17 de julho de 2010

Do Acordo Ortográfico



A progressiva entrada em vigor do acordo ortográfico de 1990 está a gerar alguma estranheza e não poucas reacções negativas, fazendo recordar a polémica que acompanhou a primeira reforma ortográfica, por obra da Primeira República (1911). Por essa altura, não faltou quem manifestasse o seu desacordo, como Fernando Pessoa, que escreveu no seu livro do Desassossego de Bernardo Soares "odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse".

Para avaliar os efeitos que o acordo ortográfico que vai entrando em vigor, fiz um pequeno ensaio com o seguinte trecho, escolhido ao acaso, da edição de 1845, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, de Torcato Peixoto de Azevedo, pp. 305-306):

 
De como el-rei sendo mordido de uma cadella damnada, veio a esta igreja pezar-se a prata.

 
Não pode o homem fugir aos perigos que lhe estão determinados pela Providencia, sobre o que disse o nosso Camões — De que me serve fugir da morte, dôr, ou perigo se eu me levo comigo. — E desta sentença não estão isemptas as pessoas reaes: porque estando el-rei D. João o 1.° na quinta do Corral, ali foi mordido de uma cadella damnada, e vendo-se ferido logo se encommendou a Nossa Senhora da Oliveira , promettendo de a vir visitar á sua igreja, e nella pezar-se a prata, o que inteiramente cumprio, e Nossa Senhora lhe alcançou de seu amado filho saude, livrando-o do perigo de tão grande mal. Este remedio tão necessario para a gente do campo, exposta todos os dias a ser ferida de tão cruel mal, se acha tambem no dente santo, que anda em uma familia de lavradores na freguezia da Grade, na comarca de Vianna, que benzendo-se com elle qualquer pessoa, ou animal não tem perigo: e dando-se uma pequena esmola o lavrador o leva onde é chamado.

 
É tão indubitavel a virtude que Deus deu a este milagroso dente para o mal das mordeduras dos cães damnados, e tão visivel sua vontade de que ande na familia destes lavradores, que sendo chamado ao reino de Galliza para benzer certos homens atormentados da mordedura de cão damnado, depois de feita esta diligencia se quis recolher a sua casa: e antes de chegar ao rio Minho o esperaram certos Gallegos, e lhe roubarão o dente: entrou em sua casa desconsolado, e triste como quem vinha despojado do seu remedio, e ali dando conta a sua mulher e filhos, todos choravam a desgraça; porém buscando o lugar da caixinha em que o tinha com a veneração que permittia sua pobreza, o vio nella da mesma sorte que lhe tinha sido furtado: com que todos de novo se consolaram. Os mesmos Gallegos publicaram o milagre desapparecendo-lhe d'entre as mãos o santo dente. Este milagre me contou o mesmo lavrador, e certificaram pessoas de fé, e authoridade, e com o dito dente me benzi, e muitas pessoas nesta villa, que ficaram livres do tormento da mordedura com que estavam enfermas.

 
Seguidamente, actualizei a ortografia do texto, colocando-o de acordo com o acordo Ortográfico de 1943:

 
De como el-rei sendo mordido de uma cadela danada, veio a esta igreja pesar-se a prata.

 
Não pode o homem fugir aos perigos que lhe estão determinados pela Providência, sobre o que disse o nosso Camões — De que me serve fugir da morte, dor, ou perigo se eu me levo comigo. — E desta sentença não estão isentas as pessoas reais: porque estando el-rei D. João o 1.° na quinta do Corral, ali foi mordido de uma cadela danada, e vendo-se ferido logo se encomendou a Nossa Senhora da Oliveira, prometendo de a vir visitar à sua igreja, e nela pesar-se a prata, o que inteiramente cumpriu, e Nossa Senhora lhe alcançou de seu amado filho saúde, livrando-o do perigo de tão grande mal. Este remédio tão necessário para a gente do campo, exposta todos os dias a ser ferida de tão cruel mal, se acha também no dente santo, que anda em uma família de lavradores na freguesia da Grade, na comarca de Viana, que benzendo-se com ele qualquer pessoa, ou animal não tem perigo: e dando-se uma pequena esmola o lavrador o leva onde é chamado.

 
É tão indubitável a virtude que Deus deu a este milagroso dente para o mal das mordeduras dos cães danados, e tão visível sua vontade de que ande na família destes lavradores, que sendo chamado ao reino de Galiza para benzer certos homens atormentados da mordedura de cão danado, depois de feita esta diligência se quis recolher a sua casa: e antes de chegar ao rio Minho o esperaram certos Galegos, e lhe roubaram o dente: entrou em sua casa desconsolado, e triste como quem vinha despojado do seu remédio, e ali dando conta a sua mulher e filhos, todos choravam a desgraça; porém buscando o lugar da caixinha em que o tinha com a veneração que permitia sua pobreza, o viu nela da mesma sorte que lhe tinha sido furtado: com que todos de novo se consolaram. Os mesmos Galegos publicaram o milagre desaparecendo-lhe de entre as mãos o santo dente. Este milagre me contou o mesmo lavrador, e certificaram pessoas de fé, e autoridade, e com o dito dente me benzi, e muitas pessoas nesta vila, que ficaram livres do tormento da mordedura com que estavam enfermas.

 
Resultado: na passagem para a segunda versão, introduzi 42 alterações na ortografia do texto de meados do século XIX.

 
Por último, fiz correr o texto num conversor ortográfico, que o adaptou às normas do acordo ortográfico de 1990. Ficou assim:

 
De como el-rei sendo mordido de uma cadela danada, veio a esta igreja pesar-se a prata.

 
Não pode o homem fugir aos perigos que lhe estão determinados pela Providência, sobre o que disse o nosso Camões — De que me serve fugir da morte, dor, ou perigo se eu me levo comigo. — E desta sentença não estão isentas as pessoas reais: porque estando el-rei D. João o 1.° na quinta do Corral, ali foi mordido de uma cadela danada, e vendo-se ferido logo se encomendou a Nossa Senhora da Oliveira, prometendo de a vir visitar à sua igreja, e nela pesar-se a prata, o que inteiramente cumpriu, e Nossa Senhora lhe alcançou de seu amado filho saúde, livrando-o do perigo de tão grande mal. Este remédio tão necessário para a gente do campo, exposta todos os dias a ser ferida de tão cruel mal, se acha também no dente santo, que anda em uma família de lavradores na freguesia da Grade, na comarca de Viana, que benzendo-se com ele qualquer pessoa, ou animal não tem perigo: e dando-se uma pequena esmola o lavrador o leva onde é chamado.

 
É tão indubitável a virtude que Deus deu a este milagroso dente para o mal das mordeduras dos cães danados, e tão visível sua vontade de que ande na família destes lavradores, que sendo chamado ao reino de Galiza para benzer certos homens atormentados da mordedura de cão danado, depois de feita esta diligência se quis recolher a sua casa: e antes de chegar ao rio Minho o esperaram certos Galegos, e lhe roubaram o dente: entrou em sua casa desconsolado, e triste como quem vinha despojado do seu remédio, e ali dando conta a sua mulher e filhos, todos choravam a desgraça; porém buscando o lugar da caixinha em que o tinha com a veneração que permitia sua pobreza, o viu nela da mesma sorte que lhe tinha sido furtado: com que todos de novo se consolaram. Os mesmos Galegos publicaram o milagre desaparecendo-lhe de entre as mãos o santo dente. Este milagre me contou o mesmo lavrador, e certificaram pessoas de fé, e autoridade, e com o dito dente me benzi, e muitas pessoas nesta vila, que ficaram livres do tormento da mordedura com que estavam enfermas.

 
Resultado: não se registou qualquer alteração na passagem deste texto da norma ortográfica de 1943 para as do novo Acordo Ortográfico.

Ou seja, as mudanças hoje em curso na nossa língua são incomparavelmente menores do que as que foram introduzidas na reforma de 1911, que então provocou tanta polémica. 

As reformas ortográficas devem ser como a coca-cola, segundo Fernando Pessoa: primeiro estranham-se, depois entranham-se...


Partilhar:

2 comentários:

Bic Laranja disse...

Faltou dizer que a última versão do texto é grafada em brasileiro.
Cumpts.

aan disse...

A última versão é igual à penúltima. Em português, claro.