17 de abril de 2017

Dia de Páscoa

Já o disse antes, repito-o agora: a minha participação na discussão acerca das propostas para a construção de parques de estacionamento no Centro Histórico de Guimarães não é movida por inquietações provocadas pela proposta avançada pela coligação Juntos Por Guimarães, para a construção de túneis e parques subterrâneos no Toural e no Campo da Feira. Entendo a sua natureza pré-eleitoral, da qual decorre que ainda haverá que correr muita água pelo rio de Couros até que a sua concretização se possa colocar em cima da mesa. A minha preocupação actual decorre, exclusivamente, do projecto da Câmara para a construção de um grande parque de estacionamento no espaço interior do quarteirão Camões-Caldeiroa-Travessa da Madroa. Porque, neste momento, ao contrário da Coligação, a Câmara tem poder para fazer avançar o seu projecto, tornando-o num facto consumado, porventura irreversível. E temo que a apresentação da proposta da Coligação possa, involuntariamente, eu sei, ir de encontro à vontade da Câmara de construir o parque da Caldeiroa. Porque, por um lado, ajuda a dar razão e consolidar a ideia feita, mas ainda não demonstrada, de que a falta de estacionamento em Guimarães é um problema sério que justifica prioridade no investimento; por outro, porque pode contribuir para fazer criar uma cortina de fumo que tenda a perturbar o debate que agora se impõe e para o qual a Câmara não tem demonstrado grande vontade, fazendo avançar as máquinas na Caldeiroa-Camões.

E o debate a fazer, antes de se avançar para a discussão de soluções concretas, é o de estabelecer a necessidade de mais estacionamento junto ao Centro Histórico de Guimarães.

Os únicos dados sobre esta matéria que conhecemos (publicados pelo jornal Mais Guimarães) referem-se às taxas de ocupação dos espaços regulados por parcómetros, que eram de 41%, para a zona vermelha, e 29% para a zona verde. Claramente abaixo de 50%. Com tais números, com que base é que se pode afirmar que há falta de lugares para estacionar em Guimarães? A Câmara não terá investimentos mais prioritários, inclusive relacionados com a mobilidade, correspondentes a necessidades efectivamente sentidas pela população do concelho, onde gastar os 7 milhões de euros que se propõe utilizar para encher de betão o miolo da Caldeiroa?

Vem esta conversa a propósito de uma série de comentários ilustrados com fotografias que o meu amigo Sérgio Bastos colocou num texto meu, no Facebook, que a seguir reproduzo, com a devida vénia, onde se mostra Guimarães, num domingo de Páscoa carregado de turistas espanhóis.

Segue-se a "reportagem" de Sérgio Bastos, pelas ruas de Guimarães, no dia 16 de Abril de 2017:

* * *

Hoje à tarde a cidade CH estava com muita gente! O estacionamento na Av. Alfredo Pimenta estava com ocupação de cerca de 80 a 90% e a Av. São Gonçalo, nos parquímetros (hoje gratuitos), estava também com muitos automóveis. Significa que as pessoas foram a pé... não precisaram do parque de Camões ou do Toural para lá chegarem!!! O parque da Plataforma das Artes tinha 5 automóveis, o parque da Av. São Gonçalo não tinha um... Os comerciantes vimaranenses devem convencer-se de que sem trânsito (como hoje no CH) melhorariam os seus negócios. Antigamente quem comprava eram os cavaleiros, as charretes e os coches... quem tinha dinheiro... hoje esses vão a Braga, ao Porto, Londres, Berlim, Munique...

Hoje. Plataforma das Artes.

Gente. 

 Santiago. Hoje.

 Av. Alfredo Pimenta. Hoje.

 Povo que anda a pé.

Houvesse mais gente e não faltaria estacionamento para ninguém! Na porta daquela loja e daquela e daquela outra não há estacionamento. Pois não!!! Tem que andar 3, 4, ou 5 minutos a pé... que chatice! Mas teimam em querer cercar a cidade intramuros com mais parques!?! Defendamos a cidade de novo atentado criminoso que seria a construção do parque de Camões! Ecológico, de saúde pública, (ruído, dos gases e da trepidação 24 horas todos os dias) e do património industrial com tanques de couros que se encontram no seu miolo e se reabilite e recupere esses equipamentos já construídos e rodeados de áreas verdes para um verdadeiro quarteirão das Artes. Além disso como é possível projetar este parque de Camões/Caldeiroa e rua da Liberdade criando uma circulação à volta deste quarteirão com milhares de carros diários???

Palmeira (um ícone do Toural) com 200 anos que já viu muitos presidentes de Câmara passar e que este, sempre pronto para um discurso verde, quer matar. Nem a Encíclica Laudato Si, que trata da ecologia e a defesa da "casa comum", o planeta terra, que está na página do facebook de Domingos Bragança e, portanto, é suposto que a tenha lido... ou então não leu e se leu não compreendeu nadinha do que está escrito.

Duas árvores icónicas de Guimarães, o eucalipto que, por ser o único, se tornou uma referência e a palmeira que agora seria destruída se o crime ecológico acontecesse!

Entrada para o parque pela Travessa de Camões, depois de ter percorrido a rua da Liberdade ou a rua D. João I, Dominicas e a rua de Camões!!! Sempre a poluir, a trepidar os edifícios... o ruído, que não se pode abrir janelas... quem quer morar ou comprar casa nestas ruas?

Entrada para o parque pela Trav. de Camões e a destruição destas duas casas!!! Também se sabe que o restauro e recuperação dos edifícios no CH obedece a normas que são inconciliáveis (isolamentos e caixilharias) com os ruídos dos milhares de automóveis diários (que um parque para 500 lugares) percorrerão esta "circular urbana" à volta do quarteirão, Rua D. João I, Dominicas, Paio Galvão, Toural e, claro, pela Alameda para quem vem de nascente... porque há uma segunda entrada pela Caldeiroa!

Única saída do parque pela viela da Madroa. (Informações, todas as aqui deixadas, obtidas depois de requerer na CM a consulta do projeto). Cuidado... não vá apanhar com um carro da esquerda, que descem às vezes com velocidade que não daria para travar e evitar o acidente!

Qual é o conceito desta Câmara de Património? Já percebemos que destrói duas casas... que amputa o casario, que rompe e rasga o tecido urbano histórico por causa dos automóveis dos peões!! Mas, se defende os tanques em Couros, porque não defende também estes que se encontram no interior do quarteirão da Caldeiroa?! Sim. Vai mantê-los... (visíveis num fosso de 9 metros) mas destruindo as fábricas que os enquadram e dão sentido... mais valia mantê-los tapados para que não aconteça como aqueles que compram um espigueiro numa quinta e o implantam no quintal da casa... tornando ridículo esse desenquadramento! Mas afinal quais tanques valem mais? Só os de Couros ou todo esse conjunto (roteiro) assinalado com círculos e que perfazem a totalidade desse extraordinário património que complementa o nosso Património Cultural da Humanidade e lhe deu vida e sustento económico ? A amarelo as fábricas (a serem destruídas) e os tanques da Caldeiroa. A seta vermelha e branca assinala os tanques existentes ali junto onde estão a construir o Pingo Amargo e vai ser bem amargo para a cidade e a qualidade de vida da avenida e miolo de Couros! Terão sido destruídos????

O conjunto de tanques e fábrica de couros do quarteirão da Caldeiroa, a que posteriormente juntaram outras fábricas que foram convertidas e reutilizadas agora por artistas que aí se encontram a produzir arte e o seu salário, a que a CMG se deveria solidarizar e acarinhar para que mais artistas pudessem usufruir desses edifícios recuperados e o seu património possa ser incluído no roteiro da industria de couros. Não temos um museu de interpretação desta industria?! Façamo-lo neste quarteirão onde se pode usufruir no exterior dos edifícios de um espaço verde de condições excelentes!
[Fotografias e comentários de Sérgio Bastos]
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