Memórias Paroquiais de 1758: São Martinho de Sande

"Os Quatro Irmãos"


Em S. Martinho de Sande existe um misterioso conjunto de pedras lavradas que, segundo a tradição, serão os túmulos de quatro irmãos desavindos. O pároco que escreveu as memórias paroquiais desta freguesia não dava crédito a essa tradição, mas diz-nos sabia que “o monte ou serra da cidade Citânia”, que se avista dali, “foi habitação dos mouros”.
A torre da igreja paroquial só foi acabada em 1791 (antes disso, o sino estava preso em paus). Segundo o Abade de Tagilde, recebeu um sino novo, “cujas vozes muito sonoras o fizeram conhecido a tal ponto que o capitão-mor de Guimarães o quis usurpar para aquela vila. Com o pretexto de servir nuns festejos que ali haviam, tocando no Campo da Feira, conseguiu dos mesários do senhor que eles o emprestassem. As mulheres, homens e rapazes da freguesia, armados de paus, foices, forcados, etc, levantaram-se para o defender, apresentando-se no adro e não consentiram que os encarregados de o desmontar e levar para Guimarães cumprissem sua missão”. Foi a revolta do sino.
Quando, meio século mais tarde, rebentou a Revolução da Maria da Fonte, foi em S. Martinho de Sande que começou a lavrar em terras de Guimarães. Gente brava, a desta terra.

