7 de dezembro de 2015

Festas Nicolinas: história e tradição

Cartoon de Miguel Salazar



Quando o Inverno lhe bate à porta, Guimarães ganha uma nova banda sonora. Entre o fim de Novembro e os dias iniciais de Dezembro, é rara a hora em que se não escuta, em fundo, o som das baquetas a percutirem nas peles dos tambores. São esses os dias em que as Nicolinas se anunciam e acontecem. De todas as festividades cíclicas do calendário vimaranense, as festas que os estudantes de Guimarães dedicam ao seu padroeiro são as que despertam emoções mais à flor da pele e as mais desencontradas tentativas de interpretação. Estas são festas singulares.
Da origem das festas a S. Nicolau quase nada se sabe. Tem sido levantada a hipótese de terem tido origem na Universidade da Costa. Não entraremos aqui na discussão acerca da existência de uma universidade no antigo convento da Costa. Independentemente da sua natureza institucional, é seguro que ali existiu um estabelecimento para educação de príncipes, que contou entre os seus alunos com o príncipe D. Duarte, que seria arcebispo de Braga, e com o futuro Prior do Crato. Ministrava estudos superiores e teve uma existência muito efémera. A sua história é muito interessante, nomeadamente para o estudo da introdução da cultura humanista em Portugal. No entanto, até hoje não foi encontrada qualquer evidência documental que relacione o Colégio da Costa com o culto a S. Nicolau em Guimarães.
O documento mais antigo que se refere a estudantes em dia de S. Nicolau em Guimarães, até hoje conhecido, foi revelado recentemente pelo historiador Rui Faria. Refere-se a uma queixa apresentada por uma tal Maria Cardosa contra dois estudantes que teriam arrombado um postigo de sua casa na noite de S. Nicolau do ano de 1645. Trata-se de um “instrumento de perdão” lavrado na Quaresma do ano seguinte, quando a queixa foi retirada, por “descargo de consciência” da queixosa. Revela-nos que, naquele tempo, os estudantes de Guimarães já praticavam actos de subversão a coberto de S. Nicolau.
Bem mais esclarecedor será um capítulo de visitação assinado em 23 de Fevereiro de 1675 pelo Arcebispo D. Veríssimo de Lencastre, referente a uma inspecção episcopal à Colegiada de Guimarães, onde se lê:
Mandamos ao sacristão desta sé e a qualquer pessoa que tiver jurisdição na sacristia com pena de excomunhão por si, nem interposta pessoa empreste alguma capa de asperges para os estudantes, ou outra qualquer pessoa andar a cavalo dia de S. Nicolau Bispo em companhia dos Escolares causando turvações na vila e muitas indecências a que convém por este meio atalhar.
Pelo que nos informa, este documento é um precioso testemunho para a compreensão da natureza e da origem dos festejos dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau, uma vez que nos remete para práticas identificadas em diferentes lugares da Europa desde a Idade Média. No dia de S. Nicolau, escolhia-se um estudante que era investido na condição de bispo e que, envergando trajes litúrgicos, montava num cavalo ou num asno e, acompanhado pelos seus “acólitos”, andava pelas ruas e pelos campos em brincadeiras e travessuras, chegando mesmo a presidir as celebrações religiosas nas sés. Eram manifestações que consumavam jogos de inversão da realidade, em que o mundo era virado às avessas e o poder era transmitido, temporariamente, a loucos (recorde-se que, na Idade Média, as crianças eram equiparadas aos tolos ou aos doidos). Estas práticas eram correntes nas sés catedrais, que também eram escolas. Assim acontecia na Colegiada de Guimarães, que tinha estatuto de sé catedral, existindo entre os titulares do respectivo Cabido um cónego com a missão de ensinar os meninos do coro, o mestre-escola.
Parece claro que o enraizamento do costume que o arcebispo proibiu em 1675 era mais forte do que a autoridade eclesiástica. Se assim não fosse, não haveria necessidade de repetir a proibição, como aconteceu em 1705, num novo capítulo de visitação, desta vez assinada pelo D. Prior da Colegiada, D. João de Sousa, onde se lê:
É coisa muito indecente que, no dia da festa de S. Nicolau, que nesta vila se celebra pelos estudantes, andem os mesmos a cavalo com sobrepeliz e murça, fazendo gravíssima ofensa à autoridade do hábito canonical, e, sendo esta acção muito repugnante à veneração que se deve às vestiduras dos sacerdotes, pois se convertem em usos sumamente profanos, de que forem ordenadas para o culto divino, e detestando tão irreverente abuso, proibimos a todos os nossos súbditos, sob pena de excomunhão maior ipso facto incurrenda, que emprestem murças e sobrepelizes, nem consintam por algum modo, que se sirvam das suas para o dito efeito.

Festas de Inverno
Os documentos conhecidos dão consistência à inclusão das festas de S. Nicolau de Guimarães no quadro das festividades cíclicas de Inverno que se celebravam extensamente na Europa Medieval. Tinham uma feição carnavalesca, com as máscaras e a inversão da hierarquia social sempre presentes. Ocorrendo entre o dia de S. Nicolau (6 de Dezembro) e o dia dos Santos Inocentes (28 de Dezembro), assumem-se como sobrevivências de festas pré-cristãs, as saturnais.
As saturnais eram festas que aconteciam em Dezembro, evocativas dos tempos da abundância, em que ainda não havia distinção entre homens livres e escravos. O elemento mais singular destas manifestações era a inversão da ordem social. Enquanto decorria a festa, os escravos recuperavam a liberdade e um deles era eleito para governar temporariamente a cidade. A eleição de “obispillos” nas sés catedrais espanholas remete-nos para esta prática de inversão da ordem e da hierarquia social. Também aí se apagava, temporariamente, o poder instituído, que era entregue a um “parvo”, num ritual que tinha um evidente sentido lúdico, em que a ocultação de identidades através de máscaras favorecia a inversão de papéis sociais.
Estas festas resultavam num jogo complexo de transfiguração, subversão e celebração, consumado em tempos de interregno da normalidade vigente e de folia desbragada que, por regra, coincidiam com as férias dos estudantes no tempo mais frio do Inverno. Não faltam nas Festas Nicolinas elementos que as integram neste quadro.
Como vimos, não nos é possível dizer desde quando se presta culto profano a S. Nicolau em terras de Guimarães. No contrato de arrendamento dos dízimos de Urgezes de 1734, o rendeiro ficou obrigado a pagar aos estudantes a porção da renda que lhes era devida em dia de S. Nicolau, devendo fazê-lo “com toda a boa satisfação, como é uso e costume e foi sempre”. Por esta expressão, “foi sempre”, é-nos lícito concluir que estas festividades eram tão antigas que, na primeira metade do século XVIII, já não era possível precisar a sua origem.
Ainda sabemos muito pouco acerca das festas dos estudantes nos séculos XVII e XVIII, sendo certo que eles organizavam danças, folias e representações teatrais, nomeadamente para recolherem os meios que lhes permitiram erguer a capela e sustentar a Irmandade de S. Nicolau. Só a partir da segunda década do século XIX é que começamos a ter uma visão mais próxima destas festas, percebendo-se que já incorporavam boa parte dos elementos que hoje lhes conhecemos. Para esse conhecimento muito contribuem os pregões escritos por João Evangelista Morais Sarmento, os mais antigos que chegaram até nós (1817-1822). Naqueles tempos, já era erguida no Toural a bandeira que anunciava que a festa dos estudantes ia começar0. No dia de S. Nicolau, os estudantes recebiam e partilhavam a renda, invadiam as ruas, castigavam os intrusos com banhos de água gelada no chafariz do Toural, distribuíam as maçãs às damas, enchiam o velho burgo com as suas folias, as suas danças e os batimentos ritmados e ruidosos nos seus tambores, mascaravam-se, desafiavam as autoridades vigentes. Nos seus elementos mais marcantes, as festas já eram o que são hoje.
As festas a S. Nicolau giravam em torno da renda de Urgezes, que era retirada do dízimo que cabia à Colegiada. Nos sucessivos contratos de arrendamento que se conhecem, sempre se fez menção à obrigação do rendeiro de dar satisfação à parte da renda que cabia aos estudantes no dia do seu orago. Quando as dízimas foram extintas, na sequência da vitória dos liberais de D. Pedro IV em 1834, a Colegiada declarou-se desobrigada de cumprir com a posse dos estudantes, por resultar de uma renda que já não recebia, as festas terão sofrido um sério abalo. Os estudantes moveram uma acção contra o Cabido, exigindo a reposição da “imemorial posse de receberem do Reverendíssimo Cabido desta Colegiada em o dia seis de Dezembro pela renda que o mesmo possui em Santo Estêvão de Urgezes duas rasas de castanhas, dois almudes de vinho, dois centos de maçãs, meia rasa de nozes, meia de tremoços, e duas dúzias de palha painça”. Acção que venceriam, num primeiro momento, mas que, em definitivo, acabariam por perder.
Em 23 de Novembro de 1837, 39 vimaranenses aprovaram os estatutos da Associação Escolástica Vimaranense, com o fim de “promover a continuação, aumento e luzimento dos festejos do dia 6 de Dezembro, e pugnar por todos os foros e regalias que os Estudantes desta Vila desfrutam, desde tempo imemorial”. Aí se definia quem era estudante e quem gozava de foro escolástico: os que frequentavam qualquer aula pública ou Mestres particulares de latim, filosofia, retórica ou qualquer outra ciência; todos os eclesiásticos da vila de Guimarães; todos os indivíduos que aí frequentam ou frequentaram aulas da Universidade. Perderiam esse estatuto se não se mantivessem solteiros, se assentassem praça nos corpos da primeira linha, se se dedicassem ao comércio ou a qualquer profissão mecânica (trabalho com as mãos), se exercessem qualquer cargo público, civil ou militar, ou se tivessem abandonado os estudos antes de completarem seis meses de frequência.

