21 de abril de 2011

Da água e dos seus usos (1)


Fotografia de Eduardo Brito

A história do homem é também a história da sua relação com a água e dos processos que desenvolveu para obter, utilizar e conservar esse recurso vital. Os nossos antepassados mais remotos distribuíam-se pelo território em função da disponibilidade da água. Nas sociedades primitivas, o homem procurou abrigo nas imediações dos cursos de água, aprendeu a abrir poços e criou sistemas de transporte que lhe permitiram dispor da água de que necessitava.

Ao longo do tempo, o consumo de água per capita acompanhou a evolução das sociedades. Estima-se que os habitantes da antiga Roma consumiriam, em média cerca de vinte litros por dia. Nas sociedades desenvolvidas dos dias de hoje, a necessidade média de água por pessoa/dia será vinte vezes superior. Este crescimento, associado à explosão demográfica e à crescente concentração humana em centros urbanos, implicou a necessidade de procura de novas soluções de captação, tratamento, encaminhamento e distribuição de água para consumo humano. Por aqui somos capazes de perceber a magnitude da tarefa daqueles a quem hoje se coloca a missão de assegurarem o fornecimento de água potável à população.
Em meados do século XVII, o Padre João Baptista de Castro descreveu o Minho como uma terra fértil, de ares benignos e campos fecundos, por força da sua grande abundância de boas águas, que jorravam de "vinte e cinco mil fontes, e nove rios principais", além de outros mais pequenos.

Guimarães situa-se no coração dessa terra de abundância, como o notava o Padre Torcato Peixoto de Azevedo, também no século XVII, quando afirmava que "a todos são manifestas as muitas e férteis águas da província de Entre Douro e Minho, e sendo Guimarães a mais nobre parte desta província não se pode duvidar da muita abundância que delas tem, pois não há casa nenhuma na vila, nem em seus arrabaldes, que não tenha um poço, e muitas fontes nativas particulares".

Tamanha generosidade da natureza explica que o abastecimento de água não estivesse no centro das preocupações do governo da cidade. Na Idade Moderna, o abastecimento público ainda não era uma das principais fontes de despesa nem da municipalidade, nem dos munícipes. A Câmara de Guimarães apenas consumia um vigésimo das suas receitas com o abastecimento de água à vila e nada gastava para assegurar que as populações do termo rural tivessem acesso ao precioso líquido. Do seu orçamento, a fatia destinada a assegurar a disponibilidade de água potável pela população era semelhante à que se gastava com a conservação do relógio da Câmara, que marcava o tempo na torre da Colegiada. Durante muito tempo, o esforço de investimento público nesta área resumiu-se a assegurar que a água corresse no tanque da Praça Maior, ao qual se juntou, em 1588, o gracioso chafariz do Toural.

Apesar das crises cíclicas de abastecimento, especialmente em anos de estios mais quentes e prolongados, só a partir de meados do século XIX se tornaram mais urgentes as preocupações com a quantidade e a qualidade da água disponível para a população. Vários factores contribuíram para esta mudança: a água de muitos poços da zona urbana já estava esgotada ou era imprópria para consumo humano; o sistema de condução da água da Penha estava decadente, obsoleto e insuficiente para satisfazer as necessidades; há novos hábitos de higiene, que implicaram um maior consumo de água; sucedem-se períodos de seca, especialmente a partir do final da década de 1840. A governança de Guimarães tinha um problema entre mãos. A solução só chegaria no início do século XX.

A partir de: Mãe-d'água: centenário do abastecimento público de Guimarães, ed. Vimágua/Sociedade Martins Sarmento, 2007.

 
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