22 de maio de 2017

Dos parques de estacionamento e da sua necessidade


Há tempos, foi solicitada por um grupo de cidadãos a realização de um debate sobre o parque de estacionamento previsto para o miolo do quarteirão das ruas de Camões, da Liberdade e da Caldeiroa e da travessa que liga as duas últimas. Anuncia-se para hoje uma “sessão informativa sobre o projecto de execução do parque de estacionamento adjacente às ruas da Caldeiroa, Liberdade e Camões”, promovida pela Câmara Municipal. Não estou seguro de que essa sessão seja resposta àquela solicitação de cidadãos. ‘Sessão informativa’ afigura-se-me como algo diferente de ‘debate público’, parecendo revelar uma menor predisposição para uma discussão aberta e franca. Pode ser que esteja enganado. A ver vamos.
Em boa verdade, continuando a tomar pelas aparências, parece que esta iniciativa se configura para ser mais uma sessão de divulgação e propaganda do que debate esclarecedor e capaz de dissipar as muitas dúvidas que andam no ar. Como não estou certo de que os cidadãos tenham a possibilidade de colocar todas as questões que entendam dever ser esclarecidas, aqui deixo algumas.
Antes de mais, notarei que a disponibilidade para apresentar publicamente este projecto (divulgação que deveria ser assumida como obrigação da autarquia, sempre que estivessem em causa projectos susceptíveis interferirem com a vida dos cidadãos — e antes que estes produzam efeitos dificilmente reversíveis) chega tarde. Demasiado tarde para não ser confundida com uma iniciativa no âmbito de uma campanha eleitoral que já vai no adro. Ninguém pode ignorar que a maior força da oposição já apresentou uma proposta eleitoral que conflitua com este projecto e que teve significativa ressonância pública e mediática. Assumo que esta inquietação pode ser injusta, mas parece-me que não serei o único a alimentá-la. Se se trata de uma acção de resposta à proposta da oposição, e não ao pedido de um grupo de cidadãos, que lhe é anterior, é natural que se questione a mobilização de recursos da autarquia para essa iniciativa.
Estou seguro de que a apresentação do projecto, quanto à natureza do que se pretende construir, será competente e esclarecedora. Assim o garantem os nomes anunciados para a sessão que são pessoas cuja competência técnica ninguém de boa-fé colocará em causa. No entanto, confesso que, antes de quaisquer esclarecimentos sobre o projecto em causa, há questões que carecem de esclarecimento prévio que afaste todas as dúvidas.
A primeira será, obviamente, a da necessidade de mais parques de estacionamento pagos na cidade de Guimarães.
Julgo que esta questão será a mais fácil de responder. Basta para isso que se divulguem os estudos técnicos que sustentem tal necessidade, assim como as informações acerca das taxas de utilização dos parques já existentes.
Uma tão assertiva convicção, como a que por aí vai, de que há falta de oferta de estacionamento em Guimarães estará, necessariamente, fundamentada em estudos e dados quantificáveis. Não se percebe porque é que esses dados não são públicos.
Os únicos números que conheço, referentes à utilização da oferta de estacionamento disponível foram divulgados pelo jornal Mais Guimarães, cingindo-se, exclusivamente, ao estacionamento de rua, regulado por parcómetros. Esses dados, à falta de outros, autorizam que se conclua que a oferta de estacionamento disponível supera substancialmente a procura efectiva.
Desconhece-se qualquer informação quanto ao grau de utilização do estacionamento nos parques cobertos. Assim sendo, a única conhecimento de que dispomos é o que resulta do que os nossos olhos vêem. É certo que não será o mais objectivo, mas não temos outro. E o que nos mostra, com a força da evidência, é que, também aqui, a oferta supera largamente a procura. Note-se que estamos a falar de parques que ficam, no máximo, a uma confortável meia dúzia de minutos, a pé, do Toural ou do Centro Histórico.
Um dos argumentos que têm sido esgrimidos para justificar a necessidade de mais estacionamento no centro urbano de Guimarães prende-se com as tão propaladas fragilidades do comércio local, cuja solução seria mais, e mais próximo, estacionamento. Esta ideia de fragilidade resulta de simples observação empírica ou já foram feitos estudos que demonstrem a relação de causa-efeito entre a suposta falta de estacionamento e a tão afirmada debilidade do comércio local?
É que, mais uma vez, não obstante velhas ideias feitas, o que vemos não nos dá assim tantas certezas quanto à natureza da moléstia e à eficácia da panaceia receitada. Olhemos para o que aí está. Se há locais onde o comércio exibe sinais de decadência são os centros comerciais Santo António, Palmeiras e Triângulo. Porém, nos três casos, o que não falta por lá é onde estacionar. Todos têm parques de estacionamento próprios. Maior proximidade deve ser difícil conseguir em qualquer outro local da cidade. E, no entanto…
Outra questão que era importante ser esclarecida é a que resulta de um anúncio recente. Num tempo em que o parque da Caldeiroa já era dado como irreversível, foi anunciado que a Câmara tinha encomendado um estudo de viabilidade da construção de novo(s) parque(s) de estacionamento na Alameda e no Campo da Feira. Tal anúncio gerou perplexidade, instalando uma dúvida: será que se equaciona construir mais estacionamentos, para além do parque da Caldeiroa, ou será que o estudo encomendado visa tentar encontrar uma melhor alternativa para ele?
Há muito que esclarecer, portanto. A começar pelas prioridades de investimento no nosso concelho. Provavelmente, já vai sendo tempo de começar a pensar, de um modo mais consistente e articulado, Guimarães como um todo.
Vivemos um concelho onde há jovens que têm que recusar estágios profissionais por falta de transportes que lhes permitam chegar em tempo útil aos locais onde essa oferta existe. Um concelho onde, pela mesma razão, há pessoas que se vêem obrigadas a recusar ofertas de emprego. Salta aos olhos que Guimarães tem um sério problema de mobilidade em transportes públicos. Não obstante, dispõe-se a investir, na construção de parques de estacionamento, dinheiro público afecto a programas de mobilidade. Ora, salvo melhor opinião, estamos perante um contra-senso gritante. Mobilidade não é sinónimo de estacionamento. É o contrário.
Até que me demonstrem algo diverso, continuarei a defender que Guimarães não carece de investir em mais estacionamento no centro da cidade. Em Guimarães urge pensar o concelho como um todo e a definir políticas e projectos que favoreçam a sua coesão territorial.


Partilhar:

0 comentários: