27 de novembro de 2013

João de Meira, escritor


Pergunta-me um amigo se as Memórias de Araduca entraram novamente em hibernação.

Não.

O que acontece é que por estes dias me tenho dedicado a ler tudo o que escreveu João de Meira e tudo o que encontro que se escreveu sobre João de Meira (em parte a reler, em parte a descobrir, porque, afinal, João de Meira escreveu muito mais do que aquilo que normalmente lhe tem sido atribuído). João de Meira foi, em Guimarães, a inteligência mais luminosa da sua geração. Destacou-se como médico e professor de medicina, mas foi, acima de tudo, um escritor de enorme talento, uma promessa que a morte precoce impediu que fosse cumprida. No próximo sábado, 30 de Novembro, a seguir ao Pinheiro, partilharei a minha leitura dos escritos de João de Meira na sessão evocativa do centenário da sua morte, promovida pela Sociedade Martins Sarmento. Entretanto, aqui fica um aperitivo, num texto que publicou há 110 anos a propósito das festas dos estudantes a S. Nicolau que, se têm uma madrinha (a D. Aninhas), têm em Meira o padrinho, já que foi ele que as baptizou.

João de Meira foi o primeiro historiador das festas nicolinas. Uma das suas fontes de informação foi António Joaquim de Almeida Gouveia, várias vezes pregoeiro entre 1831 e 1844, que ainda estava vivo quando o texto que aí vai foi escrito.


O S. NICOLAU
(Carta de um velho Frade à Comissão dos festejos escolásticos)

Primum omnium... Dominus vobiscum, briosos estudantes.

Não estranheis que eu de princípio à missiva com uma saudação denunciadora da leitura do belo livro de Ruth. É hábito inveterado.

Curvado ao peso do mais de dois carros de invernos, sempre tomado de achaques, pois a velhice é doença = senectus est morbus = sinto-me remoçar com a notícia de vos terdes congregado para o efeito de mais uma vez a Academia, que dignamente representais, dar solene testemunho do sou apego às velhas tradições. Louvores, muitos louvores vos sejam dados.

Sois todos muito novos, no que me informam, porque já não posso arredar pé desta cela onde há muitos anos vivo a curtir saudades dos belos tempos anteriores à execução da lei de 34 com que a Senhora Dona Maria da Glória contemplou todos os meus irmãos em Cristo; por isso mesmo porque não sei se além do António Joaquim de Almeida Gouveia, relíquia dos vossos festejos, sobrevive mais algum velho entusiasta dos folguedos escolásticos, vou lembrar-vos. se a memória me for fiel, o que no meu tempo mais contribuía para o seu esplendor.

Convém primeiramente saber-se que o elemento eclesiástico, de harmonia com a lei Estatutária, teve sempre o primeiro lugar na celebração dos festejos escolásticos vimaranenses.

Eu, o Frei José da Luz, há anos falecido na sua casa da Rua Nova do Comércio, o Frei Inácio Lago, do Arco de S. Bento, e vários outros filhos Ordens de S. Domingos, S. Francisco e S Jerónimo, nem uma vez deixámos de imprimir aos festejos escolásticos todo o brilho possível.

Outra geração de eclesiásticos ilustres, os padres Sebastião Leite, José Sampaio (O Mico), Campo Santo, Joaquim machado, etc., associados a numerosos estudantes , filhos de distintas famílias, como Joaquim Inácio de Abreu Vieira, José Ferreira Mendes da Paz, João Pinto de Queirós, António Chaves, dr. Silva Ribeiro, etc., etc., seguiram-nos as pisadas com igual fervor, tendo até, num só ano, levantado em Guimarães dois pinheiros anunciadores dos festejos que, afinal, por motivo de cisão, entre o grupo, sofreram larguíssima interrupção. É sempre este o resultado dos excessos. excessos.
Nada pois de excessos, meus queridos jovens, se quereis dar vida longa ao S. Nicolau. No meio, só no meio está a virtude = in medio virtus =. Fugir dos extremos, foi sempre a minha norma e a de todos aqueles que desejavam prosseguir na senda gostosamente encetada.

Seja, pois, também a vossa, não vos abalançando ao que hoje, por um bambúrrio de sorte, podereis fazer, e que amanhã outros não farão.

Pinheiro, magusto, pregão, cavalhadas e danças, tudo se poderá efectuar à antiga com o aplauso e cooperação do nobre povo de Guimarães, tão cioso das regalias da sua terra.
Como novos que sois, e portanto inexperientes, devereis desde já agregar à vossa comissão os cavalheiros a quem se deve a ressurreição dos festejos que muitos julgaram para sempre extintos. Destes ocorre-me ouvir falar nos nomes do Padre Roriz, Jerónimo Sampaio, José Pina, Queirós, Álvaro e Acácio Machado, João Barbosa, Leão Martins, Luís de Freitas, e em muitos mais.

Ora pois.

O tempo arrefeceu bastante e o meu reumático a agravou-se a ponto de me torturar com dores. Eis os motivos por que ponho ponto por hoje esperando melhores dias para coordenar os curiosíssimos apontamentos que possuo referentes ao S. Nicolau, desde a sua origem, os quais desejo oferecer impressos à vossa Academia.

Só então podereis melhor conhecer quão alegre era a virtude antiga, despida dos fingimentos que as modernas teorias autorizam, tão opostas à firmeza de crenças e pureza de sentimentos.

Ai! tempos, tempos...

Vale.

Do vosso antigo colega,

Frei Athanagildo Calpurniano.

Independente, Guimarães, 20 de Novembro de 1904
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