25 de março de 2016

Descoberta outra torre medieval em Guimarães?


Ao início da manhã de hoje, um morador da rua do Cano deparou-se, no espaço que fica entre a capela de Santa Cruz e o Paço dos Duques, com vestígios de uma construção cuja natureza ainda se desconhece. A descoberta, que está a suscitar grande curiosidade, deu-se quando um cidadão, que preferiu permanecer no anonimato, passeava o seu cão que, a certa altura, começou a escavar na terra. No momento em que o dono se preparava para tapar o buraco aberto pelo animal, deparou-se com o que lhe pareceram ser vestígios de uma parede de granito. Estranhando o achado, chamou a atenção a um agente da Polícia Municipal que na altura passava por perto, que deu conta da ocorrência aos respectivos serviços. Passado algum tempo, dirigiu-se ao local o arqueólogo da Câmara Municipal de Guimarães, que observou o achado, recusando-se a emitir qualquer opinião antes de se proceder a uma sondagem ao terreno, que carece de autorização superior e de parecer da Direcção Regional de Cultura do Norte. Ao local tem acorrido grande número de curiosos, tendo sido aventada a ideia de que o achado poderia corresponder às ruinas de uma antiga torre medieval que se teria erguido naquele local em tempos anteriores à fundação da nacionalidade, para proteger uma das entradas da Vila do Castelo, conhecida por Porta da Freiria.

A presumível existência dessa torre tem sido defendida por vários historiadores e arqueólogos, embora até hoje não tenha sido encontrada qualquer evidência da sua existência. Esse é o caso do arqueólogo Mário Cardozo que, num artigo que publicou em 1957 na Revista de Guimarães, escreveu que “havia uma outra torre, essa defensiva da Porta da Freiria ou de Santa Cruz, que ficava mais ou menos em frente da capela desse nome, ainda existente, e dava acesso ao interior da vila através da viela do Sabugal”. A medievalista Maria da Conceição Falcão Ferreira, na sua tese de doutoramento intitulada Guimarães: duas vilas, um só povo, informa que essa porta aparece referida num documento de 3 de Março de 1300, com a designação de “porta freeira”. Na planta quinhentista de Guimarães guardada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, está marcada a sua localização, designando-se como Porta da Frieira. Aguarda-se que os especialistas se pronunciem sobre esta descoberta que, caso se confirme tratar-se de uma torre do antigo sistema defensivo do burgo de Guimarães, terá um grande impacto, quer a nível local, quer na comunidade científica.

Em Guimarães reina grande expectativa à volta deste achado. O Presidente da Câmara já divulgou um comunicado em que informava que estava a seguir a situação com atenção, afirmando que esta será a oportunidade para a criação de um centro de interpretação da Guimarães medieval, para cuja conceptualização seria aberto em breve um concurso de ideias de âmbito internacional. O vereador da cultura, em declarações à CMTV, anunciou que a Feira Afonsina deste ano terá o seu perímetro alargado, de modo a incluir nele o espaço onde se situa a torre agora descoberta. O vereador da CDU regozijou-se com o achado e com a prontidão e a assertividade da resposta da Câmara a esta situação, fazendo questão de notar o contraste da posição agora assumida com outras que recentemente foram tomadas. A coligação PSD/CDS convocou uma conferência de imprensa, onde se irá pronunciar sobre o assunto e apresentar propostas para a sua valorização. Os vimaranenses já dão como certo que os vestígios descobertos sejam uma torre medieval. Em Guimarães, o ambiente é de entusiasmo à volta deste achado.

Não, o que vai aí acima não aconteceu. As referências históricas são autênticas, o achado é inventado. Não aconteceu, mas podia ter acontecido. E, se tivesse acontecido, nenhum de nós ficaria impressionado com o impacto que a descoberta teria, tanto nos meios de comunicação, como nas declarações de historiadores, arqueólogos e, evidentemente, dos nossos políticos locais, que logo profeririam declarações de contentamento e avançariam com promessas de projectos de estudo, divulgação e musealização do achado. Ninguém teria dúvidas acerca da sua enorme importância histórica e patrimonial. Ninguém estranharia o entusiasmo que o achado iria despertar, nem o consenso que despertaria na sociedade vimaranense, e que, seguramente, envolveria todas as forças políticas locais.

O que se escreveu sobre a Torre da Freiria é pura ficção. Serve apenas para evidenciar o quão sem sentido têm sido as reservas da nossa governança local em fazer regressar ao domínio público da última torre da antiga cerca fortificada de Guimarães, que, ao contrário da outra, é bem real. É que, no limite, estamos a falar num custo que será sempre inferior a 0,2% do seu orçamento da Câmara Municipal de Guimarães para o ano de 2016. Um preço bem pequeno para um bem que, em termos históricos e simbólicos, não tem preço.
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