11 de março de 2017

Há 120 anos: o casamento de Raul Brandão e Maria Angelina

Raul e Maria Angelina Brandão, por Columbano Bordalo Pinheiro. Da colecção do Museu Nacional de Arte Contemporânea.

No início de Junho de 1896, o “ilustrado alferes de infantaria, primoroso escritor e literato lisbonense” Raul Brandão apresentou-se no 1.º batalhão do Regimento de Infantaria 20, estacionado em Guimarães, sendo saudado pelo redactor de O Comércio de Guimarães como um “talentoso colega”, redactor do jornal “Correio da Manhã”, que, em Lisboa, integrara uma comissão que tinha como tarefa escrever a história da Guerra Peninsular. Vinha para cumprir os dois anos de serviço efectivo a que estava obrigado para poder ascender ao posto seguinte da carreira militar. Mal imaginava que chegava para ficar.

Alguns dias depois, teve um encontro que mudaria o seu destino. Encontrou Maria Angelina, uma rapariga que, nos seus 17 anos, não deu mostras de se deixar enredar na teia que lhe teceu o alferes que, alto, loiro e de olhos azuais, tinha visos de príncipe escandinavo. O cerco de Raul a Maria Angelina durou dias de longas horas de espera e um par de cartas de um romantismo a escorrer para o pindérico, surpreendente no autor que integrou o grupo de cínicos portuenses que se auto-denominavam de nefelibatas. O enamoramento tinha os seus trâmites, feitos de suspiros, recusas e promessas veladas, que Maria Angelina não dispensou e a que faltaram alguns versos em que ninguém reconhecerá como tendo saído da pena do escritor da Casa do Alto, que construiria uma imensa obra poética, mas que não era dado a versejar:

ESQUIVA
Quando te busco, foges sempre. Acaso
Temes, meu anjo! que te creste as asas
Esse fogo de amor em que te abrasas?
Este fogo de amor em que me abrasas?

Porque eu bem sei que muito embora oculto,
Por este amor, dás-me também amor.
Almas talhadas para a mesma dor,
Professamos os dois o mesmo culto...

Sei que pensas em mim, do mesmo modo
Que penso em ti, ó dona dos meus ais...
Sei que os nossos desejos são iguais
E formam os nossos corações um todo...

Não percebes a vida, nem a posse
Do meu amor, como eu não percebo
Sem a esperança que em teus olhos bebo,
E em teus sorrisos, minha pomba doce!

Na tua esquivança não abrandas
Se longe um do outro andamo-nos buscando,
Tu, minha amada! os beijos que te mando.
Eu, minha vida! os beijos que me mandas

No entanto todos sabem que me evitas,
E riem, riem deste sonho meu...
Doudos! que importa que me fujas?
Eu Vivo contigo, e tu comigo habitas?

Foges-me? A sorte que prazeres cria
E a muitos só concede a noite,
Fadou-me para ticomo fadou-te,
Não fujas mais! para ser minha um dia!

A primeira vez que Raul Brandão conversou com Maria Angelina foi na festa de S. João, naquele mesmo mês de Junho de 1896. Naquele ano, teve quermesse, bandas de música, fogo de artifício e balões iluminados no Campo da Feira. A principal atracção foi um enorme balão, pintado e decorado pelo artista Domingos José da Costa, a quem chamavam o Véstia. O arraial durou até à uma da madrugada, não faltando grupos que percorreram as ruas da cidade com os seus descantes, acabando muito por convergir no lugar da Fonte Santa.

Tudo apontava para que o namoro fosse longo. No entanto, não passaria um ano até que Raul e Maria Angelina se casassem na igreja paroquial de Nespereira. Foi numa quinta-feira, dia 11 de Março de 1897. O noivo completaria 30 anos no dia seguinte. A noiva ainda ia nos 18 anos. Passam hoje 120 anos.

O registo de nascimento é um documento muito interessante, quer pela condição da noiva (era tutelada pelo padrinho de baptismo, António Coelho da Mota Prego, com quem residia na casa de torre do terreiro da Misericórdia), quer porque nele aparece como testemunha um tal Armando Brandão, negociante na cidade do Porto, que será irmão de Raul Brandão e cuja existência, confessamos, desconhecíamos.

Voltaremos a este documento. Aqui fica:

Aos onze de Março do ano de mil oitocentos noventa e sete, nesta igreja paroquial de Santa Eulália de Nespereira, concelho e Guimarães, diocese de Braga, com autorização do Excelentíssimo Arcebispo Primaz datada do dito mês e ano, na minha presença, com autorização do mesmo Arcebispo Primaz concedida no diploma referido, compareceram os nubentes Raul Germano Brandão e Dona Maria Angelina de Araújo Abreu, os quais sei serem os próprios, com a dispensa de proclamas concedida por diploma do dia cinco do mesmo mês e ano, e sem impedimento algum canónico ou civil, ele de idade de vinte e nove anos, solteiro, alferes de Infantaria número vinte estacionada em Guimarães, natural da freguesia de São João da Foz do Douro, concelho e diocese do Porto, filho de José Germano Brandão, negociante, natural a freguesia da Sé, Bispado do Porto, e de Dona Laurinda Laurentina Ferreira de Almeida Brandão, natural da freguesia da Foz do Douro, concelho do Porto, e ela de idade de dezoito anos, solteira, tutelada do Doutor António Coelho da Mota Prego, com quem reside no campo Franco Castelo Branco, freguesia de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães, onde nasceu e foi baptizada, filha legítima do Doutor Manuel Bernardino de Araújo Abreu, natural da freguesia de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães e de Dona Joaquina Rosa Alves de Lima Pereira, também conhecida por Joaquina Rosa Pereira de Abreu, natural da freguesia de S. João de Brito, concelho de Guimarães, diocese de Braga, os quais nubentes se receberam por marido e mulher e os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto conforme o rito da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana, e celebrando a bênção do anel nupcial. Foram testemunhas presentes, que sei serem os próprios, Dona Maria da Conceição de Araújo Abreu Pinheiro Torres, casada, residente em Guimarães, Dona Teresa Elvira Magalhães Brandão Mota Prego, casada, moradora no dito campo Castelo Branco e freguesia da Oliveira, Dona Maria Angelina Coelho Mota Prego, solteira, moradora no dito campo e freguesia, Armando Brandão, casado, negociante na cidade do Porto, Doutor António Coelho da Mota Prego, casado, Manuel Bernardino de Araújo Abreu, académico, morador no dito campo Castelo Branco, António Maria Pinheiro Torres, casado, Delegado do Procurador da Coroa e Fazenda em Cabo Verde, morador em Val de donas da dita da Oliveira. E para constar lavrei em duplicado este assento que, depois de ser lido e conferido perante os cônjuges e testemunhas com todos assino. Ressalvo a entrelinha que diz — com e também a emenda — Pinheiro. Era ut supra

Maria Angelina de Araújo Abreu
Raul Germano Brandão

Teresa de Magalhães Brandão Mota Prego
António Coelho da Mota Prego
Sebastião Augusto de Magalhães Brandão
Manuel Bernardino de Araújo Abreu
António Maria Pinheiro Torres
Abílio Severino Ribeiro de Magalhães Brandão
José Bernardino de Araújo Abreu
Manuel Gaspar Coelho da Mota Prego

Declaro que a nubente Dona Maria Angelina de Araújo Abreu foi autorizada a contrair este casamento por alvará de onze do dito mês e ano. Era ut supra.


O reitor, Bernardino Fernandes Ribeiro de Freitas

[FONTE: Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães]
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2 comentários:

Joaquim Pinto da Silva disse...

Boa dia, estudioso de Raul Brandão gostaria de ter uma cópia do assento de casamento que amavelmente nos faculta aqui a transcrição. Será possível?
Obrigado.
Joaquim Pinto da Silva

Antonio Amaro das Neves disse...

Boa tarde,
Peço desculpa por só responder agora. O registo de casamento reparte-se por quatro páginas do livro de assentos de casamento da freguesia de Nespeira, que se encontram nos três ficheiros cujas ligações indico abaixo (começa ao fundo da página da direita do primeiro ficheiro):
http://archeevo.amap.com.pt/viewer?id=182577&FileID=94151
http://archeevo.amap.com.pt/viewer?id=182577&FileID=94152
http://archeevo.amap.com.pt/viewer?id=182577&FileID=94153

SAudações Cordiais
António Amaro das Neves