28 de junho de 2014

A Grande Guerra vista de Guimarães (1): O Atentado de Serajevo

O atentado de Serajevo, segundo uma gravura da época.
 Há 100 anos, neste dia 28 de Novembro aconteceu em Serajevo o incidente que ser viria de pretexto para a guerra que, havia muito, os europeus sabiam que ia acontecer, sem saberem quando nem como. Gravilo Princip, estudante sérvio pertencente à organização Mão Negra, depois de um atentado à bomba falhado, acabaria por cumprir a missão de que incumbira, aproveitando uma oportunidade que o acaso lhe entregou: abateu a tiro o herdeiro do Império Áustro-Húngaro, Francisco Fernando, e a sua esposa, a duquesa Sofia. Nos dias que se seguiram até ao final do mês de Julho, accionaram-se na Europa os mecanismos das alianças militares e começou a guerra que muitos previram que fosse curta, mas que seria longa de quatro anos e a mais sangrenta de todas as guerras até aí acontecidas desde que o Mundo é Mundo.
Arquiduque Francisco Fernando (1889-1914)
O atentado de Serajevo teve pouca repercussão na imprensa portuguesa. Por esses dias, no extremo ocidental da Europa as páginas dos jornais enchiam-se com inflamadas discussões de política interna, marcada pelas quezílias entre republicanos e monárquicos e entre diferentes facções dos republicanos. Assim acontecia em Guimarães. A notícia da morte de Francisco Fernando apenas aparece quinze dias depois, no “jornal independente” Castelo de Guimarães. Aqui fica:

O arquiduque assassinado

 O arquiduque Francisco Fernando, tão tragicamente assassinado, contava 51 anos de idade.
Era filho do arquiduque Carlos Luís, já falecido, irmão do imperador, e da arquiduquesa Maria da Anunciada, princesa da casa das Duas Sicílias.
Quando tinha nove anos, morreu a sua mãe e por esta razão foi educado, bem como seus irmãos, pela terceira esposa de seu pai, a princesa Maria Teresa de Portugal.
Ao terminar os seus estudos ingressou no exército e percorrei todos os graus até chegar a generalíssimo, posto que lhe concedeu ultimamente o imperador.
Por educação e por temperamento era um carácter essencialmente militar e contava muitos e entusiastas partidários entre os seus subordinados.
Precisamente o arquiduque se encontrava em Serajevo para dirigir as grandes manobras que se deviam fazer naquela região.

Prisão de Gravilo Princip (1894-1918), após o atentado
Quando jovem, fez uma excursão à Índia para caçar tigres, voltando de tal modo doente que se viu na necessidade de viajar pelo litoral do Adriático, fazendo estânicas no Cairo, Argélia e Córsega, recobrando a saúde.
Estava casado com a condessa Sophia de Choteck, filha do embaixador da Áustria em S. Petesburgo.
A família imperial opôs-se a este casamento, pela desigualdade do enlace, que afinal se realizou com a protecção do imperador, concedendo à condessa o título de duquesa de Hohemberg.
A condessa de Choteck era natural de Stuttgart, capital do estado de Wurtemberg, na Alemanha, e contava 46 anos de idade.
Ficam do infortunado matrimónio uma filha e dois filhos.
Francisco Fernando era um homem activo, inteligente e enérgico.
A energia, aliada à bondade de sentimentos e à afabilidade no trato, era a sua qualidade mais saliente.
Anelava a prosperidade da sua pátria e era o auxiliar mais eficaz do imperador, que lhe confiava o estudo dos mais árduos negócios do Estado.

O novo herdeiro

Herda os direitos ao trono o sobrinho do arquiduque Francisco Fernando, o arquiduque Carlos Francisco José, de 27 anos. É filho do falecido arquiduque Otto.
Há três anos que casou com a princesa Zita de Bourbon de Parma, de quem tem uma filha.
O imperador tem por ele uma especial predilecção.
Tem um irmão de 19 anos, o arquiduque Maximiliano Eugénio Luís.

