6 de novembro de 2016

Raul Brandão e Guimarães (3)

Raul Brandão

Em 1901, no folheto “O Padre”, Raul Brandão atribui ao território um carácter simbólico que se reparte por três espaços físicos e metafóricos: o campo, lugar da “vida recolhida e severa pelo contacto com as coisas simples e imensas da natureza”, que se despreza e despovoa; a vila, “onde se intriga”; a cidade, “onde se goza”. A vila será o cenário das suas duas obras ficcionais maiores do escritor de Nespereira, A Farsa e Húmus. Jacinto Prado Coelho descreveu a vila de Raul Brandão como “uma abreviatura do mundo”, cujos habitantes representam “a humanidade inteira”.

A vila de Raul Brandão tem uma dimensão mais simbólica do que real, operando como espaço metafórico, sendo assumida como uma paisagem imaginária, impossível de identificar e de localizar no espaço geográfico do mundo concreto. No entanto, da leitura da obra de Brandão, é possível perceber que há uma vila concreta por trás da vila brandoniana, que foi delineada a partir da Guimarães que ele conheceu e que, apesar do título de cidade que já ostentava, mantinha a configuração de vila que sempre tivera.

Para afastar dúvidas na identificação da vila onde Raul Brandão montou o palco da sua narrativa, bastam as primeiras linhas do primoroso quadro inicial de A Farsa.

Quando lemos a descrição duma serra de encostas pedregosas e duma “praça solitária”, cujo granito “revê água” e onde se ergue uma sé, com a sua torre, se desenham arcarias, há “um Cristo aflitivo na abóbada de pedra sustentada por quatro arcos ogivais” e se percute o “telingue-telingue eterno duma fonte”, percebemos que Raul Brandão descreve um espaço familiar, povoado de elementos de fácil identificação: a Penha, a praça da Oliveira, a igreja da Colegiada, com a sua torre e a fonte que nela se encostava, e o monumento icónico e único que continuamos, erradamente, a chamar de Padrão do Salado.
A Praça da Oliveira, em Guimarães, numa fotografia do início do séc. XX, vendo-se a igreja da Colegiada, com a torre, a fonte e, em primeiro plano, à direita, o Padrão.

Alguém mais céptico ainda poderá argumentar que, no que fica dito, não se encontra qualquer referência explícita a Guimarães. Avancemos então até ao terceiro capítulo de A Farsa. Aí, Raul Brandão transporta-nos até à noite de 5 de Dezembro, véspera de S. Nicolau. Na vila, está “toda a populaça na rua”, quando

Os tambores rufam sem interrupção – dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil – e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra.

O único lugar do mundo onde, ano após ano, acontecia, e continua a acontecer, a festividade que Raul Brandão descreve, é Guimarães. Trata-se de um dos actos dos festejos dos estudantes vimaranenses, ao seu padroeiro, S. Nicolau, cuja origem se perde na poeira dos séculos e que são conhecidos por Festas Nicolinas. No programa das festividades, esse é, como o nota Raul Brandão, “o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore”.

No dia em que Brandão situa a sua narrativa, uma multidão percorre “o burgo medievo com o castelo no alto e as muralhas desdentadas abrangendo as ruelas fétidas”, até que “estaca diante dum prédio emudecido e escuro”, onde se cala a música e se faz silêncio, para se erguer uma voz que chama:

– Cucúsio! Cucúsio! Cucúsio!...

O chamamento emudece quando se abre um postigo “e uma voz comovida responde afinal ao apelo”:

– Pronto, meus senhores, cá está o Cucúsio!...

E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro como, desde tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila. A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os urros estrugem…”

Mais uma vez, um Cucúsio, renovando uma velha tradição da sua família, mostrava o traseiro à vila de Raul Brandão. Que é, porque só pode ser, Guimarães.


*~*~*~*~*~*

A Farsa
(fragmentos)

[Cap. I]


– Ai que ma levam! ai que ma levam!

Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas pedregosas e depois as baforadas espessas abafam de todo a vila. E noite, cerração compacta, névoa e granito, formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho. Pastas sobre pastas de nuvens álgidas, que a noite transforma em crepes, amontoam-se na escuridão. O granito revê água. E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...

– Ai que ma levam!

É o único grito que irrompe do escuro, lúgubre, aflitivo, raspado. Depois o silêncio, a mudez concentrada da noite, a nuvem negra coalhada sobre as ruínas da vila toda lavada em lágrimas. Só aquele grito ressoa na praça solitária. A torre da Sé deformou-se: o granito aliado à névoa de mistura com a noite, abriram arcarias, alongaram as portas e fizeram dos restos da muralha antiga um tropel caótico. É um amálgama de realidade e pesadelo, trapos de nuvens e palácios desmedidos. A escuridão remexe. Não se sabe bem onde o sonho acaba e começa a matéria, se é uma cidade desconforme, sepulta em treva e lavada em lágrimas, ou meia dúzia de casebres e uma torre banal. Uma luzinha alumia um Cristo aflitivo na abóbada de pedra sustentada por quatro arcos ogivais. Mas a luz treme à ventania, os arcos balouçam, a abóbada estremece, e, ao repelão do vento, grandes sombras esvoaçam, afundando-se no negrume. uma sufocação, um espanto, o terror de que a candeia se apague, e só fique o nada, a escuridão imensa e compacta e o grito raspado a levam! a levam!... É como a última claridade dum barco de náufragos, tragado sem remissão no redemoinho dum indefinido oceano polar. Adivinha-se a porta da igreja, uma golfada de tinta, e o telingue-telingue eterno duma fonte – o choro baixinho daquela escuridão cerrada. A luz estrebucha. Se o vento a sumisse levaria consigo o último sinal de vida. Ficava apenas na noite infinita, impenetrável e revolta, o grito de angústia:

– Ai que ma levam!
~*~

[Cap. III]

Véspera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: uma mixórdia de grotesco e de caligens, de lama e gritos, de gestos confusos e de novelos pastosos que se acastelam lá no alto e barram o céu de horizonte a horizonte em pesadas cortinas sobrepostas. Vem a cerração e a chuva pegada e tão miúda que amolece o granito. Das ruas irrompem sucessivos magotes, num clamor de inferno. Na noite ressoam gritos, urros, e clarões de archotes revoluteiam tornando-a mais densa e profunda: fisionomias e gestos surgem de repente como aparições e logo se somem no pez. É uma mescla de negrume e fogo, de braços que se agitam, de doida ventania e chuva cuspinhenta. Os tambores rufam sem interrupção – dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil – e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra. Uma derrocada em tropel, um jacto vivo de escuridão, um burgo de sonho entrevisto que o vento leva consigo.

A turba avança, a praça trasborda: milhares de bocas que gritam ao mesmo tempo. Aquele mar humano oscila, cresce, clama e dispersa-se. Quando os archotes se apagam, fica a noite e o ruído; avivam-se os fogaréus e voltam a entrever-se as faces, as bocarras abertas pelos risos estúpidos, rasgados de orelha a orelha.

– S. Nicolau! S. Nicolau!...

É, na véspera da festa, o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore. Forma-se o cortejo. estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce a rua a passos marciais, archotes à frente. Um reboliço, mais berros, rufos desesperados, uivos, maltas que desaguam de outras vielas recônditas e a multidão que oscila e se espraia até à muralha da igreja. Em cima a abobada negra do céu goteja lama e as névoas arrastam-se lentas e esponjosas, bambinela atrás de bambinela, pegam-se às paredes e deformam-nas, desagregam-se, suspendendo-se nas arestas do granito como grandes farrapos de luto. Os uivos redobram. O mesmo pé de vento parece que fez redemoinhar a canalha e galopar no céu os grossos novelos de fumo.

– A câmara! aí vem a câmara!...

Pendões balouçam-se, inclinam-se como velas sacudidas pelo temporal, a que se agarram meia dúzia de náufragos. Logo mais alto, se ouvem os clamores e a charanga ataca as primeiras notas duma marcha de guerra. Abre o cortejo o presidente do município, imponente e grave, com o pendão erguido; seguem-no, solenes, o Pinheiro Careca e outros tipos cerimoniosos, de sobrecasaca e chapéu alto, sob a chuva incessante. um vaivém: a mó de gente empurra-se e rodopia, mas organiza-se afinal o cortejo, depois de desordens e protestos; das tabernas irrompem os últimos matulas de suíças; e o céu todo lama desce, desaba, imenso, gelado e fétido, sobre a triste humanidade. Fúnebre, consegue o Testa, de cara rapada e olho em alvo, abrir a marcha com o pendão erguido ao vento.

O Careca pega com sofreguidão a uma borla, a charanga segue a passo cadenciado, e por último os magotes anónimos e confusos.

– S. Nicolau! S. Nicolau!...

E tudo aquilo, mar de uivos, treva, archotes, homens e meas, urros e clarões, jorro desordenado e imenso, se engolfa nas ruas estreitas, numa interminável e ensurdecedora bicha. Aqui e além o fogaréu dum archote: dum lado a casaria, do outro a muralha antiga, compacta e bárbara, a que a noite dá dimensões monstruosas.

[...]
A canalha toma-o de repelão, traga-o entre as muralhas estreitas, esmagado naquele oceano de cabeças. A chuva despega-se do céu, enlameia-o, pegajosa e fétida. A turba ulula aos arrancos. Noite, lama, um inferno que apanha e leva também outro fantasma imenso, a velha que atravessa a vila sem ver nem ouvir, perseguida por um cortejo de ideias, de sonho, de exaspero que a envolve e a funde na caligem. O burgo medievo com o castelo no alto e as muralhas desdentadas abrangendo as ruelas fétidas. De quando em quando um buraco, um postigo, um pano intacto, que na sombra redobra de espessura, alumiado pelos clarões dos archotes. Granito – granito sólido, bueiros de treva, mais treva acastelada – e a multidão que corre para um saque, desvairada, aos gritos, com os archotes em punho e as bocas escancaradas... Escuridões longínquas remexem. A névoa envolve e traspassa, a chuva cai sobre a pedra e as ruas envolvendo tudo de fumaceira e mistério. E à medida que vão passando aos urros, o quadro desfila a negro e vermelho, os prédios, os becos, uma praça esganada entre muralhas que se perdem no céu, bueiros que esguicham mais gente e que se afundam na treva, coisas disformes que pertencem à noite e farrapos engrandecidos e misturados de névoa que transformam a vila num burgo de pesadelo, quase alucinatório: são escadinhas que sobem até ao céu; é a quina duma torre toda ensanguentada à luz dos fogaréus, que bamboleia e recua para a treva; é um novelo de casaria que estremece e avança, avivando-se pormenores que logo se perdem; é outra fiada de casebres que surgem como palácios monstruosos e no fundo uma calçada a rever água que vai acabar num poço subterrâneo; são nuvens esgarçadas que flutuam sobre o clarão dos archotes, tomadas duma vida estranha. O burgo parece enorme, o milhar de pessoas que se agita uma enorme multidão desorientada e as nuvens crepes a rasto para o luto duma catástrofe universal.

Por fim um jorro humano estaca diante dum prédio emudecido e escuro, os clamores e a música cessam e a bicha, depois de ondular, atende ansiosa. Novelos sobre novelos as nuvens continuam lá em cima a sua desordenada e eterna correria sem fito.

O pendão camarário oscila, um baque, e, grave como quem cumpre um rito, o Testa destaca-se do grupo e avança limpando da careca o suor das grandes solenidades. Diante do prédio, no silêncio e na noite, três vezes chama:

– Cucúsio! cucúsio! cucúsio!...

Nada. Ninguém responde, e um frémito percorre a turba que espera sempre, milhares de cabeças erguidas no ar, as bocas abertas como peixes diante da casa negra e cerrada. Para o fundo no negrume outros, e mais outros envoltos na escuridão, atendem também como quem espera um milagre. E ouve-se no silêncio a chuva cair, miúda, pegajosa, eterna. Pela fresta duma janela se escoa por fim uma ténue claridade e ao fundo estremece, silenciosa e compacta, a canalha comovida e atenta, até que, avançando com imponência mais dois passos, o Testa, como quem invoca, implora e ordena, torna:

– Cucúsio!...

Sente-se abrir o postigo do prédio e uma voz comovida responde afinal ao apelo:

– Pronto, meus senhores, cá está o Cucúsio!...

E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro como, desde tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila. A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os urros estrugem, o pendão oscila levado pelo Testa, no alto daquela onda, e o sr. Anacleto corre sem ver nem ouvir, desorientado. Anda e por fim, longe, a uma esquina, topa na escuridão com uma figura que mal se destaca da treva, como um farrapo arrancado à própria noite. Come a ferrugem o aço, corrói a desgraça as criaturas. Olha-o surpreso, como se pela primeira vez na vida se lhe deparasse um ser humano. E pára atónito. Sem saber porquê, sem razão plausível, o velho estaca... É uma rapariga, envelhecida pelos tratos: adivinha-se-lhe a palidez, a fome e as lágrimas. É na verdade um farrapo de sonho todo transido de dor. O sr. Anacleto detém-se atordoado diante da mão que rompe do escuro e implora.
[...]
~*~

[Cap. VI]

Em frente da vila cresce em degraus a serra, grande, severa, descarnada e pobre. São montes sobre montes erguidos com majestade até o céu, em sucessivos recortes: primeiro atropelados e ásperos, com fragas acasteladas nos picos, cariadas e negras; depois violetas e diáfanos. É um prodigioso cenário, uma convulsão momentaneamente petrificada que nos aproxima de Deus: gargantas aspérrimas e vales pacíficos: o caos e a mansidão: o infinito, o silêncio e uma humildade que penetra e comove. Por cima da pedra o côncavo imutável do céu. Os montes vêm do alto esfarrapados e nus, com calhaus incrustados na pele rugosa. Mas a certa altura a água borbulha e tudo se transmuda: é a vida: é a emoção que brota fio a fio dos peitos rígidos da montanha. E logo a doçura se alia à grandeza. Nos fundos enxergam-se retalhos de milho, cabanas colmadas e escuras, póvoas isoladas no ermo.

[…]

E a serra tamm. O colosso de terra, de penedia descarnada e abrupta, não dá só piorno bravio mas imensa e prodigiosa vida. De Inverno rasgam-na as águas, desaba a tempestade e o tumulto, dilacera-a o raio, mas depois desse diálogo travado entre a montanha e o Inverno, a vida ressurge, a serra acorda. Anda ternura no ar, desponta a primeira flor na raiz duma fraga. Cheira a neve perfumada e ao hálito inocente dos montes.
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2 comentários:

Alberto disse...

Grato pela oportunidade de reler este breve extracto da prosa única de Raul Brandão! Para mais na beleza de um testemunho ímpar e sentido sobre as longevas Nicolinas que sentimos eternas e paralelas ao progresso de Guimarães, a Cidade que o Autor adoptou e tanto amou.
Obrigado, Dr. Amaro das Neves.

Antonio Amaro das Neves disse...

Obrigado. Aquele capítulo de A Farsa vale só por si.