31 de março de 2017

Dendrolatria e arboricídio

Quem me ensinou a palavra dendrólatra (o que tem adoração pelas árvores) foi um dos mais notáveis escritores contemporâneos de língua portuguesa, Rubem Fonseca. Numa das crónicas que compilou no volume “O Romance Morreu”, afirma-se “dendrólatra incorrigível” (o texto tem o título “Desventuras de um dendrólatra”, e pode ser lido seguindo a ligação). Já a palavra arboricida (o que mata árvores), aprendia-a ao folhear velhos jornais vimaranenses, onde eram recorrentes as notícias de arboricídios, perpetrados, umas vezes, por mão incógnita, outras pela Câmara. Nos últimos tempos, tem sido dada notícia de mais um arborícidio que se planeia em Guimarães, fazendo desaparecer uma das últimas manchas verdes situadas no interior de quarteirões edificados, que eram uma das imagens de marca de Guimarães, como se depreende, por exemplo, da planta mais antiga da cidade que conhecemos, que é do século XVI. Fica no miolo entre as ruas de Camões, da Caldeiroa e da Liberdade e a viela que liga as duas últimas, onde o betão se prepara para avançar sobre o arvoredo, para construir um parque de estacionamento king size, cuja necessidade custa a entender numa cidade onde, como já vimos, a oferta de aparcamento automóvel satisfaz a procura e ainda sobra. 

(E, entretanto, lá vamos todos, unidos e de mãos dadas, cantando hinos, rumo à Cidade Verde Europeia.)

Árvores do quarteirão de Camões-Caldeiroa, no dia de hoje.

No passado, os vimaranenses não costumavam ficar calados perante a ameaça ou a consumação de arboricídios, como o demonstra o texto que aqui partilho, que João de Meira escreveu e publicou no jornal Independente em 1905.

Destruição de Arvoredo
Milhares e milhares de anos seguidos acreditou a humanidade que em cada árvore existia uma alma.

Alma vaga, indefinida, nebulosa, alma de vegetal flutuando incerta entre a realidade e o sonho na esbatida penumbra das sensações nascentes, mas alma que — como o colosso de Memnon —sorria e cantava aos primeiros raios do sol, alma que gemia e se lamentava aos golpes do machado e às rajadas do vento; alma forte que chorava em gotas viscosas de resina no pinheiro, alma terna que vertia as lágrimas correntes do látex na figueira bendita!

A alma ardente de Adónis gritava numa araucária de Biblos, a alma doce de Átis sussurrava numa amendoeira em flor.

Xerxes, o grande persa, ornava de colares e pedrarias resplandecentes um plátano favorito; nas florestas da Gália os druidas prosternavam-se ante o carvalho sagrado; e ainda hoje, no deserto, junto de mar Cáspio, onde uma única árvore solitária se encontra no transcurso de muitas léguas, o Tártaro que à sua sombra se acolhe não segue sem lhe deixar suspenso dos ramos o tributo da sua gratidão, um pouco dos seus alimentos, um farrapo de vestido e até, quando outros dons escasseiam, uma mecha de cabelos.

O Egípcio, conta a lenda, voltando a casa vergado sob o peso do trabalho e da tirania do Faraó, tinha na árvore doméstica, no sicómoro ou na acácia, a silenciosa confidente das suas mágoas e terrores.

Mas na Europa, depois da Idade Média, a ideia singularmente falsa e soberanamente orgulhosa de que só o homem sente e pensa foi-se lentamente infiltrando nas consciências, que uma errada compreensão do mundo pervertera.

Para todo o sempre se perdeu o belo panteísmo de Francisco de Assis, que via em cada ser —  animal, árvore ou mesmo rocha bruta — um irmão, um filho da mesma divindade que lhe dera vida.

O homem começou erguendo contra a árvore uma ímpia mão destruidora. E nunca mais abraçado com ela, como o índio, lhe pediu perdão do corte necessário e imprescindível, antes entrou a derrubá-la sem precisão nem motivo, para dar que fazer a lenhadores ociosos.

Aquele belo e antigo arvoredo que povoava o principal largo da povoação das Taipas, acaba de ser completamente destruído.

Carvalheiras de grande porte, que levaram séculos a formar, e que durante a época de Verão protegiam os banhistas contra os ardores do sol, no seu trânsito para o estabelecimento balnear, foram barbaramente arrancadas.

Aqueles ramos frondosos, ó Camilo Castelo Branco, que te deram sombra ao crânio escandecido e paz ao coração inquieto, no momento mais doloroso da tua vida de torturas, já não existem!

Estão se desfazendo em cinza nalguma lareira sertaneja aquelas árvores ancestrais que celebraste nas páginas imorredoiras das “Memórias de Cárcere”!

*

A quem pertence a responsabilidade deste acto de incompreensível vandalismo?

À Câmara ou somente ao vereador do pelouro?

Seja quem for o responsável, não pode semelhante facto deixar de merecer a mais veemente censura.

Destruir árvores seculares, que davam ao local público, em que existiam, uma nota agradável e pitoresca, e serviam de refrigério nos dias calmosos de Verão aos numerosos forasteiros que ali acodem é mais que um disparate, é uma verdadeira selvajaria.

Que crime negregado haviam cometido, que insuportável mal faziam as pobres carvalhas a cuja frescura amiga era tão doce passear nas calmas estivais ?

Acaso deixaram elas cair irreverentes bolotas sobre a cabeça descoberta de algum edil?

Acaso em toca escura de alguma delas se aninhava irrequieto enxame de besouros que ferroasse o pescoço de algum camarista?

