18 de maio de 2017

A muralha, por Jerónimo de Almeida

A muralha de Guimarães no início do século XX.

No segundo texto das suas Leves considerações arqueológicas, publicadas no jornal Alvorada, no início de 1911, quando a República portuguesa ainda estava a dar os seus primeiros passos, Jerónimo de Almeida debruça-se sobre o que ainda sobrava da muralha dionísia, que se ergueu para cercar e proteger o burgo medieval vimaranense. Um texto que é um precioso testemunho da consciência da importância da preservação do património histórico, que já naquele tempo prevalecia em Guimarães, e que não dava grandes concessões ao advento da mentalidade supostamente modernizadora que, noutras paragens, ia dando uso ao camartelo para derrubar tudo que era velho e inútil.

Breves considerações arqueológicas — II

Os muros da cidade

Desse antigo cinto de muralhas erguidas pelo rei D. Dinis e que outrora apertavam o casario do burgo de Guimarães, raros vestígios existem hoje de pé que nos possam descrever a linha que seguiam. O único trecho visível delas ainda, ladeia a estrada de Fafe desde o campo da Feira à ura de Santa Cruz, e é digna de notar-se a sua bela conservação. A porta que há tempos lhe abriram foi um sinal de alarme para a velha construção, estimulando novos vandalismos! Poupe-nos o município de Guimarães, lembrando-se que do passado é um nobre dever conservar memórias; compreendo que esses muros não têm utilidade prática, mas utilidade histórica, e em nada prejudicam o moderno aformoseamento da cidade, antes são um contraste pitoresco. Arrasem aqui o que de antigo e curioso perdura e veremos a cidade reduzida a meia dúzia de casas sem arquitectura nem elegância, numa esquadria monótona. De moderno só possuímos, que se recomende e de subido valor — o edifício da Sociedade Martins sarmento. Nada mais.
E esta forte razão vem secundar ainda a primordial — que é a razão arqueológica de se proceder a uma desvelada conservação e restauração da arte antiga nos monumentos ou qualquer padrão menos valioso, mas igualmente testemunho duma época histórica. Cumpre, portanto, como sagrada devoção de patriotismo, não derrubar esse curto trecho de muralha que aí ressurge [de] lutas heróicas e sangrentas.
Idêntica reconstrução àquela que aconselhei falando do castelo, devia efectuar-se nestes muros, desnudando as suas ameias da caliça e pedra que encobrem muitas delas, e assim melhor ressalte a sua beleza, quando à distância essas ameias de granito semelham o gume dentado duma serra.
Para fazer se uma vaga ideia do que outrora fosse, completamente intacta, essa arrogante defesa da vila, basta lembrar a área que percorria o pano dos seus muros, partindo do lado sul do castelo pela rua de Santa Cruz abaixo, estrada de Fafe, Trás-o-Muro até ao Toural (onde no alto dos quais o povo desfrutava as corridas de toiros que fora se exibiam, então), rua de Santo António, estrada dos Palheiros acima até se ligarem de novo pelo lado do poente com o castelo. Tinham umas nove portas e vários torrilhões e de dentro deles se fazia a defesa da vila, como tão heroicamente o provaram esses portugueses coevos do princípio da nacionalidade, na Idade Média.
E para que se ateste sempre ufanosamente — berço da pátria portuguesa, esta linda terra — é necessário e indispensável que esses raros documentos ancestrais ainda hoje vigentes, embora em estado de ruína, se conservem e se venerem, porque Guimarães, mesmo com verdejantes jardins e airosas ruas, terá sempre que considerar-se, pelo seu carácter predominante, não uma cidade moderna geometricamente delineada, — mas uma cidade caracteristicamente medieval, do tempo dos grandes senhores do feudalismo, descendentes directos dos cruzados, com o seu alcácer, o seu templo gótico, as suas casas brasonadas e os seus alpendres...
E não se depreenda que eu sou um amante de velharias, um ingénuo bricabraquista armazenador de alfarrábios com capa de pergaminho, loiça barata da Índia e jóias falsas de filigrana... Pretendo unicamente que se respeite a arqueologia da minha terra, no culto da Arte, como este povo amava e ama ainda os seus ídolos e os seus santos...
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 18 de Fevereiro de 1911

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