Agonia e ressurgimento
No século XIX as festas aconteceram com alguma inconstância, até que, ao entrar no último quartel de oitocentos, parecia ter chegado a hora do seu fim. Durante cerca de vinte anos não se realizaram em Guimarães festas a S. Nicolau dignas desse nome e as tentativas de as fazer ressurgir não passaram de pálidos fogachos do seu antigo brilho. Mas em 1895 renasceram em todo o seu esplendor pelas mãos de um grupo de entusiastas, com Jerónimo Sampaio e Bráulio Caldas à cabeça. Ressurgiram com um figurino renovado e com um conjunto de números que já não se centrava apenas no dia 6 de Dezembro. No início do século XX, João de Meira inventou o nome por que hoje são conhecidas, Nicolinas. Sobreviveram à crise em que quase pereceram, na sequência da instauração da República, e à extinção do curso complementar do Liceu, entre 1928 e 1958. Passaram os tempos agitados que se seguiram ao 25 de Abril e, com a massificação e a unificação do ensino secundário, democratizaram-se e assumiram foros de manifestação multitudinária, onde o cortejo do pinheiro foi ganhando crescente protagonismo. Apesar das convulsões e mudanças que aconteceram ao longo do século XX, as Nicolinas chegaram aos nossos dias mantendo, no essencial, o figurino desenhado pelos restauradores de 1895.
Muito se tem discutido acerca da natureza da festa vimaranense a S. Nicolau. Apesar de se desenrolarem sob a invocação de um santo, as Nicolinas não têm carácter religioso. São festejos inequivocamente profanos, quase sem dimensão religiosa, sendo a excepção a participação dos estudantes nas novenas de Nossa Senhora da Conceição de Fora. Tal natureza, que foi sempre clara, só em tempos bem recentes se tornou um pouco mais difusa. Note-se que, desde o tempo em que temos informações mais consolidadas sobre as festas, a Irmandade de S. Nicolau não desempenhava nelas qualquer papel. Até ao início do século XX, a única intervenção directa da Irmandade de S. Nicolau no contexto das festas que conhecemos aconteceu por força de um acidente trágico aquando do levantamento do pinheiro em 1842. Durante a operação de levantamento, o gigante tombou, provocando a morte a um jovem aprendiz de alfaiate. Seria a irmandade a organizar o seu funeral. Quanto à organização da festa, foi sempre rigorosamente laica, estando a cargo da Comissão composta por estudantes, eleita a cada ano.
Uma outra questão que tem sido levantada recorrentemente, e que em alguns momentos tem sido fonte de desacertos e de conflitos, é a que se prende com a delimitação do direito de participação nas festas. O principal motivo da discussão resulta de não haver doutrina fixada sobre a matéria, a não ser a que consta do estatuto da Associação Escolástica de 1837. Originalmente, sendo dos estudantes de Guimarães, acabavam por ser, essencialmente, festas dos coreiros da Colegiada, já que, à falta de escolas, não haveria em Guimarães muitos mais estudantes. Ao longo do século XIX, as festas foram assumidas pelos estudantes de Latim que, grosso modo, era o que havia na cidade com natureza de ensino regular. A extinção da aula de latim do professor Venâncio, em Julho de 1869, explica a decadência das festas. O ressurgimento de 1895, não seria obra dos estudantes do pequeno seminário da Oliveira, criado em 1891, mas da “Academia Vimaranense”, ou seja, dos estudantes dos colégios então existentes. Mais tarde, com a instalação do seminário-liceu em Santa Clara, instituído em 1896, as festas passaram a ser assumidas pelos estudantes liceais.
Até ao último quartel do século XX, as festas foram organizadas pelos estudantes que frequentavam o ensino liceal em Guimarães, nomeadamente no Liceu Martins Sarmento, depois Liceu Nacional de Guimarães e, a seu tempo, no Colégio Egas Moniz. Com a unificação do ensino secundário, na sequência da reforma de Sottomayor Cardia, foi decretada a extinção dos Liceus e das Escolas Técnicas e, vencidas algumas resistências, as festas passaram a ser participadas pelos estudantes das diferentes escolas da cidade. A condição para a participação nas festas nunca foi a da frequência de a uma determinada escola pelos estudantes, mas a natureza do ensino que frequentavam (o que explica a exclusão dos alunos da antiga Escola Industrial). Com o modelo de ensino actualmente vigente, em que as escolas secundárias tanto oferecem cursos científico-humanísticos como profissionais, não faz sentido afirmar-se, como alguns dizem, que as festas são privilégio dos alunos de uma escola, já que será preciso fazer-se grande esforço para se perceber que o Liceu de Guimarães já não existe, por ter sido extinto em 1978, e que os antigos ensinos liceal e técnico fazem hoje parte da oferta educativa de todas as escolas secundárias. As Festas Nicolinas não são das escolas, de nenhuma escola, são dos estudantes de Guimarães.
Outra controvérsia que aflora na discussão da coisa Nicolina, resulta da dúvida sobre a existência de uma idade ou de um grau de ensino a partir do qual se pode participar nas festas. A resposta é simples: não há, nem nunca houve. Sendo, na origem, festas dos meninos do coro da Colegiada, nelas sempre participaram estudantes que frequentavam o equivalente aos actuais 3.º ciclo do ensino básico e ensino secundário. A única limitação que outrora existiu, embora não fosse regra escrita, era a condição do mínimo das três matrículas para se poder integrar a Comissão organizadora das festas. A proibição da participação dos estudantes do 3.º ciclo no cortejo das maçãzinhas, imposta inopinadamente em 2014, não tem, portanto, qualquer fundamento na tradição Nicolina. A este propósito, recorde-se que no período que decorreu entre 1928 e 1958 não funcionou em Guimarães o curso complementar do ensino liceal. Nessas três décadas, o Liceu de Guimarães apenas tinha oferta até ao 5.º ano, correspondente ao actual 9.º ano. Mas festas não se extinguiram. Antes pelo contrário, mantiveram-se sempre vivas graças ao entusiasmo e ao esforço dos seus jovens estudantes.