Acaso nas suas raízes nodosas tropeçou e caiu desastradamente um membro do nosso ilustre senado?

Acaso impediam elas que algum indiscreto observador presenciasse o que se passava em casa dos vizinhos do outro lado da alameda.

Que crime, que mal faziam elas?

Diga-o a Câmara e enquanto o não disser ninguém poderá deixar ide reprovar semelhante destruição.

O mal está feito, e não é por isso possível voltar atrás.

Mas ao menos tenha a Câmara mais cuidado de hoje para o futuro, não vamos acordar amanhã com o arvoredo dos nossos largos e ruas arrancado à semelhança do das Taipas.

Depois do que a Câmara progressista de 1899 a 1902 praticou nas árvores do jardim do Toural, tudo se pode esperar, neste sentido, de outra Câmara progressista.

Uma árvore é uma vida. E uma velha árvore merece o respeito que devemos a um homem velho.

O crime que a Câmara cometeu cortando as árvores da alameda das Taipas ficará para sempre assinalando a sua gerência como um atentado contra o bom senso e contra o bom gosto, que não pode ter absolvição ou desculpa.

Independente, Guimarães, 26 de Março de 1905
Partilhar:

29 de março de 2017

Da falta de estacionamento em Guimarães

Ao que se vê por aí, parece que está interiorizada a ideia de que Guimarães tem um problema de falta de estacionamento, que urge resolver. No entanto, não conheço qualquer estudo objectivo e sistemático que demonstre e quantifique tal necessidade. Na falta de estudos de natureza técnica, resta-nos acreditar no que nos dizem. Ou então, podemos tentar verificar a realidade no terreno. A experiência é simples, já que Guimarães é uma cidade maneirinha, que se percorre relativamente depressa a caminhar. Foi o que fiz hoje, dia normal de trabalho, ao princípio da tarde. Iniciei a minha digressão um pouco antes das 15 horas e, pouco depois das 16, dava-a por concluída, tendo visitado 14 parques de estacionamento, dos quais 13 são pagos. Os parques que visitei estão assinalados na fotografia aérea que acompanha este texto, obtida no Google Earth. Pelo caminho, fui deitando o olho aos estacionamentos de rua com parquímetros.

Parques de estacionamento do centro urbano de Guimarães.

A minha intenção era assinalar a verde no mapa os parques que tinham a indicação de “livre” e a vermelho os que diziam “completo” à entrada. Sobrou-me toda a “tinta” vermelha. Nenhum dos 14 parques estava completo. Dos parques desta lista os que ficam mais afastados do Toural ou do Centro Histórico, os do Centro Cultural Vila Flor e do Estádio, ficam a menos de quinhentos metros, que se percorrem, a pé, em 5 a 6 minutos, sem acelerar o passo.

Eis o que encontrei:

1. Parque do Centro Cultural Vila Flor: não faltava onde estacionar.

2. Parque da Caldeiroa (parque privado, a céu aberto): à hora a que lá passei eram mais os lugares desocupados do que os ocupados. Como de costume.

3. Recinto da Feira Semanal: é o único parque gratuito que incluí neste périplo. Está disponível para aparcamento todos os dias da semana, menos à sexta-feira. Cabem muitos carros. Estava com uma ocupação de cerca de 50% da sua capacidade.

4. Parque do Mercado Municipal: situado mesmo em frente ao recinto da feira, estava, como quase sempre (as excepções são as sextas-feiras, especialmente de manhã, e as manhãs de sábado), “às moscas” (como seria lógico, aliás: porquê pagar, se se tem do outro lado da rua uma fartura de estacionamento grátis?).

5. Parque do Centro Comercial Santo António: sendo pequeno e o mais central de todos os que constam nesta lista, estava com com pouco mais de metade dos lugares ocupados.

6. Estação Gil Vicente: aqui, o estacionamento afigura-se um tanto caótico, pelo que não consegui perceber bem se tinha muitos ou poucos lugares disponíveis.

7. Parque do Centro Comercial Palmeiras: muitos lugares disponíveis.

8. Parque Santa Luzia: ocupado a cerca de 50%.

9. Parque do Plataforma das Artes: muitos lugares disponíveis.

10. Parque do Triângulo: parque de grandes dimensões, com muitos lugares disponíveis.

11. Parque da Avenida de S. Gonçalo (junto à Casa do Proposto): parque que abriu recentemente, a céu aberto. Cheio de lugares vazios.

12. Parque do Estádio D. Afonso Henriques: bastante preenchido no piso superior (embora com lugares disponíveis para estacionamento), mas quase vazio na maior parte do piso inferior.

13. Parque da Mumadona: é, claramente, o parque com maior taxa de ocupação dos existentes no centro da cidade. No entanto, havia onde estacionar (para aí uma dúzia de lugares, quase todos no piso inferior).

14. Parque do S. Francisco Centro: parque muito central e de dimensões significativas. Com muitos lugares vagos, especialmente no piso inferior, que encontrei muito pouco preenchido.

E havia também os lugares de rua, com parquímetros. Em todas as ruas por onde passei, havia sempre algum espaço vago, com manifesto destaque para o parque da Alameda Alfredo Pimenta (junto ao parque do Triângulo): havia lugares livres suficientes para estacionar quatro vezes mais carros do que os que lá se encontravam.

Já a avenida por onde iniciei a minha peregrinação de hoje, a D. Afonso Henriques, é um caso muito interessante para a compreensão da origem da ideia feita da falta de estacionamento em Guimarães. Mais ao menos até meio, para quem a desce, troço que corresponde à zona de aparcamento gratuito, era impossível encontrar um lugar para estacionar um carro. Daí para baixo começa o estacionamento pago onde, até ao bar Danúbio, contei dez lugares livres. Havia onde estacionar, portanto. Porém, na embocadura da rua Caldeiroa, numa curva, quase em cima de uma passadeira, em local assinalado com traço de tinta amarela, recentemente avivado, havia quatro automóveis estacionados, incorrendo em várias infracções ao Código da Estrada (a que as autoridades sistematicamente fecham os olhos). Haverá alguma racionalidade nestes estacionamentos em infracção, havendo lugares disponíveis logo ali ao pé? Claro que há: os lugares que estavam livres são pagos. Já nos lugares onde é proibido estacionar, não se paga nada (nem multas, ao que se vê).

E assim se verifica que, à data de hoje, não havia qualquer problema de falta de lugares de estacionamento no seu centro urbano de Guimarães. Bem pelo contrário, como se mostrou, a oferta disponível superava largamente a procura.
Partilhar:

28 de março de 2017

Como uma viola em enterro

Parque de estacionamento subterrâneo, numa cidade qualquer.
De vez em quando, volta a discutir-se a questão do estacionamento na cidade de Guimarães. Que faz muita falta e é muito urgente a construção de novos parques, dizem-nos. De preferência no Toural, asseveram-nos. E subterrâneos, pois claro, juram a pés juntos. Ouço dizer que a Câmara se prepara para construir um desses “equipamentos”, em tamanho a puxar para o grandote, no miolo entre as ruas Caldeiroa e de Camões, ao mesmo tempo que encomenda um estudo para saber da viabilidade de um parque subterrâneo entre a Alameda e o Campo da Feira (e eu pasmo com tal ideia que, a concretizar-se, implicaria que fosse perpetrado o mais extenso arboricídio de que haveria memória nesta cidade). Agora, ouço falar num projecto de uma candidatura à Câmara nas próximas eleições autárquicas que recupera uma ideia que ficou pelo caminho há poucos anos: um túnel e um parque a esventrar o Toural.

Perdoem-me, a culpa é seguramente minha: deve estar a falhar-me algo, já que não encontro justificação racional para tanta necessidade de aparcamento. Onde estão os estudos de mobilidade que a demonstrem e justifiquem? Como é que tais projectos (que, a concretizarem-se, serão mais um factor de atracção de automóveis para o centro da cidade, o que vai a contracorrente de qualquer ideia de cidade com preocupações de sustentabilidade ecológica) se conciliam com o desígnio da Cidade Verde, que ainda há pouco justificou a assinatura pelos partidos com assento na Assembleia Municipal de um compromisso com o seu quê de inusitado (olha que lindos, todos tão unidos e de mãos dadas em prol do superior interesse da cidade!)? Será que não há carências verdadeiramente relevantes para os vimaranenses onde possa ser gasto, com vantagem, o dinheiro público, em vez de o atirar fora em obra feita por cima de obra ainda há pouco acabada de fazer? Então, se há dinheiro de sobra, porque é que não se reduzem as taxas e taxinhas que se cobram aos munícipes ou se investe num sistema se transportes públicos modernos, funcionais e tão ecológicos quanto possível, que possam servir a população de todo o concelho, em vez do arremedo terceiro-mundista que hoje temos?

Perdoem-me os meus amigos que pensam o contrário, mas eu não estou nada convencido de que o que faz falta a Guimarães sejam mais parques de estacionamento no centro da cidade. A não ser que continuem a pensar que o centro da cidade se resume ao Toural, já que, a poucos, muito poucos, minutos do Toural, a pé, conheço eu uns quantos parques de estacionamento que nunca vi completos. Alguns deles, costumam, até, estar às moscas. Há um que eu conheço, bem grande, por sinal, que tem dois pisos e que apenas mantém um em funcionamento, por manifesta falta de procura.

Em Guimarães, mais parques de estacionamento fazem tanta falta como uma viola em enterro. A não ser que estejam a falar em estacionamento gratuito, mas não me parece que seja o caso.

Confesso que tenho dificuldade em perceber o racional desta mono-mania vimaranense dos parques de estacionamento. A não ser que seja fruto de ciúme ou projecção subliminar de um qualquer sentimento de inferioridade em relação à cidade que fica para lá da Morreira, onde imperam os parques subterrâneos e os túneis. Bem sabemos que a inveja é coisa feia, especialmente quando invejámos aquilo que não nos faz falta, antes pelo contrário.
Partilhar:

Pedras que falam (Aqui Nasceu Portugal) - parte II



Quantas brisas, quantas ventanias, quantas tempestades não têm bafejado ou chicoteado as pedras do vosso castelo, e vede se a linguagem delas se calou, ou se, pelo contrário, não é cada vez mais forte, cada vez mais retumbante, cada vez mais solene, a voz com que essas pedras vos dizem e nos dizem: Aqui nasceu Portugal!
Agostinho de Campos, 1927

Se descontarmos as fotografias tiradas pelos turistas das visitas apressadas, que são despejados dos autocarros junto ao Castelo e que apenas ficam a conhecer as ruas de Guimarães que fazem o caminho mais rápido desde ali até ao Campo da Feira, onde os mesmos autocarros os aguardam para seguirem viagem, a Torre da Alfândega é, seguramente, o monumento mais fotografado de Guimarães, por força da inscrição que nela está cravada: Aqui Nasceu Portugal.
Resolvida o ponto da paternidade da expressão que, como vimos, não é obra de António de Oliveira Salazar, nem do Estado Novo (que, quando Agostinho de Campos a pronunciou pela primeira vez, na véspera do Pinheiro de 1927, não tinha ainda começado), falta esclarecer o momento e a autoria da sua afixação na Torre da Alfândega, que tem uma história que remete para o tempo que vai do final do século XIII aos primeiros anos do século XIV, em que foi acrescentada à cerca de muralhas que protegia a Guimarães medieval. Essa história já a contámos aqui (A Torre da Alfândega — das Origens aos nossos dias).
Depois de perder a sua função defensiva, começou a ser demolida, mas acabaria por se manter de pé, na sua parte mais substancial. Nas primeiras décadas do século XX, estava escondida por detrás de painéis publicitários, que a recobriam por completo. Na década de 1930, recuperou a sua dignidade, ficando definitivamente à vista, tendo-lhe sido acrescentadas algumas fiadas de pedra e os merlões que actualmente a encimam.
Ficando em frente à avenida por onde os visitantes chegam à cidade, depois de desembarcarem na estação de comboio do Cavalinho, passou a servir, já na década de 1940, de muro de suporte a uma saudação que, nos dias das Festas Gualterianas, dava as boas-vindas aos forasteiros.

"Guimarães saúda-vos": Jornal Português, nº 63, 1946 (imagem disponibilizada por Paulo Cunha).

Na década de 1960, esta utilização mantinha-se, como se percebe pela capa do programa das festas de 1968, naquele ano organizadas pela Associação Convívio.

Programa das Festas de Guimarães, 1968 (imagem disponibilizada por Torcato Ribeiro).

Uma resolução da Câmara Municipal de Guimarães demonstra que a inscrição Aqui Nasceu Portugal já estava afixada na torre de Alfândega antes de 18 de Setembro de 1970. A data da deliberação Camarária contraria a ideia feita e comummente aceite de que a afixação da inscrição teria partido de iniciativa da associação Unidade Vimaranense, cuja existência só se viria a concretizar no primeiro semestre de 1971, na sequência de uma grande manifestação de afirmação da identidade local que aconteceu a 10 de Dezembro de 1970.

"Aqui Nasceu Portugal" (imagem disponibilizada por Nuno Saavedra)

Excerto da acta da reunião da Câmara Municipal de Guimarães de 18 de Setembro de 1970
(Arquivo Municipal Alfredo Pimenta).

Pela leitura da notícia em que o jornal Notícias de Guimarães descreve as festas Gualterianas de 1970, ficamos a saber que o letreiro substituiu, naquele ano, a tradicional saudação “Guimarães saúda-vos”. Lemos:

Aqui nasceu Portugal — esta é a legenda de que se orgulham os habitantes de Guimarães e que nestes dias das Gualterianas está colocada na muralha da Cidade (ao Toural), de tal sorte que quem aqui chegar a avista imediatamente, no meio de milhares de luzes que vão brilhar até à madrugada de terça-feira.

Em 1970, o programa das Festas da cidade integrou um imponente cortejo histórico, que teve honras de transmissão directa pela RTP. Foi concebido pelo encenador vimaranense João Xavier de Carvalho Entre inúmeros figurantes que tomaram parte no cortejo, lá estavam dois pajens que seguravam uma faixa onde se lia:

 Portugal que aqui nasceu

Por esses dias, a habitual Gazetilha de O Comércio de Guimarães, composta por alguém que assinava, simplesmente, Perdigão, foi dedicada ao rescaldo da Gualterianas, fechava com estes versos: 

Sem usar loas nem truques,
A Marcha, o Paço dos Duques
E o “Cortejo Universal”:
— Deixam massas atraídas,
Retirarem convencidas.
Que “Aqui Nasceu Portugal”!...

Estava definitivamente apropriada pela cidade e pelo seus habitantes a frase que Agostinho de Campos revelou na Sociedade Martins Sarmento em 28 de Novembro de 1927. Em Setembro, a Câmara decidiu manter o letreiro iluminado. Ainda hoje lá está, embora já não seja o mesmo, posto que, algum dia, as letras toscas desenhadas com tábuas e lâmpadas, foram substituídas por um letreiro gótico em acrílico, agora com a iluminação moderna cuja colocação deu origem a esta conversa.

"Aqui Nasceu Portugal" (foto de www.delcampe.net)
Sabendo quando foi afixada a inscrição Aqui Nasceu Portugal na Torre da Alfândega, não sabemos quem terá sido o autor da ideia. Mas não parecem subsistir dúvidas de que a responsabilidade inicial terá pertencido a quem organizou as Festas Gualterianas de 1970 integrando as respectivas comissões organizadora e executiva, que eram assim compostas:

Comissão Organizadora — Mesa da Irmandade de S. Gualter, Antonino Dias Pinto de Castro, Juiz; Francisco Ramos Martins Fernandes, Secretário; Inácio Ferreira da Costa, Tesoureiro; Francisco Alves da Silva Lobo, Vogal; Armindo Maria Fernandes, Vogal; Armando Humberto da Costa Fernandes, Vogal.
Comissão Executiva — Mesa da Irmandade de S. Gualter, Abel Machado Faria, Alberto Oliveira, Aníbal Dias Pereira, António Figueiredo, Armando Arantes, Asdrúbal Dias Pereira, Bráulio Teixeira Carneiro, Celso Rui Guedes Machado, David Isac Cepa. Francisco A. Gonçalves Dias de Castro, Francisco Aguiar, Francisco José Ferreira de Oliveira, Eng. Hélder Raul de Lemos Rocha, Jacinto Teixeira, João do Couto Salgado Júnior (Delegado em Lisboa), João Dias Pinto de Castro, João Ferreira da Cunha, João de Oliveira, José Luís Pires, José Machado Teixeira, José Raul de Campos Carvalho, Júlio Martins, Luís Gonzaga Freitas Carvalho, Presidente do Sindicato Nacional dos Caixeiros e Presidente da Associação Recreativa da “Marcha Gualteriana”.
Partilhar:

26 de março de 2017

Pedras que falam (Aqui Nasceu Portugal)


Há algum tempo, a cidade percebeu que estava desaparecida a inscrição “Aqui Nasceu Portugal” que estava afixada na face visível da Torre da Alfândega da antiga cerca muralhada de Guimarães. Tal desaparecimento, como facilmente se concluía, apesar da estranheza inicial, não tinha em si qualquer mistério: tratava-se de uma simples operação de limpeza e de substituição do sistema de iluminação por outro mais eficaz e mais moderno. Porém, uma pequena ‘provocação’ que publiquei, acompanhando uma fotografia da torre sem a frase emblemática, deu origem a uma curiosa discussão no Facebook, de que resultou perceber-se que, afinal, havia ali um mistério. Aliás, dois mistérios: quando foi que se colocou o letreiro naquele muro secular e quem inventou aquela frase.
Dos muitos intervenientes da discussão, nenhum tinha resposta certa para tais perguntas que, aliás, já me tinham sido colocadas há um par de anos, quando a câmara de Guimarães reunia o argumentário para contestar o registo, por uma entidade privada, da marca “Aqui Nasceu Portugal”. Na altura, respondi o que sabia, que era pouco: que a referência mais antiga que tinha encontrado à expressão estava inscrita na capa de uma brochura que o Vitória Sport Clube tinha editado em 1958, aquando de uma digressão por terras de África, e que o letreiro da torre teria sido colocado quando a segunda metade do século XX já ia bem andada, provavelmente no início da década de 1970, supostamente por iniciativa da associação Unidade Vimaranense (aqui, o que julgava saber, resultava apenas de o ter ouvido dizer algum dia, a alguém).
Por estes dias, voltei ao assunto e julgo que já disponho de elementos de resposta suficientes para desfazer os dois “mistérios”.

Comecemos pela autoria da expressão “Aqui Nasceu Portugal”, que é um verdadeiro achado, já que onde se reúne, em apenas três palavras, as principais bases constituintes da identidade vimaranense: história, património, fundação, memória, berço. A explicação que aparecia como mais convincente, foi-me partilhada por um amigo na conversa do Facebook, que se recordava de ter tido um professor no Liceu que contava ter testemunhado o momento em que teria sido usada pela primeira vez: teria acontecido no Castelo de Guimarães, num discurso proferido por António de Oliveira Salazar. Esta versão foi-me depois reafirmada por outras pessoas. No entanto, uma pesquisa sistemática aos discursos de Salazar, que estão publicados, não a confirma.
A memória da invenção da expressão “Aqui Nasceu Portugal”, que substitui com vantagem as divisas “Berço da Monarquia”, pouco adequada em tempos da republicanos, e “Berço da Nação”, que quadrava melhor a um tempo em que tudo deveria ser a bem da Nação, está conservada dentro das paredes imponentes da casa da Sociedade Martins Sarmento e publicada nas páginas da sua Revista de Guimarães. Para a reconstituir, haverá que recuar até ao dia 28 de Novembro de 1927. Os que, na noite daquela segunda-feira, transpuseram a imponente fachada de Sociedade Martins Sarmento e se sentaram no seu Salão Nobre para escutarem uma conferência sobre o tema “Portugal visto de Guimarães”, não imaginavam que palavras que ali seriam proferidas perdurariam e se tornariam em legenda para uma cidade com o peso histórico e simbólico de Guimarães. 
O Inverno já se anunciava mas, ao que conta O Comércio de Guimarães do dia seguinte, o “tempo frigidíssimo” não constituiu impedimento suficiente para que “àquela Casa acorresse uma sociedade escolhida e ciosa de ouvir um dos primeiros pedagogistas portugueses”. A sala estava cheia e, “entre a assistência, viam-muitas senhoras, professoras, militares, advogados, médicos, industriais e comerciantes, estando também largamente representada a Academia”. O ambiente era festivo. A conferência iniciava um ciclo promovido pela Sociedade Martins Sarmento e seria proferida por um reconhecido linguista e pedagogo que, na juventude, pertencera ao círculo do poeta António Nobre e que, no tempo do franquismo, exercera funções de director-geral da Instrução Pública. Era autor de diversas obras, entre as quais se destacava uma “Antologia Portuguesa” em 24 volumes. Mais tarde, na década de 1930, seria professor catedrático das Faculdades de Letras das Universidades de Coimbra e de Lisboa.
Eduardo de Almeida, a quem coube a tarefa de apresentar o orador, o portuense Agostinho de Campos, fez um discurso introdutório que, no dizer do articulista do Comércio, não se ficou pelas costumeiras palavras de circunstância, podendo constituir, só por si, “uma brilhante conferência”, suficiente para preencher “um belo serão”, em que Eduardo de Almeida “com palavras cheias de eloquência, elegantes e graciosas, descreveu o estado mórbido da sociedade”, em que deixa transparecer “o desalento que o invade, por a sociedade ter resvalado para a podridão que a empesta”.
Agostinho de Campos (1870-1944)
Na sua longa conferência, Agostinho de Campos, depois de fazer o elogio Guimarães e de ressaltar a importância deste burgo na formação da nacionalidade portuguesa, partilhou um conjunto de reflexões sobre Portugal e o seu destino, por onde perpassava uma ideia algo ambígua de compromisso entre conservadorismo e mudança e em que defendia uma nova ética política que daria uma nova centralidade aos poderes locais e regionais.
Foi no seu ponto de partida, quando se referia às pedras de Guimarães que falavam, contavam memórias e apontavam direcções, que enunciou o trecho onde aparece, pela primeira vez, a expressão que inventou e que, décadas mais tarde, se transformaria na mais icónica das legendas de Guimarães:

Palavras, leva-as o vento — diz um provérbio. E eu direi que as palavras que o vento menos leva, são as que nos dizem as pedras que estão ao vento.
Quantas brisas, quantas ventanias, quantas tempestades não têm bafejado ou chicoteado as pedras do vosso castelo, e vede se a linguagem delas se calou, ou se, pelo contrário, não é cada vez mais forte, cada vez mais retumbante, cada vez mais solene, a voz com que essas pedras vos dizem e nos dizem: Aqui nasceu Portugal!

Estas palavras seriam lembradas no ano seguinte, aquele em que Guimarães descobriu, finalmente, a relevância da Batalha de S. Mamede para o processo de formação da nacionalidade portuguesa, quando, Eduardo de Almeida, numa conferência sobre S. Mamede, que proferiu na Sociedade Martins Sarmento em 6 de Julho de 1928, pediu à audiência: “Deixai-me repetir aquelas tão comovidas palavras de um bom português (o Dr. Agostinho de Campos) ainda não há muito proferidas nesta mesma sala”.
Estabelecida a sua origem, percebe-se que a apropriação da insígnia “Aqui Nasceu Portugal” por Guimarães e pelos vimaranenses não foi imediata. Passariam três décadas até que o Vitória Sport Clube a adoptasse como título para um “número único comemorativo da viagem do Vitória Sport Clube ao Ultramar Português”. Corria então o ano de 1958. Em 1966, o jornal Notícias de Guimarães compôs uma das suas celebradas primeiras páginas com que assinalava as Festas Gualterianas com a reprodução de parte do texto da conferência de 1927 de Agostinho de Campos, com um novo título, “A Mensagem de Guimarães”, e a expressão AQUI NASCEU PORTUGAL, composta a caixa alta, a sobressair.
Porém, ainda faltavam alguns anos para que a legenda que Agostinho de Campos inventou para Guimarães passasse a estar inscrita na Torre da Alfândega.
Aqui Nasceu Portugal!, número único, 1958 (exemplar da Sociedade Martins Sarmento

Primeira Página do Notícias de Guimarães de 7 de Agosto de 1966 (exemplar do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta)

Partilhar:

15 de março de 2017

As banhistas deliciosas

Salão de Chá da Praia de Polana, Lourenço Marques, em 1917.
Fotografia pescada no blogue Restos de Colecção

O arqueólogo Mário Cardoso fez carreira como militar. Em 1913, com 24 anos, completou o curso da arma de infantaria na antiga Escola de Guerra. No ano seguinte era alferes. Atingiria o ponto mais alto da sua carreira militar em 1946 quando, já no posto de coronel, assumiu o comando do Regimento de Infantaria 8, aquartelado em Braga. Pelo caminho, prestou serviço no Regimento de Infantaria 20, em Guimarães, no Batalhão de Caçadores 9, em Braga e no Batalhão de Caçadores 3, em Chaves. Durante a I Guerra Mundial, esteve mobilizado nas campanhas de África, primeiro no Sul de Angola e, depois, em Moçambique, onde esteve entre 1916 e 1918. É aí que o encontrámos no início de Dezembro de 1916, provavelmente num período de licença, a gozar do Sol de Verão do hemisfério Sul, e a contemplar, na praia de Polana, em Lourenço Marques, o mar “dum tom azul muito escuro e diferente, o céu onde flutuam gaivotas, planando em curvas serenas, inalteravelmente claro e fluído”, os navios e a admirar as banhistas deliciosas, a citar as “Chansons de Bilitis”. de Pierre Louÿs, e a exclamar que “ o horror da nudez e da carne é uma das mais acentuadas características dos povos onde domina o fanatismo católico”, como conta numa crónica que foi publicada no jornal Republicano, de Guimarães, em 10 de Março de 1917, que aqui se partilha.

Na praia

Lourenço Marques
Dezembro, 5 1916
Dezembro! Enquanto na minha terra o frio corta e o vento e as chuvas andam em correrias doidas, a chorar e a rezar, pelas ruas apertadas da velha cidade—aqui, bem longe, onde estou e donde escrevo, o calor é intenso e tomam-se banhos de mar! — Afinal, em Lourenço Marques, durante todo o ano é tempo de praia, e o mar, em Agosto ou Dezembro, tem sempre os banhistas do costume. Porém, um pouco por diferenças climatéricas, um pouco por convenção estabeleceu-se que nestes meses, a que estarmos costumados a chamar de Inverno, aqui se chamem — de Verão. Considero-me pois no Verão neste último mês de 916. Considero-me também na Polana (ou Polana beach, como querem os da comissão nacional de Turismo...); nesta terra portuguesa de Lourenço Marques (ou nesta terra inglesa de Delagoa Bay...), às 5 da tarde, num dia chic, da moda, em que na praia se reúne a fina-flor destas remotas paragens. Ponho de parte aqueles que no “bar” tomam fleumaticamente o seu whisky ou o seu tea e vou sentar-me na areia, debaixo dum toldo, com a espuma branca a morrer à beira dos meus sapatos. Fumo, contemplo c considero.
Contemplo — o mar que é dum tom azul muito escuro e diferente, o céu onde flutuam gaivotas, planando em curvas serenas, inalteravelmente claro e fluído; contemplo — os grandes steamers que passam ao longe, errantes, sem pátria, deixando atrás de si um rasto branco na água e um penacho de fumo estendido sobre a linha do horizonte; e, finalmente contemplo e admiro as banhistas deliciosas, num bando chilreante, a pequena distância, na minha frente. As deliciosas banhistas! E nem porque as vejo quase nuas, com seus curtos maillots humedecidos e moldados ao corpo, eu tenho um pensamento indecoroso, obsceno, carnal: olho a beleza como ela se me apresenta — com naturalidade. Admiro-a como arte que vive e palpita, e, como homem, desejo-a e evoco-a no que ela tem de nobremente humano. Por isso a minha vista poisa serena nesses corpos esculturais e seminus a que a água dá brilhos e claridades de mármore, pernas a que o Poeta chamou “lisas colunas”, braços coleantes como serpentes, seios altos, rostos virginais emoldurados de madeixas de oiro soltas da touca de cor intensa, fulgindo no azul do mar!
E vendo essas raparigas, inglesas quase todas, que não se envergonham nem preocupam em patentear ao olhar congestionado do portuguesinho curioso, indiscreto e malicioso, a beleza plástica do seu corpo — eu considero o escândalo que qualquer destas ingénuas girls, de olhar claro e virgem, educadas nos princípios domésticos da mais severa honestidade, considero o escândalo e a indignação que o seu deshabillé elegante provocaria numa das nossas praias de Portugal, onde as mulheres têm o mau gosto de aparecerem no banho vestindo umas detestáveis e inestéticas calças, dum pano grossíssimo, terminando em folhos até aos pés, e uma espécie de casaco apertado no pescoço e com grandes mangas, receando deixar aparecer uma nesga do corpo, talvez perfeito e belo como os mais belos! É certo que tudo provém da educação! A mulher portuguesa, cheia de preconceitos e fanatismos religiosos, esconde o corpo pela vergonha que provém duma falsa noção de pudor, porque no acto mais natural ela põe sempre um pensamento mau, reservado, intencional. A mulher inglesa não se preocupa em mostrar na praia a sua quase nudez e faz isto não por escandalosa coquetterie ou desbragamento de costumes, mas porque assim é mais cómodo e agradável para tomar o seu banho e porque, na educação livre e sã que recebeu, nunca lhe insinuaram que uma criatura nua fosse um espectáculo indecoroso ou aviltante.
Não resta dúvida que o horror da nudez e da carne é uma das mais acentuadas características dos povos onde domina o fanatismo católico. O próprio banho é um pecado! Pierre Louÿs nas suas magníficas “Chansons de Bilitis”, referindo-se à Grécia antiga, escreve: Peuple admirable, à qui la Beauté nue pouvait apparaître sans exciter le rire ni la fausse honte!
Pudesse a mulher portuguesa livrar-se de tão falsos preconceitos que a tornam muitas vezes uma escrava ou uma péssima esposa. Pudesse ela conduzir-se com essa naturalidade nas atitudes e nos gestos e essa consciente elegância, honesta e desenvolta, que são o cunho mais nobre da mulher inglesa e fazem dela, talvez, a melhor, a mais inteligente e carinhosa educadora de crianças!

Mário Cardoso.
Republicano, Guimarães, 10 de Março de 1917
Partilhar:

14 de março de 2017

"Raul Brandão Existiu?": uma pergunta de Santos Simões em 1980

Pormenor de pintura representando o V ale de Gatão, que Raul Brandão dedicou a Teixeira de Pascoais ("Ao poeta Teixeira de Pascoaes, o pintor Raul Brandão. Outono de 1928") e que serviu de capa ao catálogo da exposição da Biblioteca Nacional de 1980.

No dia 5 de Dezembro de 1980 passaram cinquenta anos sobre a morte do escritor Raul Brandão. Praticamente não houve comemorações dignas desse nome, a não ser uma grande exposição biblio-iconográfica em Lisboa, na Biblioteca Nacional. Em Guimarães, a homenagem a Brandão resumiu-se a uma romagem ao túmulo do escritor no cemitério da Atouguia, promovida pelo Centro de Arte e Recreio e pelo Teatro de Ensaio Raul Brandão. Por essa altura, Santos Simões publicava no jornal O Povo de Guimarães um texto em que reflectia sobre os “contorcionismos hepáticos” dos que presidiam aos destinos da coisa da cultura em Portugal para “evitar actos de consagração nacional” ao escritor da Casa do Alto, tal como acontecera, três anos antes, aquando do centenário do nascimento do seu companheiro Teixeira de Pascoais.

Aqui fica.


No cinquentenário da morte do autor de Húmus
Raul Brandão existiu?

por Santos Simões

Será que este país merece os seus escritores e artistas?
A pergunta não é uma provocação, mas a resposta (se a houver) com certeza que o será. Positiva ou negativa.
São tão raros os leitores de certos escritores que seria interessante investigar qual a responsabilidade da Escola nesta tragédia. Claro que me refiro aos escritores que escrevem ou escreveram e não aos copistas ou aos que estragam papel.
Nesta nossa região avultam dois nomes (dos nossos dias) cuja existência apenas se repercute nas cavas sonoridades das pazadas de terra que caem sobre os seus caixões (metafóricos). Refiro-me a Pascoaes e Brandão.
Teriam existido? Parece que sim, pois neste país os seus nomes vêm à colação de ruas e efemérides pautadas pelo nascimento e morte.
E urgente investigar se continuam sob a lousa pesada para tranquilizar os que preocupadamente os enchem de flores de plástico nas centenárias, cinquentenárias. etc. datas de passamento.
O que fizeram de contorcionismos hepáticos os doutos (i)responsáveis pela cultura no nosso (deles) país... ai o que eles fizeram para evitar actos de consagração nacional tanto na passagem do centenário de Brandão como de Pascoaes.
E agora cinquenta anos passaram sobre a morte de Brandão (do sr. Brandão da Casa do Alto).
Amou esta terra de Guimarães (à sua maneira) no duplo amor de transpor para a sua obra a “realidade inventada” dos seus ambientes (espaços habitados de fantasmas) e a “realidade real” dos que arrasta(ra)m gerações de sofrimento e aí estão eternizados nas suas páginas de dor.
Fui com amigos (velhos e queridos amigos) pôr uma flor da terra na morada de Brandão e Maria Angelina. Ali em cima, à Atouguia.
E fui a Lisboa, ao Campo Grande. sofrer a alegria de ver Brandão recordado em beleza e dignidade. A dois passos da cidade universitária, encontrei i Brandão desde Os Nefelibatas ate aos seus manuscritos (que na maior parte dos casos estão na letra dessa colaboradora paciente e inestimável da que foi sua companheira).
E senti-me acompanhado por Manuel Mendes. Com emoção.
E a Casa do Alto. E o gabinete de trabalho — ao rés do chão como o coração mandava.
E tudo. Tudo ali estava (menos os ares da Nespereira) como sempre desejei que também aqui estivesse nesta terra que ele aprendeu a amar através do amor por Maria Angelina.
Olho a capa do Catálogo precioso que a Biblioteca Nacional mandou fazer para registar a Exposição Biblio-Iconográfica. Reproduz a tela do pintor Raul Brandão sobre o vale de Gatão.
Enquanto o “foguete” galga quilómetros de regresso, a tela transformada em capa de resguardo recria uma solidão cor do mar onde Brandão e Pascoaes igualmente se esfumam.
Raul Brandão existiu?

O Povo de Guimarães, 18 de Dezembro de 1980
Partilhar:

13 de março de 2017

Assim se fazem as coisas...

"Recorte" das Memórias de Araduca de 11 de Maio de 2010.

Por estes dias, numa busca que fiz na internet a propósito de Raul Brandão, fui ter a um artigo duma revista chamada Delphica — letras e artes, com o título "Uma grande figura desaparece: morreu o genial escritor Raul Brandão", que está disponível no site www.digitalis.uc.pt, uma muito útil plataforma da Universidade de Coimbra que agrega e difunde conteúdos digitais. O artigo vem precedido de um aviso em que se informa que “todas as obras da UC Digitalis se encontram protegidas pelo Código do Direito de Autor e Direitos Conexos e demais legislação aplicável” e se indicam as respectivas condições de utilização.
Ao abrir o pdf, verifico que o artigo em questão reproduz uma entrevista de Américo Durão a Raul Brandão, que o jornal republicano vimaranense Velha Guarda reproduziu na sua edição de 7 de Dezembro de 1930, dois dias após a morte do autor de Húmus. Acontece que o tal artigo da tal revista é uma cópia de um texto que publiquei aqui em 11 de Maio de 2010. Cópia integral, aliás, porque reproduz, sem distinguir, o que era o teor texto que foi transcrito da Velha Guarda e o que não o era (um breve nariz de cera que escrevi para introduzir a entrevista a Raul Brandão). Estava lá tudo, menos a indicação da fonte onde o melro bebeu.
Nada que me espante e a que não esteja habituado.
O que se diz acima, pode-se conferir abaixo:

Nas Memórias de Araduca: Entrevista a Raul Brandão
Partilhar:

12 de março de 2017

O irmão de Raul Brandão que também escrevia

Recorte do Diário Ilustrado de 16 de Julho de 1910.

Embora não seja fácil encontrar-lhe o rasto, Raul Brandão tinha um irmão que também escrevia. Chamava-se Armando e consta da lista de testemunhas do casamento de Raul Brandão com Maria Angelina, sendo identificado como negociante.

Raul Brandão refere-se-lhe numa carta que dirigiu à sua noiva, Maria Angelina, datada de 5 de Setembro de 1896. Esta carta fez parte dos lotes do leilão da Livraria Luís Burnay, que foi a leilão em Lisboa em Junho de 1910. No verbete do catálogo leilão que se lhe refere, encontrámos uma transcrição parcial do autógrafo, onde se lê:

Em primeiro lugar desculpa o papel. Estou-te a escrever do Porto, do escritório de meu irmão, À ultima hora, para que te não falte carta minha. […] se o dia estiver bonito saio de Matosinhos às 7 e 25 minutos da manhã, com a minha irmã, minha cunhada e meu irmão. Ficamos em Vila do Conde onde almoçamos e depois partimos para a Povoa. Aí deixo-os e vou procurar-te, minha querida. Estou contentíssimo só com a ideia de que amanhã te hei-de ver e falar. Depois à noite vamos ao Teatro e no dia seguinte às 9 e dez minutos voltamos para Matosinhos. Ama-me muito. Cada vez sinto por ti mais estima e admiração. [...] Adoro-te. Não te esqueças nunca do...”

O papel de que Brandão pedia desculpa era uma folha papel quadriculado timbrado com a indicação “Casa Comercial Armando Brandão”.

Colaborou, pelo menos, no jornal Imparcial, que em 1910 era dirigido pelo seu irmão Raul, como se percebe pela breve nota que vai acima, que saiu no Diário Ilustrado de 16 de Julho de 1910, onde se lê:

— É muito muito grave o estado de saúde da mãe dos nossos colegas do “Imparcial”, srs. Raul Brandão e Armando Brandão.

Do que escreveu Armando Brandão, nada conhecemos.
Partilhar: