13 de dezembro de 2013

Festas Nicolinas: tradição e mudança (4)

A entrega das maçãs (desenho de Gil Azevedo, 1943)

Como se recordarão aqueles que têm tido paciência para ler o que aqui tenho publicado, já afirmei que as causas da decadência das celebrações do dia de S. Nicolau não devem ser imputadas nem ao local onde acontece a entrega das maçãs, nem à adesão dos estudantes a esse número, mas sim à falta das folias que, outrora, traziam colorido e animação às ruas de Guimarães. Agora vou tentar explicar porquê, começando por recordar o que se sabe da “biografia” daquele que, outrora, era o dia principal das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau. A Colegiada de Guimarães era proprietária da dízima (tributo correspondente à décima parte dos rendimentos) e da são-joaneira (foro que se cobrava pelo S. João) de Urgezes, cuja colecta andava arrendada a paticulares por períodos de três anos. Conhecem-se contratos de arrendamento destes foros desde a segunda metade do século XVII e sabe-se que, desde tempos imemoriais, o arrendamento era feito com a obrigação do rendeiro satisfazer aos estudantes do senhor S. Nicolau pelo seu dia a porção que é obrigado com toda a boa satisfação como é uso e costume e sempre foi, conforme se lê no contrato de 1734. O contrato de 1808 especifica o conteúdo da porção da renda dos dízimos de Urgezes que era devida aos estudantes, e que também conhecida por foro, pensão ou posse:
dois alqueires de castanhas assadas, meio alqueire de nozes, meio alqueire de tremoços, duzentas maçãs, dois almudes de vinho e duas dúzias de palha de argola.
Não se sabe ao certo qual a origem deste costume, indicando-se que teria resultado do legado de um cónego, nunca identificado. Também não se sabe quando começou, mas teve início, seguramente, bem antes a primeira referência datada que lhe conhecemos (contrato de 1734, onde se diz que existe desde sempre). Os documentos deixam algumas dúvidas na identificação de quem teria direito àquela pensão. Umas vezes afirma-se que pertencia aos estudantes, outras que era devida aos coreiros ou meninos do coro da Colegiada da Oliveira. Dos documentos, percebe-se que seria devida, solidariamente, aos coreiros e aos estudantes.
Albano Belino deixou, num manuscrito que pertence à Sociedade Martins Sarmento, uma descrição deste velho costume, que nos remete para as celebrações parodiais do dia de S. Nicolau que conhecemos noutras partes da Europa:
Antigamente a renda não se partia em Urgezes sem que chegassem os três coreiros a cavalo, trajando o primeiro (o bispo) que era o mais velho, batina, murça e meia preta; e os dois restantes (os cardeais), batina, Murça e meia vermelha. Faziam a entrada na cidade e levavam as castanhas assadas aos cónegos e às pessoas mais gradas.
No dia de S. Nicolau de 1883, o jornal O Espectador, de Guimarães, publicava uma descrição das velhas festas dos estudantes a S. Nicolau, em que se refere a renda de Urgezes e o destino que lhe era dado:
Os coreiros, indo ali todos os anos, no dia de S. Nicolau, receber a renda, vinham depois a cavalo e em hábitos corais, oferecer da mesma às pessoas mais gradas da terra. Esta usança, depois de renhidos demandas e peripécias várias, passou para os estudantes de latim em Guimarães, que deram ao caso as aparências de uma grande festa.
Recebida a renda, os estudantes seguiam em cortejo desde Urgezes, entravam na cidade, “apresentavam-se” ao pinheiro, erguido no Toural, desde o dia 29, e procediam à sua distribuição pela população, guardando as maçãs rubicundas para as donzelas da terra.
Já no pregão de 1827 se lia que
As maçãs, de ouro não, mas tão perfeitas,
Tão dignas de ser dadas, ser aceitas.
Que entre as belas toucadas não irritem,
Mas a fagueiros risos as excitem.
(Pregão de 1927)
Quando, em 1834, por força da extinção dos dízimos, a Colegiada deixou de receber a renda de Urgezes, também deixou de pagar o que era devido aos estudantes, o que deu origem a um célebre litígio judicial, que acabaria com sentença a favor dos cónegos.
Depois de 1834, os estudantes continuaram a entregar as maçãs às raparigas, em dia de S. Nicolau, sendo corrente a afirmação de que seriam colhidas pelas suas próprias mãos.
Iremos todos, de prazer arfando,
Rubros pomos colher, maçãs mimosas,
Para vir ofertar às mais formosas.
(Pregão de 1842)

Aquando do ressurgimento das festas, em 1895, a entrega das maçãs atingiu particular brilho, como por aqueles disa relatava o Vimaranense:
No dia imediato pela uma hora da tarde a distribuição das maçãs às damas que nas suas varandas as disputaram à porfia, e cujas toilettes vistosas imprimiam um cachet alegre e encantador a esta festa juvenil. Antes da distribuição das maçãs o Bando académico, vindo de Santo Estêvão, andou em comum pelo centro da cidade ostentando as suas luxuosas vestes. Era formado por 40 cavaleiros e 5 carros. Antes de se dividir pelos diversos pontos da cidade o seu aspecto era realmente surpreendente e deslumbrante

