31 de julho de 2015

As Gualterianas de 1907 vistas pela objectiva de Aurélio Paz dos Reis

Aurélio Paz dos Reis (1862-1931)
As Festas Gualterianas de 1907 mereceram uma reportagem fotográfica na revista Ilustração Portuguesa, que agora se republica. Trata-se de um conjunto de 15 fotografias que já antes tinham sido mostradas aqui, sem indicação do fotógrafo, que não estava identificado na fonte de onde as imagens foram extraídas. O autor das fotografias é Aurélio Paz dos Reis, o pioneiro do cinema em Portugal, que, aliás, aparece na imagem que aqui vai com o n.º 7, Capela onde se baptizou D. Afonso Henriques, com o filho Homero. Na fotografia n.º 9, Uma barraca de refrescos, são identificáveis os filhos Homero e Horácio. Devo estas informações a Aida Freitas Ferreira, do Centro Português de Fotografia (que tem no seu arquivo o fundo de Aurélio Paz dos Reis), a quem agradeço.



As Festas Gualterianas em Guimarães
S. Gualter é santo de particular devoção em Guimarães, que todos os anos o festeja com entusiasmo.
É de saber que o santo era filho da nossa terra e pertenceu ao convento de S. Francisco do Monte, em Viana, onde morreu no último quartel do seculo XVI. Era simples leigo, mas bom teólogo, segundo afirma o Hagiológio Lusitano do padre Cardoso. Além disso, tinha “celestiais êxtases”, e recebeu até revelação do seu trânsito, porque três dias antes do passamento mandou preparar a própria sepultura, a qual quis experimentar várias vezes, metendo-se sempre nela com evidente satisfação e grande alegria. Quando achou afinal bem afeiçoado o leito, acomodou-se nele definitivamente, proferindo estas últimas palavras, conforme a versão do seu citado biógrafo: “Pelejado hei, Senhor, como bom cavaleiro, seguido hei vosso estandarte. A vós devo tudo, e a vós, Senhor, o torno. Vamos, Senhor, vamos a gozar desses bens que prometestes aos que bem pelejassem.” E adormeceu serenamente na morte, com a calma da fé daquelas tempos.
No grande exército que forma a coorte dos santos da igreja católica, S. Gualter não representa uma personalidade de grande evidência mundial, e os Bolandistas não lhe consagram mesmo detida escritura; mas para nós, seus compatriotas, é natural o têrmo-lo em especial conta, tanto mais que os santos nados no solo português não são em grande número. Até, comparados com os navegadores da nossa epopeia, formam uma minoria escassa, parecendo que o terreno nacional foi mais prolífico de heroísmo do que de santidade.
Seja como for, o certo é que S. Gualter merece a especial predilecção de Guimarães, a importante cidade industrial do Minho, que anualmente o comemora com tradicionais festas populares, a que desta vez imprimiu um excepcional brilhantismo, fazendo coincidir com elas uma imponente festa da cidade, promovida pela sua Associação Comercial. Compreenderam, por isso, as festas gualterianas deste ano feiras de gado cavalar e bovino, o arraial costumado, tourada, exercícios e retraite de bombeiros, tiro aos pombos, concerto pela banda da guarda municipal de Lisboa, vistosas iluminações, todo o grande aparato de uma verdadeira festa local, a que não faltou sequer a comparência de Sua Majestade El-Rei em um dos seus dias de mais intenso movimento.
Escusado será acentuar a intuitiva conveniência de que nas outras terras portuguesas em que têm sobrevivido as festas antiquadas do povo, o belo exemplo dado por Guimarães seja seguido.
Ilustração Portuguesa, n.º 81, de 9 de Setembro de 1907, pp. 342-344

1. A comissão de remonta medindo um cavalo

2. Jardim do Toural

3. Velho castelo

4. Grande Hotel do Toural

5. Largo D. Afonso Henriques

6. Um janelão original.

7. Capela onde se baptizou D. Afonso Henriques.

8. Claustro de Nossa Senhora da Oliveira

9. Uma barraca de refrescos

10. Manuel Casimiro e filho na ida para a corrida

11. Bancada de sombra (esquerda)

12. Bancada de sombra (direita)

13. Estátua de D. Afonso Henriques

14. Toural

15. Campo da Feira

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30 de julho de 2015

“Tinha pintas na cara como as cobras”

Camilo Castelo Brando representado por Rafael Bordalo Pinheiro no seu Álbum das Glórias

Camilo Castelo Branco teve uma relação próxima com Guimarães, especialmente desde o tempo em que andava fugido à justiça, por força da sua relação amorosa adulterina com Ana Plácido, e foi acolhido por Francisco Martins Sarmento no solar da sua família, em Briteiros. Quando se instalou em Seide, Guimarães passou a ser terra que visitava frequentemente, estando muito presente na sua obra, como já aqui temos visto recorrentemente. Para as gentes do berço da monarquia, a sua fisionomia algo singular e o seu rosto com picadas da varíola faziam-no mais conhecido do que as suas obras. Entre os vimaranenses, Camilo destacava-se pela extravagância da sua figura e pelo destempero das sua imprecações, como contava Alfredo Guimarães em 1911, no texto que aqui se reproduz.

Camilo, para a história da sua vida

Teria um livro raro de anedotas, acerca de Camilo, o escritor que se dispusesse a uma viagem de meses pelos arredores de S. Miguel de Seide (em Famalicão), correndo sobretudo as freguesias de Vermoim, Joane. Requião, Landim e Santa Marinha da Portela, a investigar, entre cavadores e morgados, do que foi a vida íntima desse grande impulsivo e genial improvisador, Camilo Castelo Branco — dando as falhas morais do homem de crítica implacável que escrevera, à mistura, tanta página de amorosidade, de imprecação e de juízo moral.
Dele se contam, por lá (à maneira do que, após a sua morte, se conta de tanto artista e homem público), monstruosidades sem numero; factos que são, positivamente, a contestação de tudo quanto sobre a sua generosidade se haja escrito. E factos tão duros, e todos tão singulares, que (de alguns que ouvi), me pareceu que um novo Camilo se encerrava naqueles episódios, — um Camilo que ninguém trazia a público e, portanto, uma estranha face da sua biografia que há-de dispersar-se no livro inédito e grande da memória dos seus vizinhos.
Tudo quanto se tem escrito sobre a extraordinária figura do romancista dos Brilhantes do Brasileiro, pretendendo ser o seu retrato, o considero dum interesse exclusivamente literário. Camilo, em Lisboa, nada dá — porque saiu daqui com uns anos ainda inúteis para o trabalho da escrita; na Samardã nada dá, porque passou ao número dos mortos o seu amigo Padre António de Azevedo — único homem que podia ter feito as memórias da sua meninice; e o Camilo estudante no Porto e em Coimbra (em períodos extremamente curtos), desse pouco valerá a pena pesquisar e guardar.
*
Da vida do grande romancista depois do caso da fuga com Ana Plácido e da prisão na cadeia do Porto — isto é: quando já homem — é que devíamos recolher, sobretudo, as memórias, os factos estranhos.
Desejo, agora, tratar de vários factos da vida sacudida desse homem singular, na cidade de Guimarães; mas antes deixem que lhes conte (a propósito dessa inteligente mulher que se precipitara no agitado mar da vida do autor das Memórias do cárcere), dois interessantes episódios, que eu garanto serem absolutamente verdadeiros:
Camilo estava em Coimbra com Ana Plácido em 1870, para procurar médicos, e hospedava-se no Hotel Mondego. Entrou ali, certo dia, a visitá-lo. um estudante de direito, rapaz beirão de longa cabeleira “à Barjona” e atitudes de esperteza, que veio a ser mais tarde o escritor Cândido de Figueiredo. Camilo recebeu-o na sala de visitas do hotel, falou-lhe do seu livro de versos Quadros Cambiantes (sobre que havia escrito), da demais literatura da época e perguntou-lhe, por fim:
— Quer, talvez... visitar a sr.ª D. Ana Plácido, que se encontra nesta casa ?...
— Com todo o prazer!
E os dois, mestre e discípulo, seguiram por um longo corredor escuro, até à porta do quarto. Camilo bateu.
— Quem é ?... disse uma voz forte e serena.
— Eu e uma nossa visita, Cândido de Figueiredo.
— Podem entrar.
Abriu-se a porta, Camilo deu passagem ao poeta janota dos Quadros, e os dois viram-se num momento encerrados no quarto. O que era a “jovem senhora” que se fizera raptar e vivia já então, em 1870, na companhia do homem que amorosamente a apartara dos bailes elegantes da cidade do Porto? Era aquela mulher que, ali em frente, se reclinava no leito — estatuada e alva! — cobrindo-se com um roupão de cassa, claro, e fumando, um grande prospero e óptimo charuto.
— Ninguém, certamente ninguém podia fumar mais à sua vontade. No gosto com que expelia o fumo do charuto, e o adiantava entre dois dedos, lia-se “comodidade”, “hábito”,
predilecção e, mesmo, “vício”.
E elucidou, ainda, o sr. dr. Cândido de Figueiredo:
Note, você, que o roupão que a cobria era levíssimo; tão leve que, através das largas flores que se desenhavam, quase se via toda a roupa branca, e o próprio corte da camisa, no seio. Era uma mulher robusta, bem formada, e com todas as indicações de que dez anos antes devia ter sido uma óptima mulher!
O outro episódio constou-mo uma linda e piedosa senhora da Portela de Requião; e, como o primeiro, está absolutamente autenticado, e é inédito.
D. Ana Plácido tinha adoecido. O seu estado não era grave, mas umas terríveis dores nevrálgicas apertavam-lhe dolorosamente a cabeça.
Camilo andava, numa dessas manhãs, a divertir-se no terreiro da casa de S. Miguel de Seide, com os pequenos Jorge e Nuno, guiando-lhes, a pé, uma parelha de autênticos e fogosos cavalos. De repente o Jorge grita:
— Ó pai, mete pela escada!
E Camilo (sem sequer reparar nas visitas que ali tinha para sua mulher), atirou um pontapé a uma ilharga de um dos cavalos, fê-los galgar um degrau, apertarem-se e caírem, precipitadamente, num barulho ensurdecedor que agitou toda a casa. Ao recordar-lhe, uma criada, que “a senhora” estava doente, Camilo sorriu e atirou para fora o chicote... todo impassível.
A senhora que me contou este episódio rematou com esta significativa frase:
— Tinha pintas na cara como as cobras!...
*
Também dos passeios semanais do romancista ao berço da monarquia se contam cenas muito interessantes.
Camilo, aos sábados de manhã cedo (porque era dia de feira), fazia-se certo em Guimarães. Rompia a cavalo pela rua dos Pombais — quase sempre com seu filho Jorge—; e, subindo as ruas de Gatos, S. Domingos e Toural (lado sul), ia instalar-se na antiga Hospedaria da Gaita, que ficava ao princípio da rua de Mata diabos.
De dia, o romancista passeava na feira, conversava em certas lojas, parava no botequim do Vago-Mestre e estudava, talvez, esses tipos cheios de observação da sua novela A viúva do enforcado. O Eusébio Macário devia ter tido ali, também, um grande estudo. E outro tanto a cena da Enjeitada, da criança exposta na roda de Guimarães, que ele por certo colheu de algum caso da travessa que faz face com o edifício da Câmara daquela cidade, chamada ainda hoje Travessa dos Enjeitados.
Camilo aparecia em Guimarães quase que nas circunstâncias de vestuário em que Rafael Bordalo o fixara para o seu magnifico Álbum das Glórias: longo casaco de camelão; uma tira de seda preta enlaçada na frente do colarinho; um alto chapéu de pasta, em chaminé, óculos, a face mosqueada das bexigas, calções ajustados de anta preta, botas “à Frederica” e um cassetete arroxeado ao pulso. Na partida envolvia-se, pela cara, numa capa dom-juanesca. Mas durante o dia mantinha, inalteravelmente, essa toilete mestiça: de morgado e boleeiro.
No botequim da terra, à noite, Camilo jogava imenso; e perdia quase sempre. Para ele — como, creio, para quase todos os jogadores — existiam cartas de azar, de perda certa. O “monte” era o seu fraco.
Cá fora, na sala do botequim, ao largo da Oliveira, o Jorge Botelho, já então com evidentes manifestações de loucura, fazia o espectáculo dos frequentadores. Era certo que, em aparecendo um polícia, o pequeno se metia debaixo de uma das mesas, tremendo e mostrando os olhos arrasados de choro, aflitivamente abertos. Alguns fregueses daquela ralé burguesa — que então, mais do que hoje, deviam ser de uma brutalidade a toda a prova — entretinham-se, pelas costas do Camilo, com a amargura e tortura nervosa da pobre criança. Uma das suas maiores agonias era ouvir bater, violentamente, as bolas de um bilhar. Jorge Botelho, sempre que sentia essa vibração dura e forte, levava aflitivamente as mãos aos ouvidos, estalavam-lhe as lágrimas nos olhos grandes, e, rompendo num choro angustioso, corria à procura do pai, para junto da mesa do “monte”.
Estas notas reais são, quanto a mim, de uma significação curiosa, porque creio justificarem, relativamente, todos os documentos médicos que até hoje se possuem acerca da ascendência e descendência desse escritor sobre todos os pontos de vista iminente.
Era assim que ele passava os sábados em Guimarães. Como aí digo, Camilo (infeliz no jogo), arruinava-se. Os seus débitos e desmandos de língua, na batota de Guimarães, eram extraordinários. E regressando tarde ao hotel — quando regressava!...— levantava-se poucas horas depois, montava a cavalo com o filho, traçava a capa e rompia, lá ao fim das mesmas ruas, pela estrada plana de Creixomil — a qual liga Guimarães com Famalicão.
*
Dou-lhes estas poucas palavras sobre a vida do homem inquieto e infeliz. E não querem elas significar, no seu todo desagradável a minha menos admiração pelo grande escritor — o qual eu, aliás, considero o maior de todos os prosadores portugueses.
Alfredo Guimarães


Serões. Revista mensal ilustrada, nº 72, Lisboa, Junho de 1911, pp. 56-58
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29 de julho de 2015

Ponham-lhe música.


Ao folhear o jornal A Oliveira, vimaranense, como o título deixa perceber, e de curta vida (apenas se publicaram 18 números, entre Abril e Julho de 1860), encontrei algumas pérolas. Entre elas, uns versos com mote e glosa que são um claro exemplo de quando o amor se transforma em ódio e a pena deixa de escrever com as tintas do coração, para se molhar no fígado em bílis. 
Dava uma canção. Um fado de coração partido. Ponham-lhe música.

MOTE
Saudades te persigam,
Mal de amores te maltrate,
Mau fogo de amor te queime,
Mal de ciúmes te mate.

GLOSA
Deus permita se fiares
Se te faça estopa o linho,
Nem te saia um pintainho
De quantos ovos deitares:
Das plantas, que semeares,
Só te nasçam as que espigam;
Maus vizinhos te maldigam,
E más pedradas te acertem,
Dores de calos te apertem,
Saudades te persigam.

Nada te fique no buxo,
Tudo contes a quem vires,
E quantas questões ouvires
Sejam de tolo machucho:
O sangue te chupe um Bruxo,
Mintas mais que um Alfaiate.
Toda a vasa se te empate,
O cuco em Maio te agoire,
Fome canina te estoire,
Mal de amores te maltrate

Cada dia de um sapato
Se te despregue um tacão,
Na mesa te mije o cão,
Na cama te suje o gato:
No fim de qualquer contrato
Sempre digas — Enganei-me, —
Só fales com quem ateime,
Só ateimes com quem jure,
Má língua de ti murmure,
Mau fogo de amor te queime.

