16 de abril de 2017

Da estatística e dos seus usos

Os caminhos para Guimarães, segundo "os estatísticos".

Há em Guimarães uma nova paixão: as estatísticas.

À entrada da cidade, deparo-me com um cartaz que me informa que Guimarães já ocupa o quinto lugar no ranking dos concelhos mais exportadores do país. Magnífico. Mas o que é que isso me diz sobre o nível de vida dos vimaranenses? Nada. Consulto as estatísticas e verifico que, segundo os últimos dados disponíveis (referentes a 2013), a remuneração média mensal dos trabalhadores por conta de outrém de Guimarães se ficava por uns tristes 77% da média nacional. Céu ou Inferno?

O portal da PORDATA, na informação desagregada por municípios, disponibiliza quase uma centena de indicadores, havendo-os para todos os gostos. Escolhas cirúrgicas desses indicadores permitirão pintar o quadro de Guimarães com os tons do mais luminoso cor-de-rosa, ou com as diferentes variações de cor-de-laranja, que é a cor que, na pintura antiga, predomina nas representações do Inferno.

As estatísticas são ferramentas muito úteis para a análise dos diferentes processos sociais, económicos, financeiros, históricos, etc, mas têm que ser usadas com cautela e espírito crítico. São construções e, enquanto tais, quem as usa deve ter o cuidado de procurar perceber como é que foram construídas, ou seja, quais as opções que foram tomadas pelos estatísticos que permitiram chegar ao resultado que se observa. Porque, em estatística, caminhos diferentes não conduzem necessariamente a resultados iguais.

Ontem, mostrei aqui um exemplo que encontrei na PORDATA que demonstrava que, na construção das amostras estatísticas, opções erradas produziam respostas incorrectas. Era um exemplo de uma realidade que conheço bem, em que os resultados apresentados eram manifestamente incorrectos. À pergunta “onde há mais e menos homens ou mulheres a frequentar o ensino universitário e politécnico?”, a resposta era a de que em Guimarães havia, no ano de 2016, 70 estudantes a frequentarem o ensino superior. Notei o erro, que era mais do que evidente, e logo me caíram em cima alguns dos especialistas instantâneos em estatísticas que passaram a povoar as redes sociais e que, aparentemente, nem sequer se deram ao trabalho de ler o que eu escrevi, a acusarem-me de ter dito aquilo que nunca disse, em defesa de uma dama, a PORDATA, que eu não sabia pertencer-lhes.

O que eu pretendia, no que escrevi, com a ironia de que fui capaz, é que não é recomendável usar a informação estatística, venha ela de onde vier, de forma acrítica. Porque, sem informação que complete os quadros estatísticos e que nos informe de onde provêem e quais são os dados que foram utilizados para a sua elaboração, há sempre informação relevante que nos falha.

Dou outro exemplo, colhido na mesma PORDATA (que, note-se, é uma ferramenta inquestionavelmente útil, a que recorro com frequência na minha actividade profissional), referente a outra realidade que conheço bem, os museus. Segundo a PORDATA, no ano 2000 havia um único museu em Guimarães. Em 2009, já eram 5 e, em 2013, 6, número que não se alterou até ao último ano disponível, 2015. Ora, não é preciso um esforço muito grande para perceber que estes números não batem certo com a realidade instalada. Nem no ano 2000, nem agora. Uma visita à página do Guimarães Turismo, permite contar 10 museus, sendo certo que um deles, a Casa da Memória, só abriu em 2016, e que um outro, a Sala Museu José de Guimarães, no Paço dos Duques, não é propriamente um museu, o mesmo se podendo dizer, porventura, do Núcleo Arqueológico da ACIG. Porém, sem muito esforço, sou capaz de acrescentar dois museus que não constam da lista do Guimarães Turismo, o Museu da Agricultura de Fermentões e o Museu da Vila de S. Torcato. Em suma, também aqui, a informação estatística é visivelmente deficiente.

Servirá isto para que se afirme que toda a informação da PORDATA está errada? Claro que não. O que serve é para reafirmar a necessidade de cautelas básicas na utilização da informação estatística disponível.

Apenas isso.
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