10 de dezembro de 2013

Festas Nicolinas: tradição e mudança (3)

Cortejo da Entrada do Pinheiro, Guiamrães, 2013 (fotografia de Ricardo Garrido)

[Declaração prévia de conflito de interesses: o autor deste blogue é ex-aluno do ex-Liceu Nacional de Guimarães, de que guarda memórias mui gratas, e é professor na Escola Secundária Francisco de Holanda, provavelmente a escola que tem mais nicolinos nos seus quadros, em todo o Universo.]

1. E eis que, de repente, a propósito das Festas Nicolinas, ressurge das cinzas uma suposta rivalidade entre duas escolas secundárias de Guimarães. Pela parte que me toca, sei bem onde tal ressurreição não teve lugar.
Ao que percebi, do que consegui perceber, a origem do conflito terá a ver com a invocação para o “Liceu” teria de prerrogativas em relação às festas nicolinas. Ou ainda mais do que isso: segundo o que se leu numa das "graças" que constavam dos cartazes que enfeitavam os carros de bois da entrada do pinheiro, o tal “Liceu” teria um estatuto superior aos das outras escolas:

Ó velhos estudantes
Porquê a jantarada na Industrial?
Lembrem-se que o Liceu
É a escola principal.

Escola principal em quê? Em estatuto jurídico? Em antiguidade? Em número de alunos? Na posição nos rankings dos resultados dos exames nacionais? Alguém me explica?
Ninguém ganha (e muito menos ganhará o dito “Liceu”) em entrar numa disputa de puxar de galões, que só serve para alimentar discussões patetas e serôdias. Nem a história nem a tradição nicolina autorizam a que se diga que, nos tempos que correm, uma escola goza de foro particular. Por uma razão simples: as festas não são, nem nunca foram, de qualquer escola. Sempre foram dos estudantes de Guimarães, podendo-se argumentar que antigamente a participação estava limitada aos estudantes de humanidades e de ciências, como se depreende dos estatutos de 1837. Era por isso que os alunos do ensino técnico, industrial ou comercial não participavam nas festas, porque os cursos humanísticos e científicos estavam reservados os liceus. Mas há muito que em Portugal deixou de haver distinção entre liceus e escolas técnicas. Com a unificação do ensino secundário, todas as escolas desse grau de ensino ministram cursos científicos e humanísticos, assim como oferecem cursos profissionais. A partir da unificação do ensino, as Nicolinas, em mais uma demonstração da sua capacidade de adaptação a novas realidades, foram apropriadas pelos estudantes de todas as escolas secundárias de Guimarães. A ser de outra maneira, para quem acredita que as festas se deveriam cristalizar na sua pureza original, o que teria de acontecer seria a exclusão dos alunos dos cursos profissionais. O que, convenhamos, não faria qualquer sentido.
As Festas Nicolinas continuam a existir hoje graças aos estudantes do antigo Liceu de Martins Sarmento, depois Liceu Nacional de Guimarães, que asseguraram, durante décadas, a continuação da tradição. A Escola Secundária Martins Sarmento, enquanto herdeira do antigo Liceu, tem todas as razões para se orgulhar dos seus antigos estudantes, mas isso não lhe concede qualquer direito de primazia sobre as outras escolas com que hoje partilha o ensino científico-humanístico no concelho de Guimarães.
"Foto de família" de um dos grupos participantes na entrega das maçãs do ano de 1919, constituído por (da esquerda para a direita): José Sarmento e Castro (aluno do 3.º ano), Alberto Sarmento e Castro (7.º ano), José Carmona Gonçalves (5.º ano) e Fernando laje Jordão (3.º ano).

2. Um outro tema que tem andado na baila tem a ver com a idade daqueles que participam nas festas, como se a tradição apenas autorizasse a participação dos alunos dos últimos anos do Ensino Secundário. Se assim fosse, não teria havido festas nicolinas entre 1928 e 1958, porque nesse tempo no liceu apenas era ministrado o curso geral, que terminava no 5.º ano, correspondente ao actual 9.º ano. Mas isso não aconteceu, pois não? É que não havia nenhuma limitação de idade para a participação nas festas a S. Nicolau, nem nessa altura, nem antes, nem depois. Basta olhar para a fotografia que vai acima para retirar quaisquer dúvidas sobre este assunto.
Esta discussão, mesmo quando assume contornos mais esgalhados e roça a falta de civilidade, em que se confundem as pessoas com as suas opiniões, é virtuosa, porque nos ajuda a compreender melhor a extraordinária resiliência duma velha manifestação cultural que consegue escapar ao rolo compressor da uniformização cultural contemporânea, e que todos os anos renasce das cinzas com um vigor acrescido.
Longa vida ao S. Nicolau vimaranense!
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