Memórias Paroquiais de 1758: Gémeos



Já consta nas primeiras Inquirições Gerais, as de 1220, ordenadas por D. Afonso II, como Sancta Maria de Geminis. Santa Maria de Gémeos, portanto. Não sei de onde lhe venha o nome, porque as fontes que conheço não o informam. A única explicação que encontro é tardia, data de 1842 e está na resposta ao Inquérito Paroquial do concelho de Guimarães. Diz o abade António Lucena Leite que se chama Gémeos por aqui terem nascido “duas crianças juntas, e vivas, e pegadas pelas costas”.
A reformulação administrativa de 2013 anexou-a à freguesia de Abação, na União das Freguesia de Abação e Gémeos, que agrega quatro paróquias do antigo termo de Guimarães: S. Cristóvão de Abação, S. Tomé de Abação, Gémeos e Pentieiros.

Gémeos
Informação do que contém a paroquial igreja de Santa Maria de Gémeos, que me mandou fazer o muito Reverendo o Senhor Doutor Provisor deste Arcebispado Primaz, pelos interrogatórios inclusos.
Está esta paróquia na ribeira de Vizela, Província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado Primaz, comarca e termo da vila de Guimarães. Não me consta que desta ribeira seja senhor senão o Senhor Dom José Primeiro, Rei Fidelíssimo de Portugal.
Tem esta paróquia cinquenta e quatro fogos, ou casas, em que moram seus fregueses, e, feita a conta de adultos e menores, compreende o número de cento e sessenta e seis pessoas que assistem nela.
Está situada num monte, porém todas, ou quase todas, as suas terras são cultivadas. E dele, ou deste sítio, se descobre para a parte do Nascente, ainda que mais para o Sul, o monte chamado de Santa Quitéria, onde a mesma santa tem um majestoso templo, e, para o Sul, se descobre o monte de São Martinho, onde estão situadas três paróquias que desta igreja se avistam e são São Jorge de Vizela, São Martinho de Penacova e Santa Comba de Regilde. Todas estas paróquias distam desta de Gémeos um quarto de légua, pouco mais ou menos.
Está situada a igreja quase no meio da freguesia e os casais que estão no seu distrito são os seguintes: Casal ou lugar da Cruz, e mais dois vizinhos, Badoucos, Greioadelo, são dois vizinhos, Costeiras, Quintã de Baixo, Quintã de Cima, e estes tem cada um o seu vizinho, Vale, Ribeiro de Calvos, um vizinho, Galhufe um vizinho, Paivilão, um vizinho, Novelo, Miranda, um vizinho, Serquido, Regueiras, Lugar do Passo, que tem cinco vizinhos, Valverde, um vizinho, Chãos, lugar do Souto de Versas, que tem em si oito vizinhos, Bouça Velha, Bouça Nova, Portelinha, Venda da Costa, Casal de Estêvão, Eirigo, Vilaverde, um vizinho, Cide Velho, um vizinho, Cide Novo, Lugarinho, Bairro, Monte do Bairro, um vizinho.
A Virgem Maria Nossa Senhora, com o título ou invocação da Senhora do Ó, é orago desta paroquial igreja, e esta tem uma só nave e três altares. O maior, em que está o Santíssimo Sacramento, e, da parte do Evangelho a padroeira, a Virgem Maria Senhora Nossa, e, da Epístola, o Senhor São José. Tem mais dois altares, um da Senhora do Rosário, da parte do Evangelho, e outro, do Mártir São Sebastião, da parte da Epístola. Não tem irmandades, nem confrarias, só a do Santo Nome de Jesus, muito pobre, e a confraria do Santíssimo Sacramento, também pobre, porque ainda há poucos anos que, com licença do ordinário, se colocou.
O pároco desta igreja ou benefício é abade e é apresentação de Roma ou de Braga, por concurso. Renderá, um ano por outro, com a sua anexa São Cristóvão de Abação, vizinha desta e apresentação dos abades deste benefício, quatrocentos mil réis, ainda que agora não rende tanto para o abade actual, porque paga de pensão duzentos e cinquenta mil réis ao abade de São Pedro de Britelo, João Borges Morais.
Não há nesta igreja beneficiados, nem conventos, nem hospital algum, nem casa de misericórdia, nem ermidas ou capelas em todo o seu distrito.
Os frutos que os lavradores costumam colher são todas as espécies de pão. Porém, em mais abundância, respeito das mais espécies, é milhão. Também vinho verde recolhem bastante, quando Deus o permite.
Estão os moradores desta freguesia sujeitos à câmara e ministros da justiça da vila de Guimarães.
Não me consta, nem tenho notícia, que desta freguesia saíssem homens insignes em virtudes, letras e armas.
Não há nesta freguesia feira alguma em todo o ano e costumam ir a elas, todos os sábados do ano, a Guimarães, para comprarem e venderem o que lhes é necessário.
Nem tem correio, só o de Guimarães, onde vão b otar as cartas para todas as partes do reino e tirá-las no domingo à noite, que é quando chega do Porto o correio, e costumam votarem-se as cartas no dito correio de Guimarães todas as quintas-feiras para, nas sextas-feiras, partir para cidade do Porto.
A distância desta freguesia à dita vila Guimarães será coisa de uma légua e quatro léguas à cidade de Braga, capital deste Arcebispado Primaz, sessenta, pouco mais ou menos, a Lisboa, cidade capital deste reino.
Não me consta que tenha esta freguesia alguns privilégios, antiguidades ou coisas notáveis e dignas de memória, nem lagoa ou fontes especiais e dignas de lembrança. Agora, fontes das que chamam comuns, tem bastantes e as que são necessárias para os moradores desta freguesia e seus gados poderem viver. Não é, nem há, porto de mar ou fortes, nem fortalezas, torres ou muralhas.
No terramoto do ano de 1755, seja Deus louvado, não padeceu esta freguesia ruína alguma.
E não vejo mais nesta matéria de que possa informar, por não haver nesta freguesia coisa alguma digna de memória.
E, como nesta freguesia não há serra, por isso não tenho que informar neste particular.
Coisa de meio quarto de légua de distância desta igreja, passa o rio chamado de Vizela que, por passar pelo meio desta ribeira, assim chamada e bem nomeada, é que entendo tem o nome de rio de Vizela. Este me dizem tem seu princípio ou nascimento na serra ou monte da Lagoa, porém principia muito diminuto e assim vem correndo, até à ponte chamada de Bouças, onde se lhe juntam dois rios, porém pequenos, e assim vem correndo por esta ribeira e, a Santo Tirso, se lhe junta o rio Ave e, incorporado com este, se vai meter em Vila de Conde e depois no mar. No tempo de Inverno, corre bastantemente cheio e, de Verão, muito diminuto, de sorte que muitas vezes se passa a pé. Não é navegável, nem capaz de embarcações, só de algum barquinho para se recriar algum curioso, nem neste meu distrito é de curso arrebatado. Corre do Nascente para o Poente.
Cria algumas trutas, porém contadas e muito poucas. Com mais alguma abundância, cria bogas e algumas enguias. Não há nele, que eu saiba, pescarias, só as que fazem no Verão alguns curiosos e estas são livres e de quem quer ir pescar.
Os campos das suas margens são cultivados, ainda que no tempo do Inverno padecem, às vezes, seu detrimento, por causa das enchentes, de sorte que tem sucedido entrar pelos campos e levar as sementeiras, deixando-as cheias de areias.
Não me consta tenham as suas águas virtude alguma particular e digna de memória. As árvores que tem ao redor, de uma e outra parte, são em maior número amieiros e salgueiros, e poucos carvalhos ou castanheiros. Porém, quase todas dão vinho verde, por razão das vides que em si tem.
Tem, neste meu distrito, as pontes de Pombeiro, Ponte Nova, Ponte das Caldas, Ponte de Negrelos e estas de cantaria e de pau. Tem a da Ribeira, a da Senra e a de Vila Fria e entendo que em toda a sua distância muitas mais pontes terá.
Consta-me que tem muitos moinhos e azenhas em toda a sua distância, porém, não sei, nem ouvi, que nele se achasse algum dia, nem ao presente, ouro ou prata.
Consta-me também que alguns lavradores regam os seus campos com as águas deste rio, se com pensão ou livres, não o sei.
Pouco mais ou menos, desde que nasce este rio, até se meter no mar, 14 ou 15 léguas de comprido ou distância, é que terá.
Isto é o que posso informar desta minha freguesia a respeito dos interrogatórios inclusos. Passa na verdade, o qual assino e vai assinado pelo reverendo Miguel Soares da Costa, vigário de São Lourenço de Calvos, e o reverendo Francisco Leite Soares, vigário de São Cristóvão de Abação, ambos vizinhos desta minha igreja.
Santa Maria de Gémeos, 18 de Maio de 1758.
O vigário Miguel Soares da Costa.
O vigário Francisco Leite Soares.
O abade José Filipe da Costa.

Gémeos”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, vol. 17, n.º31, p. 159 a 163.
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