30 de setembro de 2008

28 de setembro de 2008

História e senso crítico, segundo João de Meira

João de Meira

De tanto amarem a sua terra, não são poucos os vimaranenses que olham para a história de Guimarães com um espírito mais iluminado por uma espécie de fé, do que pelo sentido crítico, que aconselha que apenas se aceite como verdadeiro aquilo que se consegue demonstrar, o que não é incompatível com continuarmos a honrar e a respeitar aquilo que nos é transmitido pela tradição. O escritor João de Meira, remando  contra a maré do seu tempo vimaranense, desmontou, por diversas vezes, com assinalável lucidez, “um certo número de factos mais que duvidosos da antiga história vimaranense a cada passo dados como positivos”. Leia-se, a título de exemplo, o pequeno artigo que este autor publicou no jornal Independente, na sua edição de 12 de Agosto de 1906:

História Pátria
Por ocasião das recentes festas de S. Gualter, a comissão dos festejos distribuiu pelos forasteiros uma espécie de guia de viajante, onde a par da indicação dos monumentos a visitar se publicaram notas de história local com que não concordo.
Se o ilustrado autor do Guia tem argumentos que faça valer as suas afirmações, eu não desejo senão que eles me convençam. Mas quer-me parecer que já agora é impossível prever um certo número de factos mais que duvidosos da antiga história vimaranense a cada passo dados como positivos.
Se não, vejamos.
1.º O Castelo de Guimarães foi notavelmente ampliado e fortalecido por Mumadona, afirma o Guia.
O Castelo de Guimarães, afirmo eu, não foi ampliado por Mumadona, porque foi por ela construído. Cf. Port. Mon. Hist. Dipl. et. Chart., n.º 97; Fr. M. da Rocha Port. Renascido, pág. 337; Alberto Sampaio, As Vilas do Norte de Portugal, in Portugalia, Vol. 1.º, pág. 804; Gama Barros, Hist da Adm. Publ.. vol. 2.º, pág. 7.
2.º No castelo de Guimarães nasceu o primeiro Vimaranense D. Afonso Henriques, diz o Guia.
Nenhum documento ou monumento digno de crédito, digo eu, nos autoriza a afirmar que Afonso Henriques nasceu em Guimarães. É um facto possível mas não provado, como também se não prova que fosse baptizado na igreja de S. Miguel do Castelo. O cauteloso A. Herculano não o diz. O Castelo tal como está deve ser de data muito posterior e o mais provável é que o Conde D. Henrique nunca habitasse nele. Cf. A. Herc. Hist. de Por. vol. 1.º, pág. 278 e A. Sampaio L. cit., pág. 806.
3.° A Colegiada de Guimarães foi fundada pelo conde D. Hermenegildo Mendes e a sua mulher a condessa Mumadona, relata o Guia.
O Conde Hermenegildo, avanço eu, nada fundou. Sua mulher fundou um convento de frades e freiras mais tarde, em data incerta, transformado em Colegiada. Cf. Port. Mon. Hist. Dipl. el Chart. n.º 61 e 76.
Se estas afirmações merecerem ao autor do Guia uma contestação, desenvolvê-las-ei em subsequente artigo, mostrando quanto a história das origens de Guimarães tem sido deturpada por uns historiógrafos tão cheios de boa-fé como faltos de senso crítico como foram o Padre Torcato, o Padre Carvalho e o Padre Caldas.
Guimarães, 10 de Julho de 1906
J. de M.
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26 de setembro de 2008

23 de setembro de 2008

Polémica? Qual polémica?

Afonso Henriques (gravura da colecção da Sociedade Martins Sarmento)

Alguém diz que há polémica em relação ao local de nascimento de Afonso Henriques. Que eu saiba, não há polémica nenhuma, mas parece haver quem esteja interessado em que passe a haver, transformando a celebração dos 900 anos numa “disputa bairrista”. Não há polémica nenhuma, até porque, nas últimas décadas, não houve qualquer avanço nos estudos históricos que alterasse o que já se sabia, ou não sabia, quanto a esta matéria. O que se sabe é que há uma tradição sólida e enraizada que diz que Afonso Henriques nasceu em Guimarães e algumas hipóteses frágeis e pouco sustentadas que o colocam a nascer noutros lugares. Que ninguém tenha dúvidas: como sempre, perante a fragilidade do conhecimento histórico, continuará a prevalecer a solidez da tradição.

Estou certo de que não daremos para este peditório
. Afonso Henriques é, seguramente, a principal referência do nosso Estado-Nação. A celebração da sua memória tem que ter uma dignidade à altura da sua obra. Com honras nacionais, claro.
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22 de setembro de 2008

O meu Afonso Henriques é mais meu do que o teu

D. Afonso Henriques (Gravura da colecção da Sociedade Martins Sarmento)

Dos primeiros tempos de Afonso Henriques sabemos muito pouco. Não são seguros nem a data, nem o lugar onde nasceu: as datas que têm sido apontadas (1109 ou 1111), os lugares que vão sendo enunciados (Guimarães, Coimbra ou, mais recentemente, Viseu) são meramente conjecturais, por não haver documentos que os sustentem.

