25 de novembro de 2007

Alberto Sampaio e a Sociedade Martins Sarmento

Alberto da Cunha Sampaio teve, desde os tempos da fundação, um papel muito presente e activo na actividade da Sociedade Martins Sarmento. Apesar de não integrar a Direcção da Sociedade, cujo primeiro presidente foi o seu irmão José, Alberto Sampaio em muito contribuiu, com a sua acção e o seu conselho, para o dinamismo cultural e social que, desde cedo, a SMS assumiu na cidade e no país.

Num texto em que dava conta das primeiras actividades da Sociedade, publicado no n.º 1 da Revista de Guimarães, Avelino da Silva Guimarães regista essa colaboração:

“Também tivemos muito quem nos animasse. Tivemos uma classe de consócios, que denominámos consultivos, porque assistiam às nossas sessões, e nos auxiliavam com a luz do seu conselho. Neste primeiro período foram os mais assíduos os snrs. Rodrigo de Menezes e Alberto Sampaio.”

A voz de Sampaio foi ouvida aquando da redacção do Regulamento Geral da Sociedade, ainda no início de 1882. Em Janeiro de 1883, a sua opinião teve peso na aprovação de uma proposta de Avelino Guimarães o criação de um periódico, que virá a ser a Revista de Guimarães, na qual o historiador Alberto Sampaio iniciaria a publicação da sua obra.

Em 1884, publicou o seu primeiro texto na Revista de Guimarães, com o título “Resposta a uma pergunta. Convirá promover uma exposição industrial em Guimarães?”. A sua resposta seria consumada em Junho daquele ano, quando, por iniciativa da Sociedade Martins Sarmento, abria portas a primeira e grandiosa Feira Industrial de Guimarães, da qual, mais do que Director Técnico, cargo em que foi formalmente investido, Alberto Sampaio se assumiria como um dos principais mentores e impulsionadores. O notável Relatório da Exposição Industrial de Guimarães, em 1884 seria obra sua e de Joaquim José de Meira.

Ainda nesse ano de 1884, Alberto Sampaio integrou o Conselho Superior do Instituto Escolar da Sociedade Martins Sarmento.

Em 1890, foi-lhe solicitado pela Direcção da Sociedade que, juntamente com outros ilustres vimaranenses (Conde de Margaride, Padre Abílio Augusto de Passos, Domingos Leite de Castro, Francisco Ribeiro Martins da Costa e Visconde de Sendelo), emitisse parecer acerca da criação de condições para a introdução do ensino agrícola na instrução primária complementar. Em Novembro desse ano, foi-lhe também solicitado que, em colaboração com Francisco Martins Sarmento, José de Freitas Costa, António Augusto da Silva Cardoso, Domingos Leite de Castro, Inácio de Meneses e Antero Campos da Silva, participasse na organização dos catálogos e do regulamento dos museus de arqueologia e numismática da Sociedade.

No início de 1891, a acção cultural de Alberto Sampaio seria reconhecida pela sociedade Martins Sarmento, com a aprovação da proposta de Avelino Guimarães para que lhe fosse atribuída a condição de sócio honorário “não só pelas suas publicações de mérito, especialmente pela direcção técnica da exposição industrial de Guimarães”.

Uma das principais marcas que Alberto Sampaio deixou na Sociedade Martins Sarmento é a que resulta da sua colaboração para a criação e abertura da Biblioteca Pública da Sociedade. A esse propósito, escreveria Avelino Guimarães, na Revista de 1884:

“O génio resoluto de Leite Castro, eleito entre os seus colegas da direcção para director da biblioteca, não acobardou com as dificuldades que surgiram na organização e instalação duma biblioteca desde o princípio avultada. Obtendo a coadjuvação constante do dr. Alberto Sampaio, pôde conseguir que a biblioteca se inaugurasse solenemente no dia 9 de Março de 1883, e pouco depois se facultassem quase todos os volumes à leitura pública.”

Além do seu contributo para a organização da Biblioteca, Alberto Sampaio daria um significativo contributo para engrandecimento do seu acervo, ao oferecer muitos livros da sua biblioteca particular à Sociedade Martins Sarmento. Nas actas da Direcção estão registadas, pelo menos, oito doações, que ocorreram entre os anos de 1883 e 1896. A última delas seria um exemplar da edição de luxo da obra Anthero do Quental – In Memoriam, que homenageava o seu amigo e companheiro de jornada desde os tempos de Coimbra.

[Texto também publicado aqui]
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24 de novembro de 2007

Do número de vizinhos que tem a vila de Guimarães

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Vista geral de Guimarães. Gravura de J. Cristino.

In José Augusto Vieira, O Minho Pitoresco, Livraria António Maria Pereira - Editor, Lisboa, 1886, tomo I, p. 601.



"Entre todas as vilas do reino, é esta de Guimarães a mais povoada, porque de todas só Santarém e Setúbal lhe levam vantagem no número de fogos e vizinhos, mas se estas hoje são mais assistidas, Guimarães no aprazível em todos os séculos foi mui assistida, e admirável. Recolhe esta vila em seus muros 683 vizinhos, e com todos os arrabaldes de que tenho dado conta, é povoada de 1973, repartidos por cinco paróquias, que são S. Miguel do Castelo, matriz da vila velha Araduca, a Real Colegiada, matriz da nova vila de Guimarães, com dois cónegos curas, a paróquia de S. Paio e a de S. Sebastião."

(Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, cap. 90)

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21 de novembro de 2007

Imagens de Guimarães: Campo da Feira em 1858

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Estereoscópia de Antero Frederico de Seabra, 1858.


O Campo da Feira em 1858. O espaço tinha uma configuração muito diferente da actual. Ao centro, a igreja dos Santos Passos ainda sem as torres. Em frente à igreja, estende-se o tabuleiro da ponte sobre o ribeiro de Santa Catarina (Rio de Couros). Do lado direito, a fachada do antigo Teatro D. Afonso Henriques.
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20 de novembro de 2007

Imagens de Guimarães: Oliveira

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Vista parcial da Praça da Oliveira.

A pintura que damos aí acima foi publicada em 1981 na capa do primeiro volume da obra Património Artístico e Cultural de Guimarães, do Eng.º José Maria Gomes Alves, à altura Presidente da Direcção da Sociedade Martins Sarmento. Segundo aquele autor, esta gravura, "salvo erro, anda no Minho Pitoresco do Pinho Leal", o que não se confirma (aliás, Pinho Leal não é autor daquela obra, escrita por José Augusto Vieira, mas sim do Portugal Antigo e Moderno, onde onde esta imagem também não consta). O quadro terá sido pintado entre a década de 1830, em que se realizaram as obras na Colegiada durante as quais foram rasgadas as quatro aberturas do janelão situado sobre o pórtico da igreja, e o ano de 1857, em que o Padrão e o adro da Igreja foram cercados por grades em ferro, que não aparecem nesta obra. Trata-se, com forte probabilidade, de uma reprodução de uma pintura de Augusto Roquemont, o qual também trabalhou nas obras da Colegiada da década de 1830 (que seriam objecto de censura por parte de Alexandre Herculano).

Serão bem-vindas todas as informações que permitam identificar este quadro.
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19 de novembro de 2007

Alexandre Herculano e as obras da Colegiada

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Vista parcial da nave central da Igreja da Oliveira, após as obras da década de 1830.
Em 1830, o cabido mandou reformar a igreja da Colegiada da Oliveirra. Da reforma resultou a cobertura do interior com cal e a colocação na nave de um tecto de estuque, decorado com pinturas de Augusto Roquemont. Destas obras resultou o alindamento da igreja ao gosto da arquitectura da época, emparedando a sua identidade gótica. Na altura, o historiador Alexandre Herculano expressou a sua crítica a esta intervenção no texto que aqui se transcreve:
"Todavia, ainda há quem deplore a destruição das memórias venerandas de melhores tempos; ainda há quem lute contra a torrente de barbária que alaga este país tão rico de recordações, recordações que tantos ânimos envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de indignação acham eco em muitos corações. Temos visto e recebido cartas acerca deste assunto escritas com a eloquência da convicção e de profundo despeito. São protestos solenes de que nem todos os filhos desta terra venderam a alma ao demónio da devastação. Provam elas que o ruído dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão, da consciência e do amor pátrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias contra essa ideia fatal que entrou na maioria dos espíritos, de que tudo quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a pior coisa que há é essa ideia, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais detestável a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua infância a inscrição que o ateísmo decreta para os sepulcros: - aqui é a jazida do nada.
É singular, por exemplo, a história das recentes vicissitudes por que tem passado a Colegiada de Santa Maria da Oliveira em Guimarães. Guimarães parece fadada para vítima desta espécie de escândalos. A igreja da Colegiada de Guimarães era um dos mais belos monumentos de arquitectura ogival. O seu tecto de grossas vigas primorosamente lavradas constituía com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza de Portugal neste género, porque, durante a Idade Média, empregava-se geralmente a abóbada de pedra nas edificações sumptuosas. Além disso, as bem proporcionadas arcarias, os capitéis adornados de esculturas variadas e subtis, as três naves majestosas divididas por elegantes colunas, inspiravam em subido grau aquele respeito melancólico e saudoso que é um segredo das igrejas chamadas góticas. Os anos não tinham deslizado em vão por cima do monumento: arruinado em partes, carecia de reparos. O cabido ajuntou para isso grossas somas. Chamaram-se obreiros, e há sete ou oito anos que estes lidam por apagar todos os vestígios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capitéis e cornijas: substituíram-se com pedras lisas: estas pedras cobriram-se de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do Mestre de Avis lá está alindado; lá está coberto de arrebiques. Os que deviam manter-lhe a majestade das cãs; os que deviam despender seus tesouros acumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o venerando aspecto e as rugas dos séculos, fizeram da casa do Senhor um velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flacidez do gesto. Blasfemaram de Deus, não com blasfémias de palavras, mas com a blasfémia das obras. Deram enfim documento indubitável de que não havia ali quem soubesse a harmonia que existe entre a arquitectura e a religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dois tipos sensíveis, dois verbos que inspiram, um directamente ao espírito, outro simbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escrito, mas que também é ímpio rasgar o livro de pedra.
E que disseram os habitantes de Guimarães, durante oito anos em que os vermes andaram a roer naquele cadáver?
Louvaram o bonito da obra. O longo tasquinhar do cabido despertou-lhes, até, o apetite. Alguns lembram-se já de demolir as muralhas da vila reconstruídas por D. Dinis. Talham ainda ban­quete mais lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique; dos paços onde Afonso I, nasceu. A glória dos cónegos de Santa Maria, da Oliveira, tão dispendiosamente; conquistada, ofuscar-se-ia, assim, por pouco dinheiro, como a luz pálida da lua nos esplendores do surgir do sol.
Arrasados, pois, os muros reconstruídos pelo rei lavrador, apagados os últimos vestígios dos paços dos nossos primeiros monarcas, raspado e sarapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trair, lhe restará, uma ruga na face: o frontispício da Colegiada. Mas se a picareta do município pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita, o colherim, as tigelas de ocre e vermelhão e as broxas canonicais, vingue-se o ilustríssimo cabido, arranjando mais alguns vinténs, e mandando à custa deles picar e caiar aquele frontispício. Depois, para esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triunfantemente a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado."
[Alexandre Herculano, “Monumentos Pátrios”, in Opúsculos – Obras Públicas, 1873, Tomo II, págs. 39-43]

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Vista parcial da nave central da Igreja da Oliveira, após as obras de restauro de 1970/71.
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16 de novembro de 2007

Praça da Oliveira: casas de alpendrada

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Estereoscópia de Antero Frederico de Seabra, 1858.

Aspecto da Praça da Oliveira em 1858. Ao fundo, atrás do Padrão da Oliveira, as casas do lado poente da praça, ainda com alpendradas ao nível do piso térreo. De notar, também, as varandas salientes, em madeira.

Pormenor da mesma fotografia.
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14 de novembro de 2007

13 de novembro de 2007

À volta do rio "merdário"

Ribeira de Santa Luzia, junto à ponte, na festa de S. João de 1952
(fonte: «Guimarães do passado e do presente», org. de Joaquim Fernandes, 1985)

Em documentação medieval, aparece referido um rio que banha a vila de Guimarães, e que é designado de Merdário ou Merdeiro. Tal nome parece demonstrar que este curso de água, à imagem do que sucedia naquele tempo com rios de outras localidades que tinham nomes aparentados com estes, funcionaria como colector dos dejectos produzidos pela população.
Nos Vimaranis Monumenta Historica, o Abade de Tagilde transcreve um documento de 1151 onde há uma referência ao arrogio merdario, situado abaixo do monte latido. Numa nota de pé de página a um outro documento, o organizador dos Vimaranis identifica o Monte Latito com o actual Monte Largo. Em outro documento publicado pelo Abade de Tagilde, do mesmo ano, fala-se do riuuolo corios e do ribolum merdarium. Mais tarde, A. L. de Carvalho identificará o rio Merdário, que corria sub monte latido, com o rio de Couros. Tomando por base a leitura do Abade de Tagilde, este autor partiu do princípio de que o tal monte Latito seria o actual Monte Largo.
O monte Latito que aparece na documentação medieval e o lugar que hoje conhecemos por Monte Largo são sítios diferentes. O primeiro é a colina no topo da qual está implantado, há mil anos, o Castelo de Guimarães. O rio que corre pelo sopé dessa colina não é o rio de Couros, mas sim a ribeira de Santa Luzia, o rio Herdeiro ou ribeiro dos Castanheiros de que se falava atrás.
A investigadora que melhor estudou o espaço urbano de Guimarães na Idade Média, Conceição Falcão Ferreira, estudou documentação medieval que indica que a choussa do lugar do Proposto tinha confrontação, por um lado, com o rio Merdeiro e, por outro, com o rego que se dirigia para as almuinhas de Gatos. Nas proximidades, havia um moinho, a par do rio Merdeiro.
Estamos em crer, em face dos elementos disponíveis, que, pelo menos desde A. L. de Carvalho, tem havido uma identificação duvidosa do tal rio Merdário ou Merdeiro que aparece na documentação medieval. Tal rio parece ser, segundo a nossa leitura, o que é denominado Herdeiro na descrição do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, a qual foi sucessivamente replicada pelo Padre Carvalho da Costa na sua Corografia (obra que, em largas passagens dos capítulos referentes a Guimarães, não é mais do que uma transcrição quase literal das Memórias de Torcato, então ainda inéditas), pelos párocos que responderam às memórias paroquiais de 1758 e aos inquéritos paroquiais de 1842 e pelo próprio Padre Caldas. Aliás, falando do rio que designa como Herdeiro, Carvalho da Costa diz que lhe deram este nome, porque muita parte de seus moradores usam dele para sua limpeza. Esta expressão é enigmática: aparentemente, estaria a referir-se ao rio Merdeiro, mas continuava a designá-lo, como Torcato, por Herdeiro.
A propósito da utilização da palavra Herdeiro, em vez de Merdeiro, para designar um curso de água de Guimarães, Conceição Ferreira nota o constrangimento de alguns autores vimaranenses, que se recusam a ler correctamente a citada designação, e chamam-lhe rio Herdeiro, convictos, por certo, que o nome correcto era pejorativo para a terra em estudo. Esta conclusão é muito plausível. Todavia, notaremos que os autores que falaram no Rio Herdeiro (Torcato, Carvalho da Costa, Caldas) não falavam do mesmo rio, situado nas proximidades do Campo da Feira, a que se refere a conceituada medievalista, mas sim ao riacho ou regato chamado hoje o Rio dos Castanheiros, na Corografia de Carvalho, Rio Herdeiro que tem seu princípio no campo do Bom Nome, conforme consta na resposta que o pároco de S. Pedro de Azurém deu ao inquérito de 1758.
Este rio, a que chamavam Merdário ou Merdeiro poderá ser, assim, o rio que passa em Santa Luzia e atravessa o Proposto. É este rio que passa no sopé do Monte Latito, correndo, em linha recta, a cerca de trezentos metros do Castelo, enquanto que o rio de Couros passa a mais do dobro da distância.
Convirá notar que o lugar outrora conhecido pelo Proposto se distribui pelas freguesias de S. Paio e Azurém. Em nenhuma delas corre o rio da Vila ou de Couros (que atravessa Guimarães pelo Sul através da freguesia de S. Sebastião e se desfaz já em Creixomil). Pelo Proposto passa o rio Herdeiro (aqui mais conhecido pelo nome de ribeira de Santa Luzia), que corre muito longe do Campo da Feira ou da rua de Couros. Actualmente, é um fio de água que margina o Campus de Azurém da Universidade do Minho, do lado voltado para o Castelo, desaparecendo no limite da Universidade, junto ao que resta de um velho lavadouro público. A partir daí, está canalizado. A sua água mistura-se com a do rio de Couros, ao fundo da actual avenida Conde de Margaride.
Por outro lado, notaremos que nos Vimaranis há um documento de 1151, onde se traçam as delimitações de uma vinha situada algures, e que confronta, por um lado, com o riuulo de corios e, por outro, com o ribolum merdarium, não deixando dúvidas de que seriam duas linhas de águas distintas.
Mas as dúvidas persistem. Um documento não datado, mas que, segundo Alexandre Herculano, não será muito posterior às Inquirições de 1220, e que o Abade de Tagilde sugere que poderia ser um complemento àquelas Inquirições, fala de um moinho sobre um regato Merdário, junto à Fonte do Abade (unum moliendum super riuulum merdarij iuxta fontem abbatis). Nas Inquisições de D. Afonso II, de 1258, refere-se igualmente a proximidade do Merdário àquela fonte (rivulum merdatium usque fontem abbatis). Ora, não subsiste qualquer dúvida quanto à localização da Fonte do Abade: era um tanque no meio de um bosque situado nas imediações das Hortas do Prior, ou seja, não muito longe do rio de Couros. Será que ambos os rios que abraçavam Guimarães medieval, por eventualmente exercerem a mesma função de colectores dos despejos dos moradores do velho burgo, foram algum dia conhecidos pela mesma pitoresca designação de rio Merdeiro ou Merdário?
[A partir de texto do autor publicado no livro Mãe-d'água, Vimágua, 2007]
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12 de novembro de 2007

O Chafariz da Praça Maior

O Chafariz da Oliveira, numa fotografia de 1858.

Até ao final do século XVI, o abastecimento público de água à população de Guimarães era assegurado pelo chafariz da Praça.

O chafariz da Praça encostava-se à torre da Colegiada da Oliveira. Ainda o podemos ver em gravuras e fotografias antigas, com as suas três bicas, a pedra de armas da vila de Guimarães, com uma imagem em bronze da Senhora da Oliveira, e as armas reais. Esta memória corresponderá a uma reconstrução do tanque que ocorreu no início do século XVI.

O original é mais antigo, datando de 1390. Foi obra do pedreiro João Garcia, mestre da obra da igreja de Santa Maria. Há um recibo de 20 de Dezembro de 1392 que comprova que, naquele dia, João Garcia recebeu, na crasta da igreja da Colegiada, das mãos de Estêvão Gonçalves, morador na rua da Ferraria, que exercera o cargo de Procurador do Concelho no ano de 1390, a importância de 800 libras que ainda lhe era devida por razão do chafariz que no dito ano e tempo fez ao concelho. Tal chafariz só poderia ser o da Oliveira, que iria ser, até finais do século XVI, o único que a Câmara possuía na vila de Guimarães. A água que debitava, cuja origem ainda desconhecemos, chegava-lhe através do cano da Vila, passando por uma arca na rua da Infesta. No século XVI, pelo menos a partir do momento da construção do chafariz do Toural, já recebia água da Serra de Santa Catarina.

Há um alvará régio de 27 de Agosto de 1516 que corresponde afirmativamente a uma petição dos juízes, homens bons e oficiais da vila de Guimarães, em que davam conta de que a vila tinha necessidade de dinheiro para a aquisição de um relógio, com todos os seus aparelhos, feito de novo por se desfazer a torre em que estava e se fazer outra de novo, para reconstruir um chafariz que estava na praça ao pé da dita torre e pelo mesmo motivo se derrubara e era preciso fazê-lo de novo, melhor do que estava, para erguer uma nova casa para a Câmara, como cumpria à vila, porque a que tinha era a pior do reino e muito desbaratada, e para a criação de alguns enjeitados. Para custear tais encargos, seriam necessários cerca de duzentos mil réis, a que haveria ainda a somar o endividamento do Concelho em mais de quarenta mil réis, pelo que se solicitava ao rei que concedesse à Câmara, por um ano, a renda da imposição de um real em cada arrátel de carne e de peixe e em cada quartilho de azeite vendidos em Guimarães, e que a autorizasse a mandar fazer novos padrões de medidas, para os géneros ficarem com o mesmo peso. O rei acedeu ao que lhe era solicitado e esta concessão será objecto de sucessivas prorrogações ao longo do tempo.

No dia 12 de Fevereiro de 1842, a torre da Colegiada foi atingida por um raio. O chafariz também sofreu as consequências deste desastre. Segundo a descrição que o cronista Pereira Lopes inscreveu no seu diário, o raio caiu no remate que tinha a cúpula da torre que era de ferro, depois de esbandalhar a mesma é que passou para a igreja. No exterior da igreja, o estrago que fez foi deitar abaixo o martelo do relógio, uma bica do tanque e quebrar a maior parte dos vidros não só da igreja, mas também de muitas casas da Praça da Senhora da Oliveira, arrebentando na mesma o cano das águas públicas em diferentes partes.

O tanque da Praça Maior serviria de abrigo à oliveira que dava o nome à praça. No dia 5 de Dezembro de 1875, a árvore, com fama de antiquíssima e de milagrosa, foi transplantada do polígono de pedra, onde se enraizou, junto ao Padrão do Salado, para o meio do tanque do chafariz. Acabaria por morrer. Em Fevereiro de 1881, seria ali plantada uma nova oliveira, que também secou. Em 1882, o pequeno muro que a Câmara mandara erguer no tanque, para circuitar a árvore, foi retirado, por se ter concluído que quantas oliveiras ali se plantassem, quantas secariam.

A história do chafariz da Praça da Oliveira terminou com a introdução do sistema de abastecimento público de água em Guimarães. Foi desmantelado no dia 20 de Agosto de 1904. As pedras de armas que o ornamentavam pertencem hoje ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Há alguns anos, no âmbito da requalificação do centro histórico de Guimarães, colocou-se a possibilidade de refazer aquela velha relíquia. A ideia seria abandonada por se ter tomado consciência dos danos que a humidade libertada pelo chafariz poderia causar na aceleração do processo de degradação dos belos túmulos dos Pinheiros que se encontram na capela situada no interior da torre, como acontecera ao longo de tantos séculos e já havia sido notado no século XIX.

[A partir de texto do autor publicado no livro Mãe-d'água, Vimágua, 2007]

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10 de novembro de 2007

8 de novembro de 2007

Das ruas que compõem os arrabaldes desta vila de Guimarães.

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Vista geral de Guimarães (aguarela de Augusto Roquemont).

"Tendo dado notícia do interior da Vila de Guimarães, tão estimada de seus soberanos como invejada dos reis de Castela, como mostram as muitas vezes que por força de armas a quiseram sujeitar a seu domínio, vindo-a combater com poderosos exércitos, darei agora satisfação no que prometi de seus arrabaldes, dando princípio pelos que ficam de fora da vila velha chamada Araduca. Fica para a parte de Norte e Nascente a rua do Salvador, a que deu nome a sua capela, aonde está situada a quinta da Verdelha, com as suas nobres casas, que estão por acabar, mas assim mesmo servem de residência aos arcebispos de Braga quando vêm a esta vila. Pertence a Jerónimo de Matos Feio, cavaleiro de Cristo e fidalgo da casa de el-rei e juiz do seu Reguengo. Topa esta rua com a do Cano de Baixo que, seguindo o mesmo curso, vai parar à fonte da Douradinha.

Sai dos muros da vila velha para o Nascente a rua das Oliveiras mas, topando com a do Cano de Cima, em outro tempo Cano das Gafas, a faz ali acabar e, tomando-lhe seu curso, vai a rua da Arcela, e dali seguindo seu caminho vai à Rua Nova de Almada, e dali à Cruz de Algosta. Tomou esta rua o nome do senhor do chão em que está fundada, Miguel Leite de Almada, a quem os moradores pagam foro.

A rua do Fato está entre Nascente e Sul, está depois do Burgo de Santa Cruz, o qual tomou o nome da capela desta dedicação, e tem serventia pela porta de Santa Cruz. Esta Rua do Fato dá serventia para o Mosteiro de Santa Marinha da Costa e, entre esta rua e a vila, está a rua da Carrapatosa, que dá serventia ao mesmo Mosteiro, e ali pegado está o Burgo da Rapa.

A rua dos Trigais fica pegada na Torre dos Cães para a parte do Sul, e por detrás dela estão as hortas do Prior, as quais pelo Sul ficam fechadas com a Rua do Poço, e do Nascente com a Rua das Hortas, e pelo Poente pela Rua do Portelo das Hortas, que fica pegada à porta da Senhora da Guia, e a do Campo da Feira.

O Campo da Feira que está junto a esta Porta lhe fez escurecer o nome de Senhora da Guia. Saindo desta Porta para Sul se acha um crucifixo em pedra pintada e dourada, e junto um homem de pedra, rendendo-lhe as graças de joelhos com as mãos levantadas. É tradição que este homem foi Diogo de Miranda, cavaleiro desta vila, que por devoção mandou levantar esta cruz. Das povoações em sertão, nenhuma se pode jactar tenha maior alegria que este espaçoso campo. É partido por um regato, e para que este não possa impedir o caminho que vai do Santo Cristo para a capela da Senhora da Consolação, se lhe fez uma ponte que tem de largura 35 palmos, e de 140 passos. Fecham este campo pelo Nascente as Hortas do Prior, e pelo Norte a muralha e Torre da Vila que tem o seu nome, e pelo Poente a rua do Campo da Feira.

A outra metade do campo além do regato da parte do Sul é fechada de Nascente com a Rua das Pretas, pelo Sul com a rua da Barroca, em que tem estrada pública para a vila de Amarante, e para o mosteiro das freiras capuchas de Santa Isabel, continuando o regato para Poente está a rua da Ramada, que tem princípio junto da ponte e serventia nas traseiras de suas casas para o dito regato. E toda esta metade do campo da parte do Sul é plantado de grandes oliveiras e carvalhos, e nele se faz a primeira dominga de Agosto a feira das bestas chamada de S. Gualter, que se festeja neste dia.

Saindo da porta do Campo da Feira para Poente, continua a Rua de Trás-o-Muro, que vai topar com a de S. Dâmaso, na qual está uma capela deste Santo e o seu hospital, e esta vai dar a um campo largo, a que chamam o Pelourinho, que está levantado nele.

Quem sai da vila pela porta da Torre Velha para o Sul, voltando do Pelourinho para Poente, acha a Rua de Trás da Alfândega, que nela está encostada ao muro, tendo a frontaria sobre colunas de pedra.

Por baixo do Pelourinho está um Burgo a que chamam rua dos Couros, pela fábrica deles que nele está. E tem três ruas, uma de S. Francisco, outra de Couros e a outra Rio de Couros.

Este Pelourinho se une na parte de Poente ao terreiro de S. Sebastião, cuja freguesia ali está situada e é uma das cinco da vila, e por baixo deste terreiro fica, para a parte do Sul, a Rua do Guardal, e a Rua de Trás S. Sebastião, que tem comunicação com a rua Caldeiroa, que corre entre Sul e vendaval. E defronte da porta de S. Sebastião corre para vendaval a Rua de Trás-os-Oleiros, que no fim divide a rua das Lajes da rua de Molianas.

Comunica-se o terreiro de S. Sebastião pelo Poente e Norte com a Praça do Toural, que é uma das melhores do reino. Está junta à muralha que corre entre a Alfândega e S. Domingos, para a qual têm saída a porta da Senhora da Piedade e o postigo de São Paio, e entre uma e outra porta está um passeio junto à muralha por onde se desce por escadas de pedra para a Praça, que tem 160 de comprido e 12 de largo.

Toda esta Praça do Toural é fechada de Norte e Nascente com o muro da vila. De Nascente ao vendaval é aberta e comunica com o terreiro de S. Sebastião. Do vendaval é fechada com casas; e do vendaval a Poente é fechada com casas de alpendrada sobre colunas de pedra, e da mesma maneira do Poente a Norte. Em toda a parte são notórias as grandes festas que os moradores desta vila fazem nesta Praça. Vendo-se toda a parte da muralha para elas armada de custosa tapeçaria e coberta das senhoras que as querem ver, e todo o patim e escada se vê coberto de gente.

Tem esta Praça, entre si e as casas que a cercam da parte do Sul, um chafariz de seis bicas, que correm de taças de pedra bem lavradas, e tem no alto uma esfera de bronze dourada, e ao pé dela um escudo com as armas de Portugal, e nas costas deste outro com uma águia negra coroada de ouro, com um letreiro aos pés que diz: ano de 1588. É este chafariz todo cercado de assentos de pedra para se recrearem os que ali vão.

Da parte entre Norte e Poente, em competência do chafariz, está um cruzeiro de pedra majestoso, elevado sobre escadas, e na pedra de pedestal da cruz tem um letreiro que diz: - Esta obra mandou fazer o juiz, e irmandade de Nossa Senhora do Rosário em 1650.

É esta Praça do Toural um tronco de que procedem muitas ruas do arrabalde desta vila. Junto do chafariz para a parte do vendaval corre a Rua das Lajes, que junta com a Rua de Trás-os-Oleiros, ambas embocam na Rua Nova das Oliveiras, a qual vai parar em um cruzeiro de pedra de 25 palmos, com a cruz floreteada, e sobre degraus de pedra, e dali para Norte parte a Rua Travessa, a qual divide a rua de S. Domingos da dos Gatos, que ambas vão para Poente.

Do cruzeiro, em que pára a rua nova das Oliveiras, dá princípio a rua das Molianas para a parte do vendaval, e vai parar no rossio da Madroa, que é o mesmo regato que desce do Campo da Feira, que mudou o nome em Rua dos Couros, o qual conserva até este lugar em que se chama rio da Madroa, em que tem uma ponte de pedra, continuando esta rua para o vendaval, se encontra com a Rua da Cruz de Pedra, e por aqui sai o caminho para a cidade do Porto.

Tornando à Praça do Toural, na parte do Norte se caminha pela rua de S. Domingos para Poente até à Travessa que tem o cruzeiro, que a divide da rua dos Gatos, e se caminha por esta para Poente até o rossio de S. Lázaro, o qual tem no meio uma capela dos Santos Reis, toda de abóbada de pedra, e debaixo da alpendrada da dita capela um magnífico cruzeiro feito à custa dos devotos de Nossa Senhora da Apresentação. Deste rossio para a parte de Poente vai a estrada para Vila do Conde. Divide-se pela parte do Sul este Rossio pelas ruas que chamam Gaia e Trás-Gaia e rio da Madroa, que ali deixa o seu nome, e dali adiante se chama rio de S. Lázaro, o qual conserva até dar volta por trás da igreja e hospital deste Santo que lhe dá o nome, e encontrando-se ali com o rio de Bom Nome, e unindo-se ambos em um corpo se apelidam Selinho, e regando os dilatados campos da quinta da Porcariça, se vão meter no rio Celbo.

No mesmo lugar que na Praça do Toural sai a rua de S. Domingos, nele sai para Norte a rua chamada de Trás-o-Mosteiro, que vai por detrás do de S. Domingos, de que tomou o nome.

Da mesma Praça para a mesma parte de Norte sai a rua da Fonte Nova, que chegando à torre e porta de Nossa Senhora da Graça, dá lugar a que ali principie a rua de Santa Luzia para Poente até ao terreiro que tem a capela da dita Santa. Neste se divide para Norte a rua do Picoto, e para Poente continua a rua da Calçada, que é estrada para a cidade de Braga, e para Sul se divide do terreiro a rua do Bimbal.

Para dar fim às ruas do arrabalde desta vila me falta a rua de Soalhães, que fica por detrás do Mosteiro de S. Francisco, entre a rua de S. Dâmaso e a da Ramada, a qual vai por entre hortas e por isso é agradável.

Estas são as ruas, e praças, e terreiros que esta vila tem fora de seus muros, no seu arrabalde, e, como prometi medir a circunferência assim da antiga vila de Araduca, como da nova Guimarães: consta esta de 3685 passos, divididos em nove portas de serventia, e sele torres altas, e dois torreões terraplanados, que fazem a vila forte e respeitada."

(Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, cap. 89.)

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5 de novembro de 2007

4 de novembro de 2007

Da circunvalação da Vila Velha


Em que se dá notícia de quando esta vila foi murada e da grandeza dos muros.

Já dei notícia de vila velha de Araduca e do circuito de seus muros, os quais da parte do Sul todos foram derrubados, e a pedra se deu aos religiosos de S. Domingos para o dormitório do seu convento, a que chamam dormitório novo, e nos que ficaram em pé se deu princípio a esta vila para a parte de Nascente por el-rei D. Afonso III, como se vê de um escudo de suas armas posto sobre a porta da Freiria, hoje de Santa Cruz.

Deu-se princípio à nova muralha em um torreão terraplanado, que era da muralha velha, que está pouco distante da porta de Santa Cruz, e deste torreão corre a muralha nova coroada de ameias pela parte do Sul 490 passos até à torre dos Cães, recolhendo em si o Mosteiro de Santa Clara, que tem a cerca sobre a mesma muralha.

Estas muralhas da vila foram feitas primeiro que as torres, porque estas foram mandadas fazer por el-rei D. João o 1.°, e as muralhas foram acabadas de fazer no tempo de el-rei D. Dinis. Quando se fundou a torre dos Cães, estava naquele lugar a arca da água que vai para o convento de S. Francisco, e ali deixaram uma porta para se poder limpar. E fazendo a obra algum dano à dita água, o Duque D. Afonso e a Duquesa D. Constança de Moreira, sua segunda mulher, que estavam em Guimarães, mandaram fazer a dita arca de pedra lavrada, com cuja obra nunca mais faltou a água no convento, e na dita arca estão as suas armas.

Desta Torre dos Cães correm 262 passos da dita muralha da mesma altura, e artifício da primeira, os quais recolhem em si um quintal das casas dos Priores da Real Colegiada, e vão topar na Torre da Senhora da Guia, a que chamam o Campo da Feira. Defende esta torre a porta chamada dos Postigos, que dá serventia à rua de seu nome, e faz a torre frente ao Sul, e tem pela parte de dentro a capela de Nossa Senhora.

Corre a muralha desta Torre de Nossa Senhora da Guia para a Torre Velha 360 passos, pela qual se defendem as traseiras das casas da Rua Nova do Muro, que têm janelas sobre suas ameias. É a torre velha toda fechada sem porta, e no alto dela para a parte do Sul está um nicho com a imagem de S. Francisco, que dista de seu mosteiro 140 passos.

Desta Torre Velha até à da Alfândega, que também é fechada sem serventia, vão 340 passos de muralha sobre os quais estão situadas as traseiras das casas da Rua do Anjo, e no meio desta muralha está aporta da Fonte Velha, e daí saíam as ruas a Nova do Muro e a de Alcobaça, e entre estas torres está um rosio a que chamam da Alfândega, e nele encostadas ao muro estão casas térreas onde se vende pão e outros víveres e fazendas que vêm de outras partes, e há umas casas de sobrado para um homem que fecha as portas deste rossio, para não haver descaminho de noite nas fazendas que nele se recolhem. Neste rossio, para a parte do Sul, está uma alpendrada em colunas de pedra debaixo da qual estão tendas e se vende a fruta e pão cuja alpendrada pela parte das costas fecha com suas paredes o dito rosio.

Continuando desta Torre da Alfândega duzentos passos de muralha para Poente se vai dar na Torre de S. Domingos, de que é nome próprio o da Piedade, por ter pela parte de dentro uma capela desta Senhora, a qual pela parte de fora tem também sobre suas ameias um nicho com a imagem de S. Domingo e neste lugar esteve antigamente o seu Mosteiro, que el-rei D. Afonso IV mandou mudar para o lugar aonde está. Defende esta torre a porta da muralha que dá serventia ao terreiro da Misericórdia, Rua Sapateira e Rua da Arrochela; esta porta está para Sul, e para a alegre Praça do Toural, e todas as casas da rua da Arrochela têm serventia para o dito muro, na qual porta da Torre da Alfândega se abriu a porta nova, que tem em cima S. Pedro na cadeira pontifical.

Desta torre de S. Domingos caminhando para Norte 345 passos de muralha, se encontra a torre da Senhora da Graça, conhecida pelo nome de porta de Santa Luzia, pela qual tem serventia para fora a Rua de Val de Donas. Dentro da porta encostada a suas paredes está a capela de Nossa Senhora da Graça. Para cima desta muralha têm serventia todos os moradores da Rua de Val de Donas, e igualmente os da Rua das Flores. 

Saindo da Torre de Nossa Senhora da Graça para o Norte, está esperando a muralha de Vila Velha de Araduca para se vir abraçar com a nova muralha, depois desta ter caminhado 612 passos, e se encontram na Porta de Garridos, hoje de Santo António, por ter um nicho deste Santo, que faz frente a Norte e junto ao mosteiro dos seus religiosos. Todos os moradores da Rua do Gado e da do Poço têm serventia para esta muralha, e aqui se unem as duas muralhas nova e antiga com um torreão terraplanado, mas não são tão semelhantes que senão diferencie uma da outra, porquanto a velha é toda tosca e a nova de pedra lavrada e coroada de ameias. 

Em todas as portas desta vila estão gravadas as armas dos reis seus fundadores e em todos os torreões as de el-rei D. João I que bem mostram a majestade de tal rei."

(Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, cap. 88.)
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3 de novembro de 2007

1 de novembro de 2007

O Terramoto de 1755, visto de Guimarães

O Senhor Jesus dos Terramotos. Gravura da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

“Apesar de ser ainda bastante cedo e de a estação já ir adiantada, fazia tanto calor que o jumento resfolegava e tropeçava nas pedras do caminho em mau estado. O capuchinho transpirava abundantemente sob o hábito de burel. Por que razão havia de ter ouvido a missa na capela privativa da quinta? O seu jovem discípulo queria, porém, nesse dia de Todos-os-Santos, honrar a memória do seu protector e padrinho e decidiu ir rezar no mui sagrado santuário de Nossa Senhora da Oliveira. Também ele cavalgava a montada, silencioso e abatido pelo insólito calor. Não chovera durante todo o Verão; não havia uma sombra no caminho, um rebento verde nos campos pelados. A luz era a tal ponto transparente que se viam os campanários de Guimarães destacando-se no horizonte com uma nitidez de ponta seca.

De repente, um rumor surdo. Dir-se-ia uma tempestade: mas o céu não tinha uma só nuvem. Ou uma carroça carregada: mas o caminho estava deserto. O capuchinho persignou-se. Não se tratava de uma vertigem devida ao jejum. Viu oscilar, ao longe, o campanário de Santa Eulália. Do ribeiro próximo subiu bruscamente um cheiro tão forte a enxofre e salitre que o frade teve de tapar o nariz. O cavalo do jovem fidalgo empinou-se. O ar, imóvel e pesado, estava irrespirável. Inquieto, o cavaleiro desmontou e, debaixo da bota, sentiu a terra tremer.”

CHANTAL, Suzanne – A vida quotidiana em Portugal ao tempo do terramoto. Lisboa: Edições Livros do Brasil, p. 11-12.


Num pequeno folheto manuscrito de curiosidades de um frade da Costa, que pertenceu ao seu mosteiro, lê-se, segundo a transcrição de João Lopes de Faria nas suas Efemérides Vimaranenses:

“Memorável será para todos os séculos o dia de todos os Santos do ano de 1755 pelo terramoto com que o céu atemorizou a todo Portugal, e grande perda de vidas, e fazenda, que houve em Lisboa, e suas vizinhanças. Por todo o ano adiante continuaram, ainda que não com a violência e estrago do primeiro. Em todo o Reino se fizeram procissões de penitência. Em Guimarães saiu o Cabido descalço. Os estudantes saíram também com a imagem de N. Pe. (S. Jerónimo penitente) que nos vieram pedir para isso, que alguns Monges acompanharam e pregaram, em S. Dâmaso, donde saiu a procissão, à porta da Colegiada, no terreiro de Santa Clara, no do Carmo, no da Misericórdia, no Toural, no das Dominicas, e outra vez no Toural, para a parte de S. Dâmaso, aonde se recolheu a procissão.”

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