26 de julho de 2014

Afonso Henriques, santo? (4)

Aparição de Cristo Crucificado a Afonso Henriques em Ourique (gravura da colecção da Sociedade Martins Sarmento)

O principal argumento para a presunção da santidade de Afonso Henriques é o do Milagre de Ourique, que serve para sustentar, em simultâneo, a aclamação do príncipe como rei de Portugal e a existência de Portugal e o seu destino imperial enquanto emanação da vontade divina. É certo que, na história do Homem, não faltam coincidências singulares, mas não me parece que seja obra do acaso que o dia, 25 de Julho, em que se assinala o nascimento de Afonso Henriques seja o mesmo em que se celebra a Batalha de Ourique.

Aqui fica a descrição da aparição de Cristo crucificado a Afonso Henriques na véspera da batalha e da batalha propriamente dita.

Mais à frente, iremos recordar a polémica que envolveu Alexandre Herculano e membros do clero, a propósito da Milagre de Ourique, na sequência da publicação do primeiro volume da História de Portugal.


[24 de Julho]
No Campo de Ourique (conhecido nas Histórias pelo caso que queremos referir) se viram neste dia, ano de 1139, dois Exércitos formados. Em um tremulavam as Cruzes, em outro as meias Luas. Daquele era General o nosso primeiro Rei Dom Afonso Henriques, então Infante ou Príncipe. Deste o era Ismário, poderosíssimo Rei entre os Mouros, acompanhado de quatro, também muito poderosos, além de outros, que o eram menos, todos da mesma Nação. O primeiro Exército se compunha apenas de treze mil combatentes. O segundo de mais de quatro centos mil. Esta grande diferença meteu em considerações ao nosso Príncipe e, aos seus, muito mais. Todos eram valorosos e destemidos mas, neste caso, receavam com razão o combate. Julgavam que entrar nele com forças tão desiguais, mais seria temeridade que valentia. Viam que naquelas poucas tropas se cifrava a defesa de Portugal e discorriam que seria imprudentíssimo arrojo expor à contingência de um sucesso a saúde pública. Confessavam ser justo que os milagres se estimem quando Deus os faz, porém não o obrar cegamente, na confiança de que Deus os faça. Em consequência destes discursos, vagava e invalecia entre os Soldados uma voz de que não convinha outra coisa senão que o Exército se retirasse a lugar seguro. Flutuava o nosso Príncipe em um mar de vários e encontrados pensamentos: de uma parte, não negava a evidência do perigo; por outra, fiava muito do seu valor e do valor daqueles poucos Portugueses e, sobretudo, da justiça da causa e da protecção do Céu, que sempre experimentara propício. Lidando com estes pensamentos, entrada já a noite, entrou na sua tenda. Não lhe deixaram os cuidados, como costumam, admitir descanso. Pegou de uma Bíblia, e abriu logo no Cap. 7.º do Livro dos Juízes, onde se refere a vitória que Gedeão alcançou de quatro Reis Madianitas rompendo e destroçando cento e trinta e cinco mil inimigos com só trezentos dos seus. Alegre com tão feliz encontro, levantou o coração ao Senhor dos Exércitos e, com ardentes e fervorosos suspiros, implorou a sua protecção. A este tempo adormeceu e logo começou a sonhar que via um velho de presença venerável, o qual lhe assegurava a vitória e lhe prometia que o Autor da vida se dignava de lhe aparecer crucificado naquela mesma noite. Eis que, no mesmo tempo, entra João Fernandes de Sousa, Fidalgo da sua Câmara, e lhe diz que ficava à porta um homem velho que pedia audiência e que mostrava trazer negócio importante. Entrou e referiu o mesmo que o Príncipe sonhara, acrescentando grandes promessas de futuras felicidades para o mesmo Príncipe e para os Reis seus sucessores, concluindo que, a certo sinal, saísse ao campo a lograr a maravilhosa visão que lhe estava prometida e, ditas estas palavras, se despediu. Ficou o venturoso Príncipe esperando, entre júbilos e alvoroços, o desejado final. No ponto que o ouviu, saiu ao campo e, levantando os olhos ao Céu, viu para a parte do Oriente um resplendor formosíssimo, o qual pouco a pouco se ia dilatando e fazendo maior. No meio dele, viu o salvífero sinal da Santa Cruz e, nela crucificado, o Redentor do Mundo, assistido de inumerável multidão de espíritos Angélicos. Prostrado por terra, se confessou indigno de tão singular e tão soberana mercê. Mas o Piedosíssimo Senhor o animou e consolou, dizendo que entrasse seguramente na batalha, na manhã seguinte, porque tinha certa e infalível a vitória. Que na mesma manhã o aclamariam Rei os Portugueses. Que aceitasse o Título, porque era disposição e vontade sua que ele fosse Rei de Portugal, Reino que a sua altíssima providência havia destinado para Império, para levar o seu Nome às partes mais remotas da terra. E que, em prova de que recebia o mesmo Reino debaixo da sua Protecção, era servido que ele e seus sucessores formassem as suas Armas das cinco chagas e trinta dinheiros, preço com que comprara a Redenção dos homens e com que fora comprado. Ditas estas palavras, desapareceu a celestial visão e o venturoso Príncipe voltou para os arraiais, cheio (como se deixa ver) de imponderável alegria e revestido de invencível fortaleza.
Padre Francisco de Santa Maria, Anno Historico, Diario portuguez - Noticia abreviada De pessoas grandes, e cousas notáveis de Portugal, Oficina de Domingos Gonçalves, Lisboa, 1744, pp. 398-400.

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[25 de Julho]
Favorecido Dom Afonso Henriques com a celestial visão de Cristo senhor nosso e confirmado na resolução de acometer com exército tão desigual os dos Reis Mouros, que tinha à vista no Campo de Ourique, como dissemos no dia precedente, amanheceu finalmente no ano de 1139 este ditoso e alegre dia, consagrado à festa do Apóstolo Santiago, primeiro Pregador da Fé em Portugal e singular Protector dos Católicos nas guerras contra os infiéis. Foi maior que todo o encarecimento o ânimo e alvoroço que se viu em todos os Portugueses. Eram todos os mesmos homens, mas parecia haverem entrado neles outros corações. Parecia que a luz da manhã havia desterrado, juntamente, dos Horizontes as trevas, dos corações os receios. Já não havia quem atendesse à desigualdade do número, todos esperavam o final da batalha com firme certeza da vitória. Tratou logo o valoroso Príncipe de ordenar os seus esquadrões e, ao mesmo tempo, sem persuasão alguma e com resolução universal, ao som de instrumentos marciais, entre vivas e aplausos, o aclamaram Rei. Três vezes repetiu o exército Português a mesma instância e aclamação. Pelo que, e muito mais pela Divina ordem que tinha, como já dissemos, não podia deixar de aceitar, como aceitou, aquele título Real, que depois lhe confirmou a Santa Sé Apostólica pelos Pontífices Inocêncio, Honório, Alexandre terceiros e Lúcio segundo.
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No mesmo dia e ano sobreditos e na mesma hora, depois de ser aclamado Dom Afonso Henriques Rei de Portugal, 0 estrondo alegre do nosso campo não deixou de meter em confusão o contrário e, usando de tão oportuna ocasião, do alvoroço dos seus e do terror dos inimigos, antes de fazer sinal de acometê-los, disse o novo Rei aos seus soldados:
Bons amigos e fiéis companheiros. Por especial providência do Altíssimo temos hoje diante de nós junto todo 0 poder dos infiéis que oprimem a nossa pátria em tantas partes dela, para que em uma só batalha poupemos os trabalhos e os perigos de muitas. Quer Deus que acabemos de uma vez com esses inimigos do seu nome. Sem dúvida nos há-de afligir, pois defendemos a sua causa. É este dia do Apóstolo Santiago, Patrono das Espanhas, de que Portugal é uma nobilíssima porção, e devemos confiar que fará muito particular empenho por enobrecer o seu dia com a nossa vitória. Inumerável é o exército que vemos, ou não acabamos de ver, pela extensão imensa com que inunda este largo campo. Mas, que importa, se temos da nossa parte 0 Senhor dos Exércitos, a quem é tão fácil vencer a muitos, como a poucos. Se somos instrumentos do seu poder, nada obsta a debilidade do instrumento se a mão é toda-poderosa. Eia, valorosos Portugueses, é tempo de investir e pelejar em defesa da Fé, da Lei, da pátria, da honra, da liberdade.