Quanto ao local de nascimento do filho de D. Henrique e D. Teresa há duas evidências incontornáveis:

a) Do ponto de vista da História, não é possível dizer onde terá sido. A tese que anda na moda, não tanto depois de ter sido enunciada por Almeida Fernandes, há duas décadas, mas depois de ter sido admitida por José Mattoso, há dois anos, não tem nenhuma prova documental que a sustente. O próprio Mattoso afirma-a como verosímil, possível, provável, admissível, mas não a dá, nem a poderia dar, como provada. A conjectura viseense é sustentada por um único argumento: que D. Teresa teria passado parte do ano de 1109 em Viseu. A conjectura de Coimbra, até há pouco tempo mais em moda na nossa historiografia, é suportada exactamente pelo mesmo fundamento. Em ambos os casos, nenhum documento, nenhum testemunho coevo fiável.

b) Do ponto de vista da tradição, Afonso Henriques nasceu em Guimarães. Esta é uma tradição secular, profundamente enraizada no nosso imaginário, que carrega em si uma evidência: até hoje, a investigação histórica, aquela que trabalha com os documentos e que se constrói com metodologias científicas, não encontrou provas credíveis que a desmentissem.

Assim sendo, se a História a não nega, vai valendo a tradição.

Afonso Henriques não figura na nossa História por ter nascido, seja qual for o lugar onde nasceu, mas sim pela sua obra, a fundação de Portugal. Afonso Henriques é um dos símbolos da nossa identidade nacional. No próximo ano devem passar 900 anos sobre a data do seu nascimento. Impõe-se que este centenário seja celebrado com a dignidade e a grandiosidade que merece. Com uma grande celebração nacional (afinal, Afonso Henriques foi o nosso primeiro Chefe de Estado).

O que não podemos é incorrer no erro de transformar as comemorações numa querela paroquial.

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21 de setembro de 2008

20 de setembro de 2008

19 de setembro de 2008

18 de setembro de 2008

17 de setembro de 2008

16 de setembro de 2008

15 de setembro de 2008

Perdidos & (não) achados (2)

Paço dos Duques. Fachada interior voltada a nascente. Fotografia da Ilustração Moderna, 1929.

A 9 de Abril de 1918 travou-se a tristemente célebre Batalha de La Lys. na Flandres Dos soldados que compunham a Brigada do Minho, mais de metade perderam a vida, ficaram feridos ou foram presos pelo exército alemão. Muitos deles pertenciam ao Regimento de Infantaria 20, de Guimarães. Em sua memória seria erigido um memorial, uma placa com os nomes dos mortos nela inscritos, que seria afixada no quartel do Regimento, então no Paço dos Duques de Bragança. Já lá não está.

Pormenor da fotografia que vai acima.
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13 de setembro de 2008

Perdidos & (não) achados (1)

Monumento a D. Afonso Henriques, no Toural, na década de 1920. Na base do pedestal de mármore (original), a placa comemorativa de 1911.

Em Maio de 1940, a estátua de D. Afonso Henriques, que se encontrava no Toural desde 1911, foi apeada e conduzida para o parque do Castelo, onde seria erigida no local onde ainda hoje se encontra. Foi então colocado no actual pedestal lavrado em granito fino. Até hoje, não consegui saber que destino levou o pedestal original, lavrado em mármore branco, criado por Soares dos Reis como parte integrante do monumento a Afonso Henriques.

Mas não é o pedestal o único elemento em falta junto do monumento. Nas Gualterianas de 1911, quando a Guimarães da Primeira República assinalou o sétimo centenário do nascimento do primeiro rei, foi colocada na base do monumento uma placa comemorativa com os seguintes dizeres:

“Guimarães a D. Afonso Henriques

no VIII centenário do seu

nascimento

VI – VIII – MCMXI”

Ao descerrar aquela lápide, pretendia-se “perpetuar esta homenagem prestada ao fundador da nacionalidade portuguesa”. No entanto, a memória da homenagem dos homens e das mulheres de Guimarães de 1911 não se perpetuaria. Estas, como outras placas comemorativas que, em tempos, estiveram junto do monumento a Afonso Henriques, foram arrumadas, talvez para evitar algum ruído na estética do local, talvez para abrir espaço para a memória de outras homenagens, mais contemporâneas.

Apeamento da estátua de Afonso Henriques, para ser conduzida do Toural para o Parque do Castelo (21 de Maio de 1940).
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12 de setembro de 2008