6 de julho de 2010

Canícula


Temperaturas máximas registas em Guimarães (1896-1905), em graus centígrados. Fonte dos dados: João de Meira, O Concelho de Guimarães,  Porto, 1907, pág. 12-13
[Clicar no gráfico para ampliar]


Sufoca-se. O granito dos muros e do chão funciona como um imenso acumulador de calor. Efeito das mudanças climáticas. Este é o ano mais quente desde há cento e tantos anos. É o efeito de estufa. É o buraco do ozono.

 
Não há memória de tempo assim.

 
Será que não?

 
A nossa memória meteorológica é muito curta. Por aqui, o tempo assim, não sendo a regra, não é novidade, mesmo para a dimensão temporal da vida de qualquer um de nós. Já todos vivemos dias tão quentes como estes. E sempre foi assim: em meados do século XIX o calor chegava a ser de tal modo intenso que matava, como se pode ler neste apontamento das Efemérides de João Lopes de Faria, em que transcreve um registo do diário do cónego Pereira Leite referente ao dia 3 de Setembro de 1847:

 
"Enterraram-se nesta vila 3 crianças, sendo imenso o número das mesmas que tinham sido vítimas das moléstias da quadra, bexigas e diarreia, atribuindo-se ao muito e continuado calor que tinha havido neste Verão. Pessoas adultas tinham morrido algumas, mas não foram muitas, mas crianças não havia um só dia que não morressem muitas."

 
A inconstância do tempo dará lugar, três anos depois, a um fenómeno absolutamente inusitado, a crer nos mesmos apontamentos: no dia 24 de Agosto de 1850 "caiu neve em Guimarães e nos dias seguintes houve calor". Mesmo admitindo que a neve não fosse neve, mas sim granizo, não deixa de ser um acontecimento surpreendente.

 
Do passado não temos muitos registos de temperatura. A série mais antiga que conhecemos foi-nos dada por João de Meira, na sua tese "O Concelho de Guimarães", cobrindo o decénio que vai de 1896 a 1905. Ao longo desse período, em Guimarães todos os anos se registaram temperaturas máximas acima de 35 graus (ver gráfico). A temperatura mais alta registada nesse período ocorreu no dia 3 de Julho de 1897, em que os termómetros atingiram 40,5 graus centígrados. E não havia ar condicionado…
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