15 de outubro de 2016

Cerilhoto, ladripo, recintar, samagaio



O que têm em comum as palavras cerilhoto, ladripo, recintar e samagaio?

São vocábulos recolhidos em Guimarães, que Cândido de Figueiredo incluiu no seu Novo Diccionário da Língua Portuguesa, editado pela primeira vez em 1899. 

Mas há outras palavras, que nem sequer poderão ser classificadas como neologismos, por já terem muitos anos de curso corrente, que não constam nos dicionários portugueses e que, quando as temos que escrever em suporte informático, logo aparecem sublinhadas a vermelho, como quem nos recrimina por incorrermos em erros de ortografia. Não existem para os dicionários, sempre céleres a dicionarizar neologismos como empoderamento, metrossexual, mixologista, blogue e tantos outros, muitos  deles de duvidosa necessidade, por serem sinónimos de palavras já existentes na língua padrão.

Vem esta conversa a propósito das Nicolinas, que é o nome que se dá, há mais de um século, aos festejos que os estudantes de Guimarães dedicam ao seu padroeiro, S. Nicolau. Não consta dos dicionários. Nem nicolino, que é, como todos sabemos, o nome que se dá aos estudantes de Guimarães, estejam eles no activo ou já aposentados. Todos sabemos, mas os dicionários não sabem. Nicolino(a) e nicolinas são termos que deveriam constar no léxico oficial protuguês, por cumprirem as condições necessárias para integrarem o léxico da língua e serem dicionarizados.

O mesmo acontece com as também vimaranenses Festas Gualterianas. Gualterianas e gualteriano(a) são termos que (ainda) não se encontram nos dicionários. Mas as festas antoninas e são-joaninas (ou sanjoaninas), que também são festividades populares, há muito que têm foros de dicionário. Será que essa condição resulta dessas tais festividades terem especial expressão nas cidades de Lisboa e do Porto?

Interrogação semelhante resultará da pesquisa no dicionário de vocábulos relativos a filiações clubísticas. Lá encontrámos portistas, benfiquistas, sportinguistas, belenenses, boavisteiros e, ainda, salgueiristas. E até não faltam, com idêntico significado, os termos lampião, lagarto e tripeiro. Mas, se procurarmos vitorianos, com referência ao Vitória Sport Clube ou aos seus adeptos ou atletas, nada acharemos.

Aparentemente, o malfadado centralismo também dita lei na lexicografia portuguesa.

É preciso fazer alguma coisa para melhorar os nossos dicionários.
Partilhar:

0 comentários: