8 de junho de 2010

Guimarães em 1840




A gravura que encima este texto foi publicada em 1840 na revista Panorama e reproduz uma litografia incluída na obra Scenery of Portugal and Spain, de George Vivian, editada em Londres no ano anterior, que pode ser vista aqui. Aparece a ilustrar um texto sobre o "berço da monarquia e primeira corte de Portugal", onde, a certa altura, se descreve a actividade económica desta terra:

"Se olharmos agora para Guimarães no estado actual, veremos que, desfrutando a primazia de ser uma das maiores vilas da sua província, porque é povoada por mais de oito mil almas, logra os merecidos créditos de ser a mais industriosa. O seu aspecto é agradável, a sua posição excelente, os seus arrabaldes abundantes e recreativos. Para darmos ideia da actividade que desenvolve nas manufacturas em que se distinguiu sempre, aproveitaremos as notícias estatísticas da Geographia do Sr. Urcullu, que obteve a tal respeito seguras informações locais. Há na vila uma rua que é uma continuada fábrica de curtumes; não tem menos de 200 tanques para este mister; e produz anualmente este ramo acima de 32:000 couros no valor de cem contos de réis; além do que nos arredores há fabricas da mesma manipulação que produzem a importância de 50 contos anuais proximamente. Há vinte anos que esta indústria tem duplicado à vista do que dantes era; mas por outro lado o comércio das linhas, panos de linho e ferragens tem decaído depois do tratado de 1810 e da independência do Brasil: todavia ninguém ainda hoje negará o incontestável merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor de obra por certo que não tem rival. A boa têmpera das peças de cutelaria, que nesta vila se manufacturam, atribuem alguns à excelência e propriedade das águas; mas se isto não é querer dar desconto ao bom trabalho dos operários, aqui teremos mais um privilégio do território onde é sita Guimarães. Calcula-se pois que os três últimos produtos industriais, que apontámos, não rendem mais de oitenta contos de réis por ano, expedidos tanto para o reino como para o Brasil. Os doces de frutas confeitados nesta vila, principalmente ameixa e figo, que se exportam em caixinhas, com muita especialidade para Inglaterra, são uma verdadeira tentação dos gulosos, que possuem a delicada crítica dos prazeres do paladar; e para nós, que não somos gulosos confirmados, são tidos e havidos pelos doces mais saborosos a par das estimadas laranjas confeitadas na ilha de S. Miguel: este objecto parecerá pouco importante, pois saibam os curiosos que no ano de 1835 montou a seis contos de réis. A légua e meia da vila junto ao rio Vizela há duas boas fábricas de papel, cuja extracção, termo médio, se reputa em onze contos de réis: e a uma légua para o sul estão os afamados banhos conhecidos pelo nome de Caldas de Vizela, já frequentados em tempo dos romanos, que ali tinham levantado um templo à deusa Ceres: hoje pela eficácia de suas águas em varias moléstias são muito procurados por grande número de enfermos."

O Panorama: semanario de litteratura e instrução, publicação da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, volume IV, Lisboa, 1840, p. 282.
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