Mascaradas
A interpretação do significado do Pinheiro também tem gerado alguma discussão. Na origem, por si só, o pinheiro não significava grande coisa. Não era mais do que um mastro onde era colocada a bandeira escolástica, um painel de madeira onde estava pintada a imagem da deusa romana da sabedoria e da guerra, Minerva (aspecto que ajuda a consolidar a percepção da natureza profana da festa). É um pinheiro, mas poderia ter sido um carvalho, um choupo, um lódão ou um eucalipto, já que a dimensão simbólica estava na bandeira que se içava, não no mastro. Com o tempo, a bandeira foi perdendo importância (desapareceu mesmo, provavelmente nos meados da década de 1910), ganhando protagonismo o pinheiro, que tinha de ser
O pinheiro maior, o mastro mais gigante
Que ao longe e ao largo canta a festa do estudante
A tradição do pinheiro remete-nos para o velho costume, recorrente no nosso mundo rural, de erguer uma bandeira à entrada da terra, anunciando que ali se estava em festa. Mesmo em meio urbano, o Pinheiro das Nicolinas não era única manifestação deste tipo em Guimarães. Outras festas, como o S. João, se faziam anunciar na cidade de Guimarães com um pinheiro levantado ao céu.
Já o pregão, ou bando, era uma proclamação que servia para qualquer anúncio público, que saía à rua com um pequeno cortejo, ao som de tambores que chamavam o povo a reunir. Havia também um clarim, que soava para impor o silêncio para que se pudesse escutar a mensagem do pregoeiro. Este ritual repetia-se em vários locais da povoação. O bando municipal saía à rua com frequência, para fazer anúncios e proclamações das mais diversas naturezas (nascimentos, mortes e casamentos na família real, visitas oficiais, etc.). A última notícia que temos desta forma de publicitar data de 1929, anunciando uma visita presidencial a Guimarães. Não sabemos ao certo quando é que esta prática foi adoptada pelos estudantes de Guimarães para anunciarem os festejos do dia 6 de Dezembro. O pregão nicolino mais antigo que chegou até nós é de 1817 e é, como todos os que se lhe seguiram, mais do que um anúncio de folias, uma interessante peça literária e informativa. O pregoeiro, mascarado e em traje de gala, seguia num carro puxado por cavalos, vistosamente ornado, acompanhado por estudantes mascarados, a pé ou a cavalo. Com o tempo, o acompanhamento ficou limitado a bombas e caixas, desaparecendo o clarim.
Uma outra questão que cumpre aclarar é a que respeita à utilização de máscaras pelos estudantes. A máscara está no cerne da tradição das festas. Aliás, as festas a S. Nicolau eram uma mascarada, ou seja, uma manifestação de estudantes que ocultavam as suas identidades atrás de máscaras. O dia 6 de Dezembro correspondia à abertura das festividades do Inverno, inserindo-se num ciclo eminentemente carnavalesco, que se fechará com a entrada na Quaresma. Ao longo do tempo, a máscara foi perdendo a sua importância enquanto elemento de ocultação da identidade, acabando como mero adereço dos membros da comissão no dia do pregão, já não sendo mais do que uma reminiscência dos tempos em que os estudantes protagonizavam brincadeiras e tropelias a coberto da impunidade que a ocultação da identidade pela máscara assegurava. E a importância da máscara era de tal modo assumida que, mesmo quando o seu uso era reprimido pelas autoridades públicas, os estudantes não hesitavam em contrariar as proibições, arriscando a prisão.
Há uma justificação recorrente para a utilização de máscara pelo pregoeiro nicolino, que justifica a ocultação da identidade com uma atitude de desafio à censura vigente, afirmando o direito à liberdade de expressão. Mas esta explicação choca com a realidade. Regra geral, em tempos de ditadura, os pregões não eram especialmente subversivos e a máscara, mesmo que permitisse esconder por completo as feições do pregoeiro, de nada adiantava para ocultar a sua identidade, uma vez que ela estava publicada nas versões impressas do pregão que eram distribuídas aquando da sua leitura.

Damas e cavaleiros
Importa também perceber o significado do cortejo das maçãzinhas. Na sua origem, trata-se de um jogo de galanteio e de partilha, em que os estudantes distribuíam a “renda” de Urgezes. Como se percebe, o cortejo e a entrega das maçãs eram, no passado, algo diferentes daquilo que são hoje. Eram, desde logo, bem mais espectaculares. Os estudantes vinham, desde Urgezes, a cavalo (os mais novos) ou em carros (os outros). Em chegando ao Toural, andavam em volta do pinheiro, em preito de homenagem a Minerva. Depois, dispersavam-se pela cidade, entregando as maçãs espetadas nas pontas das suas lanças, enfeitadas com fitas coloridas, às damas que as aguardavam nas janelas e varandas das suas casas. Não havia, como se percebe, um local fixo onde elas se concentravam à espera dos cavaleiros, que distribuíam as maçãs sem desmontarem dos cavalos ou dos carros que os transportavam.
As danças de S. Nicolau são, nos dias de hoje, um dos espectáculos da agenda cultural de Guimarães que despertam mais interesse. No entanto, na sua origem, não estavam confinadas ao palco de um teatro, sendo espectáculos de rua que, por regra, animavam as festas religiosas e as celebrações públicas, confundindo-se com as folias e as comédias.
Em Guimarães, eram particularmente notáveis as danças e folias que acompanhavam a procissão do Corpo de Deus, nomeadamente a dança do rei David, a dança da Judenga, a dança da Mourisca, a dança da pela, a dança dos instrumentos, a dança das ciganas, a dança dos azeiteiros, a dança dos tendeiros (dança de fitas), a dança dos linheiros, a dança das pescadeiras (peixeiras), a dança dos mercadores do pano do linho ou a folia das moças. Aliás, como já se disse, foi com danças e comédias que a irmandade de S. Nicolau financiou a construção da capela do seu padroeiro. As danças de S. Nicolau integram-se neste género de manifestações, tendo origem em sátiras animadas e ruidosas que os estudantes representavam pelas ruas da cidade no dia 6 de Dezembro, antes da distribuição das maçãs. Eram o número mais forte e mais emblemático das festas.
As representações aconteciam nas ruas e também podiam ser levadas à cena em algumas casas. A partir de meados do século XIX, começaram a ser representadas também no teatro D. Afonso Henriques, mas continuaram a sair à rua no cortejo da entrega das maçãs, perdendo aí muita da sua antiga graça. Os carros alegóricos que nos tempos que correm saem às ruas da cidade, aquando da entrega das maçãs, são uma pálida imagem daquele que foi o número mais emblemático e mais esperado das festas a S. Nicolau em Guimarães.
Dos números do programa actual das Festas Nicolinas, a roubalheira é o de incorporação mais recente. Introduzida na restauração das festas em 1895,  cedo se tornou em foco de controvérsia. Mas não lhe faltam raízes na cultura popular minhota, resultando da adaptação em meio urbano de uma antiga tradição mais própria do meio rural, que acontecia por altura das festas dos santos populares, em especial duranta a festa do S. Pedro, assinalada, em terras próximas da cidade de Guimarães, como o dia dos atrancamentos. Por essas aldeias afora, na manhã de 29 de Junho, era costume os caminhos aparecerem atrancados com alfaias agrícolas, vasos, utensílios e animais domésticos, desviados dos seus lugares habituais por bandos de rapazes. A roubalheira nicolina adapta e replica esta velha usança.