Castelo de Guimarães, 12 de Julho de 1914
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25 de junho de 2014

24 de junho de 2014

Coração, coração


Leio no site da Câmara Municipal de Guimarães:
O Município de Guimarães apresentou, esta quinta-feira, 12 de junho, a sua nova imagem institucional inspirada na identidade da Capital Europeia da Cultura, adotando a sua simbologia e capitalizando o legado emocional desenvolvido ao longo do evento, numa criação tipográfica que concentra num coração o amor que os vimaranenses têm pela sua história, com referências gráficas às ameias do Castelo e ao Elmo de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal.
A utilização do símbolo, que entrará em vigor aquando da comunicação de iniciativas relacionadas com as comemorações solenes do “24 de junho – Dia Um de Portugal”, assinala o início de um outro ciclo, «sem romper com o passado, para que a apropriação ocorra naturalmente e sem atrito», refere João Campos, autor do logótipo da Capital Europeia da Cultura e responsável pelo “restyling” da imagem corporativa da marca.

Concordo com o que, sobre este assunto, já escreveu Francisco Brito, num texto que tem um título que se ajusta na perfeição ao efeito do objecto de que trata: Vulgarizar. Acrescentarei mais alguns argumentos.
Logótipos da CEC2012, em cima, e da "marca Guimarães", 2014
O logótipo que passará a representar a “imagem corporativa” da “marca Guimarães” não é mais do que uma reprodução exacta, em negativo, do símbolo da Capital Europeia da Cultura. A argumentação teórica que o sustenta replica também a que foi utilizada aquando da apresentação da imagem da CEC2012, no dia 28 de Julho de 2010, desenvolvida no documento Uma identidade para a diversidade. Na altura, a imagem foi recebida com estranheza e desencanto de quem olha para coisa banal. Na altura, a blosgofera vimaranense, que era bem mais activa do que nos dias de hoje, espelhou essa reacção. Aqui fica um exemplo, do blogue Colina Sagrada. No entanto, a partir do momento em que a cidade voltou a ser ganha para a CEC (melhor dizendo, a partir do momento em que a cidade ganhou e assumiu a CEC como sua), o logótipo cumpriu o seu propósito de ser parte no envolvimento a comunidade. A esse nível, teve pleno sucesso.
Tal sucesso não fez desaparecer as suas fragilidades. A começar pela questão da banalidade: se há imagem repetida até à exaustão na construção de símbolos, em geral, e de logótipos de cidades e de regiões, é o coração. O coração (que é aquilo que se vê quando se olha para o logótipo que agora a CMG adoptou para “marca de Guimarães”), de tão utilizado em logótipos e produtos de merchandising já não cumpre, porque não pode cumprir, a função de identificar e de individualizar aquilo que é único, como todos sentimos que Guimarães é.
O vídeo que vai abaixo, feito a partir de um pesquisa que esteve longe de ser exaustiva, parece-me que demonstra perfeitamente até que ponto o coração é um símbolo banal na identidade gráfica de cidades e regiões:
O logótipo é o elemento primordial de qualquer imagem de uma entidade. Devendo ser simples e de leitura imediata, tem que ser mais do que uma mera representação gráfica, tem que ascender à dimensão de metáfora visual identitária do objecto a que se refere. O que pode servir para marca de um evento, por muito grande que seja a sua dimensão, não serve necessariamente para uma cidade. O que representa o efémero dificilmente representará o eterno.
Um símbolo que pretenda representar uma cidade como Guimarães deve agregar um conjunto complexo de referenciais simbólicos, materiais e intangíveis, tornando-os facilmente compreensíveis e imediatamente apreensíveis. Ora, quem lê ou escuta a justificação teórica do caminho a que o autor percorreu até ao desenho final que apresentou em 2010 e que reapresentou em 2014, é capaz de chegar à conclusão de que esses referenciais simbólicos estão lá. No entanto, essa não é a ideia com que fica quem olha o desenho sem que lhe seja explicado. Esse, o que vê não é Guimarães, mas apenas um trivial coração estilizado.
E eu, por mais que olhe para o símbolo, não consigo encontrar nele as “referências gráficas às ameias do Castelo e ao elmo de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal” que me dizem que lá estão. E os esboços que acompanham aumentam a minha dificuldade de percepção. Ora vejamos.

Estes são os desenhos que, segundo o autor, demonstram que o elmo e a muralha são elementos que se conjugam no desenho do logótipo:

O elmo, a muralha e a junção de elementos de ambos na construção da imagem do logótipo.
Dando de barato que tal construção nos parece como muito forçada, temos fortes dúvidas de que o que lá está seja o elmo que identificamos em Afonso Henriques, que foi criado por Soares dos Reis, ou as ameias do Castelo de Guimarães, como facilmente se demonstra.
O desenho do elmo que terá sido usado para o logótipo:


 O elmo de Afonso Henriques, segundo Soares dos Reis:


[Fotografia de Eduardo Brito]

Quanto à representação das ameias, as diferenças são também manifestas:

Os merlões das ameias do castelo de Guimarães, representadas em cima (desenho nosso, a partir de fotografia), são pontiagudos, ao contrário dos do desenho que terá sido integrado no logótipo, que são aplanados na parte superior.
Ou seja, se o logótipo que foi da CEC 2012 e que se pretende que passe a ser a “marca Guimarães” foi construído a partir de um elmo e de uma muralha, nem o elmo é de Afonso Henriques, nem a muralha é de Guimarães.
(E há, neste símbolo, um mistério persistente que me intriga desde a primeira hora: o que significa o L que me salta aos olhos quando o vejo? Quem o vê presume que o L seja uma inicial referente ao objecto representado mas não consegue decifrá-lo.) 
Em aqui chegando, percebe-se porque é que há por aí tanta gente a torcer o nariz ao “novo” logótipo oficial, a partir de agora usada pela CMG para comunicar a “Marca Guimarães". Porque não é novo, porque comunica mal, porque não representa Guimarães, porque, além do mais, Guimarães não pode ficar parada no tempo em 2012.
E depois, como diria o outro, qual é a pressa? Qual é a pressa em começar a cortar com um símbolo bem esgalhado que, na sua simplicidade, integra o complexo das referências simbólicas que tem que integrar, que comunica com o público e que, por tudo isso, foi premiado?


Há uma certa ironia na escolha do dia de hoje para assinalar “o início de um outro ciclo”, introduzindo a nova identidade do Município, precisamente no dia em que se homenageia António Magalhães, o primeiro responsável pela profunda mudança por que passou Guimarães ao longo das últimas duas décadas, que transformaram Guimarães numa referência nacional e internacional do património e da cultura. As representações simbólicas nem sempre são voluntárias, mas eu olho para o elmo do desenho e vejo lá uma tesoura, objecto que, no passado, foi uma das imagens de marca de Guimarães. E, como todos sabemos, a primeira vez que a tesoura entrou na vida de cada um de nós foi para cortar o cordão umbilical.



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A Batalha de S. Mamede, contada por Santos Simões

A Primeira Tarde Portuguesa, pintura de Acácio Lino (Lisboa, Assembleia da República)

O 24 de Junho de 2004 é um dia que me ficou gravado na memória a tintas muito vivas. Era feriado em Guimarães. Nos varandins graníticos da Sociedade Martins Sarmento, as bandeiras erguiam-se a meia haste, em homenagem a Santos Simões, que tinha falecido na véspera. As portas estavam abertas para os que ali vinham visitar o Presidente pela última vez. Entre eles, Emídio Guerreiro que, um dia, encarregara Santos Simões de executar as suas últimas vontades (por essa altura, ele, que era quase um quarto de século mais novo do Emídio Guerreiro, confidenciara-nos, divertido: “Tenho ali no cofre um documento com as disposições do Emídio Guerreiro para o seu funeral, mas mal ele sabe que, quando eu for, ele ainda cá fica…”). Nesse dia, participei, pela primeira vez, na sessão solene do 24 de Junho em representação da SMS, acompanhando o vice-presidente António Ribeiro. Aqueles também eram dias de futebol. Decorria o Campeonato da Europa e, naquele 24 de Junho, Portugal teve uma vitória importante, apurando-se para as meias-finais. À noite, a festa invadiu a cidade, mas não amainou a tristeza que nos preenchia. 

Dois anos antes, nas vésperas de um outro 24 de Junho, Santos Simões havia escrito um texto em que recriava a Batalha de S. Mamede. Aqui fica.


24 DE JUNHO
Tarde de sol
manhã de orvalho

Por J. Santos Simões

A manhã rompeu baça, envolta naquele manto fino gemente de uma orvalhada tão própria da época. Ainda não eram seis horas e já se ouvia o tumultuar de cascos de cavalos sobre o lajedo à volta da Torre de Menagem. No salão nobre dos baixos da Torre, o Infante aguardava a chegada dos barões de Entre Douro e Minho aprazados de véspera para ali estarem cedo.
Urgia a tomada de decisões em vista das notícias recebidas de véspera: apoiantes de D. Teresa e de Fernão Peres estavam concentrados na Póvoa de Lanhoso e desde a manhã do dia anterior estavam em movimento na direcção de S. Torcato.
O Infante e seus apoiantes sabiam que os seus inimigos se movimentavam desde o princípio de Abril, rumando, os de sul do Douro, pelo interior (Celorico, Trancoso, Lamego e, transposto o Douro, por terras de Basto até à Póvoa de Lanhoso) para fugir ao Porto, que estava ao lado do Infante, e as forças vindas da Galiza, que evitaram passar por Braga (apoiante de Afonso Henriques), vindo por Ponte do Lima ou Ponte da Barca, passando pelas pontes romanas de Caldelas (rio Homem) e de Amares (rio Cávado) para chegarem sem obstáculo à Póvoa de Lanhoso cujo alcaide era favorável a D. Teresa.
Foi decidido mandar vinte cavaleiros na direcção de S. Torcato onde se sabia da “concentração das forças adversas – possivelmente no seu acampamento na zona do convento”.
No mesmo salão nobre, foi rezada a missa de S. João, pois era o dia do Santo.
Pouco depois de concluída, chegam os cavaleiros que comunicam ao Infante e aos barões que tiveram um recontro com a guarda avançada das tropas de Fernão Peres, quase no extremo norte das terras de Gildes, e que marchavam na direcção  do Castelo de Guimarães.
“D. Afonso Henriques dispunha de uma força militar considerável. (...) A grande maioria dos fidalgos portugueses, a poderosa família dos Mendes da Maia e a de Egas Moniz, muitos cavaleiros e infanções e homens de armas, o povo das vilas e as guarnições de numerosos castelos, a começar pelo do Neiva e o de Faria (...). Mas entre os meios à disposição de D. Afonso Henriques, figurava com grande realce, Guimarães”.
O inimigo é constituído por gente estranha e indigna, di-lo a Crónica dos Godos. Obedece a ordens de um estrangeiro, o Conde Fernão Peres de Trava, sobre o qual paira a suspeita de não servir lealmente a causa da independência do Condado que era o grande objectivo político de D. Teresa e que nessa altura já é uma causa quase nacional.
As suas forças são compostas por portugueses, mais acomodatícios ou menos independentes, ligados D. Teresa e a D. Fernão e por fidalgos galegos ou leoneses que prosseguem também políticas próprias: daqui uma coesão fraca.
Luís da Câmara Pina refere: “Embora sem base de cálculo aceitável, a hoste (de D. Fernão) não disporia, de mais de meia centena de cavalos de batalha e dos animais de tiro, carriagem e peonagem correspondentes – o que daria, para pessoal, cerca de 300 homens.
Não seria a meu ver, um exército combatente – a hoste de D. Fernão apareceria, de preferência, como representação do poder legítimo, formal e legal.”
A meio da manhã, a capa de orvalho vai-se diluindo, e o Sol, a todo o instante, dissolverá o que resta, e o exército do Infante está no sopé do monte e avança pelos campos que conduzem a Gilde. São 600 homens impacientes à espera do sinal do confronto com o inimigo. D. Afonso, em certa altura, dará o sinal para o arranque, para o avanço sobre o adversário, e é fácil recriar pela imaginação o estrépito dos cavalos, o tinir das armas, as nuvens de flechas, a vozearia daquelas centenas de homens avançando como um turbilhão pelo campo adiante.
O exército de D. Fernão, desmotivado e em menor número, não sustem a avalanche e foge em debandada.
D. Afonso não os persegue e pelos campos ressoa um hurra! de vitória.
Enquanto a peonagem de D. Afonso se encarrega de socorrer os feridos e enterrar os mortos, o grosso das tropas regressa a Guimarães.
À sombra segura do Castelo, combatentes e povo das duas vilas de Guimarães gozam a primeira tarde portuguesa comendo, bebendo e dançando.
Só ao fim da tarde o Infante reuniu com os barões companheiros de luta para começar a pensar o futuro, agora que as fronteiras do Condado estão sob um comando único até Coimbra.
E depois vieram as decisões.
E decidiram bem.

Se a história esta história não é verdadeira, é, pelo menos, verosímil, o que nem sempre acontece…

Nota: Em geral, as investigações sobre a Batalha de S. Mamede são dominadas pelas investigações dos historiadores e são raros os que investigam a batalha no seu aspecto militar, isto é, das condicionantes do enfrentamento tanto do ponto de vista da composição e peso do efectivos como do terreno onde se podia ter propiciado a batalha. E a partir da documentação histórica de que há fracas informações coevas, da indicação de que o enfrentamento teve lugar próximo do Castelo, foi possível encontrar argumentação não contraditória com os documentos e racionalmente aceitável. A título de alerta, esclareçamos que o entendimento de “lugar próximo de outro” tem variado substancialmente ao longo dos tempos. No século XV a Índia, por exemplo, estava a muitos meses de viagem por terra ou por mar e, hoje, está a horas de distância.
O propre (proximidade) do Castelo naquela época, não podia significar senão um lugar, no máximo, a meia hora a cavalo.

Bibliografia:
850.º Aniversário da Batalha de S. Mamede:  Estudo Militar da Batalha de S. Mamede, de Luís da Câmara Pina;
A Primeira Tarde Portuguesa, de José Matoso
Como nasceu Portugal, de Damião Peres


16 de Junho de 2002
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23 de junho de 2014

A morte, por Santos Simões




A MORTE


A flor não é flor
eternamente
mas não sabe
o cordeiro muge ao nascer
não muge sempre
Só a pedra é eterna.
Deste por ti a viver
não te quiseste
ao nascer.
Vive então feliz
se puderes
sem temores,
sempre de pé.



           Guimarães, 01.06.01
                                                       J. Santos Simões




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No dia em que Santos Simões faltou a uma reunião, nós soubemos

J. Santos Simões (pormenor de fotografia de Armindo Cachada)
No dia 22 de Junho de 2004, Santos Simões faltou, pela primeira vez, a uma reunião da direcção da Sociedade Martins Sarmento, a que presidia desde 1990. Nunca mais regressaria, mas nunca mais deixou de estar presente naquela velha casa de cultura de Guimarães. No dia 24, o jornal Público publicaria uma nota cronológica escrita pelo jornalista vimaranense Victor Ferreira, que aqui se recorda-