Ainda não havia acabado de dizer estas palavras, quando já as trombetas e caixas tocavam a atacar a batalha. Travou-se um duríssimo combate e um dos mais assinalados que aconteceram no mundo. Combatiam os nossos com valor denodado, resistiam os contrários com obstinada porfia. Esteve muitas horas contingente o sucesso, por vezes se renovou a peleja. O nosso Rei deu princípio à vitória, passando com a lança de parte a parte a El-Rei de Silves. A todos exortava com palavras, a todos precedia com estupendas acções. Com a espada na mão, fez tais extremos que podiam pôr em esquecimento os mais famosos que as histórias celebram. Cada golpe seu era um estrago fatal dos inimigos. Martim Moniz, que governava o lado direito, foi morto, quando obrava maravilhosas proezas, assim outros ilustres Capitães Portugueses, com que parecia irem-se melhorando os infiéis, reforçados com luzidas tropas Andaluzas, governadas por El-Rei de Badajoz, que puseram aos nossos em perigosíssimo aperto. Mas, concorrendo as alas de um e outro lado, se renovou temerosamente o conflito. Os nossos, ainda que poucos em número, excediam em ordem e em valor. Os Mouros vacilavam na sua própria multidão e começaram a revolver-se e a perder terra. Defendiam-se, mais constantes e obstinadas, as tropas que acompanhavam a El-Rei Ismário com um sobrinho seu, mancebo de alentados brios. Acudiu o nosso Rei àquela parte, como um raio, e, seguido de muitos nobres Cavaleiros, foram abrindo com as espadas um largo caminho entre os infiéis. Foi morto o sobrinho de Ismário e, vendo-se este em evidente perigo de ser cativo ou morto, se pôs em vergonhosa e precipitada fugida. Então, descaíram de ânimo os inimigos e já as nossas armas não achavam neles resistência. Vagavam sobre eles, sem reparo, os golpes. Uns caíam despedaçados, outros fugiam temerosos e se atropelavam mutuamente. Já os nossos cavalos não pisavam terra, senão corpos, ou mortos ou vivos ou palpitantes, nadando em seu próprio sangue, tão copioso que dois ribeiros vizinhos foram tingir de outra cor os rios Corbi e Terges e estes o célebre Guadiana. Sobre seis horas de obstinadíssimo combate, se declarou finalmente a vitória a favor dos Portugueses, e foi ela uma das mais insignes que lemos nos Anais da fama. Por ser entre exércitos tão desiguais, como eram treze mil combatentes contra mais de quatrocentos mil, ou seiscentos mil, como afirmam muitos Escritores, por ser de um Rei contra cinco, ou contra vinte, como querem alguns, por durar não menos de seis horas e porque nela teve sólido e seguro fundamento a gloriosa fábrica da Monarquia Portuguesa. No lugar de tão gloriosa vitória, na pequena Ermida que o Ermitão habitava, ainda que reduzida a melhor forma e consagrada às Chagas de Cristo crucificado, mandou El-Rei Dom Sebastião levantar uma Igreja no mesmo lugar, e gravar em um arco triunfal a seguinte elegante inscrição, feita pelo insigne Mestre André de Resende:

Hic contra Ismarium, quatuorque alios Sarracenorum Reges, inumeramque barbarorum multitudinem pugnaturus felix Alphonsus Henricus ab exercitu primus Lusitanae Rex appellatus est, & a Christo, qui ei Crucifixus apparuit; sad fortiter pugnandum [agendum?] commonitus copiis exiguit tantam hostium stragem edidit, ut Cobris, & Tergis fluviorum confluentes cruore inundarint. Ingentis, ac stupendae rei, ne in loco, ubi gesta est, per infrenquentiam obsolescerest Sebastianus primus, Lusitanae Rex, bellicae virtutis admirator, & maiorum suorum gloriae propagator, erecto titulo, memoriam renovavit


Padre Francisco de Santa Maria, Anno Historico, Diario portuguez - Noticia abreviada De pessoas grandes, e cousas notáveis de Portugal, Oficina de Domingos Gonçalves, Lisboa, 1744, pp. 404-407.
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25 de julho de 2014

Afonso Henriques, santo? (3)

 D. Afonso Henriques. Escultura em bronze de Soares dos Reis (pormenor), Guimarães,1887. Fotografia de Eduardo Brito para a exposição "Os Rostos de Afonso Henriques" (Sociedade Martins Sarmento, 2009)

[25 de Julho]
Dom Afonso Henriques, filho do Conde D. Henrique e de sua mulher a Rainha Dona Teresa, senhores de Portugal, nasceu na Vila de Guimarães neste dia, ano de 1109, e logo no princípio da vida participou favores do Céu, porque nascendo com um defeito natural, que o fazia inábil para os exercícios militares [único meio de conseguir a Coroa] seu aio, o famoso Egas Moniz, o levou a uma milagrosa imagem da Mãe de Deus, em cuja soberana protecção achou pronto remédio, e restituído à inteira perfeição da natureza, assistido de sobrenatural protecção, veio a ser um dos mais esclarecidos Príncipes, de quantos enobreceu a fama e eternizou a memória.

Padre Francisco de Santa Maria, Anno Historico, Diario portuguez - Noticia abreviada De pessoas grandes, e cousas notáveis de Portugal, Tomo II, Oficina de Domingos Gonçalves, Lisboa, 1744, pp. 403-404.

Segundo a tradição mais recorrente,  o filho do Conde D. Henrique e da Rainha D. Teresa nasceu no dia 25 de Julho de 1109. Baptizaram-no com o nome do avô materno, Afonso VI, rei de Leão e de Castela. Diz a lenda que Afonso Henriques nasceu tolhido das pernas, de que se livrou por intervenção sobrenatural. A sua condição de miraculado será um dos principais argumentos arrolados nos processos de canonização que seriam tentados séculos depois da sua morte. 

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15 de julho de 2014

Memórias da resistência e da liberdade


Acaba de ser lançado o livro Guimarães Daqui houve resistência, coordenado por César Machado, desenhado por Alexandra Xavier e ilustrado por Nuno Vieira. A edição é do Cineclube de Guimarães, com apoio da Câmara Municipal de Guimarães. O lançamento aconteceu no dia 11 de Julho, no Salão Nobre da ACIG. Como objecto, este livro é do melhor que tem sido feito por aí. Quanto ao conteúdo, composto por um conjunto de 25 longos depoimentos recolhidos e tratados pelo organizador, é surpreendente.

Quando César Machado me falou deste projecto pela primeira vez, há exactamente um ano, foi no final da apresentação o livro de Jerónimo Silva com memórias pessoais e alheias da antiga Escola do Godinho ou das dominicas, estava longe de antecipar o seu resultado final.
Na altura, tinha-se falado acerca da importância das memórias dos indivíduos enquanto componentes da memória colectiva e da falta de tradição memorialista em Guimarães, provavelmente a terra portuguesa onde se publicam mais livros de história local. Trata-se de uma reflexão que, há muito, venho fazendo com os meus botões e com os meus remorsos, que ressurgem sempre que desaparece do meio de nós alguém de quem seria fundamental recolher e preservar o testemunho da sua passagem pelo breve tempo de uma vida.
A memória histórica é produzida a partir de fontes de diferentes naturezas, que filtra, acumula, transmite e é analítica, crítica, precisa e racional. É constante, embora em permanente processo de acrescentamento e de reinterpretação. A memória colectiva, mesmo quando dirigida para acontecimentos remotos, é efémera e inconstante. Apaga, refaz e reescreve segundo o seu próprio arbítrio, em função do momento presente, da imaginação e do regresso doe reminiscências recalcadas. É mutável, em função do tempo e das circunstâncias. Ao contrário da memória histórica, não é rigorosa, é caprichosa. Ora desvenda, ora oculta. Vive em permanente processo de reciclagem.
As memórias não são retratos exactos da realidade vivida. São reconstruções singulares e pessoais formatadas pelos contextos, pelas mundividências, pelos preconceitos, pelas paixões de quem as rememora. Os mesmos factos passados, contados de memória por diferentes pessoas que os viveram ou testemunharam, não são necessariamente relatados da mesma maneira. Contadas pelos seus protagonistas, as memórias de qualquer confrontação, independentemente da sua natureza (uma escaramuça, uma batalha, uma guerra, um golpe de Estado ou uma revolução), são diferentes consoante o lado da barricada em que estiveram aqueles que as contam.
Em suma: um livro de memórias não é um livro de história, porque a história não se escreve exclusivamente a partir de um agregado de memórias individuais. Socorre-se de muitas outras fontes, de diferentes naturezas.
Guimarães Daqui houve resistência é um livro de memórias, onde estão inscritas  as memórias dos dias de hoje de um tempo que já já distante. Será também, um valioso documento histórico, fundamental para a compreensão da resistência ao fascismo e da construção da democracia em Portugal, que nos diz tanto sobre as experiências vividas pelos narradores como sobre o modo como vêem hoje aquilo que viveram há quatro, cinco ou mais décadas.
O que fica dito serve de prevenção para quem, a páginas tantas deste livro, como o autor destas linhas, acabará por dizer, em relação a este ou àquele facto: isto não foi assim. O que está neste livro são as memórias pessoais e intransmissíveis de quem as relata. Estas são as suas histórias. Fossem outros os narradores, outras seriam as histórias.

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Guimarães Daqui houve resistência passará, seguramente, a ser uma obra de referência para o estudo da história da resistência à ditadura e da construção da democracia em Portugal. Reúne vinte e cinco testemunhos de pessoas que, cada um a seu modo, lutaram pela liberdade e pela democracia, e que, cada uma à sua maneira, estão ligadas a Guimarães. No entanto, estes testemunhos não se encerram dentro dos velhos muros desta velha cidade. Aqui temos Guimarães, a região, o país, a Europa.
O seu conteúdo está resumido na nuvem de palavras que vai aí abaixo que reúne as 150 palavras com entoação política com mais ocorrências ao longo do o texto, inscritas em dimensões proporcionais ao número de vezes que foram escritas:
Esmiuçar este gráfico pode ser um exercício muito interessante. Pelo que lá está, mas também pelo que lá falta. Estão lá expressões óbvias, como Guimarães, 25 e Abril. Além de Guimarães, Coimbra, Porto, Braga, Lisboa, Fafe, Famalicão e Paris. Entre as personalidades, Santos Simões aparece claramente destacado (118 ocorrências), seguido por Zeca Afonso (107), Humberto Delgado (44), Álvaro Cunhal (41), Eduardo Ribeiro (38), Adriano Correia de Oliveira (32). Mário Soares (29 referências), já não aparece na nuvem. Das organizações políticas, o PCP é o que tem mais referências (227), seguido à distância pelo MRPP, (138), pela LUAR (69) e pela OCMLP (31). No entanto, o fascismo não está lá, o que é revelador do modo como o tempo tem um efeito amaciador sobre  as palavras.

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Os 25 testemunhos de Guimarães Daqui houve resistência atravessam o século XX desde a década de 1930. São histórias contadas na primeira pessoa onde se fala da resistência, das perseguições, da prisão, da tortura e do quotidiano dos dias de chumbo da ditadura fascista, da guerra e da emigração forçada. Mas também da alegria daquele amanhecer claro em Abril e da construção da democracia. São histórias de vida de um tempo em que Portugal era um paradoxo acantonado no extremo ocidental da Europa.

Eduardo Ribeiro (1926), uma das principais referências dos democratas de Braga, companheiro de todos os dias e de todas as lutas J. Santos Simões.

Padre Avelino Cardoso (1932), pároco de Ronfe, mentor do Movimento Operário Católico.

João Ribeiro (1934), sindicalista e militante político, principal figura da lista operária que ganhou as eleições do Sindicato Têxtil do Distrito de Braga, um dos grandes marcos da resistência em Guimarães.

Manuel Teixeira Júnior (1938), ourives, resistente clandestino, que conheceu as prisões políticas e a emigração.

Lurdes Mesquita, a Lurdinhas de Urgezes (1939), católica progressista e sindicalista.

Luís Caldas (1939), livreiro, responsável pela antiga Livraria Raul Brandão, ligada à oposição democrática.

José Casimiro Ribeiro (1940),desertor, emigrante clandestino em França, onde viveu o Maio de 68, militante da LUAR que estava preso em Caxias no dia 25 de Abril de 1974.

Rui Guimarães (1943), militar, Capitão de Abril.

António Mota Prego (1944), advogado, passou por Coimbra e pela Guerra Colonial na Guiné, responsável pela instalação do PS em Guimarães.

Alberto Martins (1945), advogado e actualmente deputado, presidiu à Associação Académica de Coimbra durante a crise de 1969.

António Vieira Mendes Henriques (1946), emigrante clandestino.

Nuno Padrão (1947), militar em Abril.

Tino Flores (1947), cantor, refractário, emigrante clandestino, militante político .

Fernando Ribeiro, o Ribeiro da Batoca (1947), dos Trofas (família de oposicionistas de Fafe), foi funcionário político do PCP durante o Verão Quente, ligado à experiência autogestionária da Fogo Posto.

Jaime Silva (1947), pintor, professor na Escola João de Meira em 1974, responsável por murais pintados por crianças.

José Machado (1948), desertor, emigrante clandestino, militante político, amigo de Emídio Guerreiro, ligado ao movimento associativa dos emigrantes.

Firmino Mendes (1949), militar até 24 de Abril de 1974, testemunha do 16 de Março.

Manuela Juncal (1949), militante política, no 25 vivia na clandestina em Brito.

Jorge Nascimento (1950), militar em Abril.

Jaime Marques (1952), um dos responsáveis pela viragem de 1973 no Sindicato Têxtil, militar em Abril.

Agostinho Araújo (1952), militar em Abril, tendo integrado a coluna do Capitão Salgueiro Maia.

Luís Mário (1952), militar em Abril.

Amadeu Santos (1953), militante político, iniciou o serviço militar no dia 24 de Abril de 1974.

António Cruz Mendes (1953), estudante em Coimbra em 1974, militante político.

Isabel Santos Simões (1961), filha de de Joaquim António Santos Simões e de Maria Açucena Neves Simões.

Estas vidas davam muitos filmes.

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Ao publicar este livro, o Cineclube de Guimarães dá (mais) um importante contributo o resgate da nossa memória colectiva e um exemplo da capacidade de iniciativa, da produtividade e da criatividade dos obreiros das associações vimaranenses. Esta edição é uma obra feita com grande profissionalismo e competência por amadores, aqueles que fazem por amor e que são gratificados com a singela alegria da obra feita.

