12 de novembro de 2007

O Chafariz da Praça Maior

O Chafariz da Oliveira, numa fotografia de 1858.

Até ao final do século XVI, o abastecimento público de água à população de Guimarães era assegurado pelo chafariz da Praça.

O chafariz da Praça encostava-se à torre da Colegiada da Oliveira. Ainda o podemos ver em gravuras e fotografias antigas, com as suas três bicas, a pedra de armas da vila de Guimarães, com uma imagem em bronze da Senhora da Oliveira, e as armas reais. Esta memória corresponderá a uma reconstrução do tanque que ocorreu no início do século XVI.

O original é mais antigo, datando de 1390. Foi obra do pedreiro João Garcia, mestre da obra da igreja de Santa Maria. Há um recibo de 20 de Dezembro de 1392 que comprova que, naquele dia, João Garcia recebeu, na crasta da igreja da Colegiada, das mãos de Estêvão Gonçalves, morador na rua da Ferraria, que exercera o cargo de Procurador do Concelho no ano de 1390, a importância de 800 libras que ainda lhe era devida por razão do chafariz que no dito ano e tempo fez ao concelho. Tal chafariz só poderia ser o da Oliveira, que iria ser, até finais do século XVI, o único que a Câmara possuía na vila de Guimarães. A água que debitava, cuja origem ainda desconhecemos, chegava-lhe através do cano da Vila, passando por uma arca na rua da Infesta. No século XVI, pelo menos a partir do momento da construção do chafariz do Toural, já recebia água da Serra de Santa Catarina.

Há um alvará régio de 27 de Agosto de 1516 que corresponde afirmativamente a uma petição dos juízes, homens bons e oficiais da vila de Guimarães, em que davam conta de que a vila tinha necessidade de dinheiro para a aquisição de um relógio, com todos os seus aparelhos, feito de novo por se desfazer a torre em que estava e se fazer outra de novo, para reconstruir um chafariz que estava na praça ao pé da dita torre e pelo mesmo motivo se derrubara e era preciso fazê-lo de novo, melhor do que estava, para erguer uma nova casa para a Câmara, como cumpria à vila, porque a que tinha era a pior do reino e muito desbaratada, e para a criação de alguns enjeitados. Para custear tais encargos, seriam necessários cerca de duzentos mil réis, a que haveria ainda a somar o endividamento do Concelho em mais de quarenta mil réis, pelo que se solicitava ao rei que concedesse à Câmara, por um ano, a renda da imposição de um real em cada arrátel de carne e de peixe e em cada quartilho de azeite vendidos em Guimarães, e que a autorizasse a mandar fazer novos padrões de medidas, para os géneros ficarem com o mesmo peso. O rei acedeu ao que lhe era solicitado e esta concessão será objecto de sucessivas prorrogações ao longo do tempo.

No dia 12 de Fevereiro de 1842, a torre da Colegiada foi atingida por um raio. O chafariz também sofreu as consequências deste desastre. Segundo a descrição que o cronista Pereira Lopes inscreveu no seu diário, o raio caiu no remate que tinha a cúpula da torre que era de ferro, depois de esbandalhar a mesma é que passou para a igreja. No exterior da igreja, o estrago que fez foi deitar abaixo o martelo do relógio, uma bica do tanque e quebrar a maior parte dos vidros não só da igreja, mas também de muitas casas da Praça da Senhora da Oliveira, arrebentando na mesma o cano das águas públicas em diferentes partes.

O tanque da Praça Maior serviria de abrigo à oliveira que dava o nome à praça. No dia 5 de Dezembro de 1875, a árvore, com fama de antiquíssima e de milagrosa, foi transplantada do polígono de pedra, onde se enraizou, junto ao Padrão do Salado, para o meio do tanque do chafariz. Acabaria por morrer. Em Fevereiro de 1881, seria ali plantada uma nova oliveira, que também secou. Em 1882, o pequeno muro que a Câmara mandara erguer no tanque, para circuitar a árvore, foi retirado, por se ter concluído que quantas oliveiras ali se plantassem, quantas secariam.

A história do chafariz da Praça da Oliveira terminou com a introdução do sistema de abastecimento público de água em Guimarães. Foi desmantelado no dia 20 de Agosto de 1904. As pedras de armas que o ornamentavam pertencem hoje ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. Há alguns anos, no âmbito da requalificação do centro histórico de Guimarães, colocou-se a possibilidade de refazer aquela velha relíquia. A ideia seria abandonada por se ter tomado consciência dos danos que a humidade libertada pelo chafariz poderia causar na aceleração do processo de degradação dos belos túmulos dos Pinheiros que se encontram na capela situada no interior da torre, como acontecera ao longo de tantos séculos e já havia sido notado no século XIX.

[A partir de texto do autor publicado no livro Mãe-d'água, Vimágua, 2007]

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5 comentários:

Tiago Laranjeiro disse...

Caro amigo,

Não haverá soluções técnicas capazes de fazer um devido isolamento do tanque para não provocar danos aos túmulos dos Pinheiros? A Igreja da Colegiada sofreu inúmeros "ataques" ao longo do século XX, que lhe roubaram riquíssimos elementos, como a rosácea e a Capela de S. Nicolau (que depois sofreu a monstruosa reconstrução que hoje podemos ver). Não seria adequado tentar restituir à Igreja aquilo que lhe pertence por direito?

aan disse...

Tiago,

Como digo aí acima, a ideia da reconstituição do tanque-chafariz foi ponderada e terão sido razões de ordem técnica que levaram à sua não concretização. Na minha opinião, antes de se retomar a ideia de refazer a fonte, haverá que encontrar uma solução que trave o continuado esfarelamento dos túmulos dos Pinheiros.

O problema que levanta em relação às malfeitorias nos restauros da Colegiada é interessante, mas sem solução, colocando-se, com maior ou menor acuidade, em relação a qualquer obra humana. Um edifício com tantos séculos carrega, necessariamente, as cicatrizes do tempo e das (nem sempre boas) obras dos homens. E o tempo seguirá sempre o seu curso. Estou em crer que a antiga capela de S. Nicolau jamais voltará ao que já foi. Quanto à rosácea, tanto quanto sei, nunca existiu.

Tiago Laranjeiro disse...

Parece-me então que me enganei acerca da rosácea... Mas todo aquele espaço em pedra lisa na fachada da Colegiada faz-me espécie. Sempre esteve liso, ou então com uma simples janela redonda? Ou existiu já lá um outro elemente que o tempo, ou uma qualquer equipa de especialistas tratou de apagar?

Sinceramente, não vejo grande utilidade em existir um cubículo minúsculo, completamente liso, cujo acesso se faz apenas pela rua, que praticamente se abre apenas uma vez por ano, a que usam chamar de Capela de S. Nicolau... A anterior construção, que apenas conheço de livros e de um esboço disponível no sítio da SMS, seria muito mais lógica...

Ainda assim, talvez seja melhor a solução encontrada que nenhuma, apesar de a actual solução inviabilizar uma reconstrução "à maneira".

doménico disse...

Meus caros,

Aqui vai alguma "luz":

" Jessé
O templo quatrocentista dedicado a Santa Maria de Guimarães foi mandado edificar por D.João I, sendo obra do mestre de pedraria João Garcia de Toledo. Na fachada principal do templo foi inserido um enorme janelão no qual estava representado a árvore de Jessé.
Reformas posteriores levaram à substituição desse janelão por quatro incaracterísticas janelas.
Nesta sala (do museu Alberto Sampaio)pode observar-se a base desse primitivo janelão o Jessé deitado em descanso do qual saíria a árvore simbolizando os antepassados do Messias. Ainda são visíveis sinais da policromia que revestia esta obra escultórica".

Este texto acompanha a escultura exposta no Museu Alberto Sampaio.

Cumprimentos

aan disse...

Pelo janelão com a árvore de Jessé, seguramente que se fez luz, mas não deixou memória, a não ser o próprio Jessé. Já quanto a uma rosácea por cima do pórtico da Igreja, nem luz, nem memória.