No refrego do mantéu
Se te criem percevejos,
E aquele a quem deres beijos
Te cheire a José Bordéu*;
Oh nunca permita o Céu,
Que proves bom chocolate;
Dormindo se te desate
A sangria, a fonte, a chaga
Enfim por última praga
Mal de ciúmes te mate.
                                                Mnemósine.
 *Figura asquerosa e de insuportável cheiro
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28 de julho de 2015

Salvador Ribeiro de Sousa (o rei do Pegu) na literatura


O breve reinado de Salvador Ribeiro de Sousa no Pegu, os seus feitos militares e a sua lealdade transformaram-no num herói quase lendário, cuja história preencheu muitas páginas de escritores portugueses.

O primeiro autor a tratar desta figura foi escrito por Manuel de Abreu Mouzinho, em castelhano, com o título Breve discurso en que se cuenta la conquista del reyno de Pegu en la India de Oriente, hecha por los Portuguezes desde el año de mil y seiscientos hasta el de 603, siendo capitan Salvador Ribero de Soza, natural de Guimarães, a quien los naturales de Pegu elegieron por su Rey, publicada em Lisboa em 1617. A tradução em língua portuguesa, obra de autor desconhecido, aparecia no final da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, a partir da edição de 1711. Esta obra é a fonte de quase tudo o que se escreveu sobre Salvador Ribeiro de Sousa, havendo diversos argumentos que depõem a favor da sua credibilidade: o autor foi, durante quase uma década, Ouvidor das Apelações, em Goa, escreveu sobre acontecimentos que haviam sucedido poucos anos antes da publicação da obra e, muito provavelmente, conheceu Salvador Ribeiro.

Ainda no século XVII, Manuel de Faria e Sousa, no 3.º Volume da sua Ásia Portuguesa (publicado a título póstumo em 1675), dá uma perspectiva diferente da de Mouzinho, sustentando que o título de Rei de Pegu não foi dado a Salvador Ribeiro, mas sim a Nicote. No entanto, não temos razões para dar, nesta matéria, mais credibilidade a Faria e Sousa do que ao padre Mouzinho, uma vez que escreve muito mais tarde, invocando “informações de pessoas de crédito”, que não identifica.

António Diniz da Cruz e Silva, o Elpino Nonacriense da Arcádia de Lisboa, dedicou a Salvador Ribeiro uma das suas Odes Pindáricas, publicada pela primeira vez em 1801, dois anos após a sua morte.

Inácio Pizarro de M. Sarmento, na sua obra O Romanceiro Português, ou colecção dos romances de História Portuguesa”, editado em 1845, dedicou um romance ao Massinga.

António Francisco Barata, incluiu um poema dedicado a Salvador Ribeiro de Sousa, no seu Cancioneiro Português, publicado em 1866.

No capítulo XII no seu romance O senhor do Paço de Ninães, publicado pela primeira vez em 1867, Camilo Castelo Branco refere-se à figura de Salvador Ribeiro, pela qual não nutria grande simpatia. Numa nota de rodapé, afirma que “o maior obséquio que podemos fazer às cinzas de Salvador Ribeiro é não as remexer”, por o seu título de Massinga se fundar “na covardíssima degolação do rei daquele reino”.

Embora não se conheça qualquer descendência do nosso Massinga, o protagonista da peça de teatro O Rajah de Bounsuló, de Licínio F. C. de Carvalho, editada em livro em 1854, é filho de Salvador Ribeiro de Sousa. É ele Dom Vasco, aliás Dom Jaime, aliás, o rajá que dá título à obra.


Há ainda uma banda desenhada com as aventuras de Salvador Ribeiro de Sousa. Tem o título O Rei do Pegu e foi publicada em 1969 no n.º 21 da revista Pisca Pisca.
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27 de julho de 2015

A quem pertence o Terreiro das Carvalhas?


O Terreiro das Carvalhas, sem as carvalhas, no início do século XX.
O problema é recorrente: quando olhamos para a nossa Idade Média, quase sempre há um manto espesso e persistente que encobre o nosso olhar. São mais as dúvidas do que as certezas, porque nos faltam documentos que nos permitam dissipá-las. Assim acontece com os primeiros fundamentos do convento de S. Francisco de Guimarães. Diz a tradição, veiculada no princípio do século XVII pelo padre Torcato Peixoto de Azevedo, que este mosteiro teve duas fundações. A primeira teria acontecido no sítio de Vila Verde, em Urgezes, no “lugar a que agora chamam Fonte Santa”. A segunda fundação terá ocorrido na primeira metade do século XIII, dentro dos muros da vila, “pegado à Torre Velha em um hospital chamado do Anjo, situado na rua deste nome”. Mas ainda não seria aí a sua instalação definitiva. Quando, no final de trezentos, D. Dinis tratou de melhorar o sistema defensivo de Guimarães, ordenou que os mosteiros de S. Domingos e de S. Francisco, por estarem encostados à muralha, fossem demolidos e novamente erigidos em lugares onde não fizessem perigar a segurança do burgo, em caso de cerco. S. Francisco seria então transferido para o seu espaço definitivo, junto ao quarteirão de Couros. O edifício que ali hoje podemos ver quase não guarda memória da construção original, sendo o resultado de sucessivas reconstruções, ampliações e restauros. Os seus traços mais marcantes, de filiação gótica, datam do início do século XV. Do lado norte do convento, estende-se um espaço que lhe servia de adro, que tomou o nome das árvores que lhe davam sombra: o Terreiro das Carvalhas.

Terminada a Guerra Civil, com a vitória dos liberais sobre os absolutistas, foram extintas as ordens religiosas. O decreto de extinção, redigido por António Augusto de Aguiar e promulgado por D. Pedro IV em 29 de Maio de 1834, dissolveu todas as ordens religiosas e secularizou os seus bens, com excepção das alfaias e paramentos destinados ao culto, entregando-os à Fazenda Nacional. O processo de extinção adoptou procedimentos diferentes para os conventos masculinos e femininos. Enquanto os frades tiveram que abandonar imediatamente os conventos, às freiras foi permitido que continuarem a habitar nos seus recolhimentos, proibindo-se o ingresso de noviças, sendo o património das suas ordens entregue ao Estado após a morte da última freira.

Em 30 de Maio de 1834, a comissão administrativa dos conventos abandonados da vila e termo de Guimarães, entretanto criada, procedeu ao inventário dos bens pertencentes ao extinto convento de S. Francisco de Guimarães. Era formada por Francisco José Pereira dos Guimarães, presidente, João Ferreira de Eça e Leiva, secretário, e pelo padre guardião Frei Jerónimo de Santa Teresa de Jesus Braga, que para o efeito fora mandatado pela respectiva comunidade. No primeiro dia Julho daquele ano, a Fazenda Nacional tomaria posse do convento, da respectiva cerca e de todo restante património do antigo convento de S. Francisco.

Nos anos que se seguiriam, as instalações do antigo convento de S. Francisco teriam diferentes usos: foi casa de sessões da Sociedade Patriótica Vimaranense, tribunal e casa de audiências, aula de aritmética e geometria aplicadas à indústria, secretaria da administração do concelho, recebedoria do concelho, hospital militar, quartel do Regimento de Infantaria n.º 3, teatro, palco de circo de cavalinhos…

Em Maio de 1850, o Ministro da Fazenda, Marquês de Ávila e Bolama, apresentou na Câmara dos Deputados um projecto para entregar o convento à Venerável Ordem Terceira de S. Francisco (VOTSF), para ampliação do respectivo hospital e construção de um cemitério. O projecto seria aprovado. Porém, tendo-se-lhe oposto a Câmara de Guimarães, não seria convertido em lei. Em 1874 aquela pretensão seria retomada, quando o deputado do círculo de Guimarães, João Vasco Ferreira Leão, apresentou à Câmara dos Deputados um projecto de concessão à Ordem Terceira do edifício do extinto convento de S. Francisco com terreno, jardins, claustro, dormitórios e enfermaria. A Câmara de Guimarães voltaria a opor-se, desta vez sem resultado. No dia 22 de Julho de 1875, um ofício da Direcção Geral dos Próprios Nacional ordenava a entrega à VOTSF das instalações do Convento de S. Francisco que pertenciam ao património do Estado desde 1834.

Em tempos recentes, ao que me dizem, tem havido alguma controvérsia sobre a propriedade do Terreiro das Carvalhas. Haverá quem tenha certezas e quem tenha dúvidas. Mas não me parece que quem tem certezas esteja certo. A questão é de resposta simples, à luz dos documentos que, neste caso, são como o algodão do anúncio. Não enganam.

O inventário dos bens do convento de S. Francisco de que o Estado tomou posse em 1834 é inequívoco, no capítulo em que se procede à descrição do casco deste convento e cerca, ao indicar as confrontações da cerca (área circundante do convento):

A Cerca deste Convento que o abraça de lado a lado, cerca de paredes, que confronta a norte com a fachada do mesmo convento, pelo sul com o rio de Couros, pelo nascente com a viela de Soalhães, pelo poente com os pelames da rua de Couros, tem algumas árvores de fruta e laranjeiras.

Ou seja: a sul e a poente, o limite são os pelames da rua de Couros; a nascente, a viela de Soalhães (que levava até ao Campo da Feira, perto da igreja dos Santos Passo); a norte, “a fachada do mesmo convento”. E, se a norte o limite são as paredes do convento, não pode haver dúvidas: o Terreiro das Carvalhas ficava fora da cerca, que é o mesmo que dizer que não integrava os bens que o Estado incorporou no seu património em 1834, mais tarde concedidos à Ordem Terceira.

É certo que no mesmo inventário, no capítulo Descrição do Cartório, onde se arrolam os documentos de S. Francisco, há um item referente a dois pergaminhos cosidos um ao outro, por onde consta que desde o Mosteiro até ao caminho que vai ao longo do muro que compreende os terrenos das Carvalhas é todo deste Convento, datados de 1363. Não me posso pronunciar sobre a veracidade desses documentos, que não conheço, embora presuma que tenham sido produzidos no contexto dos embargos que a Colegiada levantou à instalação do convento de S. Francisco no local onde hoje se encontra, alegando que esses terrenos lhe pertenciam. Noto que, em 1391, D. João I teve que se pronunciar sobre queixas do Cabido contra os frades do Convento de S. Francisco, na tentativa, frustrada, de impedir que estes estendessem o adro e o rossio do seu convento por uma vinha que lhe pertenceria.

Situando-se o adro e o rossio de S. Francisco no Terreiro das Carvalhas, não é líquido que esse espaço integrasse o património da Ordem de S. Francisco em 1363. No entanto, não temos dificuldade em aceitar que, algum dia, o terreiro pode ter pertencido ao convento. Mas não nos restam dúvidas de que não integrava o conjunto dos bens de que o Estado tomou posse em 1834 e que, passados quarenta anos, transitaram para a Ordem Terceira. O Estado não podia dar o que não lhe pertencia.

O Terreiro das Carvalhas pertence, há muito, ao domínio público municipal. Naquele lugar, a Câmara sempre pôs e dispôs.

