8 de junho de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (12)




Quando escreveu a Corografia Portuguesa, o Padre António Carvalho da Costa contactou com as Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, de Torcato Peixoto de Azevedo, sendo muito provável que o tenha feito por intermédio do próprio autor (o Padre Torcato faleceu em meados de 1705 e a primeira edição da Corografia foi publicada pouco depois, em 1706). O texto do Padre Costa segue a par e passo o de Torcato, sendo manifestas as semelhanças os capítulos de ambas as obras em que são tratados os privilégios concedidos pelos reis a Guimarães. Já vimos o que escreveu o monógrafo vimaranense. Aqui fica o texto da Corografia:

“Provisão de el-Rei Dom João o Primeiro, em que manda que os Vereadores da Vila de Barcelos vão varrer a praça, e açougues de Guimarães todas as vésperas das festas da Câmara daquela Vila, que vem a ser nas vésperas das festas da Natividade de N. Senhor, da sua gloriosa Ressurreição, do Espírito Santo, de Corpus Christi, de São João Baptista, da Visitação de Santa Isabel, de S. Gualter, de N. Senhora da Assunção, e de S. Miguel o Anjo.

A causa por que el-Rei Dom João o Primeiro deu à Vila de Barcelos tão aniquilado tributo, foi que indo este Rei a tomar a Cidade de Ceuta aos Mouros, como tomou no ano do Senhor de 1414, aos 22 dias do mês de Agosto do dito ano, repartiu as estâncias da muralha da Cidade pelos moradores das cidades e Vilas que com ele foram, e o ajudaram nesta empresa, para que cada um defendesse a que se lhe entregava. Os Mouros se refizeram, e tornando com grande força para recuperarem a Cidade, que tinham perdida, e investiram com grande fúria e alaridos à escala, de que desanimados os de Barcelos, e atemorizados seus ânimos, fugiram, e deixaram de todo livre a estância, que se lhes tinha encarregado para defenderem; vendo-a os de Guimarães de todo desamparada, se dividiram em dois troços, um com que a foram ocupar e defender, e outro com que defenderam a sua, que lhes estava entregue; e com tanto valor o fizeram em uma e outra estância, que só deles aqueles inimigos se foram mais queixosos. Castigou el-Rei a fraqueza dos de Barcelos com lhes mandar que fossem varrer a praça e açougues aos de Guimarães, a quem gratificou com esta honra a valentia com que obraram na defesa daquela Cidade, e em todas as mais ocasiões em que com ele se acharam.

Por espaço de mais de setenta anos continuaram nesta servidão os Vereadores da Vila de Barcelos nas Vésperas das festas acima ditas, da sorte que lhes foi mandado, com um barrete vermelho na cabeça, uma banda ao ombro da mesma cor, a espada à cinta, e um pé calçado e outro descalço, e vassoura de giesta, que eram obrigados a trazer para fazerem esta limpeza; e acabada ela, iam à Câmara, e entregavam aos Vereadores o barrete, e banda, com que davam satisfação à sua servidão; os quais, vendo se algum faltava a ela, o condenavam em pena pecuniária, como lhe parecia, ou o aliviava a causa de sua falta; até que, não havendo quem quisesse ser Vereador naquela Vila, o Duque de Bragança Dom Jaime fez contrato com a Câmara e povo de Guimarães de lhe largar do termo da Vila de Barcelos, de que era senhor, as freguesias Cunha e Ruilhe, para continuarem naquela servidão, e que as desanexava daquele seu termo, para que elas se unissem e anexassem ao de Guimarães. Foi por todos admitido seu requerimento por coisa justa, e vir fazê-lo pessoalmente, como se vê no contrato, que de tudo se fez, o qual se guarda no Cartório da Câmara de Guimarães, pelo qual renunciaram os Vereadores da Vila de Barcelos este tributo, que padeciam nos moradores das freguesias de Cunha e Ruilhe, que ainda hoje estão continuando nesta servidão no mesmo modo que fica dito, e com as mesmas circunstâncias.

Bem trabalhou o Doutor Gabriel Pereira de Castro por aliviar deste tributo as duas freguesias, Cunha e Ruilhe, por ter nelas certos caseiros que, confiados no seu poder, faltaram à servidão, a que por giro estavam obrigados; foram condenados pelos Vereadores da Câmara de Guimarães em seis mil réis cada um; puseram a causa em pleito, que correu até à maior alçada, assistindo-lhe sempre este Doutor, e não foi bastante o seu muito poder para que ali se não sentenciasse que pagassem os condenados a condenação que lhes estava feita, e continuassem a sua servidão, com custas, como se vê da mesma sentença, que se guarda no Cartório da dita Câmara de Guimarães.”

[Padre António Carvalho da Costa, Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do famoso Reyno de Portugal, 2.ª Edição. Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, Braga, 186, pp. 91-92]

Note-se que a Corografia segue as Memórias Ressuscitadas com tanta proximidade que até repete o erro de indicar o ano de 1414 para a conquista de Ceuta...

Curiosamente, mais à frente, no mesmo volume da Corografia Portuguesa, o Padre Costa dá uma outra variante da história, sem qualquer referência a Ceuta. Segundo esta, a servidão da vassoura não incidiria sobre os vereadores da Vila de Barcelos, mas sim sobre os moradores da freguesia de Santa Eugénia de Rio Covo, que seria um couto onde se acolhiam criminosos, tributário do concelho de Guimarães:

“Dizem foi antigamente couto de Guimarães, e por castigo e privilégio que tinham eram os moradores obrigados a ir-lhe varrer as ruas; mas sendo mui prejudicial a Barcelos haver aqui este couto tão seu vizinho, em que recolhiam seus criminosos, donde saíam a roubá-los lhes deram em troca as duas Freguesias de Cunha e Ruilhe com a mesma obrigação”
[Idem, p. 278]

[Continua]
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