2 de abril de 2017

Loira, por João de Meira

Largo do Chiado e rua Garrett,  em 1900. Fotografia de Joshua Benoliel, do Arquivo Municipal de Lisboa.
No ano lectivo de 1899-1900, João de Meira estava em Lisboa. O seu amigo Joaquim Costa esclarecerá o motivo da presença de Meira na capital: “ele foi para a Politécnica de Lisboa, ver se os manes da química orgânica se lhe não mostravam tão adversos”. O “Herodes degolador de inocentes” a que Meira se refere era o célebre professor António Joaquim Ferreira da Silva, uma das figuras mais proeminentes da ciência portuguesa do seu tempo, director do Laboratório Municipal de Química do Porto e professor na Escola Politécnica, onde leccionava a cadeira de Química Orgânica e Analítica, em que João de Meira tropeçou. Foi durante essa estadia em Lisboa, que seria curta, que Meira escreveu o poema Loira, cuja versão original, publicada em O Comércio de Guimarães de 3 de Abril de 1900, é a que aqui se deixa.

LOIRA

Eu descia o Chiado lentamente
Parando a olhar as montres dos livreiros,
Quando passaste altiva, surpreendente
Mal poisando no chão os pés ligeiros.

O céu nublado ameaçava chuva,
Saía gente fina de uma igreja;
Destacavam no traje de viúva
Os teus cabelos loiros de cerveja.

E a mim um desgraçado, a quem seduzem
Comparações estranhas, sem razão
Lembrou-me esse contraste o que produzem
Os galões sobre o negro de um caixão.

Eu buscava uma rima bem intensa
Para findar uns versos com amor;
Olhaste para mim com indif'rença
Através do lorgnon provocador.

Detinham-se, a olhar tua elegância
Os dandys com aprumo e galhardia;
Segui-te humildemente e a distância;
Não fosses suspeitar que te seguia.

Havia no passeio uns charcos de água
E tu, sempre febril , sempre inquieta.
Ergueste a saia e pude ver a anágoa
De um tecido ligeiro e violeta.

Eu pensava de longe, triste e pobre,
(Desciam pela rua umas varinas)
Como podias conservar-te sobre
O salto exagerado das botinas,

De súbito parei, sentindo bem
Ser loucura seguir-te com empenho,
A ti que és nobre e rica, que és alguém,
Eu que de nada valho e nada tenho

Senti a atravessar-me um calafrio
E tive, para o teu perfil ligeiro,
Esse olhar resignado do vadio
Que fita a exposição de um confeiteiro.

Vi perder-se na turba que passava
O teu cabelo loiro que faz mal;
Não achei essa rima que buscava,
Mas compus este quadro natural. 

Lisboa, 16 de Março de 1900
João de Meira

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