27 de agosto de 2013

Efeméride do dia: A intentona de 27 de Agosto de 1915

A Escola Industrial Francisco de Holanda que serviu, em 1915, de quartel do Regimento de Infantaria 20.

27 de Agosto de 1915
Deram-se acontecimentos de carácter revolucionário monárquico. Um grupo de civis tentou assaltar, de madrugada, o quartel de infantaria nº 20 (escolas industriais, no campo do Proposto). Prenderam muita gente e foi em leva para a Relação do Porto, no dia 31 deste mês.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 181 v.)

Os anos da Primeira República foram de grande agitação política e social. As diferenças políticas extremaram-se, não se poupando nos meios para se atingirem os fins, e as páginas dos jornais eram, regra geral, armas de combate político, onde não se poupava nas munições, isto é, nas palavras que se arremessavam aos adversários. As tentativas de derrubar o regime republicano sucediam-se, nos poucos anos que a República levava. No dia 14 de Maio de 1915, foi derrubado o governo de Pimenta de Castro, que governava desde Janeiro daquele ano contra a maioria do parlamento, afecta ao Partido Democrático de Afonso Costa. Mas a instabilidade permanecia. O governo tem informações de que se preparava, para o final de Agosto daquele ano, um movimento de carácter monárquico, que deveria acontecer em simultâneo em diversos pontos do país, em especial a Norte. As medidas preventivas que foram tomadas impediram a intentona em quase toda a parte, com excepção de Braga e Guimarães.
Na madrugada do dia 27 de Agosto, um grupo de civis invadiu o quartel e infantaria 29, em Braga, atingindo com um tiro o cabo de dia e apoderando-se de algumas espingardas, tendo em seguida tentado forçar a saída. Nesta tentativa, a polícia prendeu presos quatro golpistas, a que se juntariam dois soldados e mais quatro indivíduos, além de terem sido apreendidas três bombas e duas pistolas grandes.
À mesma hora, em Guimarães, também havia movimentações no local onde estava aquartelado o 20 de Infantaria (na Escola Industrial). Os acontecimentos seriam narrados pelo correspondente em Guimarães de O Primeiro de Janeiro, do Porto

À hora indicada, alguns paisanos, auxiliados, segundo nos dizem, por um ou dois soldados do mesmo regimento, conseguiram entrar numa das casernas, e, abeirando-se dos cabides, tiraram dali algumas espingardas.
Nesta altura, um dos soldados, de nome João António, n.º 204, da 8.ª companhia, que dormia tranquilamente, pressentindo o que os paisanos estavam a fazer, levantou-se da cama e conseguiu agarrar-se a um deles. Foi então que esse paisano disparou contra o soldado m tiro, ferindo-o. A sentinela, ouvindo a detonação, bradou imediatamente às armas.
Os paisanos puseram-se em fuga, deixando duas ou três espingardas pelo caminho que trilharam. Nessa ocasião foram capturados por soldados na parada de quartel três indivíduos da classe civil, os quais foram conduzidos para a casa da guarda, onde lhes foi passada uma busca pelo oficial de inspecção sr. Tenente Fraga, sendo-lhes encontrado e seguinte armamento: uma pistola automática e uma espingarda caçadeira, com a qual tentavam ferir a sentinela da parada do quartel. Foram-lhes também apreendidas diversas balas para pistola, inclusivamente três carregadores com cinco cartuchos para pistola Mauser. Dali foram, removidos para o calabouço do quartel, onde se encontram incomunicáveis.
O soldado ferido deu entrada no hospital militar.
Apenas se deram estes acontecimentos, o sr. oficial de inspecção mandou reunir as companhias e colocar sentinelas nas ruas que contornam o quartel do Proposto, passando em seguida uma busca minuciosa nos quintais contíguos àquele quartel não dando resultado algum.
Para os lados do quartel e rua de Santa Cruz também se ouviram uns tiros que deram margem a que o sentinela bradasse às armas, sendo tomadas as necessárias e urgentes providências.
Os presos civis são: Álvaro Pinto de Almeida, o “Clarim”, Jerónimo Ribeiro de Faria e José de Castro Lobo, funileiro.
Também foram presos os soldados n.º 310, da 1.ª companhia, José Amador, e o n.° 38, da 6.ª companhia, José de Castro.
Além do assalto frustrado ao quartel, foram cortadas as comunicações por telégrafo com o Porto e com Braga, foi cortada a linha do caminho-de-ferro, em Covas, e foi dinamitada a ponte da Trofa.
Nos dias que se seguiram foram feitas dezenas de detenções na cidade de Guimarães e nas freguesias rurais. No dia 31, vinte presos vimaranenses foram conduzidos de comboio para o Porto, onde chegaram já noite, sendo aguardados na estação por numerosa multidão que, à sua chegada, os acolheu com manifestações de desagrado. Os presos, que ficaram à disposição do Juízo de Investigação Criminal, eram os seguintes:
Joaquim de Sousa Fernandes, António Martins da Silva, Eduardo Azevedo Machado, Custódio José da Silva Filipe, Joaquim da Silva Campos, José Machado Oliveira. António Ferreira Araújo, Manuel Fernandes Radmaker Guimarães, Francisco Castro, José Ferreira Ramos, Manuel Martins Ribeiro da Silva, António Ferreira Melo Guimarães, José Cardoso da Silva, Manuel da Silva Marques, Maximino José Ribeiro, João da Silva Canário, António Mendes Ribeiro Vasconcelos, Domingos Gonçalves, Sebastião Ribeiro Costa e Francisco Ferreira.
Entretanto, os jornais publicam a lista de indiciados em envolvimento nos acontecimentos do dia 27, que andavam a monte:
António Joaquim de Azevedo Machado, o Machadinho das Medalhas, director de O Comércio de Guimarães, José Martins Júnior, o Via-Sacra, merceeiro; João Ribeiro Cardoso, o Castanholas, e Joaquim Ribeiro Cardoso, industriais de S. Torcato, António Xavier de Abreu, o Mata, Luís Ribeiro de Faria, escrevente, Gaspar Peixoto Sampaio de Bourbon (Lindoso), proprietário, António da Silva o Senhor às Costas, taberneiro e bombeiro voluntário, Joaquim de Magalhães Lapeira e José de Magalhães Lapeira, cobradores, Alfredo de Magalhães Lapeira, cocheiro, Alexandre Costa e Silva, proprietário das Caldas das Taipas, um tal Macedo, electricista, Pedro de Freitas, jornaleiro, o dr. Álvaro Sampaio, secretário da administração do concelho de Famalicão, entre outros.
Entretanto, no dia 9 de Setembro, o jornal Alvorada, dava conta de que tinha sido apanhado peixe graúdo. Dera entrada no calabouço de Guimarães um tal Costa Alemão, ex-aspirante da marinha e sobrinho do lente do mesmo nome, foi apanhado em Condeixa, assolapado entre molhos de palha, numa depressão nervosa de cagarola. Este monárquico, que era, segundo o Alvorada, uma figura insinuante, tinha 22 anos, e... usava meias de renda com bordados realistas, tinha estado em Guimarães dias antes de 27 de Setembro, participando numa reunião conspirativa com a preparação da intentona na ordem do dia, realizada num gabinete do hotel do Toural, onde também estiveram dele o “Machadinho das medalhas”, o guarda-livros do hotel e o José Ramos.
Entretanto, no dia 9 de Setembro, os três golpistas apanhados em flagrante no quartel do 20 fugiram do calabouço do regimento, com a cumplicidade do cabo da guarda, que os acompanhou. Logo a seguir, um cabo daquele regimento, que tinha sido preso na sequência de uma denúncia de envolvimento nos acontecimentos do dia 7, também escapou.
E assim terminou mais uma intentona monárquica, a sexta desde a implantação da República. Os jornais republicanos descreveram-se como uma madrugada burlesca, cometimento herói-cómico, obra de quixotescos palermoides. No rescaldo, contaram-se três baixas: dois soldados baleados, um em Guimarães outro em Braga, e um morto (um conhecido monárquico de Braga, Miguel de Sotto Maior, que estava detido e que, segundo os jornais, se suicidou com um tiro de pistola no gabinete do Governador Civil, quando este se preparava para o interrogar).
Se não serviu, para derrubar a República, a intentona de 27 de Agosto de 1915 serviu para concluir que, por mais que insistissem, os adeptos da monarquia não conseguiriam derrubar o regime instaurado a 5 de Outubro de 1910, porque, como escreveu o jornal A Capital, de Lisboa:

As tentativas abortadas de Braga e de Guimarães apenas provaram que nem já nesses supostos redutos da fé religiosa o da fé monárquica é possível insurreccionar as populações contra o regime, por muito intensa que seja a propaganda feita por clérigos, aristocratas e especuladores de vária espécie que ainda se não convenceram da inanidade dos seus criminosos manejos.
A Capital, Lisboa, 28 de Agosto de 1915

Ou, como se escreveria dias depois, no Alvorada de Guimarães:
Se os republicanos não derem cabo da República, está cada vez mais provado que não são as arremetidas dos monárquicos que coisa tão fácil conseguem — fácil para quem traz o rei e mais o país na barriga...
Alvorada, Guimarães, 9 de Setembro de 1915


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