Chantre da Colegiada sobre a Oliveira, dá-nos uma pista para explicar o fenómeno da cessação dos milagres:

Seja o que for, os procuradores das obras da Colegiada pediam traslados destes milagres, para os “mostrar aos fiéis de Deus cristãos para fazer de suas ajudas para a obra de Santa Maria”, e a caixa de esmolas do Padrão estava tão afreguesada que o Prior Propôs aos cónegos a troca dela pelos dízimos da igreja de Azurém, como já dissemos. O Cabido aceitou o contrato; mas, feito ele… os milagres acabaram!

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8 de dezembro de 2006

Passarinhas e sardões

No dia em que se celebra a mártir Santa Luzia, ocorre o arraial das passarinhas, uma das mais singulares festas tradicionais vimaranenses, onde a religiosidade popular surge embebida em manifestações de carácter profano, nas quais a fé no poder protector da Santa se encontra com práticas imbuídas de boa dose de malícia inofensiva.

A romaria de Santa Luzia tem lugar, em cada 13 de Dezembro, junto da pequena capela que é dedicada à padroeira dos males dos olhos, construída pelo ano de 1600, no mesmo lugar da rua que lhe tomou o nome onde antigamente se situava uma gafaria (recolhimento de leprosos) para mulheres. A origem desta romaria está esquecida na memória dos séculos. É promovida pela Colegiada da Oliveira, havendo fama de que o seu rendimento em dinheiro, resultante das ofertas dos devotos, não será desprezível. A devoção a Santa Luzia é, entre nós, muito grande, não se circunscrevendo ao dia da romaria (o dia do ano em que a capela está aberta), conforme pode testemunhar quem passa à sua porta e vê as velas que constantemente ali são postas a arder em cumprimento de promessas.

Apesar da passagem do tempo e da mudança de costumes, a romaria de Santa Luzia continua a marcar presença de relevo no calendário devocional e festivo das gentes de Guimarães, que acorrem em grande número para fazerem e cumprirem promessas. Durante a romaria, realiza-se uma feira, que se estende pelos passeios da rua, onde tradicionalmente se faz a venda dos frutos secos típicos desta época do ano, com a castanha como rainha.

A festa de Santa Luzia de Guimarães distingue-se de todas as outras por nela ocuparem lugar central, além da santa protectora dos olhos, uns objectos de diferentes formatos que se expõem nas bancas das vendedeiras, moldados em massa de centeio ou de trigo, revestidos com uma cobertura branca de açúcar e alindados com pedacinhos de papel colorido, fitas e laçarotes. Essas guloseimas açucaradas assumem diversas figuras, que representam, nomeadamente, cornetas, cruzes, relógios, cães ou cavalos. Mas, nesse dia, o centro das atenções é ocupado pelas passarinhas (que competem com Santa Luzia para darem o nome ao arraial) e pelos sardões.

Não será necessário grande conhecimento de linguagem simbólica nem de gíria de carácter sexual para fazer associações coloridas entre aqueles objectos e o seu significado. Entre as centenas de designações populares que se aplicam aos órgãos genitais feminino e masculino, a passarinha e o sardão são dos mais utilizados no linguarejar do nosso povo.

Tanto os nomes, como as formas daqueles objectos festivos (que, pormenor que convirá notar, são envolvidos por uma cobertura de açúcar), nos remetem para sobrevivências de cultos fálicos ancestrais, de que não faltam referências em velhas descrições no folclore português, mas que hoje já se encontram extintos ou em extinção em praticamente todo o lado. Mas não em Guimarães, como se vê.

É certo que vivemos tempos em que uma poderosa máquina de aculturação vai esmagando usos e costumes tradicionais de cunho local, substituindo-os por uma mitologia mais ou menos urbana com uma forte componente comercial, que explica, por exemplo, a moda, de importação recente, da celebração do dia de S. Valentim (santo manifestamente alienígena às nossas tradições), tornando-o num dia dos namorados com dimensão planetária.

Mas, entre nós, a romaria de Santa Luzia lá vai continuando a ser um momento de aproximação entre os sardões as passarinhas, ou seja, um dia em que os namorados se encontram e trocam prendas que são promessas amorosas.

No arraial das passarinhas, compram-se os agrados com que rapazes se esforçam por conquistar as raparigas dos seus corações, na esperança de receberem em troca uma prenda que é um sinal e um prometimento. Enquanto os romeiros se recolhem na capela, oram e pagam promessas à milagrosa, virtuosa e casta Santa Luzia, há gente moça que participa num ritual verdadeiro de acasalamento, durante o qual o rapaz entrega o sardão à rapariga dos seus sonhos esperando que ela lhe entregue, em troca, a sua passarinha, num jogo figurado onde afloram o amor, o desejo e uma porção q.b. de erotismo, porque a troca de presentes é a afirmação de um compromisso amoroso que envolverá sempre uma promessa de ir mais além. Como o descreveu o grande Alberto Vieira Braga, este é um momento de oferecimentos maliciosos, que tomam um cunho irreverente e avermelhado: “se me deres a passarinha, eu dou-te o meu sardão”…

No dia de Santa Luzia, oferecem-se também os segredos. São caixinhas de cartão no interior das quais, numa cama de algodão em rama, se recolhem, em miniatura, um sardão, uma passarinha e um coração que guarda um segredo, ou seja, uma dedicatória amorosa em forma de verso, que os rapazes oferecem às raparigas.

Embora o arraial das passarinhas tenha lugar durante a romaria de Santa Luzia, a troca destes presentes um tanto ou quanto lúbricos não é exclusiva desta festa, uma vez que também surge no arraial da Senhora da Conceição, que tem lugar no dia 8 de Dezembro.

Ninguém sabe dizer ao certo quando começou este costume. Faça-se para que nunca se venha a saber quando acabou.
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10 de novembro de 2006

Os forais de Guimarães

Um foral é uma carta de lei, através do qual o rei regulava o modo de administração, as modalidades da cobrança de impostos e os privilégios de um concelho. Era um documento muito valorizado pelos habitantes de qualquer povoação, pois simbolizava os seus direitos e as suas liberdades. Guimarães teve dois forais que, no essencial, vigoraram até ao decreto reformador de Mouzinho da Silveira com que, em 1832, se extinguiram os foros, os censos e as outras obrigações impostas pelos forais.

