O relógio camarário (2)

A Colegiada, a oliveira e o padrão, fotografados por Antero Frederico de Seabra em 1862. São as fotografias desta série as mais antigas que conhecemos já com o mostrador do relógio na torre da igreja.

No final de Abril de 1861, começou a falar-se em Guimarães da intenção da Câmara de substituir a máquina do velho relógio municipal por uma nova e mais moderna, adicionando-lhe as meias horas e um mostrador. O jornal O Conciliador ao comentar e aquele projecto do município, na sua edição de 25 de Abril daquele ano, dá conta da importância do relógio no quotidiano da cidade:

Era isto uma necessidade geralmente já reconhecida, e nesta época ainda o é mais, não só para regular a partida dos correios, mas até da diligência, porque os relógios destas repartições devem regular-se pelo do município, assim como a direcção de todos os negócios de quaisquer repartições públicas, mas, para correr com verdadeira regularidade, é de absoluta necessidade que o relógio do município seja capaz e não ande como a cabeça dos políticos.

Em sessão realizada no dia 29 de Maio daquele ano, a Câmara de Guimarães procedeu à arrematação da construção e colocação de um relógio novo para ser colocado na torre da Colegiada, porque o maquinismo existente estava de tal modo desgastado que já não tinha conserto. As condições que foram fixadas para a arrematação da nova máquina dão-nos uma descrição que nos permite ter uma ideia aproximada das especificações requeridas, à época, para um relógio de torre:


1.ª – Fazer-se-á um relógio de torre para ser colocado na dos sinos da Igreja da Colegiada, de castelo de ferro, com rodas de metal de bronze ou latão, carretos de aço embuxado de metal amarelo; com dois martelos, um para as horas, e outro para as meias horas, que serão dadas em diferente sino, pela câmara para isso destinado;
2.ª – o dito relógio será de quatro dias de cordas e terá dois ponteiros também de metal amarelo, um para indicar as horas e outro os minutos, na frente da torre.
3.ª – Que o dito relógio seja no seu maquinismo bem construído, e será feito e colocado por conta do seu arrematante.

A obra foi adjudicada ao menor lance, proposto por Domingos José Rodrigues, relojoeiro da freguesia de Palmeira, no concelho de Braga.
Encomendada a máquina do relógio, havia que providenciar a principal novidade que iria ser introduzida, o mostrador, e o sino  que iria bater as meias-horas. O fornecimento, o transporte, o abrimento de letras numerais e a colocação do mostrador (uma pedra de mármore branco, redonda, com dimensão de um metro) foram objecto de adjudicação em nova sessão da Câmara, realizada no dia 10 de Novembro. A empreitada foi entregue ao vimaranense Jerónimo José Leite Mendes, por 34$440 réis. Três dias depois, a Câmara deliberou que o sino que dantes servia no Castelo desta Cidade para toque de recolher fosse colocado na torre da Igreja da Insigne e Real Colegiada desta cidade, ao pé do relógio, para servir de dar as meias horas, sendo tanto este como aquele propriedade do concelho.
Pelos anos adiante, as queixas contra o mau funcionamento do relógio da Oliveira continuaram a ser recorrentes. Em 1887, reclamava-se a substituição do dorminhoco por um outro mais moderno, mas páginas de O Comércio de Guimarães de 6 de Novembro daquele ano:

O único batedor que havia em Guimarães, dorme ainda profundamente!
Em nome dos habitantes da cidade, a quem ele faz imensa falta, pedimos à exmas Câmara que se digne mandar despertar o dorminhoco.
Parece-nos que a exma. Câmara procederia acertadamente se comprasse um relógio moderno que pudesse ser consertado por qualquer relojoeiro, porque assim passaremos a maior parte do tempo sem ouvirmos as horas.

Apesar das sucessivas queixas com paragens, atrasos e outras avarias, o relógio municipal lá ia dando conta do recado. Até que chegou a República que, por um decreto-lei de 26 de Maio de 1911, declarou a extinção da hora local (meridiano de Lisboa), passando a contagem do tempo em Portugal a regular-se pelos fuso das 00:00 horas (meridiano de Greenwich). Ao mesmo tempo, as horas entre o meio-dia e a meia-noite passaram oficialmente a dizer-se das 13 às 23. Para se adaptar à inovação das 24 horas, o velho relógio foi sujeito a tratos de polé, às mãos do relojoeiro João Doutrinas. E, como profetizava um jornal da época:
Para todos era ponto seguro que mais fácil era enlouquecer o mestre que o mestre pôr o relógio a dar as 24 oficiais!

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