Faleceu Joaquim Santos Simões

Joaquim Santos Simões, presidente da Sociedade Martins Sarmento, uma das mais importantes instituições culturais de Guimarães, faleceu ontem, ao início da tarde, no Hospital de S. José, em Fafe, após ter sofrido uma paragem cardio-respiratória. A morte de Santos Simões deixou Guimarães de luto, a cidade que, desde 1957, o acolheu e à sua família, depois de ter saído de Coimbra.
Joaquim António dos Santos Simões nasceu a 12 de Agosto de 1923 na vila de Espinhal, concelho de Penela, distrito de Coimbra. Entre 1944 e 1947, já como aluno da Universidade de Coimbra (UC), participou nas movimentações reivindicativas dos estudantes, dedicando-se ainda ao Teatro de Estudantes da UC, onde foi director, encenador e actor. No ano lectivo de 1950/51 acaba por ser eleito presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC) e conclui as suas licenciaturas em Ciências Matemáticas e Engenharia Geográfica. Já então se destacava por aquilo que alguns dos seus colaboradores mais próximos designam como um "profundo sentimento de justiça e intervenção social". Depois de leccionar no ensino particular, em 1957 transita para Guimarães onde se torna professor do ensino público na então Escola Industrial e Comercial de Guimarães.
É nesta cidade que Santos Simões começa a intensificar o seu trabalho ligado à cultura, vindo a iniciar, em 1963, uma actividade política organizada, militando na oposição democrática do distrito de Braga. Paralelamente, notabiliza-se como um dos fundadores do Cineclube de Guimarães e do Teatro de Ensaio Raúl Brandão, ligado ao Círculo de Arte e Recreio, três instituições onde ocupou cargos e desempenhou um papel importante até ontem, dia da sua morte.
Em 1968 foi preso pela PIDE, vindo a ser expulso do ensino devido à sua militância contra o Estado Novo. Um ano mais tarde, participa no II Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro e é candidato da CDE por Braga, na campanha "eleitoral" para a Assembleia Nacional.
No pós-25 de Abril, é reintegrado no ensino oficial, regressando à (ainda) Escola Industrial e Comercial de Guimarães. Na mesma altura, participa activamente na criação do Partido Movimento Democrático Português (MDP/CDE), integrando os órgãos directivos nacionais e sendo um dos responsáveis pelo partido no distrito de Braga e em Guimarães. Chega a ser indicado pelo MDP/CDE para os cargos de governador civil e de Ministro de Educação, mas foi rejeitado por António Spínola "por ser comunista", segundo descrevem as notas biográficas sobre a sua vida que o próprio deixou escritas. Participou na criação de novas associações culturais em Guimarães, como a cooperativa editorial O Povo de Guimarães, a Cercigui, e em 1990 é eleito presidente da direcção da Sociedade Martins. Anteontem, Santos Simões faltou pela primeira vez a uma reunião de direcção, consequência do seu estado de saúde fragilizado decorrente da doença renal que o afectou nos últimos quatro anos. Curiosamente, foi neste período que Santos Simões teve ainda força para concretizar alguns dos projectos mais importantes da Sociedade Martins Sarmento, como a construção do Museu de Cultura Castreja, inaugurado em Guimarães o ano passado, ou a criação da Casa de Sarmento, uma unidade cultural dedicada aos estudos históricos.
Para Amaro das Neves, docente da Universidade do Minho - cuja comissão instaladora Santos Simões integrou em 1975 - e seu companheiro de trabalho na Sociedade Martins Sarmento durante os últimos 15 anos, o desaparecimento desta figura é uma "perda irreparável para a democracia portuguesa e para a cultura de Guimarães e do país". A sua morte foi igualmente lamentada pela Câmara de Guimarães, que ontem à tarde divulgou um comunicado.

O corpo de Santos Simões está em câmara ardente nos Passos Perdidos da sede da Sociedade Martins Sarmento, de onde amanhã, pelas 9h00, partirá o cortejo fúnebre rumo ao cemitério do Prado Repouso, no Porto, onde o seu corpo será cremado, conforme era sua vontade.
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8 de junho de 2014

O Tratado de Guimarães



Recorte de O Comércio de Guimarães do dia 12 de Maio de 1978

Em 1978, em pleno período de transição da ditadura para a democracia em Espanha em Espanha, de que seria protagonista, o casal real de Espanha esteve em Portugal em visita de Estado, durante a qual foi ratificado, no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães, o Tratado de Amizade e Cooperação luso-espanhol que substituiu o  Pacto Ibérico (Tratado de Amizade e Não-Agressão), assinado em 1939 pelas duas ditaduras da Península Ibérica. O Tratado de Guimarães foi subscrito pelo rei de Espanha e pelo Presidente da República Portuguesa, Ramalho Eanes.

Juan Carlos e Sofia estiveram em Guimarães nos dias 4 e 5 de Maio de 1978, tendo tido uma recepção apoteótica. São dessa visita as mais antigas fotografias de Guimarães que encontrámos no impressionante arquivo fotográfico da agência Lusa, recentemente disponibilizado.

[Atente-se na legenda das duas primeiras fotografias: "A rainha espanhola, Sofia, durante uma vista a uma instituição beneficente espanhola, em Guimarães, em de Maio de 1978". Instituição espanhola?]

Spanish Queen, Sophia, during a visit into a spanish benefaction institution, in Guimaraes on 4th May 1978 MANUEL MOURA / LUSA PRT GUIMARAES LUSA © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Spanish Queen, Sophia, during a visit into a spanish benefaction institution, in Guimaraes on 4th May 1978 MANUEL MOURA / LUSA PRT GUIMARAES LUSA © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
Spanish King Juan Carlos de Borbon and portuguese President Antonio Ramalho Eanes in Guimaraes during a visit into Portugal, on 5th May 1978 ALFREDO CUNHA / LUSA PRT GUIMARAES LUSA © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Spanish King Juan Carlos de Borbon  in Guimaraes during a visit into Portugal, on 5th May 1978 ALFREDO CUNHA / LUSA PRT GUIMARAES LUSA © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

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