Nos anos que se seguiram, a entrega das maçãs continuou a ser um dos números centrais das festas dos estudantes de Guimarães. Em 1899, o programa anunciava-as assim:
No dia 6, das onze horas para o meio dia entrará nesta cidade a triunfante cavalhada, vinda dos lados da Vaca Negra, pela rua de Alegria, rua de Camões, S. Francisco, circulando o pinheiro, S. Dâmaso, Senhora da Guia, Oliveira, rua da Rainha, rua de Santo António, Gil Vicente, Paio Galvão, Toural e novo círculo ao pinheiro. Daqui, à voz de – destroçar -distribuir-se-ão as
“Vermelhas maçãs, que as donzelas
Recebem em suas próprias janelas.”

No entanto, apesar da promessa, o cortejo não atingiria o fulgor prometido, tendo o jornal O Comércio de Guimarães classificado a entrega das maçãs daquele ano como muito pobrezinha, apenas uma dúzia de rapazes, se tanto, tomaram parte neste número do programa, sem dúvida o mais distinto de todos os dos festejos.
Em 1901, ao contrário do que era costume até aí, em que a entrega das maçãs acontecia de manhã, os estudantes iniciaram a distribuição às três horas da tarde, depois da continência à bandeira escolástica, hasteada no pinheiro. Nos anos que se seguiriam, realizar-se-iam ora ao meio-dia, ora de tarde, mas a tendência será para empurrar a celebração para horas mais tardias.
Em 1903, organizou-se uma comissão de senhoras, incumbida de premiar o melhor carro do cortejo da entrega das maçãs. Segundo anunciava O Comércio d e Guimarães, estariam a ser preparados, pelo menos, uns 14 carros, bem enfeitados, e com bons costumes. Dias depois, o Independente relatava dava conta dos resultados da avaliação da tal comissão:
A entrega das maçãs às gentilíssimas senhoras de Guimarães, realizou-se ontem, aparecendo alguns estudantes ricamente vestidos em carros luxuosamente postos, sendo conferido o prémio das senhoras aos srs: Joaquim Meneses e Gualter Martins, constando o prémio de um bandolim e o segundo de um alfinete de ouro.
Zeca Meira, muito engraçado, representando uma formosa leiteira muito catita, um verdadeiro bijou.
Foi este estudante o que mais engraçado se apresentou no cortejo das maçãs merecendo por isso o prémio da consagração popular. Também se destacaram os académicos João Artur, Couto, Fortunato Sampaio, Fernando Sampaio Bourbon e Gonçalo Sampaio Bourbon.

Em 1903, o cortejo foi muito participado, embora tenha sido classificado como o “mais pobrezinho” que até então se fizera, porque lhe faltou a banda de música a tocar o hino escolástico. Nos tempos que se seguiriam, este número das festas nicolinas tenderia a ser classificado mais vezes como um fiasco do que como um sucesso. A adesão dos estudantes a este número variava conforme os anos, mas era visível que a tendência seria para uma progressiva perda do antigo brilho. E, com altos e baixos, esta foi a tendência que se manteve até aos nossos dias, em que o dia de S. Nicolau, 6 de Dezembro, foi deixando de ser o dia principal da festa.
Como se percebe, o cortejo e a entrega das maçãs eram, no passado, algo diferentes daquilo que são hoje. Eram, desde logo, muito mais espectaculares, porque os estudantes vinham, desde Urgezes, a cavalo (os mais novos) ou em carros (os outros). Em chegando ao Toural, davam meia volta ao pinheiro, em homenagem a Minerva. Seguidamente, dispersavam-se pela cidade, entregando as maçãs espetadas nas pontas das suas lanças, enfeitadas com fitas coloridas, às damas que as aguardavam nas janelas e varandas das suas casas. Não havia, como se percebe, um local fixo onde elas se concentravam à espera dos seus cavaleiros, que distribuíam as maçãs sem desmontarem dos cavalos ou dos carros que os transportavam.
Do que acima se disse, podemos dizer que, a perda do antigo fulgor das maçãzinhas não se deve às mudanças de local que aconteceram ao longo do tempo: na origem toda a terra, depois o Toural, a seguir as Praças de S. Tiago e da Oliveira, agora novamente o Toural. Sou de opinião de que o Toural lhes dá maior visibilidade, mas que não será o sítio que lhes devolverá o brilho. O raiz do problema assenta, do meu ponto de vista, da perda de espectacularidade que afectou este número das festas de S. Nicolau. É que, se ainda há donzelas, não muitas, que aguardam à janela a chegada dos seus cavaleiros, não deixa de ser  decepcionante vê-los chegar apeados...

Mas não é aqui que bate o ponto do declínio das maçãzinhas, como a seguir veremos, quando falarmos das Danças.
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