28 de março de 2017

Como uma viola em enterro

Parque de estacionamento subterrâneo, numa cidade qualquer.
De vez em quando, volta a discutir-se a questão do estacionamento na cidade de Guimarães. Que faz muita falta e é muito urgente a construção de novos parques, dizem-nos. De preferência no Toural, asseveram-nos. E subterrâneos, pois claro, juram a pés juntos. Ouço dizer que a Câmara se prepara para construir um desses “equipamentos”, em tamanho a puxar para o grandote, no miolo entre as ruas Caldeiroa e de Camões, ao mesmo tempo que encomenda um estudo para saber da viabilidade de um parque subterrâneo entre a Alameda e o Campo da Feira (e eu pasmo com tal ideia que, a concretizar-se, implicaria que fosse perpetrado o mais extenso arboricídio de que haveria memória nesta cidade). Agora, ouço falar num projecto de uma candidatura à Câmara nas próximas eleições autárquicas que recupera uma ideia que ficou pelo caminho há poucos anos: um túnel e um parque a esventrar o Toural.

Perdoem-me, a culpa é seguramente minha: deve estar a falhar-me algo, já que não encontro justificação racional para tanta necessidade de aparcamento. Onde estão os estudos de mobilidade que a demonstrem e justifiquem? Como é que tais projectos (que, a concretizarem-se, serão mais um factor de atracção de automóveis para o centro da cidade, o que vai a contracorrente de qualquer ideia de cidade com preocupações de sustentabilidade ecológica) se conciliam com o desígnio da Cidade Verde, que ainda há pouco justificou a assinatura pelos partidos com assento na Assembleia Municipal de um compromisso com o seu quê de inusitado (olha que lindos, todos tão unidos e de mãos dadas em prol do superior interesse da cidade!)? Será que não há carências verdadeiramente relevantes para os vimaranenses onde possa ser gasto, com vantagem, o dinheiro público, em vez de o atirar fora em obra feita por cima de obra ainda há pouco acabada de fazer? Então, se há dinheiro de sobra, porque é que não se reduzem as taxas e taxinhas que se cobram aos munícipes ou se investe num sistema se transportes públicos modernos, funcionais e tão ecológicos quanto possível, que possam servir a população de todo o concelho, em vez do arremedo terceiro-mundista que hoje temos?

Perdoem-me os meus amigos que pensam o contrário, mas eu não estou nada convencido de que o que faz falta a Guimarães sejam mais parques de estacionamento no centro da cidade. A não ser que continuem a pensar que o centro da cidade se resume ao Toural, já que, a poucos, muito poucos, minutos do Toural, a pé, conheço eu uns quantos parques de estacionamento que nunca vi completos. Alguns deles, costumam, até, estar às moscas. Há um que eu conheço, bem grande, por sinal, que tem dois pisos e que apenas mantém um em funcionamento, por manifesta falta de procura.

Em Guimarães, mais parques de estacionamento fazem tanta falta como uma viola em enterro. A não ser que estejam a falar em estacionamento gratuito, mas não me parece que seja o caso.

Confesso que tenho dificuldade em perceber o racional desta mono-mania vimaranense dos parques de estacionamento. A não ser que seja fruto de ciúme ou projecção subliminar de um qualquer sentimento de inferioridade em relação à cidade que fica para lá da Morreira, onde imperam os parques subterrâneos e os túneis. Bem sabemos que a inveja é coisa feia, especialmente quando invejámos aquilo que não nos faz falta, antes pelo contrário.
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