19 de novembro de 2007

Alexandre Herculano e as obras da Colegiada

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Vista parcial da nave central da Igreja da Oliveira, após as obras da década de 1830.
Em 1830, o cabido mandou reformar a igreja da Colegiada da Oliveirra. Da reforma resultou a cobertura do interior com cal e a colocação na nave de um tecto de estuque, decorado com pinturas de Augusto Roquemont. Destas obras resultou o alindamento da igreja ao gosto da arquitectura da época, emparedando a sua identidade gótica. Na altura, o historiador Alexandre Herculano expressou a sua crítica a esta intervenção no texto que aqui se transcreve:
"Todavia, ainda há quem deplore a destruição das memórias venerandas de melhores tempos; ainda há quem lute contra a torrente de barbária que alaga este país tão rico de recordações, recordações que tantos ânimos envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de indignação acham eco em muitos corações. Temos visto e recebido cartas acerca deste assunto escritas com a eloquência da convicção e de profundo despeito. São protestos solenes de que nem todos os filhos desta terra venderam a alma ao demónio da devastação. Provam elas que o ruído dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão, da consciência e do amor pátrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias contra essa ideia fatal que entrou na maioria dos espíritos, de que tudo quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a pior coisa que há é essa ideia, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais detestável a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua infância a inscrição que o ateísmo decreta para os sepulcros: - aqui é a jazida do nada.
É singular, por exemplo, a história das recentes vicissitudes por que tem passado a Colegiada de Santa Maria da Oliveira em Guimarães. Guimarães parece fadada para vítima desta espécie de escândalos. A igreja da Colegiada de Guimarães era um dos mais belos monumentos de arquitectura ogival. O seu tecto de grossas vigas primorosamente lavradas constituía com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza de Portugal neste género, porque, durante a Idade Média, empregava-se geralmente a abóbada de pedra nas edificações sumptuosas. Além disso, as bem proporcionadas arcarias, os capitéis adornados de esculturas variadas e subtis, as três naves majestosas divididas por elegantes colunas, inspiravam em subido grau aquele respeito melancólico e saudoso que é um segredo das igrejas chamadas góticas. Os anos não tinham deslizado em vão por cima do monumento: arruinado em partes, carecia de reparos. O cabido ajuntou para isso grossas somas. Chamaram-se obreiros, e há sete ou oito anos que estes lidam por apagar todos os vestígios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capitéis e cornijas: substituíram-se com pedras lisas: estas pedras cobriram-se de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do Mestre de Avis lá está alindado; lá está coberto de arrebiques. Os que deviam manter-lhe a majestade das cãs; os que deviam despender seus tesouros acumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o venerando aspecto e as rugas dos séculos, fizeram da casa do Senhor um velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flacidez do gesto. Blasfemaram de Deus, não com blasfémias de palavras, mas com a blasfémia das obras. Deram enfim documento indubitável de que não havia ali quem soubesse a harmonia que existe entre a arquitectura e a religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dois tipos sensíveis, dois verbos que inspiram, um directamente ao espírito, outro simbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escrito, mas que também é ímpio rasgar o livro de pedra.
E que disseram os habitantes de Guimarães, durante oito anos em que os vermes andaram a roer naquele cadáver?
Louvaram o bonito da obra. O longo tasquinhar do cabido despertou-lhes, até, o apetite. Alguns lembram-se já de demolir as muralhas da vila reconstruídas por D. Dinis. Talham ainda ban­quete mais lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique; dos paços onde Afonso I, nasceu. A glória dos cónegos de Santa Maria, da Oliveira, tão dispendiosamente; conquistada, ofuscar-se-ia, assim, por pouco dinheiro, como a luz pálida da lua nos esplendores do surgir do sol.
Arrasados, pois, os muros reconstruídos pelo rei lavrador, apagados os últimos vestígios dos paços dos nossos primeiros monarcas, raspado e sarapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trair, lhe restará, uma ruga na face: o frontispício da Colegiada. Mas se a picareta do município pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita, o colherim, as tigelas de ocre e vermelhão e as broxas canonicais, vingue-se o ilustríssimo cabido, arranjando mais alguns vinténs, e mandando à custa deles picar e caiar aquele frontispício. Depois, para esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triunfantemente a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado."
[Alexandre Herculano, “Monumentos Pátrios”, in Opúsculos – Obras Públicas, 1873, Tomo II, págs. 39-43]

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Vista parcial da nave central da Igreja da Oliveira, após as obras de restauro de 1970/71.
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1 comentários:

Tiago Laranjeiro disse...

Bastante esclarecedor, este artigo. :)