Manifestação de virilidade?
Do aparato do vasto corpo interpretativo do significado das Nicolinas que tem sido produzido nas últimas décadas, têm ganho especial relevo as leituras que associam as festas a um agregado de manifestações de virilidade dos rapazes de Guimarães. Eis-nos perante matéria assaz curiosa, que tem alimentado discussões muito pitorescas, coloridas e algo apimentadas. É certo que existem, nas festas, alguns elementos que se prestam a uma associação simbólica muito literal de natureza sexual, eminentemente fálica. O pinheiro, um enorme pau (o maior da região) majestosamente erecto, tem conotações óbvias, agiganta-se sugestivamente na sua dimensão de putativo totem fálico quando se invoca o nome científico da árvore que lhe deu origem, pinus pinaster; a baqueta que o estudantes empunham é um objecto com uma configuração que facilmente a associa ao órgão sexual masculino; o entusiasmo com que se sangram e rebentam as peles dos bombos sugere uma representação, mais ou menos óbvia, da desfloração feminina...
Acontece que a generalidade deste género de associações é de formulação e de verbalização muito recente, remetendo-nos para aqueles dias em que estava muito viva a controvérsia a participação das raparigas nas festas, para além da sua função passiva no dia das maçãzinhas. Se as festas eram uma espécie de ritual de passagem associado ao género masculino, correspondendo a um momento em que os rapazes afirmavam simbólica e publicamente a sua pujante virilidade, que sentido poderia fazer a abertura à participação ao elemento feminino, que necessariamente incorreria na classificação de contra-natura? Suspeitamos que a coincidência temporal do advento destas explicações de natureza freudiana com a discussão acerca da participação das raparigas nas festas não será mera coincidência.
Por mais que estas interpretações possam ser apelativas e aparentemente literais, não nos parece que o simbolismo do pinheiro vá além de representar a bandeira que apregoa aos quatro elementos que os estudantes de Guimarães estão em festa, que a baqueta não seja mais do que um pedaço de madeira torneada usado para percutir na pele do bombos e que, se se sangram os bombos e se lhes rebentam as peles, será apenas por falta de jeito dos seus tocadores...
Em aqui chegando, percebemos que as festas de Guimarães a S. Nicolau são um caso singular de sobrevivência e vitalidade. Tendo surgido em tempos em que brotavam por toda a Europa as festas de Dezembro, de feição intrinsecamente carnavalesca, associadas à criança, aos estudantes e ao Inverno, lograram, mais do que sobreviver, viver até pleno século XXI, continuando a dar mostras de uma vitalidade que teima em não esmorecer. Como se explica tal fenómeno? Acima de tudo por não se terem deixado cristalizar, adaptando-se ao tempo e às transformações, mantendo uma coerência e uma consistência sem paralelo e sobrevivendo às mudanças dos séculos, das mentalidades, da organização social, dos sistemas, dos regimes, dos governos, das escolas e dos estudantes, ao mesmo tempo que densificavam as suas dimensões simbólicas e preenchiam a sua galeria de patronos, percursores e heróis. S. Nicolau e Minerva, mas também os restauradores Jerónimo Sampaio e Bráulio Caldas, João de Meira, o inventor do nome por que hoje conhecemos as festas e o seu primeiro historiador, a Senhora Aninhas, a mãe protectora dos estudantes, ou, mais recentemente, Hélder Rocha, o nicolino-mor, símbolo de gerações de estudantes particularmente jovens que não deixaram que a tradição se extinguisse.
Há um outro lado deste processo de sobrevivência que não temos visto referido e que nos parece interessante. Ao longo do tempo, as Festas Nicolinas foram incorporando manifestações que eram comuns nas vivências públicas e nas festas populares da nossa região: os anúncios públicos de viva voz, os bandos ou pregões, as bandeiras anunciadoras das festas, as danças e folias, os roubos rituais. Práticas tradicionais, já desaparecidas da generalidade das nossas festas, mas que se mantêm vivas nas Nicolinas. Porque estas festas, respeitando a tradição, sempre souberam ser do seu tempo, em cada tempo.
Enquanto em Guimarães houver um Estudante
Com força para tocar, com alma, num zabumba,
A Festa viverá, altiva e triunfante,
E ninguém poderá acompanhá-la à tumba!

Pregão de 1905 (João de Meira)

[Texto publicado no número de Dezembro de 2015 da revista Mais Guimarães]
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6 de dezembro de 2015

As maçãs dos estudantes



É posse, é obrigação dar-vos as maçãzinhas.
Esses pomos de amor, perfeitos, coradinhas.
(Bráulio Caldas, Bando Escolástico de 1895)


Nos últimos dias, tem-se falado de maçãs em Guimarães. E hoje é o dia do cortejo da entrega das maçãs que ocupa o lugar culminante nas festas que os estudantes vimaranenses dedicam, há séculos, ao seu patrono S. Nicolau. Na sexta-feira realizou-se uma interessante conferência de Raul Rodrigues, professor da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima (Instituto Politécnico de Viana do Castelo) sobre o tema: Maçãs do Minho: resgatando um património perdido. Hoje mesmo foi inaugurado na Horta Pedagógica de Guimarães um Pomar das Maçãzinhas. Ambas as iniciativas aparecem explicitamente associadas à tradição Nicolina e ao seu “património vegetal”, tendo subentendida: entre tantas espécies de maçãs (o professor Raul Rodrigues já coleccionou um cento de variedades diferentes de “maçãs do Minho” e, ao que se percebe, a sua colecção ainda não estará completa.
Pelo que leio na notícia colocada no site da Câmara Municipal de Guimarães onde se anuncia a plantação das primeiras macieiras no Pomar das Maçãzinhas, haverá alguma inclinação para se assumir a maçã da variedade porta-da-loja como estando “tradicionalmente associada às Festas Nicolinas e às Maçãzinhas” e eu temo que poderei ter tido alguma responsabilidade em induzir alguém em erro quando, aqui há dias, no lançamento do magnífico livro “Guimarães Top Secret” de Samuel Silva e José Caldeira, a uma pergunta sobre quais seriam as maçãs das Nicolinas, eu respondi algo do género: isso não é segredo, pode ser a maçã porta-da-loja, mas há um segredo bem escondido dentro do género, o das “deliciosas ameixas” de Guimarães, que foram um dos principais produtos de exportação da cidade no século XIX, mas de que se perdeu por completo o rasto. Se me expressei mal e induzi alguém em erro, repetindo um erro que tenho escutado recorrentemente, aqui me penitencio e afirmo, com clareza, que não tenho nenhum argumento que possa sustentar que a maçã que tradicionalmente é entregue pelos estudantes nas pontas das suas lanças, a cada 6 de Dezembro, seja da variedade porta-da-loja ou de qualquer outra variedade específica.
Dos documentos que conheço, apenas posso dizer que as maçãs dos estudantes são perfeitas, redondinhas, formosas, mimosas, rubras, na cor rivais do rosto das raparigas, rosadas, da cor da rosa, lindas, rubras, vermelhas, rubicundas, pequeninas. E também podiam ser menos lisas, enrugadas mesmo, e descoradas, sendo estas destinadas às criadinhas de sala e à “governante austera e dura”.
A mais antiga referência às maçãs da festa de S. Nicolau está nos contratos de arrendamento do dízimo de Urgezes, em que o rendeiro ficava que com a de “dar em cada dia de S. Nicolau de cada um ano aos Estudantes que forem à dita freguesia na forma de seu costume, 2 alqueires de castanhas assadas, meio alqueire de nozes, meio alqueire de tremoços, 200 maçãs, 2 almudes de vinho e duas dúzias de palha de argola (ou painça)”.
Como se vê, da obrigação atribuída ao rendeiro não consta nenhuma referência à qualidade de maçã a entregar, mas apenas ao número de frutos, o que, estou certo, ajudará a explicar a tradição de serem pequenas as maçãs dos estudantes. Se o contrato apenas referia o número de maçãs a entregar, nada dizendo quanto ao seu peso ou tamanho, é compreensível que o rendeiro escolhesse os frutos mais pequenos e não os mais avantajados.
Nos textos que chegaram até nós, dos que as festas foram produzindo ao longo dos últimos dois séculos, não faltam referências às maçãs, que são sempre descritas como vermelhas, redondas e pequenas. As únicas referências a tipos de maçãs que até hoje encontrámos aparecem no pregão de 1846, escrito por José Nepomuceno da Silva Ribeiro, onde, a dado passo, se lê:

Amanhã só pertence ao estudante
Das damas ofertar à mais galante,
A essa a quem se esmerou a natureza,
Loura castanha, a bela camoesa,
Tocar-lhe a mão nevada e à voz de amor
De alma e vida ficar-lhe devedor.

E no pregão de 1864, de que foi autor o padre António José Ferreira Caldas, onde se lê:

Verás grupos de ledos estudantes
Assoberbar fogosos rocinantes,
E formando magnífico cortejo
Dar faustoso começo ao seu festejo,
Oferecerão às damas, em fineza,
A nacarada e bela camoesa,
O pomo sempre tido em mor valia,
Que, em mimos, ricas jóias desafia,
E a mente de fecundos literatos
Muitas vezes tem posto em duros tratos.


Assim sendo, ficamos com duas hipóteses: ou as maçãs dos estudantes de Guimarães são apenas vermelhas, redondas e pequenas, sem distinção de variedade, ou são maçãs camoesas. Eu inclino-me para a primeira hipótese.
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12 de outubro de 2015

Os emblemas do Vitória



Os três emblemas do Vitória: à esquerda, o original desenhado por Mário Cardoso; ao centro, a versão "coroada" da década de 1950; à direita, o emblema actual, com D. Afonso Henriques redesenhado e sem o V na sigla.

As camisolas dos jogadores do Vitória Sport Clube dos primeiros anos ostentavam como emblema um anagrama com a sigla VSC ou simplesmente a letra V. O primeiro emblema do Vitória Sport Clube, propriamente dito, distinguia-se do actual pela posição de D. Afonso Henriques (aparece a olhar de frente) e pela sigla inscrita do lado direito, sob fundo branco. Não conseguimos fixar ao certo quando foi criado, podendo datar-se o seu aparecimento dos primeiros anos da década de 1930. Em 1972, aquando da celebração do cinquentenário vitoriano, foi revelado que o seu autor era o arqueólogo Coronel Mário Cardoso, durante várias décadas presidente da Sociedade Martins Sarmento, que explicou a sua criação:
com a sugestão das palavras Vitória e Guimarães vinha logo ao pensamento o fundador da nacionalidade Afonso Henriques, “ex-libris” de Guimarães, em atitude serena mas destemida da imagem que o grande estatuário Soares dos Reis modelou. Acerca das cores preta e branca parece que os fundadores do clube já pressentiam o que essas cores simbólicas viriam a significar, a admissão no clube de todos sem distinção que nele se quisessem associar tanto africanos de cor como os brancos europeus."
Coronel Mário Cardoso
Na década de 1950, o emblema passou a ser encimado por uma coroa formada por panos de muralha e torres ameadas. O emblema actualmente utilizado apresenta a imagem da estátua de D. Afonso Henriques redesenhada, tendo caído a coroa amuralhada, da versão de meados do século XX, e a letra V da sigla, já presente na versão original de Mário Cardoso.
(As fotografias do primeiro e do segundo emblema foram gentilmente disponibilizadas por Nuno Rodrigues e Torcato Ribeiro, respectivamente, a quem agradeço).



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22 de setembro de 2015

Aqui nasceu o Vitória Sport Club

A Chapelaria Macedo, onde em 1922 nasceu o Vitória Sport Clube, situava-se no local assinalado, correspondente às duas primeiras portas do actual Café Milenário.

As fontes e os testemunhos disponíveis não deixam margens para grandes dúvidas quanto ao local de nascimento do Vitória Sport Clube. O clube foi fundado na loja do seu primeiro presidente, António Macedo Guimarães, a Chapelaria Macedo, com porta aberta em parte do edifício actualmente ocupado pelo Café Milenário, ali bem perto da Torre da Alfândega, onde está afixada a inscrição “Aqui nasceu Portugal”. Já quanto à data, a situação é mais problemática. Não se ignora que está oficialmente assumido o dia 22 de Setembro de 1922, mas até hoje não encontrámos nenhum documento, testemunho ou indício que permita confirmar essa data.

No passado, o Vitória não tinha por tradição celebrar os seu aniversários. Pelos programas das festas com que se assinalaram as bodas de prata, em 1947, e as bodas de ouro, em 1972, percebemos que existia uma ideia quando à altura em que o clube foi fundado, mas não quanto ao dia em que aconteceu. No primeiro caso, os actos festivos decorreram de 11 a 20 de Outubro, no segundo entre 30 de Setembro e 16 de Outubro. Em 1962 assinalaram-se os 40 anos durante o mês de Setembro. Desde então, até 1980, temos notícia de celebrações em seis anos diferentes. Aconteceram sempre em Outubro, mas sem data certa. É manifesto que naquelas alturas não havia informação que permitisse precisar uma data. Aliás, naqueles tempos persistiam muitas lacunas no conhecimento da história dos primeiros anos do Vitória, que podemos ilustrar com um exemplo retirado das comemorações de 1962: o programa que então se cumpriu incluiu uma cerimónia junto à sepultura de Afonso da Costa Guimarães, que apareceu identificado erroneamente como o primeiro presidente da Direcção (foi o segundo).

Se nas décadas de 1940, 1960 ou 1970 não se guardava a memória da fundação do Vitória, é pouco plausível que alguém a recordasse depois, pelo que haverá que procurar para trás. Da informação disponível, apenas tinha alguma solidez a indicação de que a fundação teria acontecido na tertúlia que António Macedo Guimarães costumava reunir na sua loja em dia de descanso. Portanto, o Vitória terá nascido num domingo ou num feriado.
Cartoon de Miguel Salazar, sobre as incertezas da data de fundação do Vitória Sport Clube.

Recuando no tempo, sabemos que em 1934, quando o Vitória recuperava vitalidade e ressurgia de um longo período de hibernação que pareceu prenunciar a sua extinção, não faltaram motivos para celebrar, até porque o clube acabava de conquistar o seu primeiro título de campeão distrital. Houve então comemorações do XII aniversário, com actos festivos que aconteceram nos dia 21 e 23 de Setembro (note-se que nada houve no dia 22). Um jogo entre o Vitória e o Galitos de Aveiro (5-0) encerrou os festejos. No programa divulgado pela imprensa, afirmava-se que naquele domingo, 23 de Setembro de 1934, passavam doze anos sobre o dia em que o Vitória iniciou a sua vida. Consultando o calendário, percebe-se que em 1922 aquele dia calhou num sábado, o que torna muito pouco plausível a hipótese de o Vitória ter nascido nesse dia na Chapelaria Macedo. Porque sábado era dia de feira, em que as gentes das freguesias vinham à cidade, a comprar e a vender. E dia de feira era dia de trabalho acrescido nas lojas, incluindo as chapelarias. Basta olhar para uma fotografia dos anos vinte do século passado para se perceber que os chapéus eram artigos com muita saída…

No ano anterior, a direcção do Vitória assinalara o aniversário, com a inauguração da nova sede do clube no Toural, por cima do então Café Oriental, e com um jogo de futebol contra o Sport Club de Ponte do Lima, que o Vitória venceu por 3-2. Aconteceu no dia 8 de Outubro de 1933.
Será preciso recuar até 1924 para encontrarmos a primeira vez em que o Vitória Sport Club comemorou o seu aniversário. A informação aparece em quatro linhas do jornal A Razão, de 28 de Setembro desse ano, onde se lê:

Na Penha realiza-se, no próximo domingo, um jantar de confraternização para comemorar o 2.º aniversário da fundação do “Vitória Sport Club” com um jantar de confraternização na Penha, no dia 5 de Outubro.

Como, naquela altura, entre os dirigentes do clube ainda estavam os que o fundaram e sendo certo que ninguém conheceria melhor do que eles a data da fundação, fazemos fé, à falta de certidão de nascimento, no dia 5 de Outubro de 1922 como dia da criação do Vitória Sport Clube. É certo que foi a uma quinta-feira e não a um domingo. Mas ninguém ignorará que o 5 de Outubro era feriado, o que vem a dar no mesmo: foi dia santo na loja do senhor Macedo.

Aqui chegados, temos duas datas possíveis: 23 de Setembro, informação de 1934, e 5 de Outubro, indicação de 1924. Tendo como certa a informação, universalmente aceite, de que o Vitória foi fundado pelo grupo da Chapelaria Macedo, 23 de Setembro, pelo que se viu, será data a descartar, por pouco verosímil. Fica a sobrar 5 de Outubro, por ser feriado, por ser a informação com origem temporal mais próxima da data do acontecimento e, pormenor não de somenos, por ter sido o dia em que os fundadores do clube assinalaram a efeméride, em 1924. Além do mais, esta hipótese encaixa na tradição recorrente dos festejos vitorianos em Outubro (ver quadro).
Dias em que se assinalaram os aniversários do Vitória, entre 1924 e 1980. Em 11 anos identificados, apenas em dois os actos festivos aconteceram em Setembro (1934 e 1962 – em 1972 iniciaram-se no último dia de Setembro e estenderam-se até 16 de Outubro).

Há uma outra possibilidade, que se nos afigura a mais provável: a de que o processo de criação do Vitória teria resultado de uma ideia que germinou, cresceu e frutificou entre o final do Verão e o início do Outono de 1922, sem que seja possível fixar uma data de fundação precisa. Ou seja, a confirmar-se esta incerta certeza, sabemos quando nasceu o Vitória, mas não sabemos, nem saberemos nunca, o dia do seu nascimento.

Aqui chegados, fica por resolver o problema da efeméride. Em que dia é que os vitorianos devem festejar o aniversário do seu clube? Na ausência de data segura, haverá que encontrar um momento que se imponha pelo seu simbolismo. A não ser que se demonstre que foi noutro dia, somos de opinião de que 5 de Outubro de 1922 deveria ser assumido como dia da fundação do Vitória Sport Clube, porque foi esse o dia em que os fundadores celebraram a fundação.

De qualquer modo, independentemente do pormenor da data, já muito tarda o dia em que será afixada na frontaria do edifício da antiga Chapelaria Macedo uma inscrição singela que assinale o acontecimento:

AQUI NASCEU O VITÓRIA.


[Texto inicialmente publicado na edição de Setembro da revista "Mais Guimarães"]
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O Vitória, no tempo do foot-ball (1922-1927)


O texto que se segue resulta de mais um desafio de Miguel Salazar, que chegou em forma de pergunta: “Consegue encontrar alguma perspectiva da fundação do Vitória que lhe pareça interessante?” O desafio era o de escrever um artigo que, ilustrado com um dos seus magníficos cartoons, marcasse o aniversário do Vitória, que se celebra a 22 de Setembro. Respondi que talvez, que sim, que ia ver, mas confesso que não estava muito virado para aí, já que o futebol nunca foi a minha praia. Fui ver e, quando lhe respondi, disse-lhe que tinha material não para um, mas para dois artigos. O primeiro, que agora reproduzo aqui, foi publicado na revista “Mais Guimarães” de Setembro e cobre o período 1922-1927. O segundo, referente aos anos de 1927 a 1932, está a acabar de ser escrito e será publicado em Outubro na mesma revista.


O Vitória, no tempo do foot-ball
(1922-1927)

Se fosse possível imaginar a relevância que o futebol viria ter na sociedade contemporânea, quando em Guimarães se começaram a dar os primeiros pontapés na bola, os pioneiros teriam tratado de preservar as memórias desses dias. Mas não houve tal premonição, de onde resulta que os primórdios do futebol numa terra como Guimarães permanecessem na obscuridade. Hélder Rocha, primeiro, e Santos Simões, depois, escreveram que a introdução do futebol em Guimarães teria sido obra dos técnicos ingleses que se instalaram em Guimarães aquando do arranque industrial do final do século XIX. Faz todo o sentido. Porém, não conseguimos encontrar documentos que nos conduzam até esses tempos iniciais. As mais antigas referências documentadas ao futebol em Guimarães que se conhecem são já da segunda década do século XX.

Por aqueles tempos, o futebol andava longe de ser um desporto popular entre os vimaranenses. Essa condição estava então reservada para modalidades como o tiro aos pombos, as corridas de cavalos, o pedestrianismo (marchas atléticas) e, em primeiro lugar o ciclismo. O foot-ball association, pela sua dimensão colectiva, era considerado demasiado complexo (no primeiro número da revista Os Sports Ilustrados, de Junho de 1910, avisava-se que o foot-ball era jogo dificílimo). A década de 1910 constituirá um período de aprendizagem em que as regras do pontapé na bola vão sendo descodificadas e o futebol se vai afirmando como uma modalidade desportiva que mobiliza estratégia, técnica, arte e manha. Este processo de aprendizagem e maturação estendeu-se até ao início da década de 1920, tempo em que os clubes de futebol começaram a brotar por todo o lado, como cogumelos. Assim foi também em Guimarães.

Naqueles dias, o futebol estava ainda em fase de enraizamento em Portugal. À luz das mentalidade conservadora da época, era coisa de rapazes. Não muito recomendável a gente séria, portanto. Nos jornais, ocupava, quando ocupava, escassas linhas. A terminologia específica do jogo ainda não encontrara tradução em português: team, corner, penalty, shoot (de onde se aportuguesou o verbo shootar) eram expressões correntes. O objectivo era marcar goals, o resultado era o score. O jogo chamava-se foot-ball (a palavra portuguesa, futebol, seria consagrada na década de 1930). As equipas organizavam-se num sistema rígido: um keeper, dois backs, três halfs e cinco forwards. Jogavam em 2-3-5, diríamos hoje. Não tinham entraineur: as funções de treinador eram desempenhadas dentro do campo pelo captain, por vezes com uma exuberância para lá do recomendável. Os jogos eram arbitrados por referees que, regra geral, eram afectos a uma das equipas em confronto. Não havia bandeirinhas, mas havia liners e não faltavam acusações de parcialidade dos juízes. Não havia lugar a substituições durante jogo, que tinha muito de confronto físico. Por regra, eram tidas por mais eficazes as equipas constituídas por jogadores fortes. Muitas vezes, os jogos não terminavam sem desacatos. Outras, nem sequer terminavam. E, aí, o público não regateava o seu contributo.

O futebol em Guimarães
A primeira referência documentada ao futebol em Guimarães aparece num anúncio datado de 12 de Março de 1913, mandado publicar nos jornais da terra pelo capitão do 2.º team do Foot-ball Grupo Vimaranense, a convocar os jogadores para um jogo com o 1.º team, que aconteceria no dia 16 daquele mês. Mas é seguro afirmar-se que em 1912 existiam já dois teams de foot-ball, compostos de alguns dos rapazes mais estimados desta terra, como testemunhará em 1926 o jornalista e dirigente desportivo Bernardino Faria Martins, na crónica desportiva no jornal Ecos de Guimarães, que assinava com o pseudónimo de Sérgio Vidal. Ao longo da década encontrámos referências esparsas a jogos de futebol no “Campo” da Atouguia, nomeadamente entre equipas de estudantes do Colégio Académico (que funcionava na Casa dos Coutos, à Misericórdia) e do Internato Municipal (que partilhava o convento de Santa Clara com o Liceu e a Escola Industrial). Estas escolas tinham várias equipas de futebol (no final de Março de 1914 o 3.º team do Internato Municipal levou de vencida o 2.º da Escola Académica). No final da década, existia em Guimarães o Sporting (ou Sport) Club Académico que, apesar da escassez de informação disponível, se presume formado por alunos do Liceu. Certo é que o futebol tinha muitos praticantes entre os estudantes liceais, tendo alguns deles dado contributos fundamentais para a afirmação do futebol em Guimarães.

Quando, na época de 1921-1922, arrancou o primeiro campeonato nacional, envolvendo apenas equipas das associações de futebol de Lisboa e do Porto, na imprensa vimaranense olhava-se em volta e percebia-se o atraso de Guimarães em matéria desportiva. Não havia um clube a que se pudesse dar esse nome, não existia um campo de jogos com um mínimo de condições para a prática de futebol de competição. O desporto continuava a ser olhado com desdém. Rapaziadas, rabujava-se. Todavia, por aqueles dias, já o futebol tinha conquistado as ruas e as praças da cidade e, pelos terrenos fronteiros ao cemitério da Atouguia, espalhavam-se vários campos de futebol com jogos simultâneos, como se percebe pelas queixas recorrentes nas páginas dos jornais da terra contra o garotio que jogava a bola nos terreiros e calçadas da cidade e contra o atentado à dignidade dos mortos e dos vivos resultante dos jogos nas imediações do cemitério. No entanto, num tempo em que em Portugal o futebol se ia transformando num espectáculo de massas, à imagem do que sucedia na Europa e na América daqueles dias, saltava aos olhos o atraso em que nessa matéria Guimarães se encontrava. Atraso que sobressaía ainda mais quando se percebiam os progressos que aconteciam em terras vizinhas, especialmente em Braga, onde em 1921 tinha sido fundado um clube, com o nome de Sporting e que equipava à Benfica, que se ia tornando hegemónico no distrito. Era preciso fazer alguma coisa.

Por esses dias, um grupo de rapazes disposto a retirar Guimarães da pressão de um indiferentismo imperdoável dos que alguma coisa podendo ser de útil, nada têm feito, lança um jornal com um programa de progresso e melhoramentos para a cidade. Era o Pro Vimarane que, logo no seu primeiro número, publicado na primeira quinzena de Junho de 1922, dizia ao que vinha, apresentando um conjunto de ideias para a modernização da cidade. Em matéria de desporto, partia duma constatação (não há, por esse país fora, cidade nem vila que não tenha o seu grupo desportivo) para uma pergunta: porque o não temos nós?

No seu terceiro número, o Pro Vimarane inovava na história da imprensa periódica vimaranense, ao criar uma secção desportiva, Sport, assinada por Sérgio Vidal. E logo ali se anunciava que um pequeno grupo de vontades da nossa terra, trabalha afincadamente na organização de um Club Desportivo, que abranja todos os possíveis ramos de Sport, para o que procura já um campo apropriado. O desafio lançado no primeiro número não ficara sem resposta.

Nasce o Vitória Sport Clube
Num tempo em que não havia rádio nem televisão e em que as notícias chegavam pelos jornais, as novidades sabiam-se e discutiam-se nas tertúlias informais que funcionavam nos cafés, nas lojas e até nas farmácias. No Toural, o lugar onde quase tudo se decidia em Guimarães, coexistiam várias dessas tertúlias, em geral vocacionadas para a discussões políticas. Uma delas era versada em futebol. Acontecia na Chapelaria Macedo, então de portas abertas no mesmo edifício onde hoje está o Café Milenário. O seu proprietário, António Macedo Guimarães, entusiasta e profundo conhecedor das artes do pontapé na bola, tinha-se tornado no mentor dos jovens que se interessavam por aquele desporto dificílimo. Conta-se que, em dias de loja fechada, domingos e feriados, muitas vezes à volta de petiscos, ali se reunia um grupo que conversava sobre futebol e escutava os ensinamentos do senhor Macedo. Diz quem tem memória para o dizer, que o berço do Victoria Sport Club foi a Chapelaria Macedo. O chapeleiro seria o seu primeiro presidente.

Não sabemos como foi constituída a primeira direcção ou comissão instaladora do Vitória, mas é sabido que cooperaram com António Macedo Guimarães no lançamento do clube o então alferes José Vieira Campos de Carvalho, Luís Filipe Gonçalves Coelho, António Emílio Pereira de Macedo, Luís Gonzaga Leite e Avelino Augusto de Araújo Dantas. A primeira notícia da existência do Vitória Sport Clube apareceu no jornal Ecos de Guimarães do dia 17 de Dezembro de 1917, que anunciava:


Realiza-se hoje, pelas 14 horas, no Campo da Atouguia, um “match” entre o “Vitória Sport Club de Guimarães” e o “Maçarico Sport Club” da Póvoa de Varzim que segundo se diz promete ser interessante.

Naquele domingo, a expectativa era grande. O público acorreu em grande número à Atouguia. Porém, em vez do anunciado Maçarico poveiro, apareceu uma selecção de jogadores de todos os clubes da Póvoa de Varzim, que o Ecos de Guimarães descreveria como muito estropiada. Poderia ser, mas venceu o jogo por 4-1.

Até ao mês de Abril de 1923, o Vitória disputaria quatro jogos, com o Académico Foot-Ball Club, de Guimarães, com a equipa do Regimento de Infantaria 20, com o Sporting Club de Braga, com uma Selecção Vimaranense. O saldo seria pouco animador: três derrotas, um empate.

A primeira vitória aconteceria no dia 27 de Maio de 1923. Para esse dia estava previsto um jogo com o Grupo Excursionista do Boavista Foot-ball Club, do Porto, que não compareceu. Em seu lugar, o Vitória recebeu o “Onze Vermelho” do Sporting de Braga e o resultado seria uma copioso 7-1. O clube de Guimarães apresentou-se com uma equipa formada por Mário; Pimentel e Pontes; António, Evaristo e Pereira; Costa, Belmiro, Artur, Adriano e Mendes Martins. Artur, que marcou cinco golos, foi considerado o melhor jogador em campo. Os restantes golos do Vitória saíram dos pés de Adriano. O árbitro foi o fundador do clube vimaranense, António Macedo Guimarães.

Ponte sem rio, sé sem bispo, Vitória sem campo…
Guimarães já tinha o clube que lhe faltava. Mas o Vitória não seria o único. Por aqueles dias, quase não havia mês em que não aparecesse um novo grupo desportivo: o grupo do RI 20, o Académico, a Escola Académica, o Colégio Académico, o União, o Alegria, o Atlético, o Vasco da Gama, os Caçadores das Taipas e, em Vizela, o Portuguesito, o Estrela, o Sport. Como dizem as nossas gentes, não há fome que não traga fartura.

Em Guimarães havia entusiasmo à volta do futebol, havia clubes, havia equipas, havia público entusiasta. Mas persistia uma dificuldade paralisante: faltava um recinto adequado à sua prática. O vasto terreiro fronteiro ao cemitério municipal, usado como campo de futebol há mais de uma década, não era seguramente o sítio mais propício para encontros ruidosos, festivos e, tantas vezes, turbulentos, como costumavam ser os desafios de futebol. Na imprensa, as queixas repetiam-se. Que deixassem dormir os mortos. O Campo do Salvador (hoje de S. Mamede), no Cano, chegou a ser aventado como alternativa, mas nunca passou de hipótese.

O jornal republicano A Razão, um dos que mais alto se ergueram em defesa da causa do desporto em Guimarães, avançou, num dos seus primeiros números, de 13 de Fevereiro de 1923, com uma ideia engenhosa:

Estão para breve as festas da cidade. Porque não serão elas abrilhantadas, como em quase toda a parte, com um concurso hípico? Não seria um divertimento interessantíssimo e que chamaria à nossa terra, muitos e muitos forasteiros? E o recinto onde se desse este concurso hípico, não se poderia facilmente transformar num belo campo de jogos?

A sugestão, que fazia todo o sentido, por se inspirar na tradição das antigas feiras de S. Gualter, especializadas em gado cavalar, seria assumida pela organização das Gualterianas desse ano. Para a sua concretização foi preparado um espaço adequado, situado ao cimo dos Palheiros, que homenagearia um distinto sportman vimaranense, o cavaleiro José Martins de Queirós Montenegro (Minotes), falecido em 1906. Do Hipódromo José Minotes, das Gualterinas de 1923, com as necessárias adaptações, nasceria o Campo de futebol do Vitória, empreendimento assumido pelo Capitão Fraga, por João Rodrigues Loureiro e por Alberto Teixeira Carneiro, o proprietário do terreno. A inauguração do Campo José Minotes, abrilhantada pela banda do RI 20, aconteceu no dia 27 de Janeiro de 1924, com um jogo entre o Vitória e o Sporting de Braga, com o pontapé de saída simbólico a ser dado por Júlia Jordão, que terminaria com uma vitória dos bracarenses por quatro bolas sem resposta.

Mas o Campo José Minotes teria vida curta. Na sua edição de 5 de Outubro de 1924, o Ecos de Guimarães anunciava:

Guimarães está outra vez sem campo de jogos.
As razões por que o seu proprietário se viu forçado a demolir as bancadas e vedação, são algo complicadas e portanto não queremos entrar em detalhes.

Novamente sem campo de jogos, a direcção do clube não baixaria os braços na procura duma solução. Designou-se um grupo de trabalho, procuraram-se apoios, encontraram-se financiadores, criaram-se as infra-estruturas. No dia 7 de Junho de 1925, a banda do RI 20 abrilhantaria novamente a inauguração de um campo de futebol, o Campo da Perdiz, belamente situado num dos pontos mais bonitos da cidade. O programa contou com dois jogos de futebol, um entre as segundas categorias do Vitória e do Famalicense, que terminou empatado (3-3), e outro entre as primeiras categorias dos mesmos clubes, de que saiu vencedor o Vitória (2-1). Estava resolvido o problema do recinto desportivo, mas outro iria surgir: a utilização do Campo da Perdiz cedo se revelou demasiado onerosa para os frágeis cofres do clube.

Da cisão à reunificação
Entretanto, no final de Junho de 1924, anunciara-se a criação de um novo clube, que projectava constituir-se como um grupo onde todos os ramos do sport tenham a sua prática. Nascia o Atlético Sport Clube, em resultado de uma cisão no Vitória Sport Clube, onde se tinham formado duas correntes com visões distintas quanto à vocação da agremiação: uma que apostava quase exclusivamente no desenvolvimento do futebol, outra mais ecléctica, que defendia que o clube deveria alargar a sua actividade a outras modalidades. O Atlético é obra desta última corrente. Durante a sua existência, que seria breve, privilegiaria outros desportos, como o ciclismo e o atletismo, a par do futebol.

As relações entre o Vitória e o Atlético seriam marcadas por uma rivalidade acirrada, onde não faltavam argumentos de carácter político: a certa altura, percebe-se que o Vitória era identificado com os republicanos, enquanto o Atlético era conotado com os monárquicos. Curiosamente, quando estas supostas simpatias partidárias afloraram nos jornais, o Atlético era presidido por um republicano, Heitor da Silva Campos, enquanto que o Vitória tinha à sua frente um defensor da causa monárquica, Afonso da Costa Guimarães…

Para alguns, a rivalidade entre os dois clubes teria sido virtuosa: ao estimular a emulação e a competição entre ambos, teria dado um contributo significativo ao progresso do desporto em Guimarães. Mas o tempo fez com que se impusesse a ideia de que a competição não deveria ser travada dentro de portas, mas dirigir-se contra os adversários externos, começando a falar-se na fusão entre os dois clubes, que acontecerá no início de 1926. As assembleias gerais do Vitória, em 8 de Janeiro, e do Atlético, cinco dias depois, aprovaram a fusão dos dois clubes, agregando as mais-valias de cada um. O Vitória tinha campo de jogos, mas não tinha sede; o Atlético tinha sede, mas não campo de jogos. O novo clube teria sede e campo de jogos. Por breves momentos, chamou-se Foot-Ball Club de Guimarães, para depois assumir a designação de Sport Club de Guimarães, que manteria por escassos meses. O ano não terminaria sem que regressasse definitivamente à designação original: Vitória Sport Clube.

Dentro das quatro linhas
Do ponto de vista desportivo, os primeiros anos do Vitória Sport Clube estiveram longe de ser heróicos. É certo que, no cômputo geral, averbou menos derrotas do que vitórias, mas estas aconteciam, por regra, com equipas pouco competitivas. O saldo dos seus confrontos com clubes como o Braga ou o Famalicense era francamente negativo.

Em Outubro de 1923, anunciara-se que o Vitória tinha pedido a sua adesão à Associação de Futebol de Braga, fundada em 1922, com o propósito de participar no campeonato distrital. A primeira participação aconteceria na época de 1923-1924, edição em que todos os jogos decorreram em Braga, durante o mês de Novembro de 1923. A participação do representante de Guimarães seria atribulada. No primeiro desafio, contra o Sport Club de Braga, realizado no dia 4, o Vitória jogou com um elemento a menos porque, por equívoco, a equipa apenas tinha levado consigo dez equipamentos e o árbitro não permitiu que um jogador entrasse em campo sem estar uniformizado regulamentarmente. Venceram os de Braga, por 2-1. Uma semana depois, no segundo jogo, contra o Sporting de Braga, o Vitória seria derrotado por falta de comparência. O camião que transportava a equipa avariou a meio do caminho, ao chegar às Taipas. Ainda chegaria a Braga, mas a derrota já estava decretada pelo árbitro. A pedido do público, naquela tarde ainda se disputaria um jogo de exibição entre os dois clubes. Na terceira jornada, o Vitória jogou desfalcado contra o Triunfo de Barcelos, averbando terceira derrota, por 2-1. No ano seguinte, as coisas correriam mais de feição aos alvinegros de Guimarães, que alcançariam o 2.º lugar no campeonato distrital. Mas aqueles eram, e continuariam a ser, tempos de hegemonia do Sporting de Braga.

Bem melhor seria a prestação da equipa de infantis do Vitória, que se sagrou campeão distrital na sua segunda participação na competição, na época de 1926-1927. A finalíssima aconteceu a 23 de Janeiro de 1927, no Campo da Perdiz. Nesse jogo o Vitória alinhou com Teles; Claro e Firmino (cap.); Almeida, A. Freitas, Sousa; Branco, Virgílio, Ribeiro, Adelino e Ferreira. Segundo o cronista do Ecos de Guimarães, o jogo desenvolvido com energia e entusiasmo, prendeu a assistência, que seguia atenta as jogadas desenvolvidas. Triunfou o que devia triunfar: o Vitória, que dominou o adversário de princípio a fim, duma maneira nítida, que não deixou lugar a dúvidas. Um golo solitário marcado pelo half centro, A. Freitas, assegurou ao Vitória a sua primeira conquista.

Por aqueles dias, parecia que os ventos corriam de feição para que o Vitória passasse a lutar em pé de igualdade com o seu principal rival, o Sporting de Braga, disputando-lhe a supremacia distrital, até aí incontestada. A fusão com o Atlético conferia-lhe mais robustez, o campeonato conquistado pelos infantis acrescentava-lhe um suplemento de ânimo, de ambição e de confiança no futuro.



Porém, a história dos anos que se seguiram seria bem diferente. Entre 1927 e 1932, o Vitória Sport Clube atravessou o deserto.
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