Aquele foi espaço assentamento de mercado: em 1844, foram para lá as regateiras de fruta e aves e as padeiras, em 1857, os oleiros com a louça da terra, em 1859 os vendedores de toda a louça, vidrada e por vidrar, mais tarde funcionou ali a feira do pão, que se mudaria em 1912 para o largo da Misericórdia - sempre por decisão da Câmara. Assim como foi a Câmara que, em 1880, mandou derrubar os velhos carvalhos que tinham dado o nome ao largo (na altura, apenas sobrou um, mas por pouco tempo) e que, em 1893, tomou decisão remover o cruzeiro para lugar que fosse indicado pelo Ordem Terceira (o que só aconteceria em 1900, quando o cruzeiro foi desmontado e reerguido junto da parede da igreja voltada a Norte).
Traçado (a ponteado) da proposta de Almeida Ribeiro para uma rua que ligava o Terreiro das Carvalhas ao Campo da Feira.
(Tocar na imagem para ampliar. Documento do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta)
Também fora por decisão da Câmara que, em 1846, se tinha mandado abrir um caminho mais desafogado entre o Terreiro das Carvalhas e o Campo da Feira, pela Viela de Soalhães. E quando, em Outubro 1863, o Eng. Almeida Ribeiro, professor de Arquitectura e de Engenharia Naval das Belas-Artes do Porto, foi contratado pela Câmara para levantar a planta da cidade e delinear projectos de melhoramentos, não teve nenhum condicionamento em relação ao Terreiro das Carvalhas. Na proposta que apresentou, estão traçadas duas novas ruas que implicavam uma intervenção profunda no terreiro, uma que dali partia em direcção à Senhora da Guia, outra que estabelecia ligação directa ao Campo da Feira, então inexistente.

O projecto da rua para o Campo da Feira seria retomado várias vezes até ao final do século XIX. A sua concretização implicava a utilização de 144 metros de terreno do terreno de S. Francisco. Em 29 de Outubro de 1890, a mesa da VOTSF deliberou que, por lhe constar que “a Câmara pensa abrir uma rua que partindo das carvalhas ponha em fácil e formosa comunicação a Praça de D. Afonso Henriques com o Campo da Feira, e desejando contribuir para este melhoramento, oferece gratuitamente à Câmara, na ocasião presente, o terreno necessário para o alargamento da referida rua”. Pela leitura dos jornais do princípio de Novembro, percebe-se que o desmantelamento da parte do Convento de S. Francisco por onde passaria a nova rua se iniciou logo em seguida.

No entanto, o processo iria arrastar-se. Na sessão da Câmara de 19 de Outubro de 1891, foram aprovados, por proposta do vereador Eduardo de Almeida (pai), o projecto e o orçamento para a abertura da rua que atravessaria o Terreiro das Carvalhas, fazendo a ligação entre o Campo de D. Afonso Henriques e o Campo da Feira, elaborados pelo Condutor de Obras Públicas António Martins Ferreira. A Câmara ficou autorizada tratar das expropriações de terrenos e a dar início às obras. Na sequência desta deliberação, O Comércio de Guimarães de 21 de Dezembro de 1891 noticia que a Câmara resolveu pagar à VOTSF cem mil réis pelo “terreno do edifício da extinto convento de S. Francisco, que a mesma ordem foi obrigada a deixar ao uso público, em consequência do alinhamento que lhe foi marcado pela Câmara, conforme o projecto da nova rua entre a praça de D. Afonso Henriques e o Campo da Feira”. Em sessão de 14 Fevereiro de 1900, a Câmara ainda aprovaria um orçamento no valor dezoito contos e quinhentos para a abrir a rua.

A obra nunca se faria, mas este processo ajuda-nos a perceber claramente que o Terreiro das Carvalhas pertence ao domínio público, que, aliás, naquela altura foi acrescentado com 144 metros retirados ao Convento e pagos pelo erário municipal.

Aliás, foi por aquele espaço pertencer ao domínio público municipal que a Câmara ali foi fazendo intervenções ao longo do tempo, com destaque para a requalificação profunda de 2011, em grande parte paga com fundos europeus que jamais poderiam ser mobilizados para obra promovida em propriedade alheia. Um projecto que teve como objectivo desafogar o terreiro, valorizando a percepção do conjunto monumental de S. Francisco. Propósito que tem sido colocado em crise, com a insistência em fazer regressar o Terreiro das Carvalhas à sua condição anterior de parque de estacionamento. Até quando?

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