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A mostrar mensagens de Julho, 2010

Do Acordo Ortográfico

A progressiva entrada em vigor do acordo ortográfico de 1990 está a gerar alguma estranheza e não poucas reacções negativas, fazendo recordar a polémica que acompanhou a primeira reforma ortográfica, por obra da Primeira República (1911). Por essa altura, não faltou quem manifestasse o seu desacordo, como Fernando Pessoa, que escreveu no seu livro do Desassossego de Bernardo Soares "odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse".

Para avaliar os efeitos que o acordo ortográfico que vai entrando em vigor, fiz um pequeno ensaio com o seguinte trecho, escolhido ao acaso, da edição de 1845, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, de Torcato Peixoto de Azevedo, pp. 305-306):

Dia de Natal de 1867: a primeira corrida de touros em Guimarães

O Toural,  praça cujo nome vem das corridas de touros que ali costumavam ter lugar em dias festivos.
Desde que há memória, havia a tradição de se correrem touros em Guimarães, nas ocasiões festivas. A partir da década de 1830, essas corridas caíram em desuso. Porém, no dia de Natal de 1867, os vimaranenses foram atraídos à praça, onde iriam assistir a um espectáculo taurino, inédito para muitos. O jornal Religião e Pátria deu a notícia:

Touros. — Foi quarta-feira a primeira corrida de touros. A praça estava apinhada de gente, curiosa de um espectáculo novo para a maior parte. Afinal o espectáculo foi de riso. Os bois eram mais mansos que ovelhas, e mais timoratos que pombinhas. De quatro bravíssimos arrastados por cordas para o meio da praça, nem um se prestou a uma sorte, mas todos embirravam entrar de novo no curro, donde tinham sido arrastados. Os espectadores riram da caçoada, o apuparam os caçoantes. Agora anunciam-nos corridas em forma, com bois da Borda de Água que de propósito …

De novo o Toural

O Toural, numa fotomontagem da década de 1940. Ao fundo, o edifício dos Paços do Concelho, projectado pelo Arq.º Marques da Silva, que começou a ser construído noutro local (Mumadona). Foto publicada no livro "Em Granito", edição da Fundação Marques da Silva com o apoio da Sociedade Martins Sarmento.
© Foto Beleza

E eis senão quando, num tempo em que já o julgávamos consensual e definitivamente enterrado, o mal-afortunado parque de estacionamento do Toural voltou a ser tema de conversa, como se fosse uma necessidade imperiosa para o conforto das gentes e a sobrevivência do comércio de Guimarães.
Dizem que faltam parques de estacionamento no centro da cidade. Ora, o que mais há por aí são parques. No centro da cidade e às moscas, por falta de utilizadores. E note-se que um deles (o da Mumadona) está tão encostado ao Centro Histórico como estaria um parque no Toural.

Diz-se que quase metade dos vimaranenses terá respondido a uma sondagem afirmando que queria o parque subterrâneo n…

Sobre a data de nascimento de Afonso Henriques

Acaba de sair, na revista Medievalista online, publicação digital da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, dirigida por José Mattoso, um estudo de Abel Estefânio, com o título "A data de nascimento de Afonso I," em que procede à releitura das fontes mais antigas que referem, directa ou indirectamente, o nascimento de Afonso Henriques, com o objectivo de "demonstrar que a Vita Theotonii, sendo a fonte primordial, contém já em si os vestígios do «pecado original» donde procede a confusão acerca da data de nascimento do nosso primeiro rei, que perdurou até aos nossos dias".
O nascimento de Afonso Henriques é uma das zonas escuras do conhecimento histórico do tempo da Fundação. Não tem faltado por aí quem vá afirmando certezas que os documentos medievais não autorizam.
Em relação a essa matéria, José Mattoso já afirmou, contrariando algumas leituras que foram feitas da sua biografia de Afonso I, que não considera encerrado o problema da data e local do primeiro rei de Por…

Canícula

Temperaturas máximas registas em Guimarães (1896-1905), em graus centígrados. Fonte dos dados: João de Meira, O Concelho de Guimarães,  Porto, 1907, pág. 12-13 [Clicar no gráfico para ampliar]

Sufoca-se. O granito dos muros e do chão funciona como um imenso acumulador de calor. Efeito das mudanças climáticas. Este é o ano mais quente desde há cento e tantos anos. É o efeito de estufa. É o buraco do ozono.

Não há memória de tempo assim.

Será que não?

A nossa memória meteorológica é muito curta. Por aqui, o tempo assim, não sendo a regra, não é novidade, mesmo para a dimensão temporal da vida de qualquer um de nós. Já todos vivemos dias tão quentes como estes. E sempre foi assim: em meados do século XIX o calor chegava a ser de tal modo intenso que matava, como se pode ler neste apontamento das Efemérides de João Lopes de Faria, em que transcreve um registo do diário do cónego Pereira Leite referente ao dia 3 de Setembro de 1847:

"Enterraram-se nesta vila 3 crianças, sendo imenso o núme…

A Cidade Imaginária

Max Ernst, La ville Entière, óleo sobre tela, 1935/36
"(…)
A cidade imaginária é uma cidade de cultura. Onde a cultura não é parente pobre que só se senta à mesa em dias especiais, mas um parceiro leal, credível, de todos os dias. A cultura permite-nos ver para além de nós e da nossa pequenina circunstância. Olhamos de outro ponto, para dentro e para fora. Ganhamos dimensão, desejo, escala, superamo-nos. Pela cultura garantimos generosidade, única arma contra a mesquinhez, falta de visão e de ambição.
A cidade imaginária é a que tira partido das raízes, da memória genética, que a desenvolve, que inova, que refaz os desígnios e alicia os protagonistas para a sua partilha.
A cidade imaginária repudia a indiferença e a resignação, não se importa de correr riscos, de perturbar, de acrescentar, de ousar, de marcar presença.

A cidade imaginária é aquela em que "os vivos pedem para depois de mortos um destino diferente do que lhes calhou" (Italo Calvino, outra vez). Mas para isso t…