Memórias Paroquiais de 1758: Nossa Senhora da Oliveira

A Oliveira, o Padrão e a Colegiada em meados do século XIX. Cliché da colecção da Foto Guedes, pertencente ao Arquivo Municipal do Porto. Trata-se, seguramente, da reprodução de uma fotografia anterior ao início da actividade desta casa fotográfica, que está datada de cerca de 1885, já que a oliveira  que nela aparece foi derrubada dez anos antes, em Dezembro de 1875. Trata-se, muito provavelmente, de um cliché tirado por Charles Thurston Thompson, do Museu de Kensington, Inglaterra, durante a sua expedição ibérica do ano de 1866.


Da Vila Velha, ou do Castelo, de Guimarães, passámos para as memórias paroquiais da Vila Nova, que cresceu mais a Sul, a partir do mosteiro duplex (misto) fundado no século X pela Condessa Mumadona, em torno da oliveira miraculosa. Ficava, na sua maior parte, dentro da muralha, que, numa pequena parte, partilhava com a paróquia de S. Paio.

Nossa Senhora da Oliveira
Extracto da freguesia de Nossa Senhora da Oliveira da vila de Guimarães, na Insigne e Real Colegiada da mesma Senhora, feita por mim Manuel dos Reis da Costa Pego e com a assistência de Francisco José Vieira de Pina, ambos cónegos, curas da mesma Colegiada, em satisfação de uma ordem do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor da Corte e cidade de Braga, Arcebispado onde pertence, e é na forma seguinte.
Está esta freguesia de Nossa Senhora da Oliveira da vila de Guimarães na Província de Entre-Douro-e-Minho e é a principal desta sobredita vila, e na igreja da Insigne e Real Colegiada da mesma Senhora, e compreende toda a circunferência de dentro dos muros da mesma vila, e alguma de fora deles, e pertence ao Arcebispado Primaz de Braga e à comarca e termo da mesma vila, por ser a cabeça de uma e outra coisa.
A sobredita vila, onde esta freguesia está, é de Sua Majestade Fidelíssima, el-rei Nosso Senhor Dom José primeiro. Tem esta sobredita freguesia seiscentos e oitenta e nove vizinhos e, pessoas de maior, mil e novecentas e quatro, e, menores, noventa e uma, como consta do rol dos confessados, excepto as que não andam no dito rol, por não terem idade suficiente que os obrigue a deles se tomar conta.
Está situada numa baixa e na falda do monte, Serra de Santa Catarina, e esta se vê de alguma rua da mesma freguesia ou campo, e quase os muros da vila a circulam, e não a toda, pois também parte destes o fazem à de São Paio, que fica na mesma vila, e não se descobre dela outra alguma serra ou povoação, nem coisa notável.
Está na cabeça do termo e comarca, pois o é a mesma vila onde está situada, e se compõe de ruas, campos e subúrbios da mesma vila, pois a todos compreende. E fazem, entre todos, o número dos vizinhos acima declarados e o termo se compõe de cento e uma freguesias, com as da mesma vila, que são estas: a sobredita, a de São Paio, São Sebastião e São Miguel do Castelo.
Na mesma vila de Guimarães está situada esta sobredita freguesia na forma referida. Seu orago é Nossa Senhora da Oliveira, da Insigne e Real Colegiada da vila de Guimarães. Tem a sobredita igreja, que é bela e antiga do tempo de muitos anos, sete altares dentro dela e, no claustro, outros sete, nos quais alguns são capelas, como a do Santíssimo Sacramento, com sua confraria, a do Senhor Jesus, que é da casa de Vila Pouca, com obrigação de missas, e a de Nossa Senhora da Conceição, da casa do Proposto, também com obrigação de missas e com administradores que moram nos subúrbios desta mesma vila, a de São Nicolau, com irmandade, todas estas na igreja. No claustro, a de São José, a de Nossa Senhora do Serviço, também com obrigação de missas. Os altares são o do Espírito Santo, o do Senhor da Agonia, com irmandade que acompanha os irmãos defuntos da mesma, o de Santa Ana, estes na igreja. No claustro, o de Nossa Senhora da Pombinha, o de São Roque, o de São Cosme e São Damião, a capela de São José acima dita, o altar do Senhor Descido da Cruz, a capela de Nossa Senhora do Serviço e o altar de Santo André. Tem a igreja três naves e párocos dois cónegos e juntamente curas, com obrigação de coro, e são da apresentação do Dom Prior da mesma Insigne Colegiada, e à administração dos sacramentos são obrigados e mais actos paroquiais, excepto aos enterros dos defuntos, que a estes vão os padres da coraria que há na mesma Colegiada e vão aos de toda a vila, e estes padres apresenta o mesmo Dom Prior. E terá de renda cada um dos cónegos curas, com certos e incertos e emolumentos paroquiais na forma que foram votados, cada um ano, duzentos e cinquenta mil réis, pouco mais ou menos, os quais dois cónegos da meia prebenda são da apresentação in solidum do Dom Prior da mesma Colegiada, o qual, quando sucede vagar algum dos ditos benefícios, o dá a quem lhe parece, e cola e dá jurisdição paroquial sem dependência do ordinário, por posse antiquíssima e sentenças alcançadas contra o ordinário deste Arcebispado, porque o dito Dom Prior tinha e ocupava uma prebenda com a obrigação de a paroquiar e, por súplica que fez ao Papa, alcançou o poder de dividi-la em dois meios prebendados com a dita obrigação de administrar os sacramentos e todas as mais declaradas. E a apresentação do dito Dom Prior desta mesma Colegiada pertence a Sua Majestade Fidelíssima, quando sucede vagar, e ao ordinário de Braga Primaz apresenta o dito Dom Prior o provimento que Sua Majestade é servido passar-lhe e este o manda examinar e cola no dito benefício, de onde lhe resulta a jurisdição que confere aos ditos cónegos curas, quando os apresenta e cola nos tais benefícios que, como já disse, antigamente eram uma só prebenda. E o dito Dom Priorado tem de renda em cada um ano, com certos e incertos, dez mil cruzados, cem mil réis mais ou menos, com obrigação de pagar e satisfazer as obras meeiras das igrejas, que apresenta simultaneamente com o reverendo Cabido, e, além disso, a fábrica das igrejas de São Martinho de Fareja e Santa Eulália de Fermentões, ambas do termo desta vila, por serem da sua apresentação in solidum. E, também, metade do partido dos músicos da capela desta Colegiada e, na mesma forma, a seis capinhas que apresenta in solidum para o serviço do clero desta Colegiada, além dos quais há três capelas das quais apresenta duas e se lhe paga por legado especial que se deixou ao dito Dom Prior, e a terceira apresenta o reverendo Cabido. E também é paga por legado que administra a fábrica da mesma Colegiada e também há no mesmo coro um sub-chantre que apresenta o chantre e lhe satisfaz como ajusta. Nesta mesma Colegiada há vinte e oito prebendas, as quais ocupam, a saber, o reverendo chantre, uma, o reverendo tesoureiro-mor, uma, o reverendo doutor mestre-escola, duas, o reverendo arcipreste, duas, o reverendo arcediago, uma, e mais quinze cónegos prebendados e oito meios-prebendados, que todos fazem vinte e seis prebendas, com a obrigação do coro e tudo o que mais pertence ao ministério dele. Ficam sobejando duas prebendas para a conta de vinte e oito, as quais uma é da fábrica desta igreja e outra do prebendeiro do reverendo Cabido, pelo seu trabalho. E rende cada uma delas, em cada um ano, com certos e incertos, quatrocentos mil réis, pouco mais ou menos, e o reverendo chantre, além da prebenda declarada, tem anexas ao seu benefício duas igrejas, que apresenta e de que tem os dízimos, a saber, São Miguel de Creixomil, subúrbio desta vila, e São Paio de Moreira dos Cónegos, termo da mesma vila, que ambas renderão, em cada um ano, novecentos e tantos mil réis, pouco mais ou menos. E o reverendo tesoureiro-mor tem outras duas igrejas anexas ao seu benefício, que ele também apresenta, a saber, Santa Maria de Matamá e Santa Eulália de Nespereira, ambas também no termo desta vila, e renderão, pouco mais ou menos, em cada um ano, seiscentos e tantos mil réis. E o reverendo mestre-escola tem mais uns foros, que pertencem à capela de São Tiago, situada na Praça, que renderão, pouco mais ou menos, cada um ano, cinquenta mil réis. Há mais, nesta Colegiada, seis coreiros para o serviço do clero, que apresenta o reverendo chantre, como presidente do mesmo reverendo Cabido e coro. E também há um sacristão que é da apresentação in solidum do reverendo tesoureiro-mor, a quem paga o ordenado que com ele ajusta, que tem mais, de rendimento, as ofertas dos defuntos e o rendimento dos sinos que lhe mandam tocar e o folar da Páscoa, isto por arrecadar e lançar a água benta nessa ocasião. Tem mais esta Colegiada um benefício simples, chamado arcediago de Santa Maria do Souto de Sobradelo, que renderá, em cada um ano, quinhentos mil réis, pouco mais ou menos, e é apresentação sua vacatura de Sua Majestade Fidelíssima e outra do reverendo Cabido, e as apresentações dos mais benefícios desta Colegiada, são a saber, o chantre do reverendo Cabido in solidum, e as mais prebendas são de apresentação simultânea o Dom Prior, com o reverendo Cabido, alternativamente com o Papa, oito meses deste e quatro do reverendo Cabido, com o seu Dom Prior. Tem o mesmo reverendo Cabido igrejas e beneficiados simples, a que chamam raçoeiros, que apresenta in solidum que constarão melhor dos apresentados, que tudo são no arcebispado e nos seus interrogatórios responderão. Os padres chamados da coraria, antes declarados, que são da apresentação do Dom Prior, são o número de trinta, nos quais doze são títulos assim chamados e entram na isenção da jurisdição desta Colegiada, os quais ocupam desde o coro, e ordens, e sacristia, e o que servir de prioste, que é o seu presidente, e estes vão aos ofícios e enterros de toda a vila, tem legados que satisfazem a fazenda que administram, de caseiros que lhes pagam rendas, que entre si repartem. E renderá a cada padre com missas e mais assistências, cada um ano, sessenta mil réis, pouco mais ou menos, com os incertos. É o que pude alcançar desta Colegiada. Tem mais a confraria de Nossa Senhora da Oliveira, onde sempre pessoa real é juiz, e os mais da mesa dos principais da terra e, como serventuários, pessoas ordinárias com honra. Esta tem missas pelos irmãos defuntos, e também a do Santíssimo Sacramento e as mais irmandades, conforme seus estatutos e termos.
No distrito desta freguesia estão dois conventos de religiosas, a saber, o de Santa Clara, de que é padroeiro o morgado de Torrados e são da jurisdição ordinária suas súbditas, e o de São José do Carmo mais moderno, sem padroeiro, e lhe deu princípio um mercador chamado Francisco Antunes Torres, concorrendo com sua fazenda, e as primeiras religiosas foram de um recolhimento que também está situado nesta freguesia, de recolhidas da Santíssima Trindade, as quais daí foram, e ainda existem na mesma forma. As religiosas do Carmo, acima ditas, também são da jurisdição ordinária e no meu tempo o foram dos religiosos calçados.
Nesta mesma freguesia está a igreja da Misericórdia com seu hospital. Este está no distrito do de São Paio, ele descreverá suas rendas e mais particularidades.
Tem no distrito da freguesia capelas, a saber, a de Nossa Senhora da Graça com irmandade que administra, a de Santa Cruz, com irmandade que administra, a do Salvador, que é do reverendo Cabido, onde têm os padres da coraria legados, a de Nossa Senhora do Pilar, mista a umas casas dos possuidores da comenda em Garfe, a da Senhora da Boa Morte, mista às casas que hoje são de José Luís de Távora, e têm legado os padres da coraria, a da Embaixada, mista às casas onde hoje mora o reverendo arcipreste, com legado de missas, a de Santo Estêvão, com administração de foros e pensões e obrigação de missas, e hoje é administrador, por graça de Sua Majestade Fidelíssima, Luís António da Costa Pego de Barbosa, a de São Tiago, da administração do reverendo mestre-escola desta Colegiada, a do Anjo, com irmandade, que administra, e a do Menino Deus, mista às casas do Lamelas, de Manuel Peixoto, com legados que satisfazem os padres da coraria, e também na de São Tiago satisfazem algum. Misto e pegado à capela do Anjo, há um albergue onde se recolhem os pobres passageiros três dias e lhes dão agasalho os administradores e sua irmandade, que são os sapateiros, dando-lhes, naquele, palha para descansarem. E, falecendo naqueles dias, como também sete mulheres, já de idade, que sempre estão no mesmo albergue recolhidas com suas casas, o reverendo Cabido os vai buscar em comunidade, com o cónego cura e os acompanha até à sepultura, por caridade, e se enterram no claustro desta igreja com o reverendo Cabido e irmandade.
