3 de agosto de 2015

Da liberdade de opinião

Texto de José Pinto Rodrigues, advogado, republicano e democrata vimaranense, após intervenção do censor de serviço,  in A Razão, Guimarães, 6 de Dezembro de 1926

A partir deste recorte de jornal podia escrever-se um tratado sobre a liberdade de expressão e  a censura. Mas não será preciso. Por si só, já é mais do que um tratado.
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O “burgo” de Couros

Ilustração de António-Lino para os "Mesteres de Guimarães", de A. L. de Carvalho
Há um par de anos, durante a fase de preparação do livro “Guimarães vista do Céu”, seleccionávamos os locais a fotografar. Quando, aceitando sem discutir a moda então vigente, nomeei a “zona de Couros”, o Filipe Jorge, o homem que concebeu o projecto e o fotografou, arquitecto de formação, atalhou-me: “Zona? Zona é uma doença, não é o nome de um lugar numa cidade.” Tinha razão. Em, pelo menos, nove séculos de existência daquele lugar, os que ali têm morado nunca chamaram zona à parte de Guimarães onde das peles de animais se faziam couros que seguiam para as sete partidas do Mundo. Na altura, resolvemos a suposta dificuldade chamando-lhe arrabalde. O arrabalde de Couros.
Recordo isto a propósito da moda recente de chamar Zona de Couros ao espaço onde, desde a Idade Média, esteve instalada a indústria vimaranense da curtimenta em Guimarães. Percebo bem a dificuldade em usar um nome que se adeqúe plenamente a um lugar com tanta história como aquele. Porém, para nomear aquele sítio, burgo vale tanto como valia zona. Bem sei que se pode invocar o venerando patrocínio do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, que em finais do século falava num burgo a que chamam rua dos Couros, pela fábrica deles que nele está, ou o padre António José Ferreira Caldas, que no último quartel do século XIX se referiu, várias vezes, ao burgo de Couros. Porém, tal designação tem um valor estritamente literário, não correspondendo nem ao nome do lugar, nem à sua natureza.
Se, na Idade Média, um burgo era um núcleo urbano, nascido a partir de um castelo, de uma casa nobre ou de um mosteiro, dentro das muralhas de Guimarães havia dois burgos, um à sombra do Castelo, outro à sombra do Mosteiro de Santa Maria (Colegiada). Mas o território onde moravam e trabalhavam os fabricantes de couros ficava fora de porta, no subúrbio, estendendo-se pelas margens da ribeira de Santa Catarina na parte do seu curso em que mudava de nome para rio de Couros.
Se não é um burgo, também não é bem uma rua. Ou então, era uma rua com várias ruas dentro (escreveu o mesmo Padre Torcato que “tem três ruas, uma de S. Francisco, outra de Couros e a outra Rio de Couros”). Em bom rigor, é um bairro.
Quem melhor o descreveu foi Avelino da Silva Guimarães, na longa e preciosa reportagem sobre a Exposição Industrial de Guimarães de 1884, que escreveu para o Jornal do Comércio, de Lisboa, quando tratava da antiquíssima indústria da curtimenta de Guimarães:
Actualmente, a indústria de curtumes exerce-se principalmente em dois locais do concelho: na cidade, na parte ou bairro ao sul, nas margens do rio de Couros conhecido pela denominação genérica de - rua de Couros, - mas compreendendo diversas pequena ruas, pequenos largos e becos, e contendo em área estreita uma grande aglomeração de casas, lagares, lagaretas, barracas, tinas, secadouros; e na Corredoura, (…).
O que haveremos nós de chamar a um bairro composto por diversas pequenas ruas, pequenos largos e becos? Zona? Arrabalde? Burgo? Ou, como também já lhe chamaram, Ilha dos Couros?
Será que precisámos de inventar agora um nome para o bairro onde antigamente viviam e trabalhavam os surradores e curtidores de Guimarães?
Não precisámos. Esse bairro já tem nome desde o século XII, pelo menos.
É a Rua de Couros. E é muito mais do que uma rua.
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1 de agosto de 2015

As Gualterianas de 1910 na revista O Ocidente


Das Festas Gualterianas de 1910 reza a reportagem da revista O Ocidente, ilustrada com fotografias de Pereira Cardoso. Aqui fica.

Festas gualterianas em Guimarães
Continuam as romarias do Minho a movimentar e a alegrar aquela, já de si, risonha província, a região mais linda do nosso Portugal, pela beleza dos seus campos, pelo pitoresco de suas povoações, pelo caprichoso e colorido dos trajes das suas mulheres airosas, de boas formas, cheias de vivacidade e de energia.
Ontem era a romaria de S. Torquato, a que nos referimos no penúltimo número, hoje são as festas gualterianas em Guimarães, uma festa mais profana do que religiosa, apesar de ser em honra de S. Gualter, o santo frade franciscano, que para ali veio residir em tempos de D. Afonso II (século XIII), e cujas relíquias se guardam em túmulo, na sua capela do convento de S. Domingos*.
O venerando burgo, berço da monarquia portuguesa, nunca, porém, se engalanara em tão ruidosas e luxuosas festas, como nos últimos anos, para comemorarem o santo franciscano, festas que de ano para ano, têm aumentado em brilhantismo e riqueza, como outras se não fazem em todo o Minho, e de toda a província e mais terras ali acode gente, de tal forma, que a cidade perde a sua pacatez habitual e adquire extraordinária animação, que muda completamente seu aspecto, tornando-se mais bela com as pompas da festa, que este ano atingiram o maior entusiasmo. As ruas e largos encheram-se de forasteiros, atraídos pelo programa da festa que lhes oferecia os maiores atractivos, e que, diga-se em verdade, excedeu toda a expectativa.
A comissão promotora destas festas, em que boa parte cabe à Associação Comercial, caprichou em lhes imprimir o maior brilho, muito principalmente com a Exposição Industrial e Agrícola, que tinha a vantagem de reunir o útil e o agradável.
De facto nada mais digno de se apreciar do que os produtos da indústria local, em que se estacava a moderna marcenaria a par dos tradicionais linhos de Guimarães com os seus atoalhados de primeira ordem e das afamadas cutelarias e outros artefactos de apreço. Os produtos agrícolas, espécimes preciosos que abonam o abençoado solo em que são criados e cuidado do agricultor, observando-se em tudo isto notável progresso e dedicação pelo trabalho.
Outra exposição havia para visitar no grande salão da Sociedade Martins Sarmento, o dedicado e sábio arqueólogo que deixou seu nome ligado a uma das mais belas instituições científicas do país e de Guimarães. Era uma exposição de valiosos quadros a óleo, carvões e aguarelas existentes naquela cidade, figurando entre outras, obras de Vieira Portuense, Domingos António Sequeira, artistas portugueses de reputação em todo o mundo civilizado.
Se isto eram já suficientes atractivos para convidar o forasteiro, não menores eram aqueles que a cidade toda em festa oferecia a quem a visitava. As ruas, decoradas com muito gosto, apresentavam o mais agradável aspecto, realçado pelas senhoras de Guimarães, bem conhecidas por sua proverbial formosura, que apareciam pelas janelas, donde pendiam ricas colchas de custosas sedas antigas e bordadas, que bem iam com a beleza das damas que sobre cilas se debruçavam donairosamente.
Os festivais no jardim, pela tuna dos Empregados do Comércio do Porto; o exercício dos bombeiros; as touradas; a marcha milanesa, uma novidade de efeito fantástico, pelo bem combinado da composição, em que pela primeira vez apareciam entre os carros alegóricos de grande fantasia e surpresa, figuras com movimentos e interiormente iluminadas, uma inovação surpreendente; os concertos por bandas regimentais e outras; os fogos de artifício de lindo efeito, como só em o norte os fazem; as iluminações à moda do Minho, cuja fama chegou até ao sul, onde também já se apreciam; finalmente uma festa esplêndida que teve a cidade de Guimarães três dias em regozijo público e lhes trouxe um movimento extraordinário para o seu comércio, que é sempre a principal mira e lado prático a que se aspira, e cremos que desta vez com óptimos resultados, em vista da extraordinária concorrência de forasteiros na cidade como há muitos anos não sucedia.
No ultimo dia dos festejos, realizou-se a distribuição dos prémios aos expositores, no Campo da Feira, e a batalha de flores, em que apareceram bastantes carros e automóveis lindamente enfeitados, destacando-se a riqueza de muitas toiletes que mais fazia realçar a beleza das damas que, com sua extrema elegância e grande animação, deram a este número do programa um completo êxito.
As festas gualterianas marcam, indubitavelmente, uma nova fase na histórica cidade de Guimarães, que se sente rejuvenescer aos impulsos do progresso, no grande desejo de se modernizar como o vai provando com as suas esplendorosas festas.
O Ocidente, n.º 1139, 20 de Agosto de 1910, pp. 187-189
*É lapso. Deve ler-se S. Francisco.
1. A cidade de Guimarães

2. A exposição

3. Galeria do pavilhão da indústria

O Campo da Feira

A batalha das flores
 Fotografias de Pereira Cardoso
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1908: Aurélio Paz dos Reis volta às Gualterianas

Aurélio Paz dos Reis (1862-1931

Em 1908, a revista Ilustração Portuguesa voltou a inserir uma reportagem sobre as Festas Gualterianas, ilustrada com mais 15 fotografias de Aurélio Paz dos Reis. Naquele ano, a festa teve como visitantes os empregados do comércio da cidade do Porto que, em grande número desembarcaram na estação do comboio na manhã do dia 2 de Agosto, domingo, tendo contribuído para a animação das festas e participado na marcha organizada pelos caixeiros de Guimarães. A reportagem fotográfica de Aurélio Paz dos Reis testemunha a passagem dessa excursão pelas festas. Também inclui uma visita ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento. O texto que acompanha as fotografias, corrige uma confusão na identificação de S. Gualter veiculada na reportagem do ano anterior.



Guimarães em festa – S. Gualter
Uma visita à Sociedade Martins Sarmento
S. Gualter tem, como se sabe, o seu solar festivo em Guimarães, que, numa das catorze capelas da sua igreja de S. Francisco, lhe conserva os ossos venerandos.
Cada ano as festas gualterianas, afamadas desde longe, atraem, à velha cidade gloriosa, chusmas de forasteiros, que enchem de ruido e movimento desusados as suas ruas engalanadas, e todos os anos as festas tradicionais vimaranenses se transformam, transigindo com as ideias inovadoras do tempo, modificando constantemente o seu antigo feitio, mas não arrefece o entusiasmo da sua celebração. Enquanto Guimarães existir, ufanando-se de ter sido o berço da monarquia, não deixará de comemorar o santo seu predilecto, que constitui também um timbre do seu brasão.
Os cronistas seráficos da província de Portugal relatam que tendo vindo S. Francisco de Assis a este reino na companhia do seu discípulo S. Gualter, e partindo ambos daqui em romaria a S. Tiago de Compostela — que quem não realizou em vida, terá de fazer na morte, — na sua passagem por Vila Verde, junto de Guimarães, o patriarca franciscano fundou nesse sítio uma casa de oração, na qual deixou o seu companheiro, a quem depois se agregaram outros religiosos, constituindo-se em comunidade. O facto ter-se-ia passado, no dizer dos autorizados narradores, pelos anos de 1216, no reinado de D. Afonso II. Oitenta anos volvidos, aquele destacamento mendicante não cabia no estreito quartel, que o seu general construirá, e foi então resolvido edificar um novo convento, mais amplo, mudando-o, porém, nessa ocasião, para dentro dos muros de Guimarães. Colocaram-no efectivamente junto da cerca de muralhas da vila, e desta circunstância resultou o ser mandado demolir pelo rei D. Dinis após o cerco que o filho rebelde, mais tarde D. Afonso VI, pôs a Guimarães. Os frades trataram logo de arranjar nova casa e construíram o seu terceiro convento, que se concluiu no primeiro quartel do século XIV, e que é o que ainda existe e conserva algumas das suas feições primitivas, apesar das várias reparações e reconstruções posteriores. Tal é a historia deste S. Gualter, que Guimarães festeja com tanta devoção e entusiasmo popular.
O Hagiológio do padre Cardoso fala de um S. Gualter, que era português e foi leigo do convento de S. Francisco do Monte, em Viana, onde morreu no ultimo quartel do século XVI. Está de ver, porém, que não pode ser este o mesmo santo tão estimado em Guimarães e que devia ter dado entrada já desde há muito tempo na corte celestial quando este seu homónimo foi nado em terras portuguesas. Assim, foi por engano que lhe atribuímos, o ano passado, quando então nos ocupámos também das festas gualterianas de Guimarães, a honra de ser o seu herói. Aqui fica feita a rectificação, porque nem aos santos se deve tirar o que a cada um pertence. As tradicionais festas vimaranenses celebraram-se este ano com esplendor em nada inferior ao dos antecedentes, e pelas fotografias, que reproduzimos delas, farão os nossos leitores uma ideia do que elas foram. A concorrência de forasteiros foi verdadeiramente excepcional e raros foram os que não aproveitaram o ensejo da excursão para visitar o museu arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, ao qual se referem também algumas das fotografias que inserimos.
Não é tão conhecida, como tinha direito a sê-lo, entre o grande público, esta bela sociedade provinciana, que tão relevantes serviços tem prestado à instrução e ao estudo do país, que possui uma excelente biblioteca, um museu local interessantíssimo, e publica uma Revista que tem sido colaborada por alguns dos nossos mais distintos homens de ciência e tem inserido trabalhos de alta erudição. Deve-se a iniciativa da sua fundação a um dos homens mais beneméritos, dos que na obscuridade do seu trabalho indefesso e valiosíssimo passaram sempre indiferentes à popularidade, que nobremente desdenharam, masque foram, apesar disso, dos mais altos servidores da ciência e de Portugal — Francisco Martins Sarmento, cujo nome é a gloriosa égide do ilustre grémio.

Ilustração Portuguesa, n.º 131, de 24 de Agosto de 1908, pp. 250-254

1. Janela ornamentada: a tourada

2. Janela ornamentada: o moleiro

3. Cortejo dos excursionistas

4. A chegada dos excursionistas ao largo do Município

5. Um grupo de excursionistas

6. O coro das raparigas

7. A ornamentação do Toural

8. Janela ornamentada: o namoro

9. Janela ornamentada: o almirante e o Zé Povinho - "Onde irá isto parar?"

10. Vista geral do Museu de Arqueologia

11. Parte lateral do edifício da Sociedade Martins Sarmento

12. Um aspecto do Museu Arqueológico da Sociedade

13. Outro aspecto do Museu

14. uma galeria do Museu

Cortejo dos excursionistas do Porto

Clichés do Estereoscópio Português de Aurélio Paz dos Reis 


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