3 de agosto de 2015

O “burgo” de Couros

Ilustração de António-Lino para os "Mesteres de Guimarães", de A. L. de Carvalho
Há um par de anos, durante a fase de preparação do livro “Guimarães vista do Céu”, seleccionávamos os locais a fotografar. Quando, aceitando sem discutir a moda então vigente, nomeei a “zona de Couros”, o Filipe Jorge, o homem que concebeu o projecto e o fotografou, arquitecto de formação, atalhou-me: “Zona? Zona é uma doença, não é o nome de um lugar numa cidade.” Tinha razão. Em, pelo menos, nove séculos de existência daquele lugar, os que ali têm morado nunca chamaram zona à parte de Guimarães onde das peles de animais se faziam couros que seguiam para as sete partidas do Mundo. Na altura, resolvemos a suposta dificuldade chamando-lhe arrabalde. O arrabalde de Couros.
Recordo isto a propósito da moda recente de chamar Zona de Couros ao espaço onde, desde a Idade Média, esteve instalada a indústria vimaranense da curtimenta em Guimarães. Percebo bem a dificuldade em usar um nome que se adeqúe plenamente a um lugar com tanta história como aquele. Porém, para nomear aquele sítio, burgo vale tanto como valia zona. Bem sei que se pode invocar o venerando patrocínio do Padre Torcato Peixoto de Azevedo, que em finais do século falava num burgo a que chamam rua dos Couros, pela fábrica deles que nele está, ou o padre António José Ferreira Caldas, que no último quartel do século XIX se referiu, várias vezes, ao burgo de Couros. Porém, tal designação tem um valor estritamente literário, não correspondendo nem ao nome do lugar, nem à sua natureza.
Se, na Idade Média, um burgo era um núcleo urbano, nascido a partir de um castelo, de uma casa nobre ou de um mosteiro, dentro das muralhas de Guimarães havia dois burgos, um à sombra do Castelo, outro à sombra do Mosteiro de Santa Maria (Colegiada). Mas o território onde moravam e trabalhavam os fabricantes de couros ficava fora de porta, no subúrbio, estendendo-se pelas margens da ribeira de Santa Catarina na parte do seu curso em que mudava de nome para rio de Couros.
Se não é um burgo, também não é bem uma rua. Ou então, era uma rua com várias ruas dentro (escreveu o mesmo Padre Torcato que “tem três ruas, uma de S. Francisco, outra de Couros e a outra Rio de Couros”). Em bom rigor, é um bairro.
Quem melhor o descreveu foi Avelino da Silva Guimarães, na longa e preciosa reportagem sobre a Exposição Industrial de Guimarães de 1884, que escreveu para o Jornal do Comércio, de Lisboa, quando tratava da antiquíssima indústria da curtimenta de Guimarães:
Actualmente, a indústria de curtumes exerce-se principalmente em dois locais do concelho: na cidade, na parte ou bairro ao sul, nas margens do rio de Couros conhecido pela denominação genérica de - rua de Couros, - mas compreendendo diversas pequena ruas, pequenos largos e becos, e contendo em área estreita uma grande aglomeração de casas, lagares, lagaretas, barracas, tinas, secadouros; e na Corredoura, (…).
O que haveremos nós de chamar a um bairro composto por diversas pequenas ruas, pequenos largos e becos? Zona? Arrabalde? Burgo? Ou, como também já lhe chamaram, Ilha dos Couros?
Será que precisámos de inventar agora um nome para o bairro onde antigamente viviam e trabalhavam os surradores e curtidores de Guimarães?
Não precisámos. Esse bairro já tem nome desde o século XII, pelo menos.
É a Rua de Couros. E é muito mais do que uma rua.
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