A estas capelas ou ermidas não há concurso ou romagem, só sim alguns chamados clamores à de São Tiago e a esta igreja da Insigne Colegiada, vindo algumas freguesias, com os seus párocos, em vários dias do ano.
Os frutos na freguesia: há algumas terras que ficam nos subúrbios onde se colhem trigo, milho grosso e miúdo, vinho e legumes de hortaliças.
Tem Paço de Concelho junto a esta Insigne Colegiada ,onde se fazem as audiências do juiz de fora, juiz dos órfãos e almotacés, e tem Senado de vereadores e o mais de que se compõe. E tem a vila provedor, corregedor, juiz de fora e dos órfãos e superintendente dos tabacos. É a vila cabeça da comarca e termo, como já disse. E desta têm florescido pessoas notáveis em santidade, letras e armas, o que melhor constará do Estaço, que as escreveu. Nesta freguesia há uma feira chamada de São Gualter, franca, no Domingo primeiro de Agosto até à segunda-feira e juntar de bestas. Tem a vila correio que vem ao Domingo e sai à sexta-feira. Dista esta freguesia da cidade de Braga, cabeça do Arcebispado, três léguas e da de Lisboa sessenta léguas. Tem esta Insigne Colegiada aqueles bem conhecidos privilégios das Tábuas Vermelhas, que sempre os Senhores Reis Fidelíssimos mandaram se guardassem e cada vez mais se ampliam na mesma vila. Há muitas mais antiguidades e coisas notáveis, que não pude alcançar para poder com mais individuação dizer, de que o mesmo Estaço dará cópia.
Não me parece tenha que descrever dos mais interrogatórios, só sim que os muros de que faço menção que circulam a freguesia são antigos e seguros e de cantaria e, no distrito da mesma freguesia, ficam algumas torres e uns e outros não padeceram coisa alguma no terramoto do ano de setecentos e cinquenta e cinco. Tem nesta freguesia mais a fonte de águas que se encaminham da serra de Santa Catarina e lançam na Praça de Nossa Senhora, num grande tanque pegado a esta mesma igreja da Insigne e Real Colegiada. E esta é do padroado do Fidelíssimo Senhor Dom José Primeiro, Nosso Rei, e foi de seus antecessores. E sempre veneraram a mesma Senhora e seus privilégios, lhe concederam com mão liberal rendas e honras, donativos e favores.
E nesta forma satisfiz como pude à ordem de que faço menção no princípio deste. Mais me ocorre é dizer que na igreja desta freguesia da Insigne Colegiada existe ainda, metida na parede da nave direita, com umas grades de ferro, uma pia de pedra tosca, em que foi baptizado o Senhor Dom Afonso Henriques, primeiro Rei deste Reino de Portugal. E nesta forma, na companhia de meu companheiro acima declarado, fiz este extracto que ambos assinámos. Guimarães de Maio 20 de 1758.
Francisco José Vieira de Pina, cónego cura da Colegiada de Guimarães.
Manuel José Reis da Costa Pego, cónego e cura da Colegiada de Guimarães.

Oliveira do Castelo, Guimarães Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, vol. 18, n.º 134, p. 745 a 751.
[A seguir: S. Paio]

2 comentários:

Helder Pinto disse...

A pia de pedra em que supostamente foi batizado Dom Afonso Henriques e que, segundo o autor se encontra na Igreja da Senhora da Oliveira, é proveniente da igreja de São Miguel do Castelo? Ou estará aqui o autor da Memória a dizer que Dom Afonso Henriques foi afinal baptizado na Vila Nova? Não é claro...

Antonio Amaro das Neves disse...

Esta "memória" nada diz acerca do local de baptismo de Afonso Henriques. Apenas diz que a pia onde terá sido baptizado estava, na altura (como está hoje), na igreja da Colegiada. Pela leitura da memória publicada antes desta, referente a S. Miguel do Castelo, percebe-se facilmente que a pia foi removida para a Colegiada (o que, aliás, está explícito numa inscrição que foi colocada junto da pia).

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