28 de novembro de 2013

Carta às senhoras de pura e fina raça, escrita pelo Diabo

A entrega das maçãs (foto de Guimarães2012)

Em 1898, João de Meira, então com 17 anos de idade, fundou em Guimarães A Parvónia, um jornal de arte e crítica, que deu que falar, pela sua irreverência. Dele já aqui falamos, e a ele voltaremos. Para já, aqui fica um texto de  A Parvónia, em que, assinando com o nome do demo, João de Meira se dirige às moças de Guimarães, para lhes dar um par de conselhos, entremeados por trechos de pregões de Bráulio Caldas e de versos de académicos de inspiração inflamada.


Carta a
Vós senhoras de pura e fina raça
(acerca das festas a S. Nicolau)
Venha conversar um pouco convosco.
Damas de Guimarães, mimosas flores-de-Liz,
falar-vos de um assunto mais velho do que o pecado, porque antes que Eva pecasse de parceria com Adão, já a maçã pendia da árvore fatal. E é justamente, acerca da maçã, o fruto que a vossa boca rosada aromatiza e morde, que necessito de vos dizer estas coisas de nenhum modo banais.
Eleitas do Senhor... damas de Guimarães,
a aceitação de ofertas implica gratidão aos oferentes.
Aceitando as maçãs contrahis uma obrigação, ficais em dúvida para com os académicos que vo-las oferece- ram
Gomo pagais essa dívida? Como vos desembaraçaes dessa obrigação? Que lhes ofereceis em troca? O vosso amor?
Tendes acaso amor suílicienle para todos os que passarem cavalgando sob vossas janelas e voltados na sela vos oferecerem maçãs?
Eu não duvido, não, que o vosso amor,
Donzelas, ó rivais da Aurora a despontar,
chegue para todos os garbosos académicos que metamorfoseados em pajens, em tunos, em pachás e outras figuras carnavalescas, vos brindam com o fruto em questão, mas peço licença para vos recordar que esse amor, essa ternura infinda não deve ser distribuída em rações como o pão dos pobres de Santo António.
Convindo porém em que de um só aceiteis com uns restos de atavismo, com uma predisposição que remonta a Eva, a maçã oferecida, quero ainda prevenir-vos de que muitos desses académicos vestem sotaina negra, cor dos corvos e da alma de muitos deles e decerto a nenhuma de V. Exas. convém a posição de Hermengarda de Euricos tão prosaicos e tão saturados de latim.
*
Vós que tendes um altar no peito dos rapazes,
recebestes um soneto das mãos de um académico, mas ignorais que o prazer de ver a poesia em letra redonda e de vo-la ofertar, custou ao vate o amolgamento diário das costelas de há tempos a esta parte.
Vós que tendes mães que vos adoram, vós que sois todas bondade, ignorais o que seja um parente tirano incapaz de compreender os altos destinos reservados ao poeta que vai rabiscando sonetos nas páginas brancas de um compêndio.
Frustrado intento, o de querer vedar com tareia as torrentes de poesia que lhe irrompem do cérebro anormal.
Quando um homem sente em si o fermento de três Petrarcas num arcaboiço de Camões, é im-possível abafar-lhe com palmatoadas os gritos de Génio, porque o Génio, minhas senhoras,assim como a Asneira, rebenta quando é comprimido. Aquele soneto era uma explosão. De Génio? De Asneira? Permiti-me que não entre em averiguações de tal ordem.
Intitulava-se — A VÓS... Desconfio que o titulo acoberte uma insinuação malévola; temo que chamando-vos “avós”, queira chamar-vos velhas.
………………. Damas, rolas gemedoras
Que voais ao nosso lado sedutoras
guardai o soneto, bem estimado, na caixinha de cartonagem onde conservais os sabonetes e os lenços bordados, guardai-o que ele representa muito lágrima, muita tareia e pedi a Um chamado Deus que se compadeça de uns de cérebro anómalo como o poeta.
*
Recebestes também
Epopeias do Azul com versos do luar,
de um outro académico três quadras que rematam:
Quero dar-te a minha vida
E por ti quero morrer
Não sei se V. Ex.as estão dispostas a deixá-lo imolar-se para remir os pequeninos pecados que por acaso tenham. Mas se tal vão fazer, eu lhes rogo, suspendam o sacrifício inútil. Suspendam, visto o poeta-académico não ser cordeirinho puro que se possa imolar a Jeová,ou bode expiatório sobre o qual possam V. Exas. descarregar suas culpas.
*
Houve ainda um terceiro poeta que não contente com sua invejável posição de mamífero placentário da ordem dos primatas, vos disse, minhas senhoras, pretender ser transformado em flor, à semelhança de Jacinto. Foi um modo encoberto de pedir que o tragam ao peito; há nos versos uma saudade dos tempos em que o vate tinha ama.
*
Digam-me V. Exas. que eu quis fazer paradoxo, e digam-me eles, os académicos, que também eu, um dia, afivelei a mascara de veludo negro e de chapéu de dois bicos, sapato de fivela, em traje de tuno compostelano, fiz aquilo que hoje, se não acho ridículo, ao menos me parece, velho e sem significação; digam-me isto que eu responderei apenas:
— É verdade, e não fiz uma asneira. Fiz uma criancice.
Todos esses maviosismos que pedi emprestado à lira de Bráulio Caldas tiveram por fim adoçar as rudezas do meu carácter de Diabo e pôr nesta carta umas tonalidades melífluas muito convenientes a quem, como eu, vem conversar com senhoras.
O Diabo
[João de Meira]

A Parvónia, Guimarães, 5 de Janeiro de 1899
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27 de novembro de 2013

João de Meira, escritor


Pergunta-me um amigo se as Memórias de Araduca entraram novamente em hibernação.

Não.

O que acontece é que por estes dias me tenho dedicado a ler tudo o que escreveu João de Meira e tudo o que encontro que se escreveu sobre João de Meira (em parte a reler, em parte a descobrir, porque, afinal, João de Meira escreveu muito mais do que aquilo que normalmente lhe tem sido atribuído). João de Meira foi, em Guimarães, a inteligência mais luminosa da sua geração. Destacou-se como médico e professor de medicina, mas foi, acima de tudo, um escritor de enorme talento, uma promessa que a morte precoce impediu que fosse cumprida. No próximo sábado, 30 de Novembro, a seguir ao Pinheiro, partilharei a minha leitura dos escritos de João de Meira na sessão evocativa do centenário da sua morte, promovida pela Sociedade Martins Sarmento. Entretanto, aqui fica um aperitivo, num texto que publicou há 110 anos a propósito das festas dos estudantes a S. Nicolau que, se têm uma madrinha (a D. Aninhas), têm em Meira o padrinho, já que foi ele que as baptizou.

João de Meira foi o primeiro historiador das festas nicolinas. Uma das suas fontes de informação foi António Joaquim de Almeida Gouveia, várias vezes pregoeiro entre 1831 e 1844, que ainda estava vivo quando o texto que aí vai foi escrito.


O S. NICOLAU
(Carta de um velho Frade à Comissão dos festejos escolásticos)

Primum omnium... Dominus vobiscum, briosos estudantes.

Não estranheis que eu de princípio à missiva com uma saudação denunciadora da leitura do belo livro de Ruth. É hábito inveterado.

Curvado ao peso do mais de dois carros de invernos, sempre tomado de achaques, pois a velhice é doença = senectus est morbus = sinto-me remoçar com a notícia de vos terdes congregado para o efeito de mais uma vez a Academia, que dignamente representais, dar solene testemunho do sou apego às velhas tradições. Louvores, muitos louvores vos sejam dados.

Sois todos muito novos, no que me informam, porque já não posso arredar pé desta cela onde há muitos anos vivo a curtir saudades dos belos tempos anteriores à execução da lei de 34 com que a Senhora Dona Maria da Glória contemplou todos os meus irmãos em Cristo; por isso mesmo porque não sei se além do António Joaquim de Almeida Gouveia, relíquia dos vossos festejos, sobrevive mais algum velho entusiasta dos folguedos escolásticos, vou lembrar-vos. se a memória me for fiel, o que no meu tempo mais contribuía para o seu esplendor.

Convém primeiramente saber-se que o elemento eclesiástico, de harmonia com a lei Estatutária, teve sempre o primeiro lugar na celebração dos festejos escolásticos vimaranenses.

Eu, o Frei José da Luz, há anos falecido na sua casa da Rua Nova do Comércio, o Frei Inácio Lago, do Arco de S. Bento, e vários outros filhos Ordens de S. Domingos, S. Francisco e S Jerónimo, nem uma vez deixámos de imprimir aos festejos escolásticos todo o brilho possível.

Outra geração de eclesiásticos ilustres, os padres Sebastião Leite, José Sampaio (O Mico), Campo Santo, Joaquim machado, etc., associados a numerosos estudantes , filhos de distintas famílias, como Joaquim Inácio de Abreu Vieira, José Ferreira Mendes da Paz, João Pinto de Queirós, António Chaves, dr. Silva Ribeiro, etc., etc., seguiram-nos as pisadas com igual fervor, tendo até, num só ano, levantado em Guimarães dois pinheiros anunciadores dos festejos que, afinal, por motivo de cisão, entre o grupo, sofreram larguíssima interrupção. É sempre este o resultado dos excessos. excessos.
Nada pois de excessos, meus queridos jovens, se quereis dar vida longa ao S. Nicolau. No meio, só no meio está a virtude = in medio virtus =. Fugir dos extremos, foi sempre a minha norma e a de todos aqueles que desejavam prosseguir na senda gostosamente encetada.

Seja, pois, também a vossa, não vos abalançando ao que hoje, por um bambúrrio de sorte, podereis fazer, e que amanhã outros não farão.

Pinheiro, magusto, pregão, cavalhadas e danças, tudo se poderá efectuar à antiga com o aplauso e cooperação do nobre povo de Guimarães, tão cioso das regalias da sua terra.
Como novos que sois, e portanto inexperientes, devereis desde já agregar à vossa comissão os cavalheiros a quem se deve a ressurreição dos festejos que muitos julgaram para sempre extintos. Destes ocorre-me ouvir falar nos nomes do Padre Roriz, Jerónimo Sampaio, José Pina, Queirós, Álvaro e Acácio Machado, João Barbosa, Leão Martins, Luís de Freitas, e em muitos mais.

Ora pois.

O tempo arrefeceu bastante e o meu reumático a agravou-se a ponto de me torturar com dores. Eis os motivos por que ponho ponto por hoje esperando melhores dias para coordenar os curiosíssimos apontamentos que possuo referentes ao S. Nicolau, desde a sua origem, os quais desejo oferecer impressos à vossa Academia.

Só então podereis melhor conhecer quão alegre era a virtude antiga, despida dos fingimentos que as modernas teorias autorizam, tão opostas à firmeza de crenças e pureza de sentimentos.

Ai! tempos, tempos...

Vale.

Do vosso antigo colega,

Frei Athanagildo Calpurniano.

Independente, Guimarães, 20 de Novembro de 1904
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10 de novembro de 2013

A morte da Menina do Costeado, por João de Meira

Portal da Casa do Costeado (fotografia da colecção da associação Muralha)

Da história trágica da Menina do Costeado, já se falou aqui (O mistério da morte da Menina do Costeado), usando como fonte, essencialmente, o testemunho de um contemporâneo, o Cónego Pereira Lopes. Hoje revisitamos o crime que a vitimou, pela pena de João de Meira, num texto que publicou em 1906 no jornal Independente.


Velho crime

Ao exmo. snr. Valentim de Sá Meneses

Na noite de 4 para 5 de Maio de 1841, que foi uma noite esplendorosa de luar primaveril, havia baile de anos em casa de João de Melo Pereira de Sampaio, junto ao terreiro das Claras.
Desde as da noite que nas vastas salas se dançava animadamente.
As janelas estavam abertas; e fora, no largo, os criados de libré, que guardavam as carruagens desatreladas onde seus amos tinham vindo, empoleirando-se nos tectos das berlindas gozavam do espectáculo feérico.
Entre as que mais se divertiam, esfuziante de alegria e mocidade, destacava se a rica herdeira do Costeado, a filha do falecido militar José de Nápoles.
Vestia de seda cor-de-rosa e, no rodopiar das danças, a saia de baixo, de fina cassa branca, parecia espumejar como uma onda revolta.
O velho liberal António de Nápoles, seu tio e seu tutor, revia-se na sobrinha, que sendo feia tinha aquele encanto particular de agrado e sedução com que a natureza dota, para compensá-las, aquelas a quem nega a formosura.
Já duas vezes lhe dissera para se retirarem. Já duas vezes ficara ante as suas instâncias. E quando afinal abandonaram o baile batia uma da noite na Oliveira.
António de Nápoles acercou-se da sua berlinda.
O Joaquim boleeiro, que estava contando entre um grupo de amigos como, uma hora antes, quando trazia para cima os machos que fora guardar ao Costeado, encontrara um homem alto, de crossa e chapéu desabado junto à porta da D. Gertrudes, ao fundo da rua das Oliveiras, correu pressuroso, gritando ainda aos colegas:
— Ele não queria que o conhecessem porque se voltou para a parede quando passei.
O escudeiro Jerónimo, muito hirto na sua libré nova, abriu a portinhola envidraçada.
Subiram os três, o fidalgo, a sobrinha D. Maria Júlia da Luz Vaz Vieira de Melo Alvim, que assim se chamava, e a mãe desta, sua cunhada, D. Joaquina Máxima de Faria Palhares Freire de Andrade.
Aconchegando do corpo orico xaile de Tonkin bordado enque se abafava, D. Maria Júlia ocupou a almofada da frente. Mãe e tio sentaram-se atrás.
O criado saltou para a tábua e o boleeiro, bifurcando-se num dos machos, fez arrancar a parelha.
O magnífico luar enchia de fortes contrastes de claro-escuro o velho burgo quase medieval que então era Guimarães.
António de Nápoles cabeceava de somo e nos olhos de D. Maria Júlia havia um brilho intenso, como que um derradeiro reflexo das mil cintilações daquela festa deliciosa a que acabava de assistir.
Ao entrar na rua das Molianas o cocheiro tornou a divisar o homem de crossa rente à casa das Engonças, mas não fez caso.
Súbito o vulto recolheu-se ao escuro da Viela das Freiras e, quando a berlinda com todo o barulho das suas velhas ferragens passou em frente da estreita ruela, o estrondear de um tiro fez empinar os machos que romperam numa desenfreada carreira.
Com risco de tombar o coche de onde saíam gritos aflitivos, o boleeiro colheu as rédeas, voltou rapidamente a parelha contra a parede, e assim a susteve.
A esse tempo já o moço de tábua descera e, abrindo a portinhola direita, cujo vidro voara em estilhas, vira D. Maria Júlia cabida sobre o regaço de sua mãe.
O fidalgo António de Nápoles saltara todo ensanguentado, clamando por socorro em altos brados. E, dentro,D. Joaquina Máxina semi-louca repetia:
— Filha, filha! Mataram a minha menina!
Às janelas apareceu gente. Os mais timoratos abrindo apenas uma fresta dos estreitos postigos espreitavam a medo.
Um criado do cirurgião Varela desceu à rua, mal vestido com uma velha espingarda reiúna.
A esse tempo o assassino, que se evadira pela viela, devia ir longe.
Apesar isso, enquanto o boleeiro levava para o Costeado os amos sucumbidos e o cadáver ainda quente, Jerónimo, o criado de tábua, tomando a espingarda das mãos do moço do cirurgião correu destemidamente pela viela até Trás-Gaia, e depois até casa sem lhe encontrar o rasto.

VELHO CRIME
Participado para juízo o crime a 5 de Maio, por ofticio do juiz eleito de S. Sebastiao Jerónimo José da Costa, mandou o juiz de direito dr. António Correia Botelho Teixeira Rebelo, no mesmo dia, proceder em sua presença ao exame de corpo de delito e inquirição de testemunhas.
Vieram primeiro ns cirurgiões António José de Faria, morador na rua nova das Oliveiras e Domingos José Ribeiro e Silva, mais conhecido por Domingos de Rabiços, morador em S. Lázaro.
Examinando o cadáver os peritos médicos encontraram no terço supero-externo do braço esquerdo quatro feridas profundas e uma superficial, e no tórax entre a terceira e quarta costelas esquerdas mais duas feridas de onde saíra sangue em abundância.
Denotavam todas ter sido feitas por tiro de bala ou quartos e nas duas do peito encontravam-se ainda os zagalotes que as haviam produzido.
Segundo a declaração dos cirurgiões a morte foi consequência imediata e inevitável das feridas toráxicas.
Ouvidos depois os carpinteiros João de Macedo de S. Tirso de Prazins e Bento Ferreira Salgado de S. Vicente de Oleiros, que se achavam trabalhando em Creixomil e haviam examinado como peritos a berlinda em que a desditosa fora assassinada, declararam encontrar o vidro da portinhola direita despedaçado, um zagalote incrustado na travessa da mesma e, no caixilho de vidro, o orifício por onde outro devia ter penetrado.
Chamado então a depor António de Nápoles, descreveu o crime como vimos que ele foi perpetrado e, perguntado se sabia quem podia tê-lo praticado ou mandado praticar, respondeu que, se suposições eram suficientes para fundamentar queixas, ele desconfiava que fosse mandatária a Rosinha do Toural.
As testemunhas ouvidas a seguir, Joaquim de Sousa, filho de Manuel de Passos, de Creixomil e Jerónimo da Silva, filho de António da Silva de S. João de Ponte, o primeiro boleeiro e o segundo criado de tábua da casa do Costeado, nada acrescentaram às declarações de seu amo.
No mesmo dia o administrador José Inácio de Abreu Vieira, por alcunha, O Cutalho, procedeu a investigações no Costeado e entrando no quarto onde estava o cadáver fê-lo descobrir encontrando as lesões assinaladas pelos peritos e notando ainda pequenas feridas provenientes ao que parece de lascas do vidro da portinhola, projectadas pela violência do tiro.
Garantindo-lhe as criadas que o cadáver não tinha mais lesões, o administrador e seu escrivão Luís António de Freitas, não levaram mais longe a sua investigação, passando a examinar a roupa.
O vestido de seda cor de rosa, o xaile de Tonkin, o colete, a camisa e a saia de cassa branca, tudo se achava ensopado em sangue, tendo a camisa, o colete, o corpo do vestido e o xaile os buracos dos mortíferos zagalotes.
Depois ouviu os mesmos carpinteiros sobre os desgastos da berlinda, e sobre o crime as mesmas testemunhas que haviam deposto perante o juiz de direito.
Juntado aos autos, este auto de investigação, foi, a requerimento, do delegado Francisco Leite Olireira da Costa Bernardes, lavrado auto de querela contra Rosa Maria da Silva, também conhecida por Rosinha do Toural, aquela de quem dizia a cantiga popular:
A Rosinha do Toural
Tem uma saia amarela;
Ela cuida que é de seda,
Ela é mas é de...

João de Meira.


Independente, Guimarães, 1 e 8 de Abril de 1906
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8 de novembro de 2013

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (10)

Sala do Teatro-Circo do príncipe Real, Porto (actual Teatro Sá da Bandeira). Imagem do Arquivo Municipal do Porto


Na sua edição de 22 de Maio de 1881, o jornal
O Formigueiro comentava o completo desprezo com que Braga pagou a desfeita da companhia do Teatro do Príncipe Real, quando, em Maio de 1881, chegou a Braga depois de ter passado por Guimarães:
  
O Pedantismo de Braga
Ou pedantismo ou pulhismo que escolham os bracarenses a quem nos vamos referir.
De há muito que ouvíamos falar em umas rivalidades entre Braga e Guimarães, e achávamo-las tão estúpidas que não as acreditávamos. Agora vemos que era verdade o que se dizia, por termos conhecimento do que se passou a semana passada com a companhia do teatro Príncipe Real, do Porto.
Incrível, na verdade!
Se fora em uma terra aonde não tivesse chegado a civilização, admitia; mas em Braga, que tem obrigação de se mostrar competentemente ilustrada e civilizada, é simplesmente estúpido!
Vamos ao facto e à rivalidade a que nos referimos:
A companhia do teatro Príncipe Real teve a ideia de fazer uma digressão pela província, principiando por Guimarães e terminando em Viana. Por isso deixou de atender à vaidade dos bracarenses e foi lá depois de ter estado nesta cidade. Foi o mesmo que passar à bofetada todos os habitantes da cidade augusta, porque estes tomaram isto em desfeita, e protestaram vingar-se terrivelmente dum tão inaudito crime!
E vingaram-se; e saciaram toda a sua sede de abutre; pagaram a desconsideração da companhia com o mais completo desprezo, deixando o teatro vazio no dia da récita, e obrigando os poucos espectadores a patear!
É uma desforra de selvagem, mas é desforra!
Agora pergunta-se: por que razão se pretende obrigar as companhias a visitar Braga primeiro que Guimarães?
Será porque a terra é mais civilizada?
Porque seja a terceira cidade do reino na ordem cronológica?
Porque os seus habitantes sejam mais dignos de consideração e respeito?
Porque a sua paga seja melhor e mais pontual do que a daqui?
Não pode ser por nada disto porque Braga nem é mais civilizada, nem tem habitantes mais respeitáveis, nem é mais honrada que Guimarães porque as companhias quando daqui saem vão sempre com o saldo das suas contas, entretanto que em Braga…
O motivo é outro a nosso ver, e esse resulta do pedantismo que por lá está inveterado.
Desgraçadamente hoje é tudo assim. Para se fazer figura é preciso ser pedante e pulha, sem se reparar que são à custa alheia os progressos que se vão fazendo e de que resulta essa condenável vaidade.
Que mais seria Braga do que Guimarães se não andasse constantemente a mendigar o auxílio dos seus pupilos para se engrandecer?
É asneira tentar amesquinhar-nos. Quem precisa do vizinho não pode nem deve indispor-se com ele, e Braga precisa de Guimarães mais do que Guimarães precisa de Braga.

O Formigueiro, 22 de Maio de 1881
[continua]
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7 de novembro de 2013

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (9)




[continua daqui]
Os vimaranenses da segunda metade do século XIX queixavam-se do muito que pagavam para o orçamento distrital e do nada que recebiam em troca. Mas havia outras razões para o desconforto. Entre elas, a sobranceria com que Braga assumia a sua condição de capital do distrito. Relatamos agora um episódio sucedido na Primavera de 1881, durante  uma digressão pelo Minho da companhia residente do Teatro-Circo Príncipe Real (o mesmo que, depois de 1910, passaria a ser designado por Teatro Sá da Bandeira), que começou em Guimarães. Para os espectáculos realizados em Guimarães foi construído um novo teatro-barracão na rua de Gil Vicente. No dia 12 de Maio, saiu de Guimarães, depois de três récitas, com a promessa de regressar no dia 23, para mais quatro dias de espectáculos, estes no Teatro D. Afonso Henriques. A companhia seguiu para Braga onde foi recebido com inusitada frieza. Os bracarense não lhe perdoaram a desfeita de ter vindo em Guimarães antes de passar a Braga. A soberba e orgulhosa Braga não prescindia das suas prerrogativas de cabeça de distrito.

No jornal Imparcial, encontrámos o relato da passagem da companhia do Teatro-Circo do Príncipe Real pelo Minho, em Maio de 1881:

Teatro
Depois de bastante tempo de interrupção no teatro de D. Afonso Henriques, houve por bem a companhia do Príncipe Real, do Porto, vir obsequiar-nos com alguns espectáculos do seu variado reportório, e dos quais já nos temos ocupado em vários números do nosso jornal.
Primeiramente abriu uma assinatura de 3 récitas, a qual foi prontamente fechada, representando-se em três noites sucessivas A morta do Azinhal, O Doutor Piccolo e os Dragões de El-rei, espectáculos estes que satisfizeram a vontade dos bons vimaranenses, ávidos por coisas boas, e sempre generosos para quem lhas proporciona. Daqui seguiu a empresa para a vizinha capital do distrito, - a soberba e orgulhosa Braga -, onde foi recebida com frieza tal, que só assistiram ao espectáculo que havia anunciado meia dúzia de sujeitos, e estes somente para anunciarem à companhia que os seus compatriotas estavam despeitados com ela, por haver cometido a feia imprudência de visitar Guimarães primeiro do que a velha terra do Pópulo!
- Horrendo crime! Preferir Guimarães à terceira cidade do reino! Esquecer que é ali a residência do Primaz das Espanhas!
Isso, em verdade, foi uma daquelas desconsiderações que não podem nem devem obter perdão!... etc. e tal.
Em virtude do que a empresa se retirou imediatamente para o Porto, onde se demorou até ao dia 23 do corrente, em que novamente se apresentou nesta tão nobre, heróica e populosa como modesta cidade, para mimosear-nos com mais 4 belas noitadas, passadas o mais agradavelmente possível, ouvindo os melífluos gorjeios de Irene Manzoni, Améia Garraio, Wannimel, e outras, apreciando as garridas músicas de Offenbach, Robert Planquet, Hervé, ets., que a bem afinada orquestra de Alves Rente tanto fez sobressaírem, e admirando os merecimentos cénicos de Gama, Foito, Firmino e Abel, que na Perichole, Sinos de Corneville, Dragões de el-rei e Conspiradores na Corte nos têm mostrado, especialmente Gama, quanto pode o estudo e a inteligência no homem que deseja ser actor
Gama, assasmente conhecido no nosso teatro, nos Sinos, arrebatou todos os espectadores. Não se pode desejar mais, nem é crível que possa alguém excedê-lo nas últimas cenas do Gaspar. Conquistou nelas um entusiasmo, como não nos recordamos ver aqui, sendo-lhe oferecidos alguns ramos de flores.
Manzoni também é uma actriz distinta, e Amélia Garraio tem o seu nome bastante vulgarizado.
Wannimel, Foito, Firmino, Abel, e os demais actores, contribuem maravilhosamente para classificar esta companhia como uma das melhores do país.
Os fatos são elegantes e alguns ricos.
As enchentes têm-se contado pelas representações.
Hoje é o espectáculo de despedida, subindo à cena a Senhora Angot.

Imparcial, Guimarães, 27 de Maio de 1881
[continua]
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4 de novembro de 2013

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (8)

O Formigueiro, jornal vimaranense (1879-1882)
Como já se disse no texto anterior, as queixas de Guimarães quanto à administração distrital e às vantagens que dela tirava a cabeça de distrito, Braga, eram antigas quando no dia 28 de Novembro de 1885 explodiu no Minho um barril de pólvora que derrubaria um governo. Os argumentos dos vimaranenses prendiam-se com o muito que tinham que contribuir para o orçamento distrital e o pouco, ou nada, que recebiam em troca. A tutela de Braga era encarada como um estorvo ao progresso de Guimarães. O essencial do argumentário das gentes de Guimarães aparece num texto publicado no dia 19 de Dezembro de 1880, no jornal O Formigueiro, que aqui se reproduz:

A nossa emancipação da tutela de Braga
É um dever sagrado do cidadão procurar por todos os meios ao sou alcance o bem-estar da terra que lhe foi berço, e se todas elas precisam do braço e da energia desses heróis duma causa santa — Guimarães é a que precisa mais deles.
A causa é conhecida e torna-se prolixo apontá-la de novo. Uma política cheia de compromissos e facciosismo, a que deu lugar a péssima gerência dos assuntos inerentes à cidade, a malquerença, e, quase se pode dizer, a guerra aberta que existe entre Braga e Guimarães, e finalmente um culpável desleixo que tem havido por dom de natureza ou por despeito da parte dos habitantes desta última, eis o motivo porque actualmente esta cidade está num atraso incompatível com os foros de que goza e a posição que tem — e porque Braga semelha para com ela a lapa agarrada ao penedo — um verdadeiro cancro que nos vai minando e sugando entretanto encontrar que.
Quando há tempo se reuniram alguns cavalheiros na casa da câmara a convite da mesma, para se combinar a maneira de conseguir uma receita de alguns contos de réis, um respeitável cavalheiro — o sr. conde de Margaride — discursando sobre os embaraços que nos causam as repetidas reclamações de dinheiro para a capital do distrito, lembrou a conveniência de se trabalhar na nossa emancipação da custosa tutela do distrito de Braga, fazendo as considerações que achou mais judiciosas e mais adequadas.
São destes os heróis que mais precisamos. Quem abandone a cadeira de braços em que esteja convenientemente repoltreado, os gozos da vida, para se entregar do corpo e alma ao estudo dos melhoramentos da sua terra, é o que nas circunstâncias actuais tem jus ao apreço público e ao nome de beneméritos.
Não ignoramos as dificuldades com que s. exa. tem a lutar, se meter ombros à empresa, como é de esperar, porque para o conseguir é preciso influir nas altas regiões do Estado, pois que se tem de modificar a lei competente: mas também não ignoramos que isso é possível, e que é a primeira coisa que tem a fazer-se quando se pretenda abrir caminho na estrada dos melhoramentos locais.
O concelho de Guimarães não pode aumentar-se, repetimo-lo, e Braga é o primeiro e principal estorvo que ele encontra, por serem enormes as somas com que temos de ir ajudar-lhe a sua prosperidade.
Guimarães dá a Braga o que não daria ao Porto se se conseguisse a mudança da tutela. Ser-lhe-ia de maior conveniência e poderia então aumentar-se, se o concelho fosse anexo ao distrito do Porto, em tudo e por tudo, apesar de alguns indivíduos o não julgarem assim.
Tente s. exa. a empresa, e mais tarde, depois de realizada e quando já os actuais timoratos estiverem convencidos do seu erro, s. exa. ouvirá bendizer o seu nome, por nos livrar duma tutela que nos come quantos cinco réis temos.

O Formigueiro, 19 de Dezembro de 1880

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3 de novembro de 2013

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (7)

O Conde de Margaride
[continua daqui]

A questão da criação do curso complementar de ciências faria estalar a fase mais aguda do conflito entre Guimarães e Braga. Os vimaranenses não estavam dispostos a contribuir para mais um melhoramento distrital que, na sua opinião, apenas beneficiava Braga. Sobre os acontecimentos que marcam esta fase do conflito e que contribuíram para a queda do último governo de António Maria Fontes Pereira de Melo, já quase tudo ficou dito aqui, na série de textos Crónica do conflito brácaro-vimaranense, que começava assim:
No entanto, a ideia da desanexação de Guimarães do distrito de Braga não nasceu em 28 de Novembro de 1885. Já cinco anos antes havia sido avançada pelo Conde de Margaride, que defendia a emancipação de Guimarães da custosa tutela do distrito de Braga. Note-se que o Conde de Margaride sabia bem do que falava, uma vez que tinha exercido, entre 1871 e 1879, o cargo de Governador Civil, primeiro no distrito de Braga, depois no do Porto.
No mesmo sentido iria uma proposta apresentada numa assembleia da Associação Comercial, realizada no dia 31 de Outubro de 1880, com o objectivo de consultar os sócios acerca das indicações que poderiam fazer chegar à Câmara Municipal de Guimarães para se equilibrar as contas municipais, uma vez que o orçamento para 1881 apresentava um défice de perto de 7 contos de réis. Usando da palavra, José Joaquim de Lemos afirmou que as dificuldades financeiras do município resultavam dos encargos distritais que Guimarães era chamada a assumir, pelo que defendeu que se deveria chamar a atenção da Câmara para a necessidade de se proceder a uma divisão mais racional dos distritos, à imagem do que previa o projecto reforma administrativa de 1867, que contemplasse a extinção de Braga, por ser demasiado pequeno e oneroso, assim como outros que se encontrassem em circunstâncias idênticas. Esta proposta foi aprovada por unanimidade pelos presentes.
Em 1885/1886, ecoou em Guimarães um grito retumbante e uníssono:
“Tirem-nos daqui!”

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1 de novembro de 2013

Subsídios para a compreensão do conflito entre Braga e Guimarães (6)

Asilo de  Santa Estefânia, Guimarães
[continua daqui]

Guimarães revelou sempre desconforto e insatisfação em relação à sua dependência em relação a Braga. Após a criação dos distritos, que decretou a dependência de Guimarães em relação à cabeça do seu distrito, Braga, as queixas e as tomadas de posição contra a participação nas despesas distritais que era exigida ao concelho foram aumentando de frequência.
Assim aconteceu, por exemplo, quando, em Abril de 1873, foi levado à Câmara dos deputados um projecto para elevar a Biblioteca Pública de Braga à condição de biblioteca distrital, passando a ser suportada por todo o distrito. Ou quando, em Maio de 1877, a Junta distrital decidiu criar um corpo policial em Braga, que também iria viver a expensas de todos os concelhos do distrito, cabendo a Guimarães uma quota de três contos anuais. Em ambos os casos, a Câmara de Guimarães reclamou contra os novos encargos que lhe eram criados, sem que o concelho deles tirasse qualquer benefício. Estas posições eram partilhadas pelos cidadãos de Guimarães, que não viam com bons olhos o desenvolvimento de Braga às suas custas. Por isso, foi com festa que em Guimarães se celebrou, no ano seguinte, a supressão da polícia civil de Braga que, “além de onerar o distrito com uma enorme despesa, estava sendo um perigo pela sua má organização e indisciplina”. Os vimaranenses celebraram a notícia nas ruas, acompanhados por duas bandas de música, e homenagearam os delegados de Guimarães à Junta Distrital, Rodrigo de Meneses e Barão de Pombeiro.
Mas as gentes de Guimarães continuavam a ver nos investimentos distritais um sorvedouro dos impostos que lhes eram cobrados. Os projectos distritais iam-se sucedendo. Em 1881, pretendia-se avançar com uma cadeia distrital, um edifício para o governo civil, uma quinta regional. A Câmara de Guimarães manifestou-se contra a sua aprovação, com o argumento de sempre: tais empreendimentos iriam sobrecarregar os contribuintes com mais impostos. Em Maio de 1884, as instituições de Guimarães que tinham asilos de infância a seu cargo, a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e dos Santos Paços e o Asilo de Santa Estefânia, deram mostras da sua preocupação em relação ao projecto do governador civil do distrito para instalar um asilo distrital em Braga, por perceberem que iriam ser desviados para lá parte dos recursos concelhias que lhes permitiam manter as suas acção de protecção social a crianças desvalidas.

Em 1885, foi apresentada à Junta Distrital uma proposta para a criação no Liceu de Braga do curso complementar de ciências. Antes da sua votação, alguns procuradores solicitaram que se averiguasse quanto é que o novo curso poderia custar e quais as condições exigidas para a sua instalação, nomeadamente se haveria necessidade de criar museus e laboratórios. Pretendia-se evitar que o distrito e os concelhos que o integram fossem chamados a suportar uma despesa que, atendendo às circunstâncias financeiras que então se viviam, seria incomportável.  Esta questão acenderia o rastilho que, no dia 28 de Novembro de 1885, fez rebentar o célebre conflito brácaro-vimaranense, com os delegados de Guimarães à Junta Distrital a serem enxovalhados em Braga e os vimaranenses a reagirem exigindo a saída do concelho de Guimarães do distrito de Braga, passando para o do Porto. 
As hostilidades entre Guimarães e Braga passavam para um novo patamar.

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