22 de maio de 2017

Os padrões de Guimarães, por Jerónimo de Almeida

Padrão da Vitória, numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858)

Aos monumentos por onde já passaram as suas Breves considerações arqueológicas (Castelo, Muralha, Paço dos Duques e Igreja da Oliveira), Jerónimo de Almeida ainda acrescentou dois “de somenos importância arqueológica”, na sua opinião: os padrões (Senhora da Vitória e D. João I) e a antiga Casa da Câmara. Reproduzimos agora o primeiro artigo, publicado no jornal Alvorada de 1 de Abril de 1911, dedicado aos padrões. Aí trata do Padrão de D. João I (também conhecido por Padrão de S. Lázaro e Padrão dos Pombais) e do Padrão de Nossa Senhora da Vitória, que celebra a vitória em Aljubarrota, ao qual, apesar dos esforços do historiador de Guimarães Fernando Teixeira, se persistem, erradamente, em chamar de Padrão do Salado. Jerónimo de Almeida não incorre nesse erro, que no tempo dele ainda não tinha sido perpetrado.

Breves considerações arqueológicas — V

Padrões

Dois padrões se admiram em Guimarães e que são igualmente considerados monumentos nacionais, — o de Nossa Senhora da Vitória e o de D. João I.
O de Nossa Senhora da Vitória, situado junto do adro da igreja de Nossa Senhora da Oliveira, fora mandado ali erigir no reinado de D. Afonso IV. É composto de quatro arcos ogivais pousados em colunas com capitéis de folhas e figuras grotescamente esculpidas, encostadas a grossos pilares de cantaria que, em cada ângulo, suportam a abóboda do padrão, tendo no vértice de cada arco o brasão de armas usado por aquele rei. Posteriormente à sua construção colocou-se no arco do fundo, a partir dos capitéis, um altar de estuque, envidraçado, consagrado à imagem da Senhora da Vitória e que comemora também, como a gótica restauração do templo, a famosa vitória de Aljubarrota. Dentro do padrão ergue-se um elegante cruzeiro, para ali transferido no ano de i38o, como se lê numa inscrição gravada na sua haste (M.CC.LXXX), (pois que até então estava fora, junto da antiga oliveira), com o Crucificado e várias estátuas de santos: na frente, de Nossa Senhora, de S. João Evangelista, de S. Dâmaso e S. Torcato; no verso, de Nossa Senhora do Rosário, de S. Filipe Apóstolo e S. Gualter. Tem ainda este cruzeiro na base um escudo de armas portuguesas. Aos lados do altar vêem-se dois baixos-relevos alusivos um à visita de D. João I a este padrão, outro a um milagre atribuído à Virgem e que naquele lugar se dera.
Padrão de D. João I, numa estereoscópia de Antero Frederico de Seabra (1858).
O de D. João I acha-se ao fim da rua deste nome, em frente à capela de S. Lázaro, evocando uma das piedosas romagens que, segundo a tradição, este devoto monarca fizera a Nossa Senhora da Oliveira. É formado de quatro pilares quadrados, sem lavores arquitectónicos, em que assenta a abóbada de pedra também e dentro levanta-se o cruzeiro de alvo mármore, com a cruz rendilhada. Este padrão, depois de ter já sido restaurado, foi mudado da pequena distância de alguns metros para o local que actualmente ocupa, em 1863, com o fim de melhorar o alinhamento da rua.
São estes dois históricos padrões, incomparavelmente mais valiosos que quaisquer outros que por aí se ergam, merecedores da nossa desvelada conservação, não pelo significado religioso que representam, mas porque são outros tantos documentos históricos de que honrosamente falam os velhos arquivos desta terra. A luz bruxuleante e mortiça que de noite os alumia parece querer ressuscitar os tempos místicos e românticos da meia-idade, prenhes de crenças, de superstições e tiranias!
Jerónimo de Almeida.

Alvorada, 1 de Abril de 1911
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