27 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 14

...continuado daqui

Conclusão da terceira edição da Revista das Folhas de Braga, do jornal 28 de Novembro, pela pena de Francisco Martins Sarmento.

Alguma folha braguesa mais comedida de língua, como a Voz do Distrito, e que finge manter-se na estacada a disputar sobre os factos, dá nos um espectáculo igualmente pouco edificante. Escolhamos um exemplo: – o crime das assuadas foi ou não coisa premeditada? Não contando os votos da junta geral do distrito e da câmara municipal de Braga, é fácil de mostrar “com textos” que, exceptuando a Correspondência do Norte, todas as folhas, tratando do assunto, dizem mais ou menos explicitamente que, pelo menos, a segunda e terceira assuada foram muito premeditadas. Scripta manent. Pois apesar disso, a Voz do Distrito lá torna com a cantilena que toda a imprensa bracarense é concorde em afirmar que as assuadas não foram premeditadas. Desculpemos a semi-sisuda Voz do Distrito; mas, se isto não é a dialéctica da bisbilhotice, é a doce ilusão dos que pensam ter a razão do seu lado, pelo simples facto de ficarem a falar em último lugar. Se com isso se satisfaz, não a perturbaremos no gozo das suas delícias. Somos menos transigentes com a sua coarctada ao desmentido, que lhe deram os jornais do Porto, quando escreveu ter sido um dos procuradores de Guimarães corrido à pedra Naquela cidade. Se não foi corrido à pedra, foi corrido ao ridículo – replica o leal jornalista. Mas, valha-nos Deus, a réplica jogralesca em quem foi apanhado com a boca na botija só acusa impenitência no delinquente, que ã segunda correcção entra já na classe dos malhadiços. É mau, e aqui estâ o que não é melhor: então nós inventámos a notícia fresca das boas disposições dos ferreiros da rua da Ponte, que nem a alma deixariam aos procuradores de Guimarães, se soubessem de que peste de terra eles eram? Mas nós citámos a fonte, onde colhemos a notícia – uma correspondência de Braga para a Província, e, por mais que nos preguem, nunca nos convenceremos de que o ilustrado jornalista não sabe ler. Achamos por isso de uma impertinência ultra-ladina a lembrança de vir pedir a Guimarães esclarecimentos sobre o caso, quando não pode deixar de saber que tem a dois passos de casa quem lhos pôde dar e cabais. Os ferreiros eram surdos, para não ouvirem a inferneira de morras? As condições acústicas das ruas de Braga são tais, que se não pôde ouvir na rua da Ponte o berreiro que faz nas outras ruas? Tudo isto é patranha? Sentimos deveras não poder contentar a curiosidade do finório jornalista; mas pode acreditar-nos – porque nós não mentimos – não temos a honra de conhecer os ferreiros da rua da Ponte, nem nos atreveríamos, mesmo incógnitos, a conversar com aqueles endiabrados psicófagos sobre matérias tão perigosas.

Dir-lhe-emos enfim que, se a sua cortesia de dois bicos não consegue retardar a nossa despedida à imprensa, de que faz parte, é porque, em vista do seu estranho modo de discutir, só a poderíamos chamar à boa razão, se soubéssemos o modo de manter de cabeça para baixo um boneco de sabugo, que teima em estar sempre de cabeça para cima, graças ao chumbo que tem na base. Ainda tentaríamos aprender esta habilidade, se não desconfiássemos que a Voz do Distrito tem na massa do sangue alguma coisa de D. Basílio. Parece-nos isso, principalmente desde que lhe ouvimos cantar a ária do telegrama – não passou acompanhada com os foguetes e músicas, que haviam de esperar os procuradores de Guimarães, etc.

Estas invenções prodigiosas só podem ser criadas na cabeça de qualquer D. Basílio, e nós embirramos deveras com estes sujeitórios.

Portanto – buona sera!

[28 de Novembro, n.º 3, Guimarães, 6 de Janeiro de 1886]

continua aqui...

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