20 de abril de 2017

Ruas antigas: Caldeiroa

Rua Caldeiroa, em primeiro plano, na mais antiga vista geral fotográfica de Guimarães que se conhece (tirada entre 1849 e 1873). As torres de igreja que aparecem retratadas são, da esquerda para a direita, da Misericórdia, de S. Paio (demolida), de S. Sebastião (demolida) e da Oliveira. A torre da igreja de S. Sebastião é a que hoje se vê na igreja de Creixomil. A pedra desta igreja foi usada para altear a Caldeiroa.

Saindo do Toural na direcção do monte Cavalinho, no largo que, desde 1953, ostenta o nome do musicólogo vimaranense Bernardo Valentim Moreira de Sá, abrem-se duas ruas descendentes em direcção ao rio de Couros. A que corre pelo lado do poente é a rua Caldeiroa ou, mais simplesmente, a Caldeiroa. Trata-se de uma das ruas mais antigas dos arrabaldes do velho burgo vimaranense, aparecendo, já com essa designação, na documentação medieval. Tem-se pretendido explicar o seu nome com o facto de ter sido uma rua onde, no passado, se concentraria a actividade de caldeireiros e latoeiros. Todavia, não há nada que autorize tal conclusão, excepto o que o nome sugere. A. L. de Carvalho, nos seus Mesteres de Guimarães (vol. V, pág. 81), escreve:

Temos nos topónimos de ruas uma artéria designada, desde o século XIII, — Rua da Caldeiroa. Não falta quem lhe queira, por esse facto, dar as honras de artéria onde poisaram caldeireiros. Tanto não avanço.

A investigação sistemática de Maria da Conceição Falcão Ferreira deu razão às cautelas de A. L. de Carvalho. Testemunha, no seu Guimarães — duas vilas, um só povo (pág. 574), que foi em vão que procurou na documentação medieval a presença nesta rua de artesãos que se dedicassem ao fabrico de caldeiras e de artefactos afins: “nem um só, pela Caldeiroa e Molianas”.

Em boa verdade, a única actividade artesanal que aqui conseguimos identificar pelos vestígios arqueológicos que sobreviveram, é a da curtimenta das peles. Os pelâmes identificados na Caldeiroa permitem-nos perceber que o território dos couros se estendia para além do bairro da indústria dos couros, cujos limites, em bom rigor, se estendem até à Madroa. É verdade que agora existe uma muralha de pedra a separar a Caldeiroa do Relho e da rua de Couros, que se levantou para sustentar a actual avenida D. Afonso Henriques, traçada para ligar a estação do comboio ao Toural. Porém, até ao final do século XIX, não havia qualquer descontinuidade física entre estes espaços. Ambos marginavam o curso de água que alimentava o tratamento das peles: na cota mais baixa do seu traçado, a Caldeiroa encontra-se com o rio de Couros, que agora vai correndo encanado. Em tempos chuvosos, também aí são (eram?) frequentes as inundações.

Na década de 1890, a Caldeiroa foi alteada com pedra proveniente da demolição da antiga igreja de S. Sebastião, cuja torre sineira foi transplantada para a igreja paroquial de Creixomil.

No início da década de 1940 foram removidos da Caldeiroa um fontanário e um oratório, onde estava exposta uma imagem de Cristo que, na altura da remoção, foi entregue ao pároco de S. Sebastião.

A Caldeiroa é uma das ruas mais antigas de Guimarães. No final do ano de 1910, a República recém-instalada mudou-lhe o nome, passando a designar-se oficialmente por rua Dr. Trindade Coelho. Mas o povo, como de costume, não foi de modas e continuou a chamar-lhe pelo nome que sempre lhe conheceu. Até que, em 1943, em tempo de refluxo da ordem republicana, a Câmara voltou a tornar oficial o topónimo histórico desta velha rua.

Caldeiroa continua a ser. Apesar de ninguém saber explicar de onde lhe veio tal nome.

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