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Mensagens

A mostrar mensagens de Novembro, 2013

Carta às senhoras de pura e fina raça, escrita pelo Diabo

Em 1898, João de Meira, então com 17 anos de idade, fundou em Guimarães A Parvónia, um jornal de arte e crítica, que deu que falar, pela sua irreverência. Dele já aqui falamos, e a ele voltaremos. Para já, aqui fica um texto de  A Parvónia, em que, assinando com o nome do demo, João de Meira se dirige às moças de Guimarães, para lhes dar um par de conselhos, entremeados por trechos de pregões de Bráulio Caldas e de versos de académicos de inspiração inflamada.

Carta a Vós senhoras de pura e fina raça (acerca das festas a S. Nicolau) Venha conversar um pouco convosco. Damas de Guimarães, mimosas flores-de-Liz, falar-vos de um assunto mais velho do que o pecado, porque antes que Eva pecasse de parceria com Adão, já a maçã pendia da árvore fatal. E é justamente, acerca da maçã, o fruto que a vossa boca rosada aromatiza e morde, que necessito de vos dizer estas coisas de nenhum modo banais. Eleitas do Senhor... damas de Guimarães, a aceitação de ofertas implica gratidão aos oferentes. Aceitando a…

João de Meira, escritor

Pergunta-me um amigo se as Memórias de Araduca entraram novamente em hibernação.
Não.
O que acontece é que por estes dias me tenho dedicado a ler tudo o que escreveu João de Meira e tudo o que encontro que se escreveu sobre João de Meira (em parte a reler, em parte a descobrir, porque, afinal, João de Meira escreveu muito mais do que aquilo que normalmente lhe tem sido atribuído). João de Meira foi, em Guimarães, a inteligência mais luminosa da sua geração. Destacou-se como médico e professor de medicina, mas foi, acima de tudo, um escritor de enorme talento, uma promessa que a morte precoce impediu que fosse cumprida. No próximo sábado, 30 de Novembro, a seguir ao Pinheiro, partilharei a minha leitura dos escritos de João de Meira na sessão evocativa do centenário da sua morte, promovida pela Sociedade Martins Sarmento. Entretanto, aqui fica um aperitivo, num texto que publicou há 110 anos a propósito das festas dos estudantes a S. Nicolau que, se têm uma madrinha (a D. Aninhas), tê…

A morte da Menina do Costeado, por João de Meira

Da história trágica da Menina do Costeado, já se falou aqui (O mistério da morte da Menina do Costeado), usando como fonte, essencialmente, o testemunho de um contemporâneo, o Cónego Pereira Lopes. Hoje revisitamos o crime que a vitimou, pela pena de João de Meira, num texto que publicou em 1906 no jornal Independente.

Velho crime
Ao exmo. snr. Valentim de Sá Meneses
Na noite de 4 para 5 de Maio de 1841, que foi uma noite esplendorosa de luar primaveril, havia baile de anos em casa de João de Melo Pereira de Sampaio, junto ao terreiro das Claras. Desde as da noite que nas vastas salas se dançava animadamente. As janelas estavam abertas; e fora, no largo, os criados de libré, que guardavam as carruagens desatreladas onde seus amos tinham vindo, empoleirando-se nos tectos das berlindas gozavam do espectáculo feérico. Entre as que mais se divertiam, esfuziante de alegria e mocidade, destacava se a rica herdeira do Costeado, a filha do falecido militar José de Nápoles. Vestia de seda cor-de-ros…

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (10)

[continua daqui]
Na sua edição de 22 de Maio de 1881, o jornal O Formigueiro comentava o completo desprezo com que Braga pagou a desfeita da companhia do Teatro do Príncipe Real, quando, em Maio de 1881, chegou a Braga depois de ter passado por Guimarães:
O Pedantismo de Braga Ou pedantismo ou pulhismo que escolham os bracarenses a quem nos vamos referir. De há muito que ouvíamos falar em umas rivalidades entre Braga e Guimarães, e achávamo-las tão estúpidas que não as acreditávamos. Agora vemos que era verdade o que se dizia, por termos conhecimento do que se passou a semana passada com a companhia do teatro Príncipe Real, do Porto. Incrível, na verdade! Se fora em uma terra aonde não tivesse chegado a civilização, admitia; mas em Braga, que tem obrigação de se mostrar competentemente ilustrada e civilizada, é simplesmente estúpido! Vamos ao facto e à rivalidade a que nos referimos: A companhia do teatro Príncipe Real teve a ideia de fazer uma digressão pela província, principiando por Guim…

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (9)

[continua daqui]
Os vimaranenses da segunda metade do século XIX queixavam-se do muito que pagavam para o orçamento distrital e do nada que recebiam em troca. Mas havia outras razões para o desconforto. Entre elas, a sobranceria com que Braga assumia a sua condição de capital do distrito. Relatamos agora um episódio sucedido na Primavera de 1881, durante  uma digressão pelo Minho da companhia residente do Teatro-Circo Príncipe Real (o mesmo que, depois de 1910, passaria a ser designado por Teatro Sá da Bandeira), que começou em Guimarães. Para os espectáculos realizados em Guimarães foi construído um novo teatro-barracão na rua de Gil Vicente. No dia 12 de Maio, saiu de Guimarães, depois de três récitas, com a promessa de regressar no dia 23, para mais quatro dias de espectáculos, estes no Teatro D. Afonso Henriques. A companhia seguiu para Braga onde foi recebido com inusitada frieza. Os bracarense não lhe perdoaram a desfeita de ter vindo em Guimarães antes de passar a Braga. A sobe…

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (8)

[continua daqui] Como já se disse no texto anterior, as queixas de Guimarães quanto à administração distrital e às vantagens que dela tirava a cabeça de distrito, Braga, eram antigas quando no dia 28 de Novembro de 1885 explodiu no Minho um barril de pólvora que derrubaria um governo. Os argumentos dos vimaranenses prendiam-se com o muito que tinham que contribuir para o orçamento distrital e o pouco, ou nada, que recebiam em troca. A tutela de Braga era encarada como um estorvo ao progresso de Guimarães. O essencial do argumentário das gentes de Guimarães aparece num texto publicado no dia 19 de Dezembro de 1880, no jornal O Formigueiro, que aqui se reproduz:
A nossa emancipação da tutela de Braga É um dever sagrado do cidadão procurar por todos os meios ao sou alcance o bem-estar da terra que lhe foi berço, e se todas elas precisam do braço e da energia desses heróis duma causa santa — Guimarães é a que precisa mais deles. A causa é conhecida e torna-se prolixo apontá-la de novo. Uma …

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (7)

[continua daqui]

A questão da criação do curso complementar de ciências faria estalar a fase mais aguda do conflito entre Guimarães e Braga. Os vimaranenses não estavam dispostos a contribuir para mais um melhoramento distrital que, na sua opinião, apenas beneficiava Braga. Sobre os acontecimentos que marcam esta fase do conflito e que contribuíram para a queda do último governo de António Maria Fontes Pereira de Melo, já quase tudo ficou dito aqui, na série de textos Crónica do conflito brácaro-vimaranense, que começava assim: No dia 28 de Novembro de 1885, os procuradores de Guimarães à Junta Geral do Distrito de Braga – Conde de Margaride, Joaquim José de Meira e José Martins de Queirós Montenegro (Minotes) – foram objecto de incidentes orquestrados que estiveram na origem de um grave conflito entre Guimarães e Braga, fazendo eclodir nesta cidade um movimento que defendia a saída do Distrito de Braga e a união ao Porto, que teria fortes repercussões regionais e nacionais. No entanto…

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (6)

[continua daqui]

Guimarães revelou sempre desconforto e insatisfação em relação à sua dependência em relação a Braga. Após a criação dos distritos, que decretou a dependência de Guimarães em relação à cabeça do seu distrito, Braga, as queixas e as tomadas de posição contra a participação nas despesas distritais que era exigida ao concelho foram aumentando de frequência. Assim aconteceu, por exemplo, quando, em Abril de 1873, foi levado à Câmara dos deputados um projecto para elevar a Biblioteca Pública de Braga à condição de biblioteca distrital, passando a ser suportada por todo o distrito. Ou quando, em Maio de 1877, a Junta distrital decidiu criar um corpo policial em Braga, que também iria viver a expensas de todos os concelhos do distrito, cabendo a Guimarães uma quota de três contos anuais. Em ambos os casos, a Câmara de Guimarães reclamou contra os novos encargos que lhe eram criados, sem que o concelho deles tirasse qualquer benefício. Estas posições eram partilhadas pelos ci…