28 de março de 2017

Pedras que falam (Aqui Nasceu Portugal) - parte II



Quantas brisas, quantas ventanias, quantas tempestades não têm bafejado ou chicoteado as pedras do vosso castelo, e vede se a linguagem delas se calou, ou se, pelo contrário, não é cada vez mais forte, cada vez mais retumbante, cada vez mais solene, a voz com que essas pedras vos dizem e nos dizem: Aqui nasceu Portugal!
Agostinho de Campos, 1927

Se descontarmos as fotografias tiradas pelos turistas das visitas apressadas, que são despejados dos autocarros junto ao Castelo e que apenas ficam a conhecer as ruas de Guimarães que fazem o caminho mais rápido desde ali até ao Campo da Feira, onde os mesmos autocarros os aguardam para seguirem viagem, a Torre da Alfândega é, seguramente, o monumento mais fotografado de Guimarães, por força da inscrição que nela está cravada: Aqui Nasceu Portugal.
Resolvida o ponto da paternidade da expressão que, como vimos, não é obra de António de Oliveira Salazar, nem do Estado Novo (que, quando Agostinho de Campos a pronunciou pela primeira vez, na véspera do Pinheiro de 1927, não tinha ainda começado), falta esclarecer o momento e a autoria da sua afixação na Torre da Alfândega, que tem uma história que remete para o tempo que vai do final do século XIII aos primeiros anos do século XIV, em que foi acrescentada à cerca de muralhas que protegia a Guimarães medieval. Essa história já a contámos aqui (A Torre da Alfândega — das Origens aos nossos dias).
Depois de perder a sua função defensiva, começou a ser demolida, mas acabaria por se manter de pé, na sua parte mais substancial. Nas primeiras décadas do século XX, estava escondida por detrás de painéis publicitários, que a recobriam por completo. Na década de 1930, recuperou a sua dignidade, ficando definitivamente à vista, tendo-lhe sido acrescentadas algumas fiadas de pedra e os merlões que actualmente a encimam.
Ficando em frente à avenida por onde os visitantes chegam à cidade, depois de desembarcarem na estação de comboio do Cavalinho, passou a servir, já na década de 1940, de muro de suporte a uma saudação que, nos dias das Festas Gualterianas, dava as boas-vindas aos forasteiros.

"Guimarães saúda-vos": Jornal Português, nº 63, 1946 (imagem disponibilizada por Paulo Cunha).

Na década de 1960, esta utilização mantinha-se, como se percebe pela capa do programa das festas de 1968, naquele ano organizadas pela Associação Convívio.

Programa das Festas de Guimarães, 1968 (imagem disponibilizada por Torcato Ribeiro).

Uma resolução da Câmara Municipal de Guimarães demonstra que a inscrição Aqui Nasceu Portugal já estava afixada na torre de Alfândega antes de 18 de Setembro de 1970. A data da deliberação Camarária contraria a ideia feita e comummente aceite de que a afixação da inscrição teria partido de iniciativa da associação Unidade Vimaranense, cuja existência só se viria a concretizar no primeiro semestre de 1971, na sequência de uma grande manifestação de afirmação da identidade local que aconteceu a 10 de Dezembro de 1970.

"Aqui Nasceu Portugal" (imagem disponibilizada por Nuno Saavedra)

Excerto da acta da reunião da Câmara Municipal de Guimarães de 18 de Setembro de 1970
(Arquivo Municipal Alfredo Pimenta).

Pela leitura da notícia em que o jornal Notícias de Guimarães descreve as festas Gualterianas de 1970, ficamos a saber que o letreiro substituiu, naquele ano, a tradicional saudação “Guimarães saúda-vos”. Lemos:

Aqui nasceu Portugal — esta é a legenda de que se orgulham os habitantes de Guimarães e que nestes dias das Gualterianas está colocada na muralha da Cidade (ao Toural), de tal sorte que quem aqui chegar a avista imediatamente, no meio de milhares de luzes que vão brilhar até à madrugada de terça-feira.

Em 1970, o programa das Festas da cidade integrou um imponente cortejo histórico, que teve honras de transmissão directa pela RTP. Foi concebido pelo encenador vimaranense João Xavier de Carvalho Entre inúmeros figurantes que tomaram parte no cortejo, lá estavam dois pajens que seguravam uma faixa onde se lia:

 Portugal que aqui nasceu

Por esses dias, a habitual Gazetilha de O Comércio de Guimarães, composta por alguém que assinava, simplesmente, Perdigão, foi dedicada ao rescaldo da Gualterianas, fechava com estes versos: 

Sem usar loas nem truques,
A Marcha, o Paço dos Duques
E o “Cortejo Universal”:
— Deixam massas atraídas,
Retirarem convencidas.
Que “Aqui Nasceu Portugal”!...

Estava definitivamente apropriada pela cidade e pelo seus habitantes a frase que Agostinho de Campos revelou na Sociedade Martins Sarmento em 28 de Novembro de 1927. Em Setembro, a Câmara decidiu manter o letreiro iluminado. Ainda hoje lá está, embora já não seja o mesmo, posto que, algum dia, as letras toscas desenhadas com tábuas e lâmpadas, foram substituídas por um letreiro gótico em acrílico, agora com a iluminação moderna cuja colocação deu origem a esta conversa.

"Aqui Nasceu Portugal" (foto de www.delcampe.net)
Sabendo quando foi afixada a inscrição Aqui Nasceu Portugal na Torre da Alfândega, não sabemos quem terá sido o autor da ideia. Mas não parecem subsistir dúvidas de que a responsabilidade inicial terá pertencido a quem organizou as Festas Gualterianas de 1970 integrando as respectivas comissões organizadora e executiva, que eram assim compostas:

Comissão Organizadora — Mesa da Irmandade de S. Gualter, Antonino Dias Pinto de Castro, Juiz; Francisco Ramos Martins Fernandes, Secretário; Inácio Ferreira da Costa, Tesoureiro; Francisco Alves da Silva Lobo, Vogal; Armindo Maria Fernandes, Vogal; Armando Humberto da Costa Fernandes, Vogal.
Comissão Executiva — Mesa da Irmandade de S. Gualter, Abel Machado Faria, Alberto Oliveira, Aníbal Dias Pereira, António Figueiredo, Armando Arantes, Asdrúbal Dias Pereira, Bráulio Teixeira Carneiro, Celso Rui Guedes Machado, David Isac Cepa. Francisco A. Gonçalves Dias de Castro, Francisco Aguiar, Francisco José Ferreira de Oliveira, Eng. Hélder Raul de Lemos Rocha, Jacinto Teixeira, João do Couto Salgado Júnior (Delegado em Lisboa), João Dias Pinto de Castro, João Ferreira da Cunha, João de Oliveira, José Luís Pires, José Machado Teixeira, José Raul de Campos Carvalho, Júlio Martins, Luís Gonzaga Freitas Carvalho, Presidente do Sindicato Nacional dos Caixeiros e Presidente da Associação Recreativa da “Marcha Gualteriana”.
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