O primeiro foral de Guimarães é anterior à formação do Estado português. Foi concedido pelo Conde D. Henrique e por D. Teresa em data incerta, presumivelmente entre os anos de 1095 e 1096, e beneficiava todos os que viessem “para esta vila habitar para sempre”. Trata-se de um documento muito interessante e singular, nomeadamente por força do pioneirismo das preocupações com o fomento das actividades comerciais que transparecem do seu texto. Dá ênfase especial aos tributos a pagar pela venda de diversos artigos, desde asnos a couro de boi ou de vaca. No que se refere à regulamentação da justiça, indica as penas a aplicar aos agressores: quem batesse em outrem com punho cerrado, pagaria 12 soldos. Se acometesse com a mão aberta, a pena seria menor: cinco soldos. Em caso de haver efusão de sangue, a pena pecuniária seria de sete soldos e meio. Este foral proibia qualquer cavaleiro de ter casa em Guimarães, “a não ser por amor de seu senhor”. Aos infractores dos direitos, obrigações e privilégios que o foral estabelecia, os condes portucalenses lançavam uma maldição: “sejam amaldiçoados por Deus e excomungados e com Judas traidor e com o diabo e seus anjos sejam condenados ao inferno pelos séculos dos séculos”.

Este foral seria confirmado, em 27 de Abril de 1128, por D. Afonso Henriques, que acrescentou privilégios aos burgueses que suportaram com ele “males e penas em Guimarães”. Voltaria a ser confirmado em 1217, por D. Afonso II. Este documento, composto por uma folha de pergaminho, encontra-se depositado em Lisboa, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

A segunda carta de foral vimaranense foi mandada passar por D. Manuel em 1517, no âmbito de uma reforma dos forais que ocorreu no primeiro quartel do século XVI. O foral é um documento composto por vinte folhas de pergaminho, com o frontispício iluminado em policromia e com as armas portuguesas pintadas a ouro entre duas esferas, em cujas faixas se lê: 1508. É um volume encadernado em capas de madeira cobertas de couro, tendo ao centro, em chapas de latão, as mesmas armas e, nos ângulos, as esferas.

O foral novo começa por estabelecer de que modo se devem pagar e arrecadar as rendas e outros direitos reais: o foro das casas, as contribuições referentes à açougagem (venda de carne), ao pescado, à brancagem (direito a pagar pelas padeiras por cada amassadura de pão que coziam) e aos bancos da praça. Fixa em onze o número de tabeliães que deveriam exercer o seu ofício em Guimarães. Quanto à pena de armas (a desembolsar por quem usava armas indevidamente), estabelece que era devida ao alcaide-mor, mas que não seria paga por quem, numa rixa, pegasse em pau ou pedra, desde que não causasse danos com tais “armas”. Também não seria paga por menores de 15 anos, nem por “mulher de qualquer idade que seja”, nem por quaisquer pessoas que “castigando sua mulher e filhos e escravos e criados tirarem sangue”.

O foral regulava as práticas a aplicar em relação ao “gado de vento” (animais tresmalhados), aos montados, aos maninhos, aos reguengos e ao pagamento e isenções de portagens na passagem pela vila de pessoas e de mercadorias.

O foral estabelece como privilegiadas “as pessoas eclesiásticas de todas igrejas e mosteiros assim de homens como de mulheres. E as províncias e mosteiros em que há frades e freiras ermitães que fazem voto de profissão. E os clérigos de ordens sacras. E os beneficiados em ordens menores que posto que não sejam de ordens sacras vivem como clérigos e por tais são havidos todos”. Todos ficavam isentos do pagamento de direitos.

O rei indica quais são as pessoas que são declaradas como vizinhos, para que possam gozar dos privilégios que o foral estabelece: é vizinho de um lugar “o que for dele natural ou nele tiver alguma dignidade ou ofício nosso ou do senhor da terra por que rezoadamente viva e more no tal lugar”.

Para os que não cumpriam o que o documento estabelecia, era fixada a pena do foral, muito distante da maldição do foral dos condes Henrique e Teresa: “qualquer pessoa que for contra este nosso foral levando mais direitos dos aqui nomeados ou levando destes maiores quantias das aqui declaradas o havemos por degredado por um ano fora da vila e termo”.

O foral manuelino de Guimarães é um documento carregado de informação susceptível de aclarar a compreensão do modo de vida dos vimaranenses no início do séc. XVI. Actualmente, faz parte do acervo documental da Sociedade Martins Sarmento.
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O Museu Arqueológico

O Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento é o mais antigo e um dos mais re­presentativos museus arqueológicos portugueses. Instalado no convento de S. Domingos em Guimarães, foi inaugurado no dia 9 de Março de 1885, oito anos antes do Museu Nacional de Arqueologia.

O acervo inicial do Museu reunia o espólio recolhido por Martins Sarmento nas escavações na Citânia de Briteiros e no Castro de Sabroso e nas suas incursões pelo território do Entre-Douro-e-Minho: objectos de pedra encontrados em antas, mamoas e cavidades de penedos (machados, pontas de seta, facas, pontas de dardo); machados de pedra; machados de bronze de formas variadas; dois exemplares de machados de ferro; fragmentos de cerâ­mica decorada com mais de cinquenta temas ornamentais diferentes; objectos de bronze da Citânia e do Sabroso (alfinetes ou pregos de diferentes formas, fíbulas, contas de colar, braceletes; agulhas, etc); vasilhas e lucernas de barro; objectos de metal e moedas pro­venientes das termas de Vizela; jóias de ouro.

A colecção inicial incluía ainda um significativo conjunto de elementos epigráficos (aras votivas, lápides tumulares) e pedras ornamentadas da Citânia, de Sabroso e da Cividade de Âncora e vários exemplares de escultura antiga.

Em 10 de Julho de 1888 a Sociedade Martins Sarmento entrou na posse definitiva do edifício do Convento de S. Domingos, que lhe foi entregue pelo Governo português para aí instalar os museus, a biblioteca e demais dependências da Instituição. No ano seguinte, ampliou as instalações do acervo museu, construindo uma galeria envidraçada sobre o claustro me­dieval (projecto do engenheiro Inácio Teixeira de Meneses).

A colecção do Museu foi enriquecida por sucessivas incorporações, resultantes de doações e de prospecções promovidas pela Sociedade, quase sempre custeadas por Martins Sar­mento. Em Novembro de 1898, o arqueólogo vimaranense fez trazer de Briteiros para o Museu o monumento de maior simbolismo do espólio arqueológico da Sociedade, a magnífica Pedra Formosa, que se tornaria no ex-libris da Instituição. Em 9 de Março de 1907 foi inaugurada uma secção especial do Museu, denominada Albano Belino, integrando o espólio reunido por aquele arqueólogo nas suas excursões e explorações arqueológicas, com o qual projectara constituir o núcleo inicial de um museu a criar Braga, nunca concretizado.

O Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento acolheu, ao longo do tempo, novos achados, resultantes das escavações promovidas pela Sociedade na Citânia de Briteiros, no Castro de Sabroso, na Penha ou em outros sítios, consagrando-se -se como uma das mais notáveis colecções arqueológi­cas da Península Ibérica.

Nos dias de hoje, o Museu mantém, no essencial, a estrutura expositiva original, constituindo-se como uma memória viva das concep­ções museológicas da tran­sição do século XIX para o século XX. O seu acervo ar­queológico distribui-se por duas secções: a Secção de Epigrafia e Escultura Antiga, e a Secção das Indústrias Pré e Proto-Históricas. Situando-se na galeria sobre­posta ao claustro de S. Do­mingos, a Secção das Indústrias Pré e Proto-Históricas tem acesso através da escadaria do antigo convento. Os materiais aqui expostos destacam-se pela diversidade, pela quantidade e pela qualidade de um acervo onde assumem particular relevância as séries de artefactos produzidos pela cultura castreja.

Esta secção está organizada segundo os critérios da divisão do tempo histórico vigentes em finais de oitocentos, será preservada na futura renovação do Museu, conciliando-se com a necessidade de modernização e de criação de novos espaços mais conformes a uma gramática expositiva contemporânea.

O circuito da visita inicia-se pelos materiais do período paleolítico, de pedra lascada e de pedra polida, de múltiplas proveniências: pontas de seta, buris, percutores, raspadores, facas, trituradores, machados, martelos, polidores, enxós, pesos de rede e de tear, etc. O acervo de bronze é composto por grande número de peças originárias de sítios do Norte de Portugal (diversos machados lisos, de talão, de uma e de duas aletas, alabardas, pontas de lança, moedas, fíbulas, fivelas, placas de cinto, agulhas, anéis, pinças, peças votivas, alfinetes de toucado, campainhas, para além de múltiplos fragmentos de difícil identificação). Os objectos de bronze mais notáveis são um enigmático carro votivo e um espeto provenientes de Vilela, no concelho de Paredes

A colecção de instrumentos de ferro encontra-se no final do percurso, sendo composta por sachos, um alvião, machados, pontas de lança, chaves, pregos, das mais diversas origens, juntamente com estes elementos, podem observar-se pequenas barras de chumbo provenientes da Citânia de Briteiros.

A colecção de cerâmica é muito vasta, especialmente no que se refere a exemplares castrejos e luso-romanos, com destaque para os vasos e fragmentos encontrados na Citânia de Briteiros e na Penha. Entre o material exposto, incluem-se excelentes espé­cimes de cerâmica de pasta fina, pintada e de terra sigillata. Existem também diversos exemplares de telhas, de tijolos e de canalizações romanas. Nesta secção do Museu pode ver-se também um interessante conjunto de peças de vidro

A colecção da Secção de Epigrafia e Escultura Antiga do Museu da Sociedade Martins Sarmento distribui-se pela escadaria do antigo convento de S. Domingos, pelo belo claus­tro medieval e pelo jardim. Os materiais expostos incluem mais de centena e meia de peças, integrando exemplares de estatuária, inscrições honoríficas, monumentais e sepulcrais, aras votivas, aras anepígrafas, marcos miliários, pedras de armas, elementos de estruturas arquitec­tónicas, peças de arte ornamental, objectos de uso doméstico. Nesta secção destacam-se as duas estátuas de guerreiros lusitanos, os marcos miliários e uma notável série de aras votivas. Para além dos materiais expostos, a Sociedade possui uma valiosa colecção de jóias arqueológicas, composta por um par de arrecadas encontradas em 1937 na Citânia de Briteiros, pelo Tesouro de Gondeiro (dois braceletes, um aro e uma espiral), pelo Tesouro de Lebução (um bracelete, dois torques e duas extremidades de torques) e por uma pulseira, pertencente ao Tesouro de Monte da Saia.
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27 de outubro de 2006

Os papéis da Colegiada

Em meados do século XIX, os papéis e pergaminhos da Colegiada anteriores ao ano de 1600 foram objecto de uma acesa disputa entre o Estado, que pretendia a sua transferência para a Torre do Tombo, e o Cabido da Colegiada, que defendia o direito à manutenção, no local de origem, da integridade da documentação do seu velho cartório.

Em Agosto de 1854, Alexandre Herculano esteve em Guimarães em representação da Academia Real de Ciências, com o objectivo de examinar os documentos da Colegiada, tendo em vista a sua transcrição e posterior publicação nos Portugaliæ Monumenta Historica. Na Colegiada esbarrou na resistência do Cabido, que temia que a inspecção tivesse como finalidade criar condições para a transferência dos documentos para fora de Guimarães. A resistência dos cónegos não foi suficiente para vedar a Herculano o acesso ao arquivo da Colegiada. Todavia, chegou para impedir que os seus documentos fossem levados nessa altura de Guimarães para Lisboa.

Numa portaria de Setembro de 1857, anunciou-se a vinda a Guimarães de um delegado que iria recolher os documentos que Alexandre Herculano tinha arrolado na sua visita de 1854, com o propósito de proceder à transferência temporária de parte do arquivo da Colegiada, para que fosse copiado e publicado. No início de 1858, Augusto Soromenho já se encontrava na cidade, enfrentando a resistência do Cabido, numa contenda que se estendeu por vários meses, sem que o representante do Estado conseguisse superar os embargos dos cónegos. Os papéis continuaram na Colegiada.

A situação iria alterar-se quatro anos mais tarde. Em 2 de Outubro de 1862, foi publicado um decreto que ordenava a transferência para a Torre do Tombo dos arquivos ou cartórios das igrejas e congregações religiosas, devendo a mesma transferência começar desde já com relação aos documentos anteriores ao ano de mil e seiscentos, ou seus traslados, ainda que mais modernos. Quando o comissário do governo chegou a Guimarães, em meados de Março de 1863, os cónegos trataram, mais uma vez, de contrariar a transferência de documentos do seu arquivo histórico, levantando empecilhos ao trabalho de Soromenho. Porém, antes do final da aquele mês, já os documentos da Colegiada anteriores ao século XVII estavam prontos para serem conduzidos para a Torre do Tombo.

Todavia, parte da documentação anterior ao ano de 1600 iria permanecer em Guimarães. O Abade de Tagilde escreveria, meio século mais tarde: nem todos os documentos foram recolhidos na Torre do Tombo; alguns deles estavam em lugares escusos e não foram certamente lobrigados por Augusto Soromenho. Quem encontrou parte dos documentos em falta foi o incansável paleógrafo e documentalista João Lopes de Faria, como se pode ler numa das suas Efemérides Vimaranenses, referente ao dia 15 de Janeiro de 1891:

O Padre Abílio Augusto de Passos, cartorário ajudante da Colegiada, em exercício, por ausência do cartorário proprietário, por influência de mim João Lopes de Faria, manda arrombar a porta dum quarto escuro, de junto ao cartório no 1º patamar da casa capitular, por não saber da chave, e encontramos aí em duas caixas: 13 tombos in fólio encadernados em madeira coberta de couro e com pregagem amarela, em que estão exarados com autenticidade os documentos relativos a Padroados, Testamentos e Doações 2, Sentenças da Fazenda 2, Ditas Eclesiásticas 3, Coutos, Privilégios, Transacções, Contratos, Reconhecimentos; 3 livros de notas em pergaminho; Tombo antigo de Tolões, alguns prazos e 178 pergaminhos. Foram retirados do arquivo e escondidos aqui em 185[7] quando se tratava de levar parte do arquivo para a Torre do Tombo. Os 2 cónegos que existiam vivos, não sabiam da existência aqui de tais documentos, porque foram capitulares; e o cónego João Ferreira Mendes de Abreu, que era um dos dois, estranhou muito não se lhe pedir licença para fazer o arrombamento.

No Arquivo da Universidade de Coimbra está depositada uma colecção de 112 documentos da Colegiada de Guimarães, adquirida pelo Estado em Maio de 1944. Essa colecção inclui 55 pergaminhos medievais (entre os quais se conta o documento mais antigo daquele Arquivo, uma carta de doação do ano de 983) e 57 documentos em papel. Trata-se de documentação que foi retirada do Cartório da Colegiada de Guimarães entre Abril de 1842 (data de uma carta de venda que está incluída neste fundo documental) e Agosto de 1854 (data do inventário de Herculano, onde estes documentos não constam). Foi comprada pelo Estado, em 1944, que a entregou à Universidade de Coimbra.

Para além dos documentos que se encontram guardados na Torre do Tombo, o acervo do antigo arquivo da Colegiada de Guimarães encontra-se actualmente disperso pelo Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, pelo Cartório da paróquia de Santa Maria da Oliveira, pelo Arquivo da Universidade de Coimbra e pela Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento.

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13 de outubro de 2006

As armas de Guimarães

No brasão de armas de Guimarães encontram-se duas das referências simbólicas que em que esta terra se revê: a Senhora da Oliveira e a oliveira propriamente dita. O brasão de Guimarães ostenta, sobre campo (fundo liso) de prata, a imagem de Santa Maria (a Senhora da Oliveira), com manto azul sobre vestido vermelho. Ao colo, o Menino, seguro pelo braço direito. Ambas as figuras, Senhora e Menino, têm, sobre a cabeça, uma coroa aberta. A oliveira aparece representada num ramo que a Senhora segura com a mão esquerda e numa grinalda colocado a seus pés. Em cima, de ambos os lados, à altura da cabeça da Senhora, dois escudetes com besantes (peças de prata semelhantes a moedas). O brasão é encimado por um remate em forma de coroa (coronel) de Duque, numa referência ao senhor de Guimarães.

A história do brasão é contada no registo de um documento, lavrado pelo escrivão Joaquim Cardoso de Freitas, que foi enviado para Lisboa em1855 e que se encontra no Arquivo Municipal, que António José Ferreira Caldas transcreveu nos seus Apontamentos para a História de Guimarães. Diz assim:

“O brasão das armas desta cidade teve princípio, diz Gaspar Estaço, Antiguidades de Portugal, cap. XLI, §§. 1-2-3-4, pelo ano do nascimento de Cristo de 1342, reinando em Portugal El-Rei D. Afonso Quarto, da maneira seguinte:

“Um rico mercador natural de Guimarães, por nome Pero Esteves, residente na Cidade de Lisboa, fez levantar um Padrão defronte da porta principal da Igreja de Santa Maria de Guimarães, hoje Nossa Senhora da Oliveira, e no meio deste Padrão foi erecta uma cruz no dia oito de Setembro do dito ano.

“Neste tempo já se achava também defronte da sobredita Igreja uma oliveira que então se julgava seca, a qual ao terceiro dia depois que se levantou a cruz no meio do Padrão, foi vista reverdecer e brotar ramos. Por este acontecimento, diz o autor sobredito, que tanto a Igreja como a Cidade tomaram por divisa ou Brasão uma imagem de Nossa senhora com um ramo de oliveira, cuja divisa foi colocada a par das armas reais; isto mesmo afirma Frei Leão de Santo Tomás na sua obra intitulada a “Benedictina Lusitana”, tratando do Mosteiro de Guimarães, e acrescenta que não foi sem fundamento que esta vila, hoje cidade, tomou por brasão, a imagem de Nossa Senhora com um ramo de oliveira, porque foi com a fé em Nossa Senhora da Oliveira que o Nosso Grande Rei Dom Afonso Henriques expulsou os Sarracenos de Portugal. Também, diz Gaspar Estaco, que quando o Conde Dom Henrique assentou a sua Corte em Guimarães, tomou por Padroeira do seu Estado, então Condado, a Maria Santíssima, para cujo acto solene, o Arcebispo de Braga S. Geraldo celebrou pontifical na Igreja de Guimarães; do que desde então tomou esta Cidade por sua Padroeira, a Nossa Senhora da Oliveira, e ainda hoje o é: isto também concorre para o mesmo fim; eis o que se pode dizer a respeito da origem do Brasão de armas desta cidade.”

O brasão de Guimarães sofreu algumas alterações ao longo do tempo. O exemplar mais antigo que conhecemos data do início do século XVI e dele fala Torcato Peixoto de Azevedo, nas suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, ao descrever a Colegiada de Guimarães: “junto à torre para poente está um tanque com três bicas de excelente água, e a bica do meio serve de frontispício à porta da capela dos Pinheiros, a bica da parte esquerda tem o frontispício de pedra mais fina, e no meio uma imagem de Nossa Senhora encostada a uma Oliveira, que são as armas da vila”.

A pedra de armas de Guimarães do tanque-fontanário que estava adossado à torre da Colegiada, embora conjugando os dois elementos principais que se perpetuaram no actual emblema da cidade de Guimarães (a Senhora e a oliveira), apresentava algumas diferenças em relação ao que hoje conhecemos: em vez de ramos, tinha uma árvore, e a Senhora e o Menino, representados numa pequena escultura em bronze, de traços um tanto rudes, não estão coroados. O tanque da Praça da Oliveira foi desmantelado em 1904 e o brasão faz hoje parte da colecção do Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento.

Com estas armas, Guimarães foi vila e fez-se cidade. Com elas será, não tarda muito, Capital Europeia da Cultura.

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29 de setembro de 2006

Os manuscritos de João Lopes de Faria

Um dos fundos documentais mais preciosos de quantos se guardam na imensa Biblioteca das Sociedade Martins Sarmento foi coligido, ao longo de muitas décadas, por alguém que, pelo retrato que dele traçou Alberto Vieira Braga, não aparentava ser mais do que “ um homem vulgar, encolhido num desprendimento de vestuário” e que, à primeira vista, aparecia sombrio, dando ares de não mais do que “um tipo curioso, que vem de longe, do viver antigo do velho burgo, e saber só das coisas que se passaram no correr da sua vida, à sua volta e à volta do mundo miudeiro da antiga Guimarães”. O seu nome: João Lopes de Faria.

João nasceu na Oliveira, em Setembro de 1860. Era filho de António Lopes de Faria, humilde sacristão da Colegiada, e de Constância Rosa. Teve uma infância pobre e foi coreiro na Colegiada. Aprendeu as primeiras letras na escola particular de um sargento reformado, o Almeida, e frequentou “estudos superiores” na escola do Venâncio, onde se ensinava bom latim e bom português. A ânsia de aprender marcava profundamente a sua personalidade, a par de um feitio acanhado e excessivamente modesto. A vida, ganhou-a como músico, exercendo o ofício de organista da Colegiada. Dedicado às coisas da história de Guimarães, ao longo dos anos colaborou em revistas e nos jornais locais, onde foi dando notícia de memórias que desenterrava do esquecimento em arquivos e bibliotecas. Mas o essencial da sua obra ficaria inédita, até aos nossos dias.

Introvertido e solitário (passou parte da sua vida como pensionista da Ordem Terceira de S. Francisco), tornava-se particularmente loquaz sempre que lhe pediam alguma informação e ele descobria que os conhecimentos que acumulara da leitura de velhos papéis poderiam ser úteis a alguém. Dizia-se que nada ignorava dos anais vimaranenses. O pintor Abel Cardoso chamava-o de Dicionário de Guimarães.

No obituário que o Comércio de Guimarães publicou aquando do seu falecimento, em 1944, João Lopes de Faria foi descrito como um trabalhador que “perscrutou autógrafos amarelecidos que jaziam nos arquivos; visitou as bibliotecas públicas; concentrou-se na decifração de antigos documentos e manuscritos, e à sua curiosidade de saber e paciência beneditina se devem elementos preciosos para a história de Guimarães, que, sem o seu esforço, ficariam sepultos no pó das estantes”.

Doze anos antes, numa homenagem que os amigos lhe fizeram, depois de ter recebido as insígnias da Ordem de S. Tiago, Eduardo de Almeida falava da paixão de João Lopes de Faria que, “por sua mãos de Imaginário, idealista, místico romântico, e paciente, curioso, investigador, ressuscitou a morte, soergueu o passado musgoso, o passado sombra, o passado – um maço velho de papéis esfarinhosos, em que ruins garatujas esvaidamente amareleciam, na abandonada indiferença dos arquivos”.

A obra de João Lopes de Faria tem a dimensão de um verdadeiro monumento. É constituída por muitos milhares de folhas de papel almaço, cobertas pela sua letra miudinha e cuidada, em cujo desenho é possível observar os efeitos do passar dos anos, à medida que envelhecia. Ali copiou um número incontável de documentos que resgatou de velhos manuscritos. Conhecedor da obra do mais prolífico dos paleógrafos vimaranenses, Alberto Vieira Braga, pressagiou, há mais de setenta anos, que, “quando uma vereação lhe editar as 20 mil efemérides, que tem arquivadas, e todas exclusivamente respeitantes à história de Guimarães, aparecerá então João Lopes de Faria como autor de uma obra monumental”.

No seu testamento, deixou registada a sua vontade em relação à colecção dos documentos que coligira ao longo da sua vida: “declaro que à minha morte devem ser entregues à guarda da Sociedade Martins Sarmento, honra não só de Guimarães como de todo o Portugal, de que sou ínfimo sócio, todos os meus papéis e livros manuscritos (para cima de 20 volumes) em que, gastei grande parte das horas de ócio, a cooperar para a história da minha Pátria vimaranense, e também os livros impressos, porque alguns deles têm anotações minhas manuscritas. Todos estes volumes e papéis respeitantes aos meus modestos trabalhos de investigação e demais livros da minha pobre estante devem ser, pelas Direcções da prestimosa Sociedade Martins Sarmento, facultados a todos os estudiosos, mas somente dentro da sua sede”.

O legado de João Lopes de Faria à Sociedade Martins Sarmento é composto por dezenas de volumes encadernados a couro preto, onde se destacam, para além das Efemérides (quatro volumes repartidos por cada um dos trimestres do ano, onde estão registados muitos milhares de acontecimentos relacionados com a História de Guimarães, distribuídos ao longo dos 366 dias que pode ter um ano), as Velharias da Colegiada Vimaranense (dez volumes, mais dois de índices), as Vereações e Outros Documentos da Câmara, o Catálogo dos Livros e Documentos da Câmara Municipal de Guimarães, as Provisões e Sentenças da Câmara Vimaranense, as Escrituras Públicas Vimaranenses, entre muitos outros.

Aos estudiosos que, nos tempos que correm, se confrontam pela primeira com a dimensão da obra manuscrita de João Lopes de Faria, é habitual escutarem-se exclamações de espanto. Já muitas vezes ouvi dizer que “este homem merece uma estátua”. Ainda não a teve, nem sei se a virá a ter. Mas quis a ironia do destino que, há pouco tempo, lhe fosse feita uma homenagem involuntária: o edifício que hoje acolhe o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, onde se guarda a maior parte dos documentos a cuja decifração dedicou a sua vida, ostenta na fachada uma placa onde se pode ler: Rua João Lopes de Faria.

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15 de setembro de 2006

A Colecção Albano Belino

Oriundo de Gouveia, onde nasceu no dia 18 de Dezembro de 1863, Albano Ribeiro Belino chegou a Guimarães em Julho de 1876, tornando-se marçano na tabacaria de José Joaquim de Lemos, o Lixa da Porta da Vila.

Desde cedo começou a fazer-se notar pela sua inteligência e espírito de iniciativa. Reconhecendo as qualidades do rapaz, um dos clientes habituais da Tabacaria Lemos, o cónego António Joaquim de Oliveira Cardoso, poeta e dramaturgo, iniciou-o nas artes da escrita. Cedo Belino se fez poeta, colaborando nos jornais de Guimarães (Religião e Pátria, Memória, Comércio de Guimarães) e tornando-se correspondente, por muito tempo, do Jornal da Manhã, do Porto. Em 1886, juntamente com um outro jovem empregado do comércio da Porta da Vila, Albano Pires de Sousa, fundou uma folha literária dedicada às damas vimaranenses, O Bijou.

Em 1885 e 1886, teve participação activa nas movimentações que agitaram a cidade na sequência do apedrejamento, em Braga, dos procuradores de Guimarães à Junta Geral do Distrito (Conde Margaride, Joaquim José de Meira e José Martins de Queirós), que esteve na origem da célebre questão brácaro-vimaranense. Em Dezembro de 1885, promoveu as comemorações do 7.º centenário da morte de D. Afonso Henriques. Integrou o núcleo dos iniciadores da Grande Comissão de Melhoramentos da Penha, de que foi o primeiro presidente.

Em 1881, casou com Delfina Rosa, que já dobrara os 43 anos e era sobrinha do Cónego António de Oliveira Cardoso. O matrimónio trouxe-lhe o desafogo económico e levou-o a instalar-se em Braga. Será aí que, inspirado na obra e no exemplo de Martins Sarmento, dará início às suas prospecções arqueológicas, de que começámos a ter notícias através da correspondência que trocou com Sarmento (a quem se referia como o seu conselheiro e distintíssimo mestre em negócios de arqueologia) entre Agosto de 1894 e as vésperas do falecimento do arqueólogo da Citânia de Briteiros, em 1899.

Esta troca epistolar, de que se conhecem 160 cartas que estão guardadas no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento, é uma interessantíssima fonte de informação para o conhecimento do processo de introdução de Albano Belino nas coisas da arqueologia, da história do estudo das ruínas de Bracara Augusta e do seu projecto, eternamente adiado, da criação de um Museu Arqueológico em Braga.

Exercendo a sua actividade de investigação arqueológica naquela que Sarmento designou como a mina braguesa, Belino vai dando conta do entusiasmo com os seus sucessivos achados de monumentos epigráficos. Nas cartas que envia para Guimarães ou para Briteiros, dá conta, por diversas vezes, da sua felicidade epigráfica. Ao mesmo tempo que compila as inscrições que transcreve das pedras que encontra, começa a coleccionar os objectos arqueológicas que irão dar origem a um núcleo museológico, instalado a partir de 1899 num espaço no Paço do Arcebispo, cedido pelo respectivo prelado, que era sensível às coisas da Arqueologia e membro da Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses. O destino deste espólio deveria ser a futura integração no Museu Arqueológico de Braga que, havia mais de uma década, estava prometido.

Progressivamente, Belino alargou a sua área de prospecção para espaços exteriores à velha Bracara Augusta. Em Maio de 1899, anunciou a Sarmento que estava em vésperas de explorar o Monte Redondo e mais dois pequenos castros nas suas proximidades. Pouco depois, dava conta de que o monte de Santa Marta ficaria para mais tarde porque ali o desaterro deve ser muito dispendioso. Em 1902 seria também responsável por trabalhos de escavação na Cidade Velha de Santa Luzia, em Viana do Castelo.

Autodidacta, não possuindo qualquer diploma académico, nem mesmo o de instrução primária, Albano Belino deixou uma obra publicada que abrange estudos sobre epigrafia romana, arqueologia cristã e numismática.

A morte levou-o em 1906, sem que tivesse completado os 43 anos de idade. Partiu sem ver concretizado o sonho que alimentara muitos anos: a abertura de um Museu Arqueológico em Braga, onde projectara depositar os objectos que coleccionou ao longo de mais de uma década. E partiu com uma forte amargura em relação à cidade onde se fez arqueólogo, devido à atitude de desprezo em relação à memória material do passado, então dominante em Braga. Com outros bracarenses ilustres, Albano Belino tinha levantado a voz contra o arrasamento da velha muralha, sem sucesso. José Leite de Vasconcelos testemunharia que este acontecimento determinou nele violenta convulsão moral, na sequência da qual viria a ser acometido pela apoplexia que o levaria à morte.

Após o falecimento de Albano Belino, a viúva fez com que se cumprisse a sua vontade, doando ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento a colecção arqueológica que continuava alojada precariamente no Paço Arcebispo de Braga.

Na manhã do dia 6 de Fevereiro, transportada em oito carros de bois, deu entrada no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, um significativo conjunto de monumentos epigráficos imprescindíveis para a compreensão da história de Braga.

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4 de agosto de 2006

O que estais a resmungar?

Was murret ihr? é a pergunta, em alemão, cuja tradução em português dá título a sta coluna, que se pode ler gravada a ferros sobre o couro da capa de um curioso volume que se guarda no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento. Pelas suas páginas, passa uma procissão de vimaranenses do início do século XX, de todas as condições sociais, retratados impiedosamente, a traços de lápis e a aguarela, por José de Meira, e descritos pelos versos satíricos do seu irmão, João de Meira.

O jovem artista tinha 17 anos quando esboçou a primeira caricatura incluída no álbum, representando o pintor Abel Cardoso. Era filho do médico Joaquim José de Meira, um dos mais destacados vimaranenses do seu tempo, que foi presidente da Câmara, Director da Escola Industrial, Presidente da Sociedade Martins Sarmento, Director Clínico do Hospital. Nasceu em 1881, sendo dotado de um talento inato para o desenho. Um dos que retratou, o arqueólogo Mário Cardozo, traçaria o seu perfil em 1986, nas páginas da Revista de Guimarães:

Era José de Meira um rapaz de baixa estatura e ombros largos, muito aprumado, trajando correctamente, como um verdadeiro dandy, cara impecavelmente escanhoada, um sorriso irónico a aflorar-lhe sempre aos lábios, feições expressivas e monóculo que atrevidamente assestava, tinha sempre um comentário espirituoso a fazer, uma anedota a contar, uma chalaça a propósito.

Nos seus estudos, seguiu a tradição familiar e cursou medicina em Coimbra. Frequentava o 3.º ano quando a morte o levou, aos 24 anos.

Alguns anos mais velho, o seu irmão João foi uma das inteligências mais luminosas do seu tempo. Também médico, cedo se tornou professor na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Destacou-se como homem de letras. Os seus escritos sobre assuntos históricos ainda hoje permanecem como referências incontornáveis para qualquer pesquisa da nossa História local. A morte também o levou prematuramente, aos 32 anos, numa altura em que era apontado como o continuador do Abade de Tagilde na organização dos Vimaranis Monumenta Histórica. Dotado de um fino sentido de humor, dedicou-se à literatura, sendo particularmente notado pelos seus extraordinários dotes para a imitação dos estilos de outros escritores, talento que esteve na origem de diversos equívocos memoráveis. Escreveu e publicou, por exemplo, dois notáveis contos policiais intitulados Sherlock Holmes no Porto, que assinou como Donan Coyle.

O volume dos irmãos Meira, com o título de Álbum das Glórias, inclui duas séries de caricaturas, executadas entre Abril de 1905 e Agosto de 1907, tendo sido, durante muito tempo, objecto de grande curiosidade na sociedade vimaranenses. Ao todo, são retratadas 64 figuras. Na portada da primeira série aparece um auto-retrato caricatural de José de Meira. A segunda série é aberta por uma paródia à estátua de D. Afonso Henriques que, com o álbum nas mãos e a espada debaixo do braço, se ri prazenteiramente, enquanto que a cota de malha entreaberta deixa vislumbrar umas chinelas de quarto, no lugar das botas com esporas do original de Soares dos Reis. Pelo álbum passam figuras destacadas da sociedade vimaranense, como Abel Cardoso, Avelino Germano, Bernardo Azenha, Mota Prego, Jerónimo de Almeida, Gonçalo de Meira, Eduardo de Almeida, o Barão de Pombeiro, o Cónego José Maria Gomes, o Padre Gaspar Roriz ou o Conde de Margaride, bem como algumas figuras castiças, como o Cheira-a-Testo, o À-Primeira-Vista, o Gipum ou a D. Maria Beiça.

Porque o espaço disponível não dá para mais, aí fica, para aguçar a curiosidade, a caricatura do Abade de Tagilde, datada de Agosto de 1905. João de Meira tinha um carinho especial pelo Abade, o que não o impediu de o descrever assim:

Propôs-se a deputado um belo dia

Mas não pôde vencer a eleição

Pois se propôs contra quem já havia

Lugar primeiro em nosso coração!

Foi coisa já passada há tantos anos

Que a poucos lembram já essas questões

Vivia ele então bem mais de enganos

Que tinha tido menos decepções!

Preside hoje aos destinos do concelho

E prometeu a bem do nosso povo

Escavacar tudo o que é sujo e velho

E uma nova cidade erguer de novo!

Mas eu já não como tal paleio

Nem esses lindos rasgos triunfantes

Hão-de correr os anos sem receio

E tudo ficará como era dantes.

Bem mais feliz é ele quando entrega

Os ócios que lhe deixa a freguesia

Abrindo olhos a gentinha cega

Nos seus volumes sobre arqueologia.

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21 de julho de 2006

Afonso Henriques: sombra e luz

A biografia do primeiro rei dos portugueses, Afonso Henriques, tem mais sombra do que luz. Na verdade, sobre o filho de Henrique e Teresa, sabemos muito pouco, apesar dos muitos milhares de páginas que já foram publicados sobre a sua vida e a sua acção política. Na primeira biografia que lhe foi dedicada, a Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, de Duarte Galvão, impressa do início do século XVI, há mais literatura cavaleiresca do que História. Do outro lado do tempo, encontrámos uma biografia vinda a lume recentemente, cujo autor, Diogo Freitas do Amaral, foi forçado a preencher inúmeras lacunas com conjecturas verosímeis, mas para as quais não encontrou suporte documental. E não tenhamos ilusões: será sempre assim. Qualquer história da vida e dos feitos afonsinos será sempre hipotética, já que terá que ser completada, em boa parte, com o que nunca se saberá se aconteceu, mas que eventualmente poderia ter acontecido.

Começamos por não saber quando nasceu aquele que viria a ser o primeiro rei de Portugal. Sendo apontadas várias datas possíveis, entre 1100 e 1111, há hoje algum consenso em relação ao ano de 1109. Também não é seguro o local onde veio ao mundo. A tradição fala, a partir de Duarte Galvão, em Guimarães, mas há quem defenda que pode ter sido em Coimbra, em Viseu, mesmo em Astorga, hoje terra de Espanha, ou mesmo na Síria, junto do rio Jordão. À falta de melhor fonte, valerá a tradição. Porém, é altamente duvidoso que o infante Afonso tenha sido baptizado pelo Arcebispo São Geraldo (que já não estaria entre os vivos quando ele nasceu) na velha igreja de S. Miguel do Castelo (que foi construída bastante mais tarde, sendo sagrada em 1236). Também é pouco provável que tenha sido miraculado ainda em criança, por ter nascido aleijado das pernas, que de nascença trouxe encolheitas (citação da crónica do Conde D. Henrique).

É seguro que o célebre discurso que o Conde D. Henrique lhe teria feito, no leito da morte, que assumiria o carácter de um verdadeiro testamento político, não é mais do que uma lenda, já que, à data da morte de seu pai, ocorrida em Abril de 1112, Afonso Henriques não teria mais do que três anos de idade. É certo que Egas Moniz se encarregou da educação do infante, mas não se sabe de fonte segura onde ela decorreu. Por outro lado, no episódio mil vezes contado da ida de Egas Moniz com a sua família, em trajes pobres, descalços e de baraços ao pescoço, assumir junto de Afonso VII de Leão culpas que seriam de Afonso Henriques, não se sabe onde acaba a lenda e começa a História.

Não há dúvida quanto à data da Batalha de S. Mamede (24 de Junho de 1128), mas ninguém sabe dizer ao certo onde terá sido travada. É certo que o confronto não se deu no sítio que hoje conhecemos por Campo de S. Mamede, junto ao Castelo de Guimarães. Há bons argumentos para acreditar que terá sido em S. Mamede de Aldão, no lugar da Ataca, mas não existe nenhuma evidência documental ou arqueológica.

Já a suprema vilania que se aponta ao jovem Afonso, a prisão da mãe nas masmorras do Castelo de Lanhoso depois de derrotada em S. Mamede, não passa de lenda, tal como o episódio do Bispo Negro, que resultaria de um apelo de D. Teresa ao Papa, em que se queixaria da crueldade do filho. Em resposta, o Papa teria enviado o Bispo de Coimbra com a missão de ordenar que Afonso procedesse à libertação da mãe. Alegando que o Papa nada tinha a ver com as suas decisões, o príncipe teria expulso o bispo e nomeado um novo, que seria negro.

Conta-se que Jesus Cristo teria aparecido a Afonso Henriques antes da Batalha de Ourique, em 1139. O milagre de Ourique, que ajudou a sustentar a justificação divina da existência de Portugal enquanto reino independente, é um mito que começou a circular muito tempo depois de 1139. Aliás, a Batalha de Ourique, ao contrário do que se acreditou pelos séculos adiante, não se deu na povoação do Baixo Alentejo, às portas do Algarve, que conhecemos por aquele nome. Foi certamente noutro lugar, situado algures entre Leiria, então sob domínio português, e Santarém, ainda ocupada pelos muçulmanos.

Um outro acontecimento que forneceu argumentos poderosos para a sustentação da independência nacional foi a reunião das celebradas Cortes de Lamego, que teria ocorrido durante a primeira metade da década de 1140, em data incerta. Nelas se teria confirmado a aclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal, corroborado o propósito de manter a independência de Portugal face a Leão e definido as regras de sucessão do trono. Todavia, tais Cortes nunca aconteceram.

De D. Afonso Henriques, o homem, e de muitas das circunstâncias que rodearam a sua existência, conhecemos muito pouco. Todavia, este desconhecimento não tem qualquer relevância na nossa História, nem na definição da nossa identidade nacional. Apesar de nunca terem acontecido, os factos acima enumerados tiveram uma importância vital no processo de afirmação, aprofundamento e defesa da independência de Portugal, por terem sido criações da literatura independentista que foram esgrimidas em momentos em que Portugal esteve em risco (por exemplo, nas crises de 1383-85 e de 1580-1640).

Ao longo da sua História, Portugal teve à frente dos seus destinos reis certamente mais luminosos do que D. Afonso Henriques, como D. João II, D. Filipe I ou D. José (por interposta pessoa, o Marquês de Pombal). Todavia, poucos duvidarão de que o primeiro foi o mais importante dos reis portugueses. Sem ele, Portugal nunca teria existido. Afonso Henriques, vivendo num tempo irrepetível, soube aproveitar a sua circunstância. Portugal, que resultou da determinação e da persistência da acção militar, política e diplomática do primeiro Afonso, é, antes de mais, uma criação sua.

O que nos ficou de Afonso Henriques foi este país. O resto, não é mais do que uma caixa de pedra com ossos que nada têm de importante para contar.
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7 de julho de 2006

O Azemel Vimaranense

A imprensa periódica tem uma presença muito antiga e activa na vida local vimaranense Até aos nossos dias, já se publicaram em Guimarães mais de cento e cinquenta título: de jornais, parte deles de existência efémera, outros com uma longevidade assinalável O percursor foi o Azemel Vimaranense, que nasceu por volta de Outubro de 1822, aquando do juramento da Constituição Liberal, e desapareceu em Maio do ano seguinte, com a insurreição absolutista liderada por D. Miguel que ficou conhecida pela Vilafrancada.

Defensor dos ideais do liberalismo, recorrendo a uma linguagem cáustica e mordaz, o Azemel teve, no curto espaço da sua existência, uma participação activa e participante na turbulência política que atingiu Guimarães nos primeiros tempos do Liberalismo, Embora os textos que publicava não fossem assinados, terão sido seus redactores José de Sousa Bandeira, escrivão judicial de Guimarães, Manuel Luís Pinheiro Nogueira Gouveia, professor de Filosofia, Gramática Latina, Música e Cantochão, e frei Rodrigo Joaquim de Meneses, monge Jerónimo natural de Guimarães, que em 1829 foi preso, por combater o absolutismo, tendo sido condenado no ano seguinte a degredo, por toda a vida, para um dos presídios de Caconda (Angola).

O principal animador desta publicação foi José de Sousa Bandeira, que nasceu em Lisboa, em 1789. O seu pai, também José de Sousa Bandeira, foi nomeado, em 1808 proprietário do cargo de escrivão do judicial da comarca de Guimarães pelo príncipe regente, futuro D. João VI, que seria herdado pelo filho.

Bandeira participou activamente na vida política. Perseguido pelas suas ideias, foi preso na Relação do Porto, em 1824, por delito de opinião. Voltou para as masmorras no início de 1829. Em 1828, tinha acompanhado o exército liberal para a Galiza, para evitar a perseguição dos absolutistas, a quem não poupava nos seus escritos inflamados. Por força da sua acção em defesa dos ideais liberais, Guimarães tinha sido uma das últimas terras do reino a reconhecerem D. Miguel. O exílio seria curto. Sousa Bandeira não resistiria a voltar clandestinamente a Portugal, tendo-se escondido no Porto onde acabaria por ser descoberto, preso e condenado à morte. No dia 10 de Outubro de 1829, a pena seria comutada. Teve a mesma sorte que o frade Rodrigo Meneses, o degredo perpétuo para Angola, cabendo-lhe em sorte o presídio de Pungo Andongo. Caso regressasse, enfrentaria a execução. Conduzido para a prisão em Lisboa, não teria chegado a embarcar para o degredo, tendo sido devolvido à liberdade apos o desembarque do Duque da Terceira, em 1833. Regressaria a Guimarães onde teria participa­ção activa na célebre Sociedade Patriótica Vimaranense. Em 1836, após a morte da sua mulher (filha de outro dos redactores do Azemel, Manuel Luís Gouveia), foi transferido por Passos Manuel para o Tribunal do Comércio do Porto, onde se notabilizou como redactor do Artilheiro e do Braz Tizana.

O Azemel ostenta, no cabeçalho, a seguinte quadra: Aqui vão troando / Os ecos das bombas, /Que estouram nas trombas /dos Rinocerontes. Os seus textos panfletários esgrimem ferozmente contra os corcundas (absolutistas). Para dar uma ideia do estilo desta folha, aí transcrevem-se excertos do texto O Velho e a sua Cabeleira publicado em 7 de Maio de 1823, no qual os corcundas são personificados pelas figuras dos cabeleireiros: O Velho Portugal estava enfermo; os Mandões o haviam entisicado, tinha febre radicada e, desenganado do seu fim, apenas nutria a consoladora ideia das suas antigas proezas e da sua antiga prosperidade; velho e enfermo, ele ia ser riscado da lista dos viventes, e em seu testamento, parto já do seu febril delírio, deixava a Sir William Carr Beresford os restos minguados de sua fortuna. Seus filhos viam com mágoa a próxima crise do seu desgraçado pai; juntam-se todos em 24 de Agosto e, por um daqueles esforços que honram a Natureza, disseram: "Vamos salvar nosso Pai". Graças à Divindade, o Velho escapa da enfadonha tísica, ergue-se da cama, e melhora. (...) Rasgou seu testamento, pôs-se à moda, atou o cabelo, e deitou fora a sua Cabeleira. Os Cabeleireiros, porém, gente ociosa e que estava em a antiga posse de sustentar seu ócio e sua grandeza faus­tosa à custa da Cabeleira do Velho novo, disseram: "Que será de nós? Ele já anda à moda, adeus pós, adeus pomada e adeus rabicho; busquemos outro ofício, estamos perdidos". Juntam-se os Cabeleireiros todos e conspiram contra quem pôs o Velho à Moda. (...) Fizeram tal barulho que o Velho esteve a ponto de tornara usar de Cabeleira, não porque seja melhor, ou porque melhor lhe fique, mas porque sem Cabeleira não há Cabeleireiros, e estes não querem perder o seu ofício. Com tanta pressão, o pobre velho recaiu; está de cama, tornou a febre, tem fastio e está em perigo. Para o salvar, a família do Velho não deve usar de xaropes, mezinhas e chás de carqueja, mas de remé­dios violentos, pois que os Cabeleireiros, tomando o freio nos dentes, foram juntar-se aos Cabeleireiros da margem do Sena, e do Don, e vêm todos obrigar o pobre Velho a usar de Cabeleira, por faz, ou por nefaz.

Não se conhece a colecção completa do semanário Azemel Vimaranense, que se publi­cou com uma periodicidade irregular. Na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, guardam-se três números do primeiro ano e dois do segundo. Na Biblioteca Nacional existem dois exemplares de 1823.

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