São Martinho de Sande
Li com toda atenção os itens do papel que me foi entregue no dia 26 de Abril deste presente ano e de todos eles achei o seguinte.
Está situada esta freguesia de São Martinho de Sande num delicioso terreno, no meio de seus moradores, na fértil Província de Entre-Douro-e-Minho, Arcebispado de Braga, termo e comarca da sempre leal, notável e régia vila de Guimarães, berço do primeiro Rei de Portugal, o venerável Senhor Dom Afonso Henriques, de que Sua Majestade Fidelíssima foi sempre absoluto Senhor e pelas justiças da mesma vila se governa.
Consta ser antigamente mosteiro de cónegos de Santo Agostinho que fundou na melhor opinião o ilustríssimo Senhor São Profuturo, Arcebispo Primaz de Braga, no ano de 392, e depois passou a ordem Beneditina e o extinguiu o ilustríssimo Senhor Dom Fernando da Guerra, Primaz da mesma Diocese, e hoje é rendosa comenda da Ordem de Cristo, de que é comendador o ilustríssimo Marquês de Valença, ao qual pertencem os dízimos dela e das suas anexas São Clemente de Sande e São Lourenço de Sande. E a igreja é da colação ordinária e se provê por concurso. Tem de rendimento o reitor dela cento e sessenta mil réis, conforme os anos, e a este pertence apresentar os vigários das ditas anexas, quando sucede vagarem.
É esta igreja uma das mais preciosas do termo da vila de Guimarães, por ser muito grande, de uma só nave, toda azulejada ao antigo e pelo tecto se admiram excelentes pinturas. Tem cinco altares, o principal de São Martinho, orago dela, onde se venera o Santíssimo Sacramento, que tem confraria de bastante rendimento. Os mais são de Nossa Senhora do Rosário, que também tem confraria, o grande patriarca São José, o Senhor Crucificado e, o último, a Ressurreição do mesmo Senhor. Na parede da sacristia desta igreja se acham, da parte de fora, umas pedras com letras que dizem, setribus abundantior, e as mais que continuam não se podem ler, pelo discurso de muitos anos quase as consumir.
Tem esta freguesia duas capelas, uma de Santa Maria, sita no lugar de Sever, que, afirmam os antigos, fora abadia, hoje se acha unida a esta igreja e o pároco lhe administra os sacramentos dos seus moradores; outra no lugar de Cima de Vila, com a invocação de São Gonçalo dos Mártires, a qual se acha demolida e só existe parte das paredes, por não ter fábrica nem padroeiro, e o santo se colocou nesta igreja, onde ao presente se venera.
Consta do rol dos confessados ter esta freguesia 187 fogos, pessoas de sacramento, 524, menores, 37.
Recolhem seus moradores abundância de milho, centeio, vinho e azeite, quando os anos são favoráveis, e usam estes livremente das águas que fertilizam as suas terras.
Os seus lugares são 37 e se nomeiam pelos nomes seguintes: Assento, Couvidos, Rocha de Baixo, Rocha de Cima, Vilarinho, Antigas no Vergão, Bacelo, Soutinho, Cima de Vila, Couto, Foio, Carreira, Pontes, Cachadinha, Pedregais, Cachada, Gaias, Escampado, Cutuluda, Montes, Boavista, Taburno, Tarrio de Baixo, Tarrio de cima, Casa Nova, Paraíso, Alvite, Ribeira, Ribeira de Além, Campos, Lama, Vergão, Paço, Sever, Quintãs, Souto, finalmente Quatro Irmãos.
Neste lugar dos Quatro Irmãos se vêem, para a parte do Norte, na estrada que discorre de Guimarães para Braga, quatro sepulturas de pedra fina, que se não sabe memória certa das pessoas que nelas existem, porque uns dizem serem de quatro irmãos que tiveram pendências e que neste lugar se mataram uns aos outros. A mim me parece ser manifesto engano, pela razão de se verem as mesmas sepulturas com decência para aqueles tempos, pois se admiram nas suas cabeceiras esculpidas cruzes da Ordem de Cristo e com especialidade, em três delas, delineadas espadas e, à vista disto, me persuado ser isto do tempo dos Templários e não dos quatro irmãos que o vulgo afirma se mataram naquele sítio.
Servem-se os seus moradores do correio de Guimarães que parte na sexta-feira de manhã e chega no domingo à noite.
Fica esta freguesia distante da Augusta Braga, Metrópole deste Arcebispado, légua e meia e da Corte de Lisboa, sessenta e uma e meia.
Não experimentou ruína alguma no formidável terramoto do ano de mil e setecentos e cinquenta e cinco, que Deus Senhor Nosso pela sua infinita piedade permita não nos castigar segunda vez com o flagelo da sua justiça.
Admira-se nesta freguesia o celebrado monte chamado o Coto de Outinho, com várias devesas de carvalhos, e produz matos para sustento dos gados e cultura das terras, onde também se acham coelhos e perdizes para recreio dos caçadores. Da sua planície se descobrem várias serras e, em distância de meia légua, a temida serra da Falperra, a serra de Santa Catarina, distante duas léguas, o monte ou serra da cidade Citânia, que foi habitação dos mouros, e outras muitas que os párocos do seu distrito darão plena notícia pela longitude em que se descobrem, por não o poder indagar com mais clareza.
Fertilizam esta freguesia dez fontes de gostosa água e algumas delas, no Estio, se secam. Vê-se uma ponte no meio da estrada que vai de Guimarães para Braga, por onde passa o cristalino rio chamado Febras, que nasce na serra da Falperra, discorre pelo meio da freguesia e vai morrer no rio intitulado Ave. Tem de comprido meia légua, corre do Norte ao Sul, produz em todo o ano excelentes trutas de especial gosto e, no âmbito dele, se acham onze moinhos, que cortam pão de segunda para sustento de seus moradores e algumas freguesias circunvizinhas.
Isto é o que pude descobrir e pessoalmente entreguei esta informação ao escrivão da câmara deste Arcebispado, com o mesmo mandado ambulatório e recibos de todos os párocos desta visita, e como, assim o executei na forma que me foi mandado, me assino com os párocos mais vizinhos desta igreja de São Martinho de Sande, aos sete de Maio de 1758.
O pároco Jerónimo Pereira da Silva e Oliveira.
O vigário de São Lourenço, Miguel de Abreu.
O vigário do Salvador de Balazar, Francisco José Soares.

Sande, São Martinho de”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 33, n.º 48, p. 333 a 335.

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