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Do que se fala quando se invoca a nêspera...


A fotografia que vai acima gerou, aqui ao lado, a conversa do costume, acerca do que será uma nêspera, se o fruto com esse nome que encontramos nos supermercados,



se o fruto que nos oferecem no mercado de Guimarães, quando o nomeamos,



A ambos chamam nêsperas mas, de serem tão diferentes, qualquer um perceberá que devem ser designados de modo diferente, sob pena de não se saber ao certo do que se fala quando se fala duma nêspera.
O primeiro é o fruto da nespereira-do-japão (eriobothrya japonica), árvore da família das rosáceas que, apesar do nome, tem origem na China. Quando maduro é doce e um pouco ácido. Tem a pele amarela e cinco grandes sementes castanhas. É geralmente conhecida por nêspera mas, provavelmente por não saberem a o que lhe chamar, têm-lhe dado muitos nomes: no Brasil chamam-lhe ameixa-amarela, mas também pode ser conhecida por ameixa-japonesa ou ameixa-americana; nos Açores chamam-lhe mónica; no Norte de Portugal é conhecida por a magnole, magnólio ou magnório. Os franceses chamam-le loquat ou  Japanese medlar, os franceses nefle du Japon, os alemães japanische mispel, os espanhóis nispero japonés ou nispero do Japón
O segundo é o fruto da nespereira-da-europa (mespilus germanica), também da família das rosáceas, árvore cultivada na Europa há milénios. Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, é um “pomo drupáceo, turbinado, verde-acerbo, tornando-se, ao sorvar, castanho, mole e comestível”.
A nêspera, é o fruto da nespereira. Quando está no ponto de ser comida, tem uma textura mole, a sugerir podridão (só a sugerir) e um sabor único, um pouco ácido e a puxar para a maçã. Os caroços são pequenos (quando comparados com o fruto a que outros dão o mesmo nome) e não são lisos, antes pelo contrário. Assim sendo, este pouco têm a ver com os outros frutos a que, em terras com um léxico mais pobre, também chamam nêsperas. Não lhes conheço outro nome. Em Espanha, chamam-lhes nísperas ou nísperos germanicos, ou ainda níspero, níspero europeo, nisperero europeo, miézpola, míspero, míspola, mispolera, néspera, niéspera, niéspola, níspera, níspola e nispolero. Os ingleses chamam-lhe medlar. Já os franceses, conhecem-no por nefle (de néflier, nespereira) ou cul de chien (= cu de cão). Quem quiser plantar a sua árvore, basta procurar na net 'nespereira comum'.
 O outro fruto é o magnório, e nasce da árvore que no Norte de Portugal se chama de magnólio, magnole ou magnoleiro. Magnol é um elemento que aparece na composição de diversas palavras da taxonomia botânica, introduzido pelo fitólogo e monge francês Jacques Plumier (1646-1715), em honra do botânico que primeiro identificou a família das magnólias, o médico e director do Jardin des Plantes de Montpellier, Pierre Magnol (1638-1715). Faz todo o sentido chamam magnório a este fruto. Mas, se lhe quiserem chamar nêspera, façam favor de ser mais rigorosos e dizer nêspera japonesa. Porque a nêspera é a outra.

A história da literatura portuguesa teria de ser reescrita, se a Nespereira onde Raul Brandão escreveu as suas obras maiores se chamasse Magnoleiro...

Comentários

José Santos disse…
Boa noite amigo, adicionei o seu link ao meu blog a fins de elucidar quem não sabe distinguir uma Nêspera de um Magnório, cumprimentos.
Antonio Machado disse…
Boa tarde, muito bem explicado, ...quem é Vimaranense nascido e criado e nessa criação usufruiu dos sabores da sua terra mãe, sabe muito bem qual é a diferença, ...mas grande parte do resto do país na sua "ignorância" não aceitam o existir nêsperas e maganórios e a sua diferença.E ainda por cima dizem que "os de lá cima é que são burros".