17 de maio de 2017

O Castelo, por Jerónimo de Almeida

O Castelo de Guimarães no início do século XX
 No início de 1911, Jerónimo de Almeida publicou no jornal republicano vimaranense Alvorada, uma série de textos com o título genérico Breves Considerações Arqueológicas, em que descreveu diversos monumentos de Guimarães, dando diversas sugestões para os procedimentos a aplicar para a sua preservação. Estas estas prosas do poeta das Estrelas que se apagaram são muito interessantes. No entanto, se outro interesse não tivessem, são bons retratos do estado em que se encontravam no início do século XX os documentos de que trata.
O primeiro monumento sobre o qual Jerónimo de Almeida se debruçou foi, naturalmente, o castelo de Guimarães. Aqui fica.

Breves considerações arqueológicas — I

Castelo

O vetusto castelo de Mumadona, que sendo depois propriedade do Conde D. Henrique o herdara o nosso 1.º rei, no estado actual em que se encontra assim tem atravessado longos anos de vigorosa existência, sob as agrestes inclemências atmosféricas.
A sua ruína, portanto, é relativamente pequena visando a sua antiguidade.
Contudo, encontrá-lo-íamos mais conservado e completo se (como diz o Padre Caldas no Guimarães) grande porção de pedra que fazia parte do paço não fosse aplicada na construção do convento dos Capuchos, nos anos de 166..., por vandalismo dos seus frades. Este facto profundamente deplorável ainda nos deixou, para memória, a parede exterior que liga com as muralhas e onde existem as simples janelas romanas, com uma coluna ao centro e assentos de pedra interiores.
O estado do mais, conforme se encontra, não parece ameaçar derrocada, tão extraordinariamente sólida era aquela monumental construção de pesado granito! A sua original beleza perdura e perdurará através de muitas gerações, se o nosso desvelo e amor pelas preciosas relíquias do passado nos não abandonar. Elias encarnam um feixe de tradições e são um símbolo de glórias, e à face delas conseguimos desvendar os mistérios que obscurecem, por vezes, o heroísmo de nossos antepassados. Conservá-las, por isso, é, além dum dever patriótico, uma revelação de apreço à arte e à história, ou, sintetizando — à arqueologia.
Mas não devemos apenas contentar-nos em contemplar a graciosa silhueta das suas torres esbatidas nos cambiantes de fogo dum crepúsculo outonal, e sim devemos visitar temporariamente esse castelo roqueiro, como quem se interessa pela saúde duma pessoa idosa. Amemo-lo como berço do fundador da nossa querida Pátria e como a mais rara preciosidade da nossa terra, porque é o maior titulo de orgulho que nós indicamos aos visitantes, o melhor brasão de nobreza da heráldica de Guimarães.
E eu não pretendo mais que atear na alma de todos os meus patrícios esse afecto e esse carinho pelo que nos legou o passado épico. Não basta conhecer a História, é necessário amá-la; como? — cuidando dos padrões que ela imortalizou. Se deixássemos desmoronar-se esse velho alcácer num montão de escombros silenciosos, todo esse período longínquo se ofuscaria na nossa memória e em breve duvidaríamos das afirmações históricas que lhe dizem respeito. Até a letra da mesma história apenas narraria, aos nossos olhos, uma vaga lenda de inacreditáveis proezas guerreiras, e o próprio D. Afonso passaria talvez a ser uma espécie de D. Quixote, mais corajoso e menos fantasista...
Evocar, nessas ruínas pitorescas, uma época remota, é receber uma lição emocionante dos tempos medievais, dando-nos a conhecer, cronologicamente, esta intensa e constante evolução social — material e moral.
Eu simplesmente quero frisar, de passagem, (tão pouco permite-o bem a minha erudição) quais as reparações ou reconstruções que há a realizar naqueles muros que, pelo andar dos tempos, vários arquitectos têm adulterado. Basta-me, para isso, uma fácil percepção que indica o seguinte:
— Tirar dos vãos das ameias, sobre as muralhas, a argamassa que as encobrem em parte, desvanecendo-lhes a graça; destruir uma pequena casa contigua ao paço e edificada sobre o adarve, que a alguém pode suscitar dúvidas na sua origem, pois que tentaram imprimir-lhe o carácter da antiga construção, nas portas em arco; mudar o paiol da pólvora dali para fora, alagando igualmente a casa que a guardava; limpar, finalmente, tudo o que esteja mascarando o antigo monumento na sua primitiva forma.


O paiol do antigo Regimento de Infantaria 20, no Castelo.
Seria ingenuidade desejar uma nova vida ao que o tempo enrugou; isto equivaleria a querer infiltrar o vigor dos 20 anos a um velho de 80. Restitua-se-lhe unicamente a sua originalidade, sem profanar o mais, e esta é uma obra bem singela.
A escada interior da torre de menagem foi renovada completamente, podendo-se, portanto, subir ao alto dela e desfrutar o soberbo panorama.
Conquanto isto se não prenda com estas leves considerações, não me posso esquivar à tentação de repetir uma vez mais, o que por outros tem sido proclamado, de que um belo melhoramento da Câmara seria arrasar esses míseros casebres que circundam o castelo, fazendo assim com que ele ressaltasse em toda a sua esplêndida nudez, sobre as rochas que lhe servem de poderosos alicerces. Esta obra exterior viria completar a interior que eu venho aconselhando, impondo-se desde logo. Não desespero, contudo. Mas quando este melhoramento se realize, inste a nossa Câmara junto do Ministério da Guerra para que este outro, dentro do monumento, se efectue a par e, assim, a obra seja completa. É questão de um pouco mais de amor à terra. E porque esses monumentos são a documentação viva da história e a factura artística dum povo, esta demonstração de acrisolado culto será apenas uma justa prova de patriotismo, num novo aspecto.
Como esses cacos e inscrições lapidares que sábios, escavando no solo, descobrem e que vêm aclarar os espíritos nas investigações das eras romanas, quando esses povos atravessavam a península espalhando as sementes duma civilização que brilhara na Guerra, na Conquista e no Direito, — assim em tempos posteriores, que as cruzadas à Terra-santa precederam, essas ruinas, ainda tão expressivas, nos vêm renascer o século XII do princípio da nossa nacionalidade, com o seu aspecto denegrido, como bronze, e a sua hera ramalhetando-o.
Têm aparecido nos terrenos adjacentes ao castelo, no sítio dos fossos, várias moedas que eu tive ocasião de ver, e nalgumas das quais se distingue o escudo das quinas, uma cruz, e numa delas apenas os algarismos 80, de que se pode deduzir o ano 1080. Devia-se, por este motivo, proceder a uma cuidadosa escavação nesses fossos hoje soterrados, e as moedas ou utensílios descobertos entregá-los à Sociedade Martins Sarmento.
Jerónimo de Almeida.
Alvorada, 11 de Fevereiro de 1911
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