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8 de julho de 2014

Afonso Henriques, santo? (2)


Durante séculos, a canonização de Afonso Henriques foi um desígnio nacional que, ora se apagava, ora ressurgia, especialmente em tempos em que a independência nacional precisava de ser melhor escorada. Assim aconteceu nas cortes de 1641, na sequência da Restauração da Independência.
Noutro contexto - o da necessidade de afirmação da origem divina do poder real-, D. José I dará seguimento a iniciativas que vinham do tempo do seu pai, D. João V, mandando iniciar novo processo para a canonização do primeiro rei de Portugal. Aconteceu no dia 6 de Junho de 1753.
Referindo-se àquela data, Fr. Cláudio da Conceição escreveria, no seu Gabinete Histórico (obra que, em 1828, dedicou a outro rei absoluto, D. Miguel):

Tendo-se sempre desejado neste Reino a canonização do seu primeiro Rei, o Senhor D. Afonso Henriques, na consideração das suas muitas e relevantes virtudes, se têm feito para isso várias diligências. No reinado do Senhor Rei D. João III se fez o costumado processo sobre suas virtudes. Nas Cortes, que se celebraram em Lisboa em 1641, pediram os Povos ao Senhor Rei D. João IV mandasse tratar deste negócio na Cúria Romana. José Pinto Pereira, Doutor em Teologia e em Direito Canónico, estando expedicionário Régio em Roma, aí escreveu Apparatus Historicus decem continens argumenta, sive non obscura sanctitatis indicia Religiosissimi Principis D. Alfonsi Henrici, Primi Portugaliae Regis, im­presso em Roma em 1728, um tomo de quarto; é dedicado ao Papa Bento XIII e juntamente ao Senhor Rei D. João V; o seu assunto é mostrar em discursos a Santidade do Senhor D. Afonso Henriques, primeiro Rei deste Reino. A prova do primeiro Discurso é a aparição de Cristo Nosso Senhor ao dito Soberano, e declarar-lhe a vitória, que havia de obter dos Mouros, e o desígnio da fundação de um Império nele para si. A prova do segundo é ser impetrado, por meio de votos, e orações, depois duma longa enfermidade de seus Pais. A prova do terceiro é a maravilha da sanidade dos defeitos, com que nascera, das pernas pegadas, uma por detrás da outra, obtida pela protecção da Virgem Mãe de Deus. A do quarto a aparição também da mesma Senhora, e dos Anjos, prestando-lhe auxílio em diversas Batalhas. A do quinto o grande zelo, que tinha pela Fé. A do sexto o objecto da instituição das duas Ordens Militares, de Avis e da Ala ou Asa. A do sétimo a piedosa fundação de cento e cinquenta conventos, ou mais, além de vários Mosteiros, para culto e honra de Deus. A do oitavo a oferta generosa, que de si e do Reino fez ao Apóstolo S. Pedro e a Santa Maria do Claraval. A do nono a grande piedade e reverência com que tratava os Vigários do Cristo e a pia afeição com que ouvia os Varões justos e Santos. A do décimo as virtudes que em sua vida praticou; os benefícios que nela lhe fez Deus; os prodígios que obrou depois da sua morte; a inteireza e fragrância do corpo; e a fama póstuma de Santo. Além de tudo isto, mandou o Senhor Rei D. José I principiar outro processo para a sua canonização, cujas ordens, procurações, e outros papéis conducentes ao mesmo respeito foram lidos no Real Mosteiro de Santa Cruz, junto ao sepulcro do mesmo Rei, na presença de toda a sua numerosa Comunidade, no dia 6 de Junho, em que o mesmo Senhor cumpria os seus anos, e se apresentaram ao Bispo Conde, que logo destinou o dia 11 de Julho, oitava da Festa da Gloriosa Rainha Santa Isabel, para se fazer a primeira sessão, como efectivamente se fez, com assistência das comunidades religiosas, lentes e doutores da Universidade e de toda a nobreza de Coimbra, com universal contentamento de todos. Repicaram-se os sinos da Catedral, da Universidade e de todos os conventos, colégios e freguesias. Com a mesma solenidade se fizeram as mais seguintes Sessões. Taís têm sido os desejos e diligências dos Portugueses, com o fim de verem colocado sobre os Sagrados Altares um príncipe que, pelo seu valor e zelo da Fé, livrou grande parto deste Reino do jugo maometano e deixou estabelecido o trono para os seus gloriosos descendentes.

