31 de agosto de 2013

Efeméride do dia: Guimarães contribui para o dote da rainha que ensinou aos ingleses o que é um garfo

Catarina de Bragança, 1638-1705.

31 de Agosto de 1661
Os ministros, Câmara, gente da governança, etc., acordaram aceitar a carta de El-rei de 19 de Julho deste ano em que manda dobrar a sisa por tempo de dois anos, para dote de casamento de sua irmã, a infanta D. Catarina com seu primo El-rei da Grã Bretanha, de cuja aliança virão grandes bens ao reino. A Câmara escreveu neste mesmo dia a El-rei e ao Conde de Prado relatando-lhes a resolução tomada. El-rei escreveu em 8 de Outubro, agradecendo.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 191)

Em Agosto de 1661, Portugal continuava envolvido num conflito com Espanha que parecia não ter fim, que sangrava os recursos das gentes, chamadas a contribuir para o esforço da guerra. Aos habitantes dos concelhos, o exército demandava homens, armas, cavalos, bestas e carga, provisões, palha, carros para transporte. E o rei pedia donativos em dinheiro e lançava impostos, que mandava aceitar sem réplica, que era para acudir à defensão do reino. Não obstante estar sujeita a tamanho esforço para sustentar a guerra, a população do reino era chamada a comparticipar em outros negócios da coroa.
Aclamado rei de Portugal, D. João IV procurou alianças externas que permitissem dar solidez e sustentabilidade à independência de Portugal e a melhor forma de lhes dar solidez seria através do estabelecimento de laços com outras casas reais europeias, por via de casamentos dos seus filhos com príncipes estrangeiros. Assim aconteceu com a infanta D. Catarina, Princesa da Beira (título concedido à filha mais velha do rei, que recebeu depois da morte da sua irmã Joana). Catarina Henriqueta de Bragança tinha acabado de completar dois anos quando o seu pai foi aclamado rei de Portugal restaurado. Ainda criança, começaram as negociações diplomáticas com outras casas reais. D. João de Áustria, bastardo de Filipe IV de Espanha, e o duque de Beufort, neto bastardo do rei Henrique IV de França, foram os primeiros candidatos, que acabariam descartados. Esteve para ser consorte do Rei-Sol. As negociações com o cardeal Mazarino estiveram muito avançadas, mas Luís XIV de França acabaria por casar com a infanta espanhola Maria Teresa de Áustria. Após a morte de D. João IV, a regência seria assegurada, na menoridade do príncipe Afonso, pela sua mãe, Luísa de Gusmão, que tratou de negociar o seu casamento com Carlos II de Inglaterra
As negociações chegariam a bom termo. Em Junho de 1661 foi ratificado o Tratado de Casamento do rei Carlos II, do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda com D. Catarina de Portugal. O enlace aconteceria em Portsmouth, a 21 de Maio do ano seguinte. O dote de casamento de Catarina era de tal ordem que não tinha comparação com qualquer outro até aí conhecido: incluía, além de outras minudências, meio milhão de libras esterlinas e as possessões portuguesas de Tânger e de Bombaim, que teriam um papel fundamental na construção do império britânico em África e na Índia.
Para pagar o meio milhão de libras do dote, o rei, o seu irmão D. Afonso VI, mandou que, durante dois anos, a sisa fosse cobrada em dobrado. No dia 21 de Agosto de 1661, as autoridades locais vimaranenses decidiram aceitar aquela imposição, porque da aliança com o rei de Inglaterra viriam grandes bens ao reino.
Os anos em que Catarina de Bragança de Bragança foi rainha de Inglaterra (até à morte de Carlos II, em Fevereiro de 1686), não foram especialmente felizes. Por ser católica, o que impediu a sua coroação, e por nunca ter dado um herdeiro ao rei, foi mal-amada pelos seus súbditos. Na corte, havia quem a escarnecesse da sua figura, dizendo-a pouco dotada, no que respeitava ao físico e ao intelecto. Chegou a haver quem a pretendesse acusar de traição, por envolvimento numa suposta conspiração para devolver a Inglaterra ao catolicismo. Ao rei, chegou a ser sugerido que se divorciasse de Catarina de Bragança, para casar com quem lhe desse um sucessor. Porém, Carlos II não comungava dessas opiniões, considerando-a uma boa esposa e uma conselheira e confidente e um suporte fundamental na sua acção política.
No princípio de 1693, Catarina de Bragança, viúva de Carlos II de Inglaterra, regressou a Portugal, onde ainda viria a ter um papel de relevo junto do seu irmão, o rei D. Pedro II, que sucedera a Afonso VI, chegando a assumir a regência do reino, em alturas em que o rei estava impedido, por estar doente ou na guerra. Morreu em Lisboa, no último dia do ano de 1705.

A portuguesa que foi rainha de Inglaterra nunca caiu nas boas graças dos ingleses. No entanto, muito lhe deve a Inglaterra. Deve-lhe o hábito de tomar chá, o doce de laranja (a marmalade, cujo nome deriva da portuguesíssima marmelada), o uso da porcelana, a generalização do emprego das especiarias, o sabor das tangerinas,o fumo do tabaco e as boas maneiras à mesa. Foi Catarina de Bragança que ensinou os patrícios do conde de Sandwich (o comandante da armada que a levara à Inglaterra, em 1662) a comer de faca e garfo.
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30 de agosto de 2013

Efeméride do dia: Frei Estêvão de Sampaio, mártir sebastianista

D. Sebastião, o Desejado

30 de Agosto de 1603
Acaba a vida com violência em Sanlucar de Barrameda, onde foi executado, o dominicano frei Estêvão de Sampaio, por trabalhar pela independência da sua pátria. Este ilustre vimaranense traduziu e editou algumas obras.- Vide dicionário "Portugal", vol. 6, pág. 522.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 188 v.)

Nasceu em Guimarães, no seio de família nobre, ainda na primeira metade do século XVI. Ingressou na Ordem de S. Domingos, em Lisboa, onde, nas palavras do padre António Caldas, se fez eminente em letras e em virtudes. Após o desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir e o curto reinado do Cardeal D. Henrique, juntou-se ao partido do Prior do Crato. Consumada a União Ibérica, com Filipe II de Espanha a assumir o trono vago de Portugal, Frei Estêvão de Sampaio foi preso num cárcere horroroso, e carregado de pesadas cadeias, de onde acabaria por se evadir, indo para a Universidade da cidade francesa de Toulouse, onde prosseguiu os seus estudos, alcançando o grau de doutor em Teologia, com aplauso de todos os Catedráticos daquela tão sublime Faculdade.
Recebendo no ano de 1598 a notícia de ter aparecido em Veneza ElRei D. Sebastião, vinte anos depois da fatal derrota nos campos de Alcácer, impelido do fiel afecto para com os seus Príncipes nacionais partido com suma brevidade àquela Cidade a certificar-se com os olhos, do que estava informado pelos ouvidos, e achando que o Senado pelas instâncias do Embaixador de Castela tinha recluso aquele Príncipe o não pode ver, ainda que para este fim repetiu eficazes representações a Marcos Quirini um dos quatro Deputados para o exame de negócio tão grave, o qual o despediu dizendo-lhe ser preciso que de Portugal se remetessem documentos autênticos por que consta-se ser aquele homem que o Senado tinha recluso, o verdadeiro Príncipe D. Sebastião. Como todo o seu empenho era contribuir para que esta Monarquia fosse dominada por Príncipes Portugueses passou sem demora de Veneza a Portugal em hábito disfarçado para não ser descoberto pelos Ministros de Castela, e informando aos Fidalgos de tudo quanto tinha obrado, se restituiu velozmente a Veneza, onde sem perdoar a todo o género de diligencia fez fortes instâncias ao Senado dirigidas à liberdade daquele Príncipe, que supunha ser o seu Rei, de que resultou ser solto por intervenção de Henrique IV de França, a Rainha de Inglaterra, e República de Holanda com ordem expressa que no mesmo dia da soltura saísse da Cidade de Veneza, e em três de todo o Estado. A este imaginado Príncipe seguiu Fr. Estêvão com suma fidelidade, e chegando a Florença o entregou o seu Duque contra todas as leis da hospitalidade a EIRei de Castela, acabando Fr. Estêvão violentamente a vida em São Lucar de Barrameda a 30 de Agosto de 1603.
Recorde-se que se, entre 1580 e 1640, Portugal foi governado por reis espanhóis, foi porque D. Sebastião desapareceu em Alcácer Quibir sem ter deixado descendência. Se se demonstrasse que, afinal, não tinha morrido, poderia reivindicar a sua coroa e Portugal recuperaria a sua independência. A crença de que Sebastião não morrera era alimentada pelos que não se resignavam com o domínio filipino. Assim nasceu o sebastianismo, uma manifestação lusitana do messianismo. Ainda nos primeiros vinte anos da união dinástica, apareceram quatro supostos Sebastiões a reivindicarem o trono de Portugal. O mais enigmático apareceu em Veneza, em 1598. Desta vez, era o verdadeiro D. Sebastião.
Eis a sua história:
Vendo a batalha perdida em Alcácer Quibir, D. Sebastião, apesar de ferido, conseguiu fugir, na companhia do Duque de Aveiro e de três outros fidalgos da sua corte. Embarcou num dos barcos da esquadra portuguesa, que o levou até à costa do Algarve. Mas, coberto de vergonha pela derrota a que conduzira o seu exército, decidiu manter-se incógnito e partiu a correr mundo. Atravessou a Europa, calcorreou a Ásia, andou pela Pérsia e pela Etiópia. Combateu em guerras, foi muitas vezes ferido, mas sobreviveu. E assim transcorreram quase 20 anos, até ao dia em que decidiu levar uma vida de reclusão e penitência junto de um eremita que conhecera. Este, porém, ao ouvir-lhe a sua história, convenceu-o a regressar a Portugal e a retomar a sua coroa. Decide ir a Roma ao encontro do Papa. No entanto, em desembarcando na Itália foi atacado pro salteadores, que lhe levavam tudo quanto tinha. Impossibilitado de ira Roma, fez-se peregrino e andou por terras de Itália, acabando em Veneza. Sabendo da sua história, o embaixador de Espanha moveu influências para a sua prisão.
Frei Estêvão de Sampaio dirige-se a Veneza para tentar ver aquele que se apresentava como D. Sebastião, mas tal não lhe foi permitido. Exigiram-lhe provas de que aquele era mesmo o rei desaparecido e não um impostor. Regressou a Portugal, onde entrou incógnito, e dirigiu-se a Lisboa, onde obteve junto de um notário a descrição dos sinais físicos que permitiriam identificar D. Sebastião. De volta a Veneza, continuou a esbarrar com o impedimento de visitar o preso, o que conseguiria fazer em segredo. Terá ficado convencido de que aquele era mesmo o rei de Portugal. Numa carta que dirigiu, em 18 de Junho de 1600, ao Padre José Teixeira, que tinha boas relações na corte de Henrique IV, de França escreveu:
O rei de Portugal está detido, como prisioneiro nesta cidade, há vinte e dois meses, por um julgamento secreto de Deus, que permitiu que tenha chegado aqui pobre, por ter sido roubado, mas esperando encontrar auxílio nesta república. O embaixador de Castela perseguiu vivamente persuadindo a Senhoria de que é um ladrão calabrês, o que ele prometia provar e imediatamente procedeu contra ele, conforme as informações do embaixador. Tem-no sepultado na prisão, sem o deixar ver nem o querer soltar, nem fazer algum acto de justiça… Juro-lhe, pela Paixão de Jesus Cristo, que ele é tão verdadeiramente o rei D. Sebastião como eu sou o Frei Estêvão. Se isto não é assim, eu seja condenado não somente por mentiroso, mas por renegado, blasfemador e herético. Fiz grandes diligências em Portugal por este motivo. Fui lá e regressei. Soube secretamente que dos dezasseis sinais que tinha no seu corpo desde a infância, de que trouxe certificado autêntico de Portugal, ele os tem todos, sem falhar algum e sem contar as cicatrizes das feridas da batalha.
Por força das influências que moveu, Frei Estêvão acabaria por conseguir a liberdade do prisioneiro, por sentença proferida na manhã de 15 de Dezembro de 1600, com a condição de abandonar a cidade de Veneza em 24 horas.
Na noite do dia 16 de Dezembro, Frei Estêvão e aquele que fora reconhecido como D. Sebastião, partiram de Veneza, disfarçados de peregrinos, na direcção de Livorno, onde embarcariam para França. Na passagem por Florença, o companheiro de Frei Estêvão revelou cometeu a indiscrição de revelar a sua identidade de rei de Portugal. Acabaria preso e enviado para Nápoles, onde seria julgado por falsa identidade e condenado às galés para toda a vida. A pena deveria ser cumprida em Espanha, onde desembarcou no início de 1603. Aí, restabeleceu contactos com independentistas portugueses, acabando por ser sujeito a novo julgamento, onde se deu como provado o seu envolvimento numa conspiração que envolvia membros da nobreza e do clero portugueses para levar o prisioneiro a encabeçar o levantamento dos portugueses contra a dominação espanhola. Seria condenado à morte, sendo executado no final e Setembro de 1603.
Este “D. Sebastião” era um aventureiro calabrês cujo verdadeiro nome era Marcus Tullius Catizone. Ao que se sabe, não tinha quaisquer semelhanças físicas com D. Sebastião e nem sequer falava uma palavra da língua portuguesa. Frei Estêvão de Sampaio, como outros portugueses que estiveram envolvidos nesta conspiração, não o podia ignorar. Mas, para quem, como ele, lutava pela independência de Portugal, era preferível ter como rei um impostor que garantisse a independência do país, a continuar governado por rei espanhol, mesmo que legítimo. A situação impunha medidas drásticas, porque, como escreveu numa carta, em Portugal
Não há lei nem rei, Don Christoval Moro reside no palácio com autoridade Vice-rei sem corte, sem mais fidalgos do que seus parente parentes, o trajo nos homens é espanhol e nas mulheres de putas. A religião por terra, que o bula da cruzada flagela cada ano a devoção das gentes, as bolsas e almas.
O vimaranense Frei Estêvão de Sampaio também acabou os seus dias em Sanlucar de Barrameda. Preso e torturado, acabaria por confessar que a razon que le movio a andar en este negocio fue rresucitar aquel Rey.
Identificado na sentença como Frei Estêvão Caveira Sampaio, fidalgo e pregador da Ordem de S. Domingos, seria considerado culpado por traição, querendo introduzir em Portugal a Marco Tullio, Calabrês, natural da vila de Taverna e aparecido em Veneza, como se fora o rei D. Sebastião, sendo condenado à morte por enforcamento seguido de esquartejamento. A sentença seria executada em Sanlucar de Barrameda.


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29 de agosto de 2013

Efeméride do dia: O Padrão de S. Lázaro

O largo de S. Lázaro, numa  estereoscópia de Antero Frederico de Seabra de 1858, anterior à deslocação do Padrão que o afastou do meio da rua.

29 de Agosto de 1864
2ª feira.- Às 6 horas da tarde foi de novo colocada, com grande pompa e solenidade, a cruz do histórico padrão de S. Lázaro, que no ano passado (vide 20 de Março de 1863) foi removido do sítio em que estava assente, para outro próximo. O acto foi feito com assistência do governador civil, Câmara Municipal, administrador do concelho, Cabido, mesas de algumas corporações e vários titulares e cavalheiros. No largo de S. Lázaro estava levantado um pavilhão, onde se fez e assinou a acta da solenidade. A rua de D. João I estava toda endamascada e embandeirada, subindo ao ar muitos foguetes e tocando duas músicas, sendo uma paga por diversos moradores da dita rua para celebrarem a inauguração do tanque da mesma rua. À noite o tanque esteve iluminado e algumas casas desta rua, tocando ali a mesma música, a outra andou percorrendo as ruas da cidade.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 186)

Chamam-lhe Padrão de S. Lázaro, Padrão de D. João I, Padrão de Ceuta ou mesmo Padrão dos Pombais. A tradição associa-o a uma romaria de gratidão de D. João I à Senhora da Oliveira em que o rei entrou em Guimarães pela rua de Gatos (ou seja, de Entre-Regatos, porque naquela rua, que corresponde ao fundo da actual rua D. João I – o troço mais próximo do Toural chamava-se rua de S. Domingos - confluem as ribeiras de Couros e de Santa Luzia), e, descalço, completou o caminho que o levava à igreja da Colegiada. Segundo a versão mais corrente, a visita do Mestre de Avis à Senhora da Oliveira terá acontecido em 1386, sendo uma romagem de agradecimento pela vitória em Aljubarrota. A outra versão remete para duas décadas depois, sendo o seu motivo o sucesso da tomada de Ceuta, em 1415. Segundo ambas as versões desta tradição, o local onde esteve originalmente implantado o Padrão marcava o local exacto onde o rei se descalçou.
Em meados do século XIX, andando-se a construir a estrada de Guimarães a Vila Nova de Famalicão, discutia-se qual seria a sua directriz na entrada da cidade. Em 1858, uma petição assinada por mais de quatro centenas de habitantes da cidade e das freguesias contíguas subscreveram um documento em que pediam à rainha que não fosse atendida a pretensão da Câmara de fazer com que a entrada na cidade se fizesse pelo Proposto, mas sim pelo local inicialmente previsto, ou seja, por S. Lázaro e pela rua de Gatos. Esta seria a opção adoptada. Para tanto, havia necessidade de proceder a melhoramentos naquela rua e na de S. Domingos, o que implicaria, nomeadamente, a remoção do padrão para outro local, pois estava no meio da rua.
No dia 20 de Março de 1863, iniciou-se, com pompa e circunstância, a remoção do Padrão, com a cerimónia de lançamento da primeira pedra. As ruas de Gatos e de S. Domingos engalanaram-se para a festa: as casas estavam cobertas com colchas de seda e damasco, iluminando-se à noite, à entrada da rua de S. Domingos, junto ao Toural, ergueu-se um arco festivo, subiram ao ar foguetes, uma banda de música tocou no largo de S. Lázaro até às 11 da noite. Um cortejo, formado ao meio-dia na casa da Câmara e aberto pela bandeira da Câmara, transportada pelo fiscal Manuel Isidoro da Costa Vaz Vieira, onde se incorporaram o governador civil e o seu secretário-geral, o administrador do concelho, autoridades judiciais e presidente da Câmara. A fechar, a banda de música da terra. As corporações religiosas e muitos cavalheiros que tiveram convite, abstiveram-se de ir, em sinal de protesto pela remoção do Padrão. O arcipreste de Guimarães benzeu a primeira pedra, tendo lançado o cimento, com uma colher de prata, todas as autoridades presentes, a começar no governador civil e a terminar no presidente da Câmara. Seguidamente, discursou o governador civil que anunciou que, dali para a frente, aquela rua passaria da designar-se como Rua de D. João I.
Não faltaram as vozes que se ergueram contra a trasladação do monumento,. No jornal Religião e Pátria de 26 de Março de 1863, classificava-se a obra como um acto de destruição e vandalismo e perguntava-se:
Que dirão as gerações futuras quando souberem que houve uma Câmara em Guimarães que, a pretexto de melhorara a cidade e de reconstruir e aformosear uma rua, mandou, por entre as pompas e aparatos que nós presenciamos, remover dum lugar para outro o marco histórico levantado no sítio em que se apeou o Snr. D. João I, quando, coberto dos louros da gloriosa tomada de Ceuta, veio a esta cidade cumprir o voto que tinha feito a Santa Maria de Guimarães?
Concluídas as obras de alargamento e melhoramento da rua de D. João I, o padrão desmontado em Março de 1863 seria reconstruído no local onde hoje se encontra, desviado 2 metros e 30 centímetros do seu sítio original. A cerimónia de reposição da cruz aconteceu no dia 29 de Agosto de 1864 e teve a mesma solenidade do acto de remoção. Participaram as mesmas autoridades, desta vez com a presença de algumas corporações religiosas. Os moradores a rua festejaram como antes, engalanando as suas casas e queimando foguetes. Duas bandas de música animaram a festa, no local e pelas ruas da cidade. Mais do que festejarem a reposição da cruz no Padrão, os da rua de D. João I festejam o abundante tanque de água que fora colocado junto das suas casas.
Quanto à data de construção e ao que representa o Padrão erigido em S. Lázaro, as dúvidas persistem. Pela sua arquitectura (um alpendre aberto, de planta quadrada, apoiado em quatro pilares de fuste liso e entablamento dórico, que abriga uma cruz com uma figura de Cristo de numa das faces e a de Nossa Senhora na outra, decorada com motivos góticos tardios ou mesmo renascentistas), percebe-se que é obra da primeira metade do século XVI, pelo que se afigura pouco provável a sua suposta ligação aos feitos de D. João I em Aljubarrota ou em Ceuta.
Tanto a versão da tradição que liga o Padrão ao feito de Ceuta, que era a mais aceite, como a que remete para a vitória em Aljubarrota (com a associação à lenda da meada de ouro que D. João terá doado à Colegiada), são tardias (ao que se percebe, dos séculos XIX e XX). Pela parte que me toca, inclino-me para aceitar a explicação do cruzeiro que é dada pelo Padre Torcato Peixoto de Azevedo, e que tem sido ignorada nos estudos que tratam deste monumento.
Tornando à Praça do Toural, na parte do norte se caminha pela rua de S. Domingos para poente até à travessa que tem o cruzeiro, que a divide da rua dos Gatos, e se caminha por esta para poente até o rocio de S. Lázaro, o qual tem no meio uma capela dos Santos Reis, toda de abóbada de pedra, e debaixo da alpendrada da dita capela um magnífico cruzeiro feito à custa dos devotos de Nossa Senhora da Apresentação.
Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, p. 323

Assim sendo, o cruzeiro teria sido mandado fazer por fiéis da Senhora da Apresentação e estaria vinculado à capela de S. Lázaro. O Padrão de S. Lázaro, portanto.
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Papa-Açúcar, o bom ladrão

Papa-Açúcar

A fama de que gozava Bernardo José Dinis, o célebre facínora que dava pela doce alcunha de Papa-Açúcar de que tratamos na efeméride de ontem, não lhe vinha só do seu lado perverso. Como acontecia com outros fora-da-lei do seu tempo, a sua fama tinha lado de romântico, alimentado por histórias que dele se contavam. Uma dela, que revela que o Papa-Açúcar tinha também seus rasgos de filantropia, passou-se numa freguesia de Braga e foi contada pelo jornal Universal, daquela terra, e recontada pelo Religião e Pátria, aquando da sua prisão em Agosto de 1890.
Ei-la:

Uma anedota do Papa-Açúcar
O “Universal”, de Braga, conta a seguinte a propósito da recente prisão daquele famigerado larápio, que, pelo que se vê, tem também seus rasgos de filantropia:
“Há tempos vagueava ele, como de costume, por uma das freguesias deste concelho, quando lhe sucedeu encontrar duas mulheres que clamavam indignadas contra o pároco da freguesia, por este se ter recusado a baptizar uma criança do tenra idade que uma delas conduzia.
Pela conversa que ouviu à- mulheres compreendeu ele que o padre tal havia feito por falta de padrinho, e que os pais da criança eram tão pobres e miseráveis que não tinham encontrado quem a isso se quisesse prestar.
Dirigiu-se então às mulheres dizendo lhes que por falta cie padrinho não havia a criança de ficar por baptizar; que voltassem para a igreja, porque o padrinho havia ele de o ser.
As mulherzinhas agradeceram-lhe comovidas e foram novamente apresentar-se ao pároco, que vendo o padrinho e reconhecendo-o, se prestou, sem observações e sem delongas a ministrar o sacramento à criança.
Finda a cerimónia, e depois de feito o competente registo, puxou o Papa-Açúcar pela bolsa para pagar o que em tais ocasiões é de costume dar-se ao pároco, paga que este se recusou a aceitar, dizendo que por ser ao sr. Pereirinha nada lhe custava.
Ele, porém, forçou o pároco a receber o dinheiro, depois do que acompanhou até fora da igreja as duas mulheres, às quais ordenou que o esperassem no mesmo lugar onde o tinham encontrado.
Feito isto, voltou à igreja e, chegando-se ao padre, disse-lhe:
— Preciso já de dez libras e sei que o senhor mas pode arranjar com facilidade.
O padre respondeu-lhe que sentia não poder satisfazer-lhe tal pedido, por não ter em ser poder a quantia exigida.
Ele retrucou-lhe:
— Se não tem, mande-a pedir emprestada, porque sem ela não sairei daqui.
O padre, vendo que não havia meio de se ver livra dele, chegou-se então à porta da sacristia e chamou por um criado a quem encarregou de ir buscar cinco libras que tinha em casa e de pedir emprestadas outras cinco a um vizinho.
Pouco depois, voltou o criado com o dinheiro.
Recebeu o Papa-Açúcar as dez libras, e depois de as ter examinado uma por uma, disse ao padre:
— Desnecessário é dizer-lhe que o que entre nós se acaba de passar de ninguém deve ser conhecido. Não se esqueça deste aviso. Passe muito bem, snr. abade.
Saiu, o encontrando-se novamente com as mulheres no local que lhes tinha aprazado, disse- lhes:
— Aqui estão dez libras. Cinco são para a minha comadre se tratar; as outras cinco são par o enxoval do meu afilhado. Vão com Deus”

Religião e Pátria, 23 de Agosto de 1890
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28 de agosto de 2013

Efeméride do dia: Façanhas do Papa-Açúcar

Papa-Açúcar
28 de Agosto de 1890
Parte de manhã para Famalicão o "Papa Açúcar", devendo depois recolher à Relação do Porto. Ontem, depois das 10 horas da noite, da prisão enxovia donde ele estava com outros criminosos foram arremessadas algumas pedras aos transeuntes que passavam pelas imediações, tendo de se por a coberto os cabos de polícia que guardavam a cadeia, porque também foram contemplados com pedras. O administrador foi à cadeia dar as precisas providências. Este apedrejamento foi o preso António Manuel Gonçalves, "O Catarino", acusado de fazer parte duma quadrilha de ladrões, arrancou um degrau duma sentina e reduzindo-o a fragmentos lançando-o ao ar, apedrejou depois com eles os transeuntes, sendo o seu comportamento péssimo, pois já diversa vezes fora repreendido pelo delegado do procurador régio.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 184 v.)
João Brandão, Zé do Telhado e Papa-Açúcar, na classe dos ladrões são ladrões honrados e dignos. Apresentam-se na estrada, de peito descoberto, fronte erguida, expondo a vida e arriscando a liberdade.
Limão, Ridendo – Sinapismos, Valença do Minho, 1889

– Estou habituado a toda a espécie de encontros. Na minha mocidade fiz muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo do Papa-Açúcar...
Sá d'Albergaria, Os filhos do padre Anselmo, Porto, 1904

Tem nome de passarinho. A sua memória pode estar hoje coberta por um manto de esquecimento mas, no último quartel do século XIX, o Papa-Açúcar era uma das personagens mais conhecidas em terras de Guimarães e adjacentes. O seu nome figurava, em lugar de destaque, na lista portuguesa de malfeitores, ao lado de Diogo Alves, José do Telhado ou João Brandão. Chamava-se Bernardo José Dinis e era natural de Joane, onde nasceu por volta de 1863, mas fez carreira nas aldeias de Guimarães. Em 1882 ainda não tinha 20 anos, mas nos jornais, o seu nome já era decantado e célebre. Audacioso, matreiro, sinistro, afoito e insolente, assim era o Papa-Açúcar. Aqui fica parte da crónica das suas façanhas, tal como está narrada na imprensa vimaranense do seu tempo.

Audiências gerais
Começaram efectivamente no dia 28 de Novembro próximo as audiências gerais nesta comarca, sob a presidência do digno e ilustrado juiz de direito o snr. dr. José Teixeira de Queiroz Pimentel e Vasconcelos, sendo agente do ministério público o snr. dr. Artur Alberto de Campos Henriques.
(…)
Na segunda audiência, que teve lugar no dia 29, entraram em julgamento os réus Bernardo José Dinis (o Papa-Açúcar), António José de Abreu e Inácio da Silva, acusados pelo crime de roubo, e Manoel de Carvalho Baptista, acusado de receptador.
O júri deu o crime por provado quanto aos primeiros, sendo o Papa-Açúcar condenado em dois anos de prisão correcional e o outro réu em um ano.
A acusação e a defesa foram brilhantes.
Imparcial, 5 de Dezembro de 1882

Fuga de preso e furto
Na noite de anteontem evadiu-se das cadeias desta cidade o preso Bernardo José Dinis, o célebre Papa-Açúcar, que estava a cumprir a pena de 2 anos de prisão correccional, em que fora condenado no dia 17 de Novembro último por diferentes crimes de furto e resistência no acto da prisão.
O Papa-Açúcar, porque há pouco tempo se achasse incomodado de saúde, foi removido das enxovias por conselhos do clínico assistente, para mo quarto de malta, não muito longe daquele em que dorme o carcereiro, homem de bons costumes, com mais de 60 anos de idade e um tanto surdo.
O carcereiro, depois de fechar todas as janelas e portas da cadeia, saiu com tenções de cear em casa de um seu amigo que lhe dá de comer todos os dias, e recolheu se cerca das 10 horas da noite para deitar-se, e antes de o fazer dirigiu-se ao quarto do Papa-Açúcar, e chegando ao limiar da porta, olhando para a cama do preso, supos que este estava de deitado, pelo volume que se apresentava sob a roupa.
Em seguida recolheu-se ao seu quarto e fechando a porta com uma aldrava, tratou de deitar-se muito sossegadamente, colocando todas as chaves da cadeia, como de costume, próximo da cabeceira do leito.
De manhã levantou-se, e dirigindo-se ao sítio aonde colocara as chaves, não encontrou a que dá ingresso para a cadeia, achando-se lambem a porta quarto aberta.
Um triste pressentimento assaltou logo o espírito do carcereiro, que conhecendo mui de perto a audácia e artimanha do fugitivo, há já muito tempo redobrava de vigilância acerca do modo de proceder do célebre Papa-Açúcar. Dirigiu se, pois, imediatamente ao quarto deste, e longe de encontrar na cama e debaixo da roupa um indivíduo de carne e osso, deparou unicamente com alguns cabos de vassoura amarrados ao travesseiro, simulando assim, pelo volume um ente humano.
Era inegável: o decantado Papa-Açúcar havia dado às de Vila Diogo.
Narremos agora o modo porque o mesmo, secundo se supõe, realizou a sua audaciosa fuga.
Ao anoitecer o carcereiro, segundo o seu habitual costume, como já dissemos, fechara as portas, e janelas das prisões aonde se acham os encarcerados, e para isso tinha de atravessar o corredor fronteiro ao quarto de malta habitado pelo fugitivo, e este, revestido da maior audácia acompanhada de toda a serenidade de espírito, saiu furtivamente do seu quarto e, introduzindo-se no do carcereiro, meteu-se debaixo da cama deste.
Altas horas da noite, conhecendo o sono profundo que se havia apoderado do carcereiro, saiu cautelosamente de baixo da cama, e lançando vistas ávidas em redor do quarto, notou que aí, além dom relógio e corrente de prata, se achavam também dentro de uma bolsa algumas libras reunidas a outras moedas de prata, o que todo perfazia a quantia de cinquenta e dois mil e tantos réis.
Bem! disse de si para si o decantado Papa-Açúcar, corre tudo às mil maravilhas: tenho relógio para regular a jornada e dinheiro para satisfazer as despesas.
Foi então obra de um momento. Lançou mão das chaves de que necessitava para realizar a fuga, abriu seguidamente as portas que o impediam de aspirar a brisa amena que então cá fora deslizava e... minutos depois ei-lo no meio da rua.
O itinerário de sua jornada não o declarou ele a ninguém, e por isso nada podemos dizer aos nossos leitores a semelhante respeito.
O poder judicial procedeu com a maior actividade às necessárias averiguações acerca deste facto, e é para nós, que conhecemos de perto a dignidade e bom proceder do carcereiro, que este nenhuma culpa teve no facto que vimos de narrar, asserção esta que é confirmada pela opinião pública desta cidade.
As autoridades competentes fizeram expedir telegramas para diferentes localidades e a polícia envida todos os esforços para capturar o criminoso, havendo por isso as mais fundadas esperanças de que em breve o bom filho à sua casa torne.
Imparcial, 19 de Junho de 1883

Apesar das diligências das autoridades, ainda não foi capturado o célebre Papa-Açúcar, que se evadiu ultimamente das cadeias desta cidade.
Segundo se afirma, em algumas freguesias deste concelho têm-se praticado alguns furtos depois da evasão do Papa-Açúcar, e é voz pública que este é o autor de tais partidos.
Seja ou não seja, quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
Imparcial, 26 de Junho de 1883

Segundo é voz, pública, o já agora célebre Papa-Açúcar, fugido da cadeia desta cidade, onde estava cumprindo a pena de dois anos de prisão pelo crime de roubo e resistência à autoridade, tem percorrido diversas freguesias deste concelho, tendo assaltado algumas pessoas.
Diz-se que foi visto há dias nas proximidades de S. Torcato, e sendo reconhecido por uns homens que trabalhavam numa pedreira, estes o perseguiram, mas não o puderam agarrar, por que ele fugiu apontando um revólver, e parece que anda bem armado.
Muitas pessoas que costumam andar desta cidade para as aldeias, especialmente mulheres, estão atemorizadas.
Religião e Pátria, 4 de Agosto de 1883

Este foragido tem percorrido algumas freguesias do concelho.
A sua presença causa terror aos povos, que, como a um cão danado, berram: — “Aí vai o Papa-Açúcar, fujam, fujam!”
Alguns furtos se têm praticado, ainda que de pequena importância nas freguesias aludidas, e estas proezas são atribuídas àquele criminoso.
A nossa polícia já por diferentes vezes tem tentado apanhar o melro, mas este, fino como uma raposa, ainda não caiu no laço.
Ultimamente, os polícias e guardas da fiscalização aduaneira deram-lhe caça na freguesia de Ruivães, concelho de Famalicão, mas também foi inútil.
É questão de tempo.
Imparcial, 21 de Agosto de 1882

Consta que o já agora célebre Papa-Açúcar embarcara em Vigo com direcção ao Brasil.
Está pois terminado o medo que dele tinham os povos das aldeias. Ele metia-lhes tão grande terror, que não havia em todo o concelho de Guimarães quem não tivesse ouvido falar nele, todos o viam ao mesmo tempo em diversas partes!
Religião e Pátria, 28 de Novembro de 1883

Consta-nos por alguém que se diz bem informado que o famigerado Papa-Açúcar vive entre nós manso e ledo, apesar da balela que o fizera embarcado em Vigo e a caminho do Brasil.
Confiamos que o zelo e actividade da autoridade, não deixará de indagar a verdade.
Espectador, 3 de Janeiro de 1884

Apesar de se haver propalado que o célebre Papa-Açúcar há tempo fugido da cadeia desta cidade, havia embarcado para o Brasil, afiança pessoa que o conhece bem, tê-lo visto um destes dias próximo à ponte de Brito, e que não o prendeu por recear sair-se mal da empresa, porque ele dá fogo a quem o quiser prender, como já o fez à polícia.
Contudo, quando o Papa-Açúcar viu o sujeito caminhar para perto dele, foi-se safando.
Religião e Pátria, 14 de Maio de 1884

O Papa-Açúcar — Diz o nosso estimado colega Jornal de Santo Tirso, que este célebre criminoso tem sido visto por diversas freguesias daquele concelho assim como do de Famalicão, e há dias esteve em S. Miguel das Aves.
Religião e Pátria, 24 de Maio de 1884

O Papa-Açúcar — Este indivíduo, há tempos fugido da cadeia desta cidade, e que se havia tornado célebre, pois que, apesar de se ter espalhado que partira para o Brasil, parecia que se transformara nuns poucos porque aparecia em toda a parte, toda a gente o via, tal era o medo que lhe tinham, foi ontem de tarde preso por os soldados de guarda na ponte de Brito, dentro duma taberna, e conduzido à cadeia desta cidade. Foram-lhe encontradas três gazuas, uma navalha e um revólver.
Religião e Pátria, 18 de Junho de 1884

Foi hoje a perguntas perante o digno juiz de direito desta comarca, ao tribunal judicial, o já agora célebre Papa-Açúcar.
Informam-nos que vai ser enviado para a Relação do Porto.
Religião e Pátria, 21 de Junho de 1884

Escoltado por seis soldados, partiu boje para Vila Nova de Famalicão o célebre Papa-Açúcar, dizem que para responder por um crime que cometeu naquela comarca.
Quando foi intimado para sair da cadeia, exasperou-se muito, gritando que lhe pusessem um carro para ir, sem o que não sairia. Colocado o carro à porta, não o achou bom, dizendo que o queria envidraçado; afinal sempre se resolveu a sair mas o pior foi que o cocheiro, assim que o viu na rua, deu a fugir com o carro, e os soldados acercando-se do preso atrevido, disseram-lhe: — “Ande lá para a frente. E que remédio teve ele senão andar...”
Religião e Pátria, 18 de Outubro de 1884

O Papa-Açúcar — Este benfeitor foi visto um destes dias no lugar de Castelães, freguesia de S. João da Ponte.
Acompanhado por um outro indivíduo, atravessou a estrada e entrou num campo de milho onde desapareceu.
O Comércio de Guimarães, 4 de Outubro de 1888

Consta que foi preso nas imediações das Taipas pela polícia bracarense, o célebre O Papa-Açúcar, terror dos habitantes das freguesias circunvizinhas
Estará ou não preso?
Tantas vezes se tem julgado entre ferros, e ele sempre em liberdade.
O Comércio de Guimarães, 18 de Agosto de 1890

Prisão do Papa-Açúcar
Até que enfim, foi preso o lendário Papa-Açúcar, Bernardo José Dinis, solteiro, de 27 anos, natural da freguesia de Joane, concelho de Famalicão.
Uma força de polícia civil de Braga deu busca, domingo, às 10 horas da noite, à casa da Bicha Brava”, em Sande, amásia do gatuno, e lá o encontrou, levando-o em seguida para a cadeia de Braga, e ontem de tarde removido para a desta cidade. Veio em carro escoltado por 8 polícias civis a um chefe de esquadra.
Religião e Pátria, 20 de Agosto de 1890

Chegou na terça-feira a esta cidade, em um carro e acompanhado de 7 polícias, com procedência de Braga, o famigerado Papa-Açúcar, dando entrada imediatamente na cadeia.
Como era natural, a curiosidade de ver o Papa-Açúcar era grande, reunindo-se bastante povo em frente à prisão.
Como não há força militar, o digno administrador do concelho mandou guardar a cadeia por 4 cabos do polícia da freguesia da Oliveira, convenientemente armados.
Aplaudimos a resolução do snr. administrador, não só por causa do Papa-Açúcar, como de outros criminosos de certa importância que ali existem, uns condenados, e outros que têm de ser julgados nas próximas audiências gerais.
É certo que a polícia alguma despesa trará à exma. Câmara, mas são casos anormais em que é forçoso providenciar.
O Comércio de Guimarães, 21 de Agosto de 1890

Partiu hoje de manhã para Famalicão o Papa Açúcar, devendo depois recolher à Relação.
Ontem, depois das dez horas da noite, da prisão onde ele estava com outros criminosos, foram arremessadas algumas pedras aos transeuntes que passavam pelas imediações.
Ainda mal tinha sido prevenido o snr. administrador do concelho, e já um indivíduo desta cidade fazia as suas reclamações, por ter sido vítima duma pedrada.
Então o snr. dr. Meireles dirigiu-se à cadeia, tomando as providências que o caso requeria.
Os cabos do polícia, que rondavam a cadeia, também foram apedrejados, tendo de se pôr a coberto das pedradas.
Tirariam algumas pedras do ladrilho? Forneceriam de fora para dentro as pedras?
Por enquanto ainda nada está averiguado, por motivos que não podemos já indicar.
Havia receio do que o Papa Açúcar oferecesse resistência no acto de sair da enxovia, mas o homem portou-se muito bem.
O Comércio de Guimarães, 28 de Agosto de 1890

À hora em que escrevemos, dá entrada nas cadeias desta cidade Bernardo José Dinis, o célebre O Papa Açúcar, que tem de responder nas próximas audiências gerais desta comarca.
Veio das cadeias da Relação do Porto, e era escoltado por uma força de infantaria 18.
Vimaranense, 3 de Março de 1891

Escoltado por 3 soldados, um oficial de diligências e devidamente algemado, chegou anteontem a esta cidade, vindo das cadeias da Relação do Porto, onde se achava há tempos, o famigerado Papa Açúcar que tem de ser julgado nas próximas audiências gerais desta comarca, em consequência de ser chefe de uma quadrilha de salteadores que infestava as freguesias deste concelho.
O Comércio de Guimarães, 5 de Março de 1891

Audiências gerais
Começam no dia 20 do corrente mês as audiências gerais no tribunal judicial desta comarca, sob a presidência do meritíssimo juiz do direito dr. António Duarte Marques Barreiros, representando o ministério público o digno delegado do procurador régio sr. dr. Eduardo José da Silva Carvalho.
Eis os réus a julgar:
No dia 20 de manhã — -Bernardo José Dinis (o Papa Açúcar), residente em Caldelas, acusado pelo crime de associação de malfeitores e furto. Escrivão o snr. José de Oliveira; defensor o snr. dr. António Coelho da Mota Prego.
(…)
Vimaranense, 13 de Março de 1891

Principiaram na sexta-feira as audiências gerais nesta comarca
Foi julgado o célebre Papa Açúcar acusado de ser chefe duma quadrilha de malfeitores, e de ler praticado diferentes roubos.
Não se tendo provado que o réu era chefe da referida quadrilha, mas sim associado; e que não tinha praticado o roubo feito ao negociante desta praça snr. Monteiro, mas provando-se-lhe outros crimes, o Papa Açúcar foi condenado em 4 anos de prisão celular ou 8 do degredo em África.
O Comércio de Guimarães, 5 de Março de 1891
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27 de agosto de 2013

Efeméride do dia: A intentona de 27 de Agosto de 1915

A Escola Industrial Francisco de Holanda que serviu, em 1915, de quartel do Regimento de Infantaria 20.

27 de Agosto de 1915
Deram-se acontecimentos de carácter revolucionário monárquico. Um grupo de civis tentou assaltar, de madrugada, o quartel de infantaria nº 20 (escolas industriais, no campo do Proposto). Prenderam muita gente e foi em leva para a Relação do Porto, no dia 31 deste mês.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 181 v.)

Os anos da Primeira República foram de grande agitação política e social. As diferenças políticas extremaram-se, não se poupando nos meios para se atingirem os fins, e as páginas dos jornais eram, regra geral, armas de combate político, onde não se poupava nas munições, isto é, nas palavras que se arremessavam aos adversários. As tentativas de derrubar o regime republicano sucediam-se, nos poucos anos que a República levava. No dia 14 de Maio de 1915, foi derrubado o governo de Pimenta de Castro, que governava desde Janeiro daquele ano contra a maioria do parlamento, afecta ao Partido Democrático de Afonso Costa. Mas a instabilidade permanecia. O governo tem informações de que se preparava, para o final de Agosto daquele ano, um movimento de carácter monárquico, que deveria acontecer em simultâneo em diversos pontos do país, em especial a Norte. As medidas preventivas que foram tomadas impediram a intentona em quase toda a parte, com excepção de Braga e Guimarães.
Na madrugada do dia 27 de Agosto, um grupo de civis invadiu o quartel e infantaria 29, em Braga, atingindo com um tiro o cabo de dia e apoderando-se de algumas espingardas, tendo em seguida tentado forçar a saída. Nesta tentativa, a polícia prendeu presos quatro golpistas, a que se juntariam dois soldados e mais quatro indivíduos, além de terem sido apreendidas três bombas e duas pistolas grandes.
À mesma hora, em Guimarães, também havia movimentações no local onde estava aquartelado o 20 de Infantaria (na Escola Industrial). Os acontecimentos seriam narrados pelo correspondente em Guimarães de O Primeiro de Janeiro, do Porto

À hora indicada, alguns paisanos, auxiliados, segundo nos dizem, por um ou dois soldados do mesmo regimento, conseguiram entrar numa das casernas, e, abeirando-se dos cabides, tiraram dali algumas espingardas.
Nesta altura, um dos soldados, de nome João António, n.º 204, da 8.ª companhia, que dormia tranquilamente, pressentindo o que os paisanos estavam a fazer, levantou-se da cama e conseguiu agarrar-se a um deles. Foi então que esse paisano disparou contra o soldado m tiro, ferindo-o. A sentinela, ouvindo a detonação, bradou imediatamente às armas.
Os paisanos puseram-se em fuga, deixando duas ou três espingardas pelo caminho que trilharam. Nessa ocasião foram capturados por soldados na parada de quartel três indivíduos da classe civil, os quais foram conduzidos para a casa da guarda, onde lhes foi passada uma busca pelo oficial de inspecção sr. Tenente Fraga, sendo-lhes encontrado e seguinte armamento: uma pistola automática e uma espingarda caçadeira, com a qual tentavam ferir a sentinela da parada do quartel. Foram-lhes também apreendidas diversas balas para pistola, inclusivamente três carregadores com cinco cartuchos para pistola Mauser. Dali foram, removidos para o calabouço do quartel, onde se encontram incomunicáveis.
O soldado ferido deu entrada no hospital militar.
Apenas se deram estes acontecimentos, o sr. oficial de inspecção mandou reunir as companhias e colocar sentinelas nas ruas que contornam o quartel do Proposto, passando em seguida uma busca minuciosa nos quintais contíguos àquele quartel não dando resultado algum.
Para os lados do quartel e rua de Santa Cruz também se ouviram uns tiros que deram margem a que o sentinela bradasse às armas, sendo tomadas as necessárias e urgentes providências.
Os presos civis são: Álvaro Pinto de Almeida, o “Clarim”, Jerónimo Ribeiro de Faria e José de Castro Lobo, funileiro.
Também foram presos os soldados n.º 310, da 1.ª companhia, José Amador, e o n.° 38, da 6.ª companhia, José de Castro.
Além do assalto frustrado ao quartel, foram cortadas as comunicações por telégrafo com o Porto e com Braga, foi cortada a linha do caminho-de-ferro, em Covas, e foi dinamitada a ponte da Trofa.
Nos dias que se seguiram foram feitas dezenas de detenções na cidade de Guimarães e nas freguesias rurais. No dia 31, vinte presos vimaranenses foram conduzidos de comboio para o Porto, onde chegaram já noite, sendo aguardados na estação por numerosa multidão que, à sua chegada, os acolheu com manifestações de desagrado. Os presos, que ficaram à disposição do Juízo de Investigação Criminal, eram os seguintes:
Joaquim de Sousa Fernandes, António Martins da Silva, Eduardo Azevedo Machado, Custódio José da Silva Filipe, Joaquim da Silva Campos, José Machado Oliveira. António Ferreira Araújo, Manuel Fernandes Radmaker Guimarães, Francisco Castro, José Ferreira Ramos, Manuel Martins Ribeiro da Silva, António Ferreira Melo Guimarães, José Cardoso da Silva, Manuel da Silva Marques, Maximino José Ribeiro, João da Silva Canário, António Mendes Ribeiro Vasconcelos, Domingos Gonçalves, Sebastião Ribeiro Costa e Francisco Ferreira.
Entretanto, os jornais publicam a lista de indiciados em envolvimento nos acontecimentos do dia 27, que andavam a monte:
António Joaquim de Azevedo Machado, o Machadinho das Medalhas, director de O Comércio de Guimarães, José Martins Júnior, o Via-Sacra, merceeiro; João Ribeiro Cardoso, o Castanholas, e Joaquim Ribeiro Cardoso, industriais de S. Torcato, António Xavier de Abreu, o Mata, Luís Ribeiro de Faria, escrevente, Gaspar Peixoto Sampaio de Bourbon (Lindoso), proprietário, António da Silva o Senhor às Costas, taberneiro e bombeiro voluntário, Joaquim de Magalhães Lapeira e José de Magalhães Lapeira, cobradores, Alfredo de Magalhães Lapeira, cocheiro, Alexandre Costa e Silva, proprietário das Caldas das Taipas, um tal Macedo, electricista, Pedro de Freitas, jornaleiro, o dr. Álvaro Sampaio, secretário da administração do concelho de Famalicão, entre outros.
Entretanto, no dia 9 de Setembro, o jornal Alvorada, dava conta de que tinha sido apanhado peixe graúdo. Dera entrada no calabouço de Guimarães um tal Costa Alemão, ex-aspirante da marinha e sobrinho do lente do mesmo nome, foi apanhado em Condeixa, assolapado entre molhos de palha, numa depressão nervosa de cagarola. Este monárquico, que era, segundo o Alvorada, uma figura insinuante, tinha 22 anos, e... usava meias de renda com bordados realistas, tinha estado em Guimarães dias antes de 27 de Setembro, participando numa reunião conspirativa com a preparação da intentona na ordem do dia, realizada num gabinete do hotel do Toural, onde também estiveram dele o “Machadinho das medalhas”, o guarda-livros do hotel e o José Ramos.
Entretanto, no dia 9 de Setembro, os três golpistas apanhados em flagrante no quartel do 20 fugiram do calabouço do regimento, com a cumplicidade do cabo da guarda, que os acompanhou. Logo a seguir, um cabo daquele regimento, que tinha sido preso na sequência de uma denúncia de envolvimento nos acontecimentos do dia 7, também escapou.
E assim terminou mais uma intentona monárquica, a sexta desde a implantação da República. Os jornais republicanos descreveram-se como uma madrugada burlesca, cometimento herói-cómico, obra de quixotescos palermoides. No rescaldo, contaram-se três baixas: dois soldados baleados, um em Guimarães outro em Braga, e um morto (um conhecido monárquico de Braga, Miguel de Sotto Maior, que estava detido e que, segundo os jornais, se suicidou com um tiro de pistola no gabinete do Governador Civil, quando este se preparava para o interrogar).
Se não serviu, para derrubar a República, a intentona de 27 de Agosto de 1915 serviu para concluir que, por mais que insistissem, os adeptos da monarquia não conseguiriam derrubar o regime instaurado a 5 de Outubro de 1910, porque, como escreveu o jornal A Capital, de Lisboa:

As tentativas abortadas de Braga e de Guimarães apenas provaram que nem já nesses supostos redutos da fé religiosa o da fé monárquica é possível insurreccionar as populações contra o regime, por muito intensa que seja a propaganda feita por clérigos, aristocratas e especuladores de vária espécie que ainda se não convenceram da inanidade dos seus criminosos manejos.
A Capital, Lisboa, 28 de Agosto de 1915

Ou, como se escreveria dias depois, no Alvorada de Guimarães:
Se os republicanos não derem cabo da República, está cada vez mais provado que não são as arremetidas dos monárquicos que coisa tão fácil conseguem — fácil para quem traz o rei e mais o país na barriga...
Alvorada, Guimarães, 9 de Setembro de 1915


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26 de agosto de 2013

Efeméride do dia: A Estrada Nova

Ilustração da obra Methodo para construir estradas em Portugal, de José Diogo de Mascarenhas Neto (1790)

26 de Agosto de 1845
Pelas 8 horas da noite, chegou a Guimarães o Ministro da Fazenda, Conde do Tojal, indo esperá-lo a Câmara e autoridades, assim como outras pessoas de distinção. Os empregados no serviço da nova estrada que se andava construindo para o Porto, conhecida hoje pela denominação de Estrada Nova, levantaram-lhe alguns arcos até à entrada da vila. Na sua entrada puseram luminárias os empregados públicos, muitos foguetes e tocaram repiques em todas as torres da vila. O Conde hospedou-se em casa de Domingos Cardoso, a quem vinha recomendado, tendo-lhe este preparado um grande jantar, onde pernoitou. Na manhã seguinte foi ver o castelo e quartéis, indo à Colegiada, onde foi recebido por uma deputação do Cabido. Da Colegiada dirigiu-se a casa do Barão de Vila Pouca, onde o Barão lhe deu um magnífico almoço. Pelas 4 horas da tarde partiu para o Bom Jesus do Monte, sendo acompanhado até fora da vila pelas mesmas pessoas que o tinham ido esperar. Quando passava no Toural, deram-lhe alguns assobios. Estes assobios foram motivados por constar que o referido ministro concordara no que os engenheiros haviam traçado no sentido de que a nova estrada, que se ia construir para Braga, fosse levada pelo fundo do extinto convento de S. Domingos, perto dos Pombais na direcção de Caneiros. PL.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 179 v.)

Em meados do século XIX, Guimarães podia não ser servida por boas estradas, mas tinha, como escreveu em 1791 o Superintendente Geral das Estradas do Reino de Portugal, a glória de ter sido a primeira terra que produziu neste reino o modelo e plano das estradas artificiais. O Superintendente chamava-se José Diogo de Mascarenhas Neto e sabia do que falava (nesse mesmo ano, num Alvará com força de lei que a rainha D. Maria I publicou com o objectivo de remediar ao estado de ruína, era que se acham as Estradas Públicas do Reino, ordenou que se o Método da Construção seja o mesmo, que com notória utilidade se principiou a executar na Estrada de Guimarães para o Porto). Mas este será assunto para outra efeméride, mais lá para diante.
Em Julho de 1843, foi publicada uma lei que instituía a contribuição para estradas com o propósito de financiar a construção de uma rede, ou melhor, uma teia de estradas que irradiavam a partir de Lisboa, com sucessivas ramificações que deveriam ligar os diferentes núcleos populacionais do país. Como o Estado não tinha meios financeiros suficientes para avançar de imediato com o projecto de novas estradas, optou por concessionar a construção e exploração das novas estradas a companhias privadas. Na hora de avançar com a primeira concessão, não houve dúvidas: avançou-se com a entrega das três principais estradas do Minho, por se apresentarem, potencialmente, como a opção mais lucrativa. As estradas iriam atravessar a mais rica, a mais populosa, a mais industriosa, e a mais activa parte do nosso país, e abraçavam três centros desta riqueza, população, indústria e actividade — Porto, Braga e Guimarães. Depois, porque a ocupação humana do território da província do Minho era densa e contínua, não obrigando a construir muitas léguas onde a despesa é enorme, e o rédito quase inteiramente nulo. Outra vantagem do Minho era que a sua actividade, a barateza dos salários, davam à empresa a certeza de que podia contar com os meios de realizar o seu intento, e que estes seriam pelo mais razoável preço. Ainda em 1843, o Estado contratualizou a construção das estradas do Minho ao Conde De Claranges Lucotte. Para a execução da obra seria criada a Companhia das Estradas do Minho, que já estava constituída no princípio de Janeiro de 1844. A ligação do Porto a Guimarães seria feita por Santo Tirso. O director da obra seria o engenheiro Bigot, de nacionalidade francesa.
Entretanto, em Dezembro de 1844, seria criada a Companhia das Obras Públicas de Portugal, a mãe das parcerias público-privadas para construção das vias de comunicação e transportes. Foi fundada por sete capitalistas de Lisboa e tinha, como objectivo, segundo os seus estatutos, propor-se o fazer todos os grandes obras que forem legalmente autorizados para melhoramento das comunicações no país, debaixo da fiscalização do governo e com a garantia do Estado, para embolso do capital que se empregar, e o pagamento do juro que for convencionado, além de quaisquer lucros eventuais.
De Claranges Lucotte transmitiria à Companhia das Obras Públicas, por contrato assinado Maio de 1845, a concessão para a construção das estradas do Minho. No entanto, manteve-se como empreiteiro das obras das estradas (do Porto a Guimarães, do Porto a Braga, e do Porto a Penafiel), que, no seu conjunto, empregavam 6.300 operários, 2.000 empreiteiros particulares, e 1.500 pessoas incumbidas de britar pedra, de conduzir cascalho, etc.
Decorriam as obras em bom ritmo quando, a 26 de Agosto de 1845, Guimarães foi visitada pelo Ministro da Fazenda, o Conde do Tojal que, acompanhado pelo engenheiro Bigot, inspeccionou o andamento da nova estrada e foi brindado em Guimarães com uma recepção apoteótica. À saída da sua comitiva, rumo ao Bom Jesus, foi assobiado no Toural, por se dizer que tinha aderido à proposta dos engenheiros para a nova estrada para Braga, cuja construção estava prevista para breve, que apontavam o seu arranque nos Pombais em direcção a Caneiros, ideia que tinha opositores em Guimarães.
Na Primavera de 1846 rebentou a Revolução da Maria da Fonte, a que se seguiria a Guerra Civil da Patuleia. Em Maio de 1846, Guimarães estava a ferro e fogo. Os operários que trabalhavam na construção da estrada junto a Guimarães, depois de ameaçarem alguns guerrilhas, foram despedidos. A Maria da Fonte fez com que a obra fosse suspensa. Passariam três décadas até que se completasse o troço até Santo Tirso. O povo chamava-lhe Estrada Nova.


ESTRADAS.
(Comunicado)
Acha-se fundada uma companhia, que tomou por empresa as três principais e mais importantes estradas da província do Minho, do Porto a Braga, e a Guimarães, e entre estas duas povoações.
Abandonadas por longos séculos as nossas comunicações, nem o comércio, nem a administração pública pareciam consagrar a tão valioso objecto o mais pequeno cuidado.— Nos últimos dez anos da nossa regenerarão política pretendeu-se por muitas vezes c por muitos modos chamar sobre esta questão tão social, tão importante e tão urgente o interesse que a civilização lhe marcava. Foi sempre em vão.
Mas a lei de 26 de julho de 1843 veio começar uma nova época, que se apresenta auspiciosa, e que esperamos seja feliz. — Antes dessa lei fora quase impossível tentar, com esperança de bom resultado, empresa alguma de estradas, depois dela a questão mudou inteiramente de face.
O espírito público começou desde então a encarar as nossas comunicações, não como objecto de belos votos, ou de formosas dissertações, mas sim como uma realidade palpável já e positiva. — A lei facilitava todos os meios de levar a efeito qualquer plano bem combinado, e a generalidade em que a lei era concebida tornava exequíveis esses planos, que isolados seriam impraticáveis.
O espírito comercial seguiu este mesmo impulso, não arrojado e animoso; porque é nova a carreira em que se vai lançar; mas desejoso de achar no meio do país um emprego de capitais seguro, já que tantos empregos de capitais nos faltam e outros tantos tão vacilantes e incertos se mostram.
De todas as empresas a que pareceu mais lucrativa foi sem dúvida a das três principais estradas do Minho. Era natural que o comércio se dedicasse a esta empresa primeiro do que às outras, e de preferência a elas.
A primeira consideração era que as três estradas que formam o objecto da empresa da companhia atravessavam a mais rica, a mais populosa, a mais industriosa, e a mais activa parte do nosso país, e abraçavam três centros desta riqueza, população, indústria e actividade — Porto, Braga e Guimarães. Daqui a certeza de comunicações constantes e numerosas, sem as quais o rendimento das barreiras não pode ser de consideração alguma.
Depois disso ocorria que o espaço que a empresa ocupava era de sua natureza limitada e compreensível, consideração de muito momento para a direcção dos Trabalhos e para a fiscalização dos direitos de barreira, e ainda mais porque se evita o inconveniente que se dá nas estradas de longa extensão, onde para aproveitar os pontos de maior comunicação os empresários se vêem obrigados a construir muitas léguas onde a despesa é enorme, e o rédito quase inteiramente nulo.
Por último a extensa população do Minho, a sua actividade, a barateza dos salários, davam à empresa a certeza de que podia contar com os meios de realizar o seu intento, e que estes seriam pelo mais razoável preço por que se podem obter tais serviços em qualquer parte do nosso país.
As explorações e estudos do terreno certificaram também que em quase toda a extensão das estradas havia a pedra necessária para o sistema de construção que se pretende seguir, sem necessidade de despesas enormes de carretos.
As tentativas feitas em diversas estradas também nos ensinavam já com bastante probabilidade qual a despesa de construção era — e isto não seria possível que entrasse nunca como elemento de cálculo nas anteriores especulações, que neste ramo se tentaram, faltava-lhes a experiência, que a muitos tão custosa sai.
Foi pois sobre estas considerações todas analiticamente desenvolvidas, e por muito tempo estudadas, e sobre dados positivos e os melhores que neste país se podem obter, que a companhia das estradas do Minho fundou os seus planos cálculos. — O governo sem deixar de zelar os interesses públicos, fez à empresa todas as concessões que a utilidade do objecto requer — e ainda esperamos dele todos os auxílios, que em todos os países de civilização e de liberdade os governos fazem sempre a empresas desta natureza.
Porém a empresa precisa também do auxílio dos magistrados administrativos, e dos corpos municipais — com a sua boa vontade, zelo e cooperação, a companhia pode evitar muitos embaraços, muitas delongas, e conseguir mais eficazmente o fim a que se propõe. — A direcção da companhia invoca pois esta cooperação, e espera recebê-la.
A maior parte das acções da companhia acham-se subscritas; mas querendo a empresa dar a este objecto, todo público e todo nacional, a publicidade de que ele é digno, a companhia abre a subscrição das suas acções.
O correspondente já nomeado da companhia no Porto, é o Sr; João Leite de Faria, largo de S. Domingos n.° 42.
Em Lisboa no largo do Carmo n.º 7, em casa do Sr. Luís Teixeira Sampaio.
Os directores, José Inácio de Seixas, Vicente Gonçalves Rio Tinto, José Maria Eugénio de Almeida, L. T. Sampaio, e G. B. da Rocha.
Revista Universal Lisbonense, edição de 11 de Janeiro de 1844



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