Fr. Cláudio da Conceição, Gabinete Histórico, tomo XII (1750-1754), 2.ª edição, Imprensa Nacional, 1918, pp. 171-174
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7 de julho de 2014

Afonso Henriques, santo?


No último 24 de Junho foi apresentada uma tradução do latim da obra Apparatus Historicus, de 1728, do vimaranense José Pinto Pereira, editada pela Câmara Municipal de Guimarães, que reúne um conjunto de dez argumentos ou indícios de santidade do rei Afonso, que pretendiam demonstrar que Afonso Henriques foi suficientemente piedoso e virtuoso para aspirar à beatificação. Da edição em referência, trataremos a seguir. Por agora, aqui fica, para enquadramento da questão, o que sobre ela escreveu o Padre Ferreira Caldas no capítulo dedicado a El-rei D. Afonso Henriques, no seu Guimarães – Apontamentos para a sua História:


Depois da última façanha alcançada contra o Miramolim de Marrocos sobreveio ao incansável herói uma prolongada enfermidade, da qual faleceu a 6 de Dezembro de 1185.

O seu corpo foi sepultado no mosteiro de Santa Cruz de Coimbra em humilde monumento, que el-rei D. Diniz principiou a ornar, e D. Manuel tornou magnífico, nas paredes da capela-mor do mesmo mosteiro. Todo o português o chorou, como restaurador da sua liberdade, fundador da monarquia, pai da pátria, modelo de réis, terror de inimigos, coluna da Igreja lusitana. Como tal, querem alguns escritores, exaltando a sua piedade e virtudes, honrá-lo com título de santo, sendo neste sentido tentada por mais que uma vez a sua beatificação. Destes tentâmens, como pouco conhecidos, darei breve notícia, extraída dum notável e curiosíssimo trabalho do meu erudito mestre e indefeso investigador Pereira Caldas:

Em 1556 tratou o prior de Santa Cruz de Coimbra — com os cónegos do mosteiro — de promover curialmente a beatificação de D. Afonso Henriques, fazendo as provanças do estilo, com autorização do bispo-conde D. João Soares e com a protecção del-rei D. João III. Já não era esta a primeira tentativa, porque nas anteriores, promovidas sem as provanças do estilo e sem a protecção real, nenhum deferimento se havia obtido em Roma a tal respeito. Tinham sido sempre os cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra, enviando à capital pontifícia alguns religiosos grados, os que mais dedicadamente se empenharam nestas tentativas. No entanto a mesma improficiência que malfadara então, veio a malfadar ainda estas tentativas do século XVI.

O que não deixa de ser singular, no meio da inacção de Roma, é o alvitre, a este respeito, vulgarizado entre os monges de S. Jerónimo de Alcobaça e os cónegos de Santo Agostinho de Santa Cruz de Coimbra. Num mosteiro e noutro girava composta uma comemoração de bem-aventurado em relação a D. Afonso Henriques — com antífona, verso, responso e oração — como se a Igreja o houvera catalogado na lista dos santificados.

Em 1728, ano em que o APARATO HISTÓRICO — livro do padre José Pinto Pereira, sobre a santidade de D. Afonso Henriques — fora publicado em Roma, sendo então oferecido à santidade do Papa Benedito XIII e à majestade do nosso rei D. João V, activaram-se de novo os trabalhos neste sentido. No entanto até hoje nada de definitivo.

Em 1752 tornaram-se a activar ainda de novo em Roma alguns trabalhos análogos. Lêem-se mencionados na Gazeta de Lisboa de 1753, nº 1 de 4 de Janeiro, nas seguintes palavras: “Na vila de Guimarães se ajuntou a Academia Vimaranense no dia 6 de Dezembro, aniversário do falecimento do venerável e santo rei D. Afonso Henriques, natural da mesma vila; e aplaudiu com eloquentes discursos, e discretas poesias, a notícia de se tratar em Roma da sua beatificação”.

Mas, apesar de tão repetidas instâncias, ainda é lícito duvidarmos da santidade do nosso